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26.12.08

UM APONTAMENTO

imagem obtida na net

Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny

Quando Cesariny escreve ou diz ou desenha um texto sobre o par Vieira/Szennes é como se ele próprio nos conduzisse pelos caminhos insondáveis do labirinto amoroso. E os mitos se apoderam de nós. Nós, mitificados, nós, as duas pontas do fio, nós, homem ou mulher, Helena ou Ariane, Arpad ou Teseu, nós tão frágeis e tão poderosos, no limite do desejo, no princípio da morte.

Licínia Quitério

5.12.08

QUASE POLICIAL



Eu nunca tinha ouvido falar em Harrogate, mas aconteceu achar-me por lá. Desde então o lugar passou a existir. Bem enquadrado nas brumas de suas majestades reinantes, rodeada de prados encharcados por águas de todo o ano, a povoação deixa que nos aproximemos e oferece-nos, a nós, transeuntes de fim de tarde, a disponibilidade de um jardim, a solidez da frontaria de um belo edifício vitoriano. Eram ali os Banhos, luxos de tempos não muito distantes, lugar de veraneio e descanso de aristocratas de sangue e de pensamento. Hoje, um hotel de gama média, confortavelmente estrelado. Um dos sítios eleitos para sossegos e deambulações de Agatha Christie, a senhora de imaginação prodigiosa, construtora de histórias de crimes imperfeitos desvendados por detectives astutos, de mentes necessariamente mais perversas do que as dos criminosos praticantes.

May I? A inesperada voz de falsete do empregado fez-me soltar um riso desordenado e, em lastimável convulsão, sem conseguir articular um Yes, afastei o tronco para que retirasse o prato. Ainda lhe vi o olhinho seco, traverso, como uma praga. Junto à janela, Miss Marple tamborilava os dedos na mesa e olhava alternadamente para mim e para o empregado. Encontrei-a de novo no dia seguinte, no check-in do hotel. Segurava um manuscrito de poucas páginas. Pude ver o título: "The Murder of the Laughing Guest". A voz aflautada soou por detrás do meu ombro: Good morning! Não me ri. Sou uma senhora de boas maneiras.

Licínia Quitério

30.11.08

O PROGRESSO, DIZEM


Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.

Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.


Licínia Quitério

19.11.08

PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA

"A linguagem conhece dois trabalhos: um como escrava, outro como soberana. No primeiro serve, no segundo oferece. Se um gesto aponta alguma direcção, então o gesto é só um instrumento e vê-se, à transparência, através dele. Se um gesto é feito por um bailarino, ninguém procura o seu significado. A história da dança não foi mais do que o anseio para passar de classe, para deixar de estar em nome de outra coisa e impor a intensidade do momento.
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
(excerto do prefácio, da autoria de Hélia Correia, ao meu livro de poemas "De Pé sobre o Silêncio")

7.11.08

A ALFACE













A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.

Licínia Quitério

P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.

15.10.08

UM LUGAR ESPECIAL

Ao lançar a rede neste mar imenso de lugares virtuais, encontrei na morada


um diário que aconselho vivamente. É muito forte, mesmo doloroso, mas de uma humanidade e de uma poética extraordinárias. Tem dois personagens que são também dois tempos de cada um de nós. Não digo mais que há lugares que só devemos frequentar em silêncio, de olhos bem abertos e coração atento. Espero que gostem.

4.10.08

A FONTE

Há frases que nos atravessam recorrentemente como se quisessem falar por nós. "Nadie escribe al General", o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez, muitas vezes se me cola ao pensamento, impertinente, assim mesmo em castelhano, como o li. A tal ponto se impõe que já o tenho repetido a alguém, em voz alta, a sublinhar lamentos de desamparo, decepções por eternas esperas. Vem isto a propósito do pormenor de foto que aqui reproduzo, sem licença prévia do autor que também é o construtor da pequenina fonte. Chegou ontem, ao fim da noite, triunfante, acompanhada de uma breve carta electrónica. Explicava que memórias persistentes da infância lhe exigiam uma fonte. Andou a fazê-la, devotadamente. Já a tem. Só faltam uns pequenos arranjos a darem mais consistência ao quadro. Agora sorri ao ouvir a voz do fiozinho de água a correr para os fundos. Ali perto, o maior bicho é o gato da casa que compõe o seu ar falsamente desinteressado da novidade. Mas o dono pode ouvir os chocalhos dos grandes animais que se vão dessedentar, à tardinha, como dantes. Aposto que um dia destes contará ao neto uma história de encantar: Era uma vez uma fonte, era uma vez...
Se todos soubéssemos assim reconstruir os nossos lugares, bem poderia eu afastar as palavras de "Gabo" e prendê-las na capa do livro que fala do General que esperava uma carta que tardava. O meu amigo não ficou à espera. Escreveu-a.

Licínia Quitério

27.9.08

"CURVA OBLÍQUA"


Gosta de poesia? Julguei que ouvira mal. Gosta de poesia? Quase um murmúrio. Franzina, jovem, vestida de negro. Com um monte de papeis mal contidos numa capa de plástico azul claro que agora entreabria. Quer ler um dos meus poemas? Eu disse, também em voz baixa, sem saber porquê: Gosto. Deixe-me ler. Ainda não tinha tempo de acabar, já novas perguntas: E este? Quantos quer? Parei de ler. Olhei-a bem nos olhos e disse: Escreve muito? Precisa de ajuda? Não sei se lha posso dar. Logo me arrependi da incoerência do discurso. Sem me dar conta da grande idade, as costas ainda aprumadas, o olhar demasiado brilhante, quase senti vergonha de ter ali defronte uma jovem embrulhada em negro, curvada ao peso de papéis desalinhados e de aflições com que dizia escrever poemas. Que vendia. O rendimento mínimo, a renda do quarto, a solidão que não era a falta de companhia, era sim um aperto por dentro da cabeça, a ameaçar estoirar. Disse-lhe que tinha um blog. Se me deixava publicar. Sim, sim, agradeço-lhe muito. Que nome devo citar? O meu nome literário é Cília Ramos. Depois tirou-me o papel da mão e escreveu no verso outro nome. O autêntico. Leonora. Ponha este. E por baixo, em letras de mão sinistra, Nair Leonora Correia. E o contacto: 91....... Tudo isto sem altear a voz. Às vezes a polícia causa-me problemas. E eu a passar-lhe uma nota, a olhar em volta, estranhamente com receio de ser apanhada em flagrante. Quer mais? Eu tenho cópias. Não tive coragem. Fiquei com este que abaixo transcrevo. Incomodada, sem saber traduzir o que me fora dado ouvir e ver, despedi-me. Escreva sempre. Um dia a claridade virá para a sua vida. Frase desajeitada, pedante. Ela deu um saltinho para se reaproximar. Obrigada. Dê-me um beijo. Curvei-me um pouco e dei-lhe dois e ela a mim outros dois. Nem me virei para a ver afastar-se. Subi a rua. Entrei no café e pedi uma bica ao balcão. Cá fora, no passeio, Fernando Pessoa continuava impávido, ouvindo o sino da sua igreja e pousando para a eternidade com um turista à bandoleira.

Licínia Quitério

CURVA OBLÍQUA

A noite descreve uma curva
Oblíqua sobre a cidade
Dentro ou fora desta
Milhares de corpos são lambidos
Pelo calor...
E há um cheiro a morte
Ruidosos os corpos e as bocas
Agitam-se
A noite estende-se como um lençol
Porém quando tornarmos a olhar
A madrugada chega e com ela
O canto das aves
E faz-se silêncio
Rasgado apenas aqui e ali
E a noite descansa para voltar a repetir-se
Na curva oblíqua que a descreve

Nair Leonora Correia
Lisboa, 27/09/08

25.9.08

O UNIVERSO




Ela disse: Têm falta de cabeça. Não sabem orientar-se, gastam o que não podem, depois chegam a isto.
A outra disse: Não sabemos. Pode acontecer. Um dia estamos tão sós como o universo. E só nele encontramos amparo.
Ela disse: Lá estás tu a brincar com as palavras. Nunca se sabe quando falas a sério.
A outra encolheu os ombros e disse: Se um dia tiver um barco há-de ter o nome deste.


Licínia Quitério

16.9.08

APONTAMENTO



Ocupado a reconstruir um cigarro. Boa colheita de matéria-prima num lugar de viajantes, num tempo antes da limpeza. Meticulosamente, esbrugava as pontas velhas e, com os farrapos de tabaco enrolado em folhinhas de papel branco, sedoso, ganhava os seus cigarros do dia. Ali, rente ao chão, senhor do degrau de porta para o passado. Havia o tapete usado que me intrigou. Quero pensar que lhe pertence. Um homem tem de ter os pertences que lhe dêem a diferença dos outros da mesma rua.

Licínia Quitério

9.9.08

QUANDO EU FOR VELHA...


AVISO


Quando eu for velha hei-de vestir-me de roxo
E pôr um chapéu vermelho que não combine nem me fique bem.
E hei-de gastar a minha pensão em brandy e luvas de verão
E sandálias de cetim, e hei-de dizer que não tenho dinheiro nem para manteiga.
Hei-de sentar-me no chão da rua quando estiver cansada
E mastigar com ruído amostras de rebuçados nas lojas e tocar campainhas de alarme
E fazer tilintar as grades dos jardins públicos com a ponta da bengala
E compensar a sobriedade da minha juventude.
Hei-de andar de chinelos à chuva
E apanhar flores nos jardins alheios
E aprender a cuspir.
Usar blusas horrorosas e engordar mais
E comer quilo e meio de salsichas de uma assentada
Ou passar uma semana só a pão e pickles
E guardar em caixas, com desvelos, canetas, lápis, bases para copos de cerveja e coisas assim.
Mas agora temos de vestir roupas que nos mantenham secos
E pagar a renda da casa e não andar na rua a praguejar
E ser um bom exemplo para as crianças.
Devemos receber amigos para jantar e ler jornais.
Mas não seria bom começar já a praticar um poucochinho?
É que assim as pessoas que me conhecem não ficarão demasiado chocadas e surpreendidas
Quando eu ficar velha de repente e começar a vestir-me de roxo.


JENNY JOSEPH


Uma tradução caseira de um poema que acho uma delícia. Espero que também gostem.

Licínia Quitério

22.8.08

O TREVO - 3.ª e última parte


Naturalmente, Jesus não vivia somente de botânicas e de sonhos. Tinha o ofício de caiador de casas e de muros que lhe assegurava o sustento e o mais que permitisse vidinha humilde, mas tranquila. Trajava sempre de branco, a cabeça protegida dos pingos da cal por um lenço a que quatro nós nos cantos conferiam forma achapelada. Era meticuloso nas suas caiações. Revia-se com orgulho nas faixas de azul berrante com que enfeitava os rodapés e as molduras das janelas das casas branquinhas. Subia devagar a escada-de-mão, a fazer lembrar lagartixa sonolenta amarinhando em tronco de árvore encharcada de sol. Esgueirava-se assim até aos beirais de telha vermelha, belamente recortados, para os forrar de branco, não sem antes os ter raspado das sujidades da passarada e dos velhos líquenes verde-amarelados.

Os anos passavam por Jesus Veredas Bicho ou, melhor dizendo, Jesus passava pelos anos, gastando-se neles. Os baldes de cal que transportava pareciam mais pesados, tornando-lhe os braços mais alongados, as mãos a roçar os joelhos. As costas encurvavam-se, os ombros estreitavam-se. As crateras das bexigas viraram casulos esbranquiçados, à força de abrigarem tanta cal. Começou a sentir tonturas que atribuía ao mau funcionamento da vesícula. Fazia chazinho de boldo. Três colheres de café para um púcaro de água. Deixava levantar fervura, moderava os ímpetos do lume e ficava a vigiar, não transbordasse, cinco minutos bem contados. Depois era só deixar arrefecer um pouco e coar por um pano linho que tem boa rede e não larga fios. Bebia um copo da infusão em jejum e outro ao deitar. Não havia melhor para livrar o interior dos maus humores que no fígado se albergam.

Aquele dia quente dos princípios do Verão, destinou Jesus a caiar uma casa bem bonita, piso térreo e primeiro andar, sita numa quintinha afável e rodeada por canteiros primorosamente ajardinados e orlados de buxo em devido tempo aparado. A casa era um bocadito alta e a velha escada-de-mão de Jesus Bicho um nadita baixa para chegar com desejado à vontade ao beiral de dupla telha, a indiciar desusada abastança do proprietário. Por isso, encostou a escada à parede da frente, experimentou a obliquidade consentida e verificou, com algum alívio, que era mesmo à conta para a pretendida missão. Teria apenas de esticar bem o braço e usar o pincel de cabo mais comprido. Tudo na vida tem remédio, pensou. E acrescentou: menos a morte. Sentiu um estranho formigueiro na cana do nariz que esfregou energicamente como a tentar expulsar algum agente intruso. Deitou uma olhadela em redor, aspirou com delícia o perfume dos goivos que nesse ano exibiam capitosas inflorescências e preparou-se para trepar a escada, lentamente, a mão direita nos degraus, um após o outro, a permitir os impulsos, a esquerda segurando o balde. A meio da subida, sentiu uma ligeira tontura. Esqueci-me de beber o chá esta manhã. Onde ando eu com a cabeça? Por um momento, sentiu-se apreensivo. Chegou ao topo, pendurou o balde com um gancho apropriado num dos extremos do último degrau, mirou de perto o beiral e aspergiu com o pincel embebido no leite de cal uma osga furtiva, ordenando em tom de esconjuro: Vai-te, peçonha! De novo o cheiro dos goivos, agora mais intenso, inebriante. De repente, sem querer acreditar, ouviu um chamamento que lhe pareceu nascido de um dos canteiros. Olhou para baixo, sentindo-se envolto numa nuvem de vozes ténues e de cheiros indecifráveis. Esforçou os seus pobres olhos a tentar focar o que quer que fosse que o atraía algures no meio dos goivos. O coração disparou numa batida célere e deixou de sentir o peso do corpo. Foi então que um estranho sorriso de pura felicidade lhe inundou o rosto. Sempre a sorrir, Jesus Veredas Bicho soltou a única mão apoiada na escada, abriu os braços feitos asas de gaivota e voou. Cá em baixo, rasteirinho, com os quatro corações de brinquedo, esperava-o o trevo dos seus sonhos. Jesus não se estatelou. Poisou, de mansinho, sobre as flores. A cabeça de lado, os olhos brilhantes como nunca, fitando com encantamento a folhinha da sorte que finalmente se mostrara. O sorriso de felicidade permaneceu mesmo depois de o levarem para um sítio muito branco, com gente vestida de verde onde lhe era perguntado: Aqui dói? Não. Nada lhe doía. Queria ir-se embora dali. Já não o podiam ouvir dizer: Ele está lá à minha espera. Curou-se e saiu do sítio branco e verde. Tanto quanto as forças lho permitiam, apressou-se até ao canteiro. Lá no fundo, temia ter tido uma visão. Como os santos cujas estampas colava no caderninho de folhas de papel grosso. Procurou, as mãos a tremer, os olhinhos a rolar. Viu-o. Lá estava, um pouquinho amachucado como ele, mas vivo. Deitou-se a seu lado, na cama macia de folhinhas. Deve ter dormitado. Quando despertou, tinha uma mão dormente. Abriu-a, a custo, e qual não foi o seu encanto quando viu que o trevo nela se guardara, numa oferta silenciosa àquele homem pequenino e míope, caiador de profissão e botânico por devoção, a quem puseram o nome de Jesus Veredas Bicho e que teve um sonho fechado na mão.

FIM


Licínia Quitério

15.8.08

O TREVO - 2ª. parte



Jesus Bicho gostava muito de plantas. Ainda na escola primária, dedicava largas horas a cuidar dos seus pequeninos canteiros onde coleccionava ervinhas que tratava com desvelos maternais. A pouco e pouco, foi-lhes conhecendo os nomes, as formas, os cheiros, as fragilidades ou as insuspeitadas forças com que enfrentavam os tratos dos homens e dos elementos. Alegrava-se com o cheirinho doce da cidreira, com a frescura lavada da alfazema, com a estridência da cor da macela. Aprendera a conhecer-lhes as preferências por humidades ou securas, por asperezas de rocha ou molezas de aluvião. Tinha Jesus Bicho uma particular preferência pelas plantas baixinhas, discretas, como que a pedirem licença às grandes para as deixarem afirmar a presença. Regalava-se com as violetas que floriam às ocultas, na sombra fresca; com a simetria das formas galantes do polipódio, com as belas cabeleiras volantes do dente-de-leão, com o verde aveludado dos musgos natalícios. Para ele, não existiam ervas daninhas. Todas eram criaturas inocentes e benfazejas. Estudou-lhes as virtudes, entendeu as dádivas que propunham. Assim se tornou mestre em receituários, famoso pelos seus conhecimentos e pelos alívios que era capaz de proporcionar com tisanas e mezinhas. Tinha conseguido obter remédios para a espinhela caída, para o bucho virado, para as sezões, para os sapinhos e para o ermo dos bebés, para o flato, para a erisipela, para os panarícios, para o quebranto, para as frieiras e até para as mais teimosas pieiras do peito.

Era um homem quase feliz. Respeitado pelos seus saberes, era amiúde visitado por pobres desesperados em busca de melhoras, porém a troco de nada. Recusava-se a comerciar conselhos, a vender virtudes. Dizia, invariavelmente, quando lhe perguntavam quanto era: Melhore vossemecê que eu ficarei pago.

Tinha Jesus um sonho inconfessado. Entre as plantinhas de sua estimação, figurava uma apreciável colecção de trevos, com folhas e flores de vários tamanhos e coloridos. Gostava profundamente das suas folhinhas quando abertas em leque, a fazer equilíbrios contra o vento na ponta dos pecíolos longos e delicados. Simpatizava com as flores falsamente campanuladas, amarelas umas, rosa outras, que se fechavam em tubo para dormir e se espreguiçavam triunfantes às primeiras luzes da manhã. As mãos de Jesus catavam diariamente, com suavidade, as inúmeras folhas de trevo, todas elas tripartidas em corações de brincar. Enquanto tirava um bichinho de conta aqui, uma sujidade acolá, por detrás das lentes grossas, as continhas de colar giravam, giravam, perscrutando com minúcia aquele estendal de frescuras. Pacientemente, Jesus espiava a sorte que, acreditava, um dia se revelaria em forma de trevo de quatro folhas. Sim, uma daquelas plantazinhas transcenderia a sua própria natureza e, subvertendo os códigos originais, dar-lhe-ia o sinal da raridade guardado só para eleitos.


continua...


Licínia Quitério

6.8.08

O TREVO - 1ª. parte



Jesus Veredas Bicho foi sempre enfezadito. Padeceu de todas as doenças que dizem ser próprias da idade primeira, mas nunca o seu sangue se viu livre dos maus humores que deveriam ter sido expurgados pelo sarampo, sarampelo que sete vezes vem ao pelo. Até as danadas das bexigas doidas acorreram a esculpir-lhe o rosto de pequeninas crateras lunares. Quanto aos olhos, nem é bom falar. Jesus sempre fora um cachopo de vistas curtas. Perguntava amiúde: onde é que está isso? E os olhos, cansados do esforço infrutífero, viravam pequenas frestas, alongadas por rugazitas precoces. Os adultos impacientavam-se: Se fosse bicho, mordia-te. O rapaz parece que é cego. Tanto não seria, mas quando chegou à escola e a professora reparou que Jesus encostava o livro à ponta do nariz para poder relatar o que nele encontrava, chamou o pai e sentenciou: Trate de arranjar depressa uns óculos para o seu filho, que tem uma miopia enorme. Faltava mais esta. O raio do rapaz só dá é despesa. O médico receitou-lhe uns óculos de lentes grossas como fundos de garrafa. Por detrás delas, passaram a rolar os olhos redondos e brilhantes como contas desenfiadas de um colar de fraco préstimo.




continua...

24.7.08

TEMPO DE CIGANOS

Este é um excerto de um texto meu escrito há muito sobre memórias de infância. Porque hoje e neste meu país se fala muito de ciganos, lembrei-me de relê-lo e, já agora, de o publicar. Eram assim os ciganos que os meus olhos de menina retrataram. Como são hoje os ciganos? Melhores, piores, outros? E nós, os não ciganos, como somos? Melhores, piores, outros?


...Mais pobres do que todos os pobres, mais sujos do que todos os sujos, um dia chegaram ao Beco os ciganos. Vestiam andrajos cor de terra queimada, carregavam fardos informes nas ancas e nas costas. Eram uma família: o pai, de chapeirão com abas roídas, vinha ligeiramente adiantado, marcando o território com passos largos e pesados. A seguir, uma velha com cara de tartaruga, o lenço a escorregar-lhe da cabeça rapada, em sinal de viuvez inconsolável. Depois, a mãe, estranhamente elegante na saia rodada a que se agarravam dois rapazinhos de olhos brilhantes como brasas. Um deles, o mais franzino, segurava na mãozita uma corda onde amarrava um cão famélico, de traseiro descaído à maneira de lobo envergonhado.
Vinham ocupar um tugúrio que ficara vago, por morte do velho patriarca do Beco, de nome oficial desconhecido, mas a quem toda a gente chamava, sem ofensa, o Ti Capado. Não sei donde lhe viria tal alcunha, mas se alguma coisa significava, dificilmente se explicaria a prole que lhe era atribuída.
Vigiados pelos olhares apreensivos dos habitantes do Beco, instalaram-se sem grandes ruídos, trocando entre si palavras cantaroladas, em frases breves que ninguém entendia.
Ciosos dos seus não haveres, conhecedores da fama de ladrões que os ciganos transportam pelo mundo fora, nessa noite todos se recolheram mais cedo e fecharam as portas à chave.
No dia seguinte, a cigana mãe sentou-se à porta a pentear os cabelos longos e oleados, os filhos brincando com o lobinho-cão e a cada habitante que aparecia dirigindo um arrastado: Bom dia, viziiinho... Foi esta a senha para romper o círculo de temores e desconfianças. Bom dia, senhora. Como se chama? arriscou a lambisgóia da Fernanda Fininha. Preciosa, vizinha. E o seu homem? Antonho, vizinha.
Foi fácil. Já se dizia lá pelo Beco: Afinal são com’a gente.
De que viviam, pouco se sabia. Falava-se vagamente de negócios de burros pelas feiras, mas burro algum passou pelo Beco. Ao certo, só se sabia que a fome os apertava. Preciosa e os filhos aprenderam depressa a bater às portas das casas da rua grande, mendigando pelas alminhas de quem lá tem um bocadichinho de pão. Quando uma vez a Dona Celeste, impressionada pela sujidade que os recobria, lhes ofereceu um pedaço de sabão, a Preciosa indignou-se e desdenhosa atirou: Para que quero eu sabão? Ainda se fosse pão... Vá lá compreender esta gentinha. Uns ingratos. Uns porcos e uns ingratos, é o que são. - comentava a Dona Celeste com as amigas.
Como chegaram, assim partiram. Ninguém deu pela mudança totalmente imprevista. Quando o Beco acordou, bem cedinho, ouviu-se a voz sonante da Maria do Raul: Foram-se embora, foram-se embora! Quem? perguntou alguém ainda estremunhado. Os ciganos. Levaram tudo o que tinham. E o cão? O cão também. Os miúdos já se tinham habituado ao rafeiro. Que gente mais esquisita. Que vão para o diabo que os carregue. A gente a tratá-los tão bem e abalam assim, sem mais nem menos. A honra do Beco fora de certa maneira ofendida. Mas as novidades só duram três dias. E tudo voltou à miséria estabelecida, sem sobressaltos de estranhas gentes.


Licínia Quitério

16.7.08

IMPORTA-SE DE REPETIR?!

Erüma vés um cugmelänho tom minüscul qmás parcia üm peqén céche. Üm dia, chtavü cugmelänho ceconselândau çol, quând prâli paçô üm fürom.
- Qestás fazänd? – pergüntô ü fürom.
- Xtô apanhând çol, xtá bom dvér.
- Óra...- diçü cugmelänho.
Ü fürom continüô olhând parü cugmelänho i ficô pensând, pensând...
- Nom mcômas qeçô venenôze – foidizändü cugmelänho. Mazü fürom nom lhe deu ôvides i vádiu cumer tôde. Iali cefinô, xamüscândauçol.
De autor desconhecido

19.6.08

PRECÁRIA

Aquele habitual erro de cálculo. Mais curta do que o previsto a distância entre o bordo exterior do dedo mínimo e o bojo do copo na beira da mesa. Foi por isso que o homem pegou na pá e na vassoura e lhe disse que não havia azar, não se preocupasse. A incomodidade dela em evidência no apertar das mãos, no olhar em círculos pela sala. Ele a varrer os cacos, alguns em viagem desmedida até outras mesas. Acontece. A maçada que eu lhe fui dar. Maçada nenhuma. Até gosto de limpar chão. Ela não percebeu o sorriso de lábios apertados. Era o meu trabalho antes de sair em precária. Batida pela palavra mal conhecida, refeita do recente desassossego, voltou a sentar-se. Farejando história de contar baixinho, ajeitou a cadeira ao corpo e aguardou. Os sólidos a caminho do contentor. O homem desaparecido por instantes por detrás da porta encimada por tabuleta de madeira que dizia ARRUMOS. Sabia que ele voltaria, para os líquidos derramados, com balde e esfregona. O sorriso fininho permanecia. Pareceu-lhe mais novo. Repegou o discurso, junto à mesa dela. A cela andava sempre um brinquinho. Caí nas graças do chefe. Não tenho dele a mínima razão de queixa. Fiz lá amigos. Quando voltei da precária foi uma festa. Havia de tudo, está visto, mas é como em todo o lado. Há bom e mau. Curiosa e ligeiramente sobressaltada, procurando frases para a troca, mas nada. Um homem a contar-lhe a sua história negra sem largar o sorriso fininho. Finalmente, arrancou Tem saudades? E logo se arrependeu. O homem parou de enxugar o chão, sorriu mais largo e disse, baixinho, com orgulho, cara a cara Tenho. Posso dizer. Já em direcção aos ARRUMOS, alteando a voz Fiz bem em não querer casar. Paguei. Ela fez a vidinha dela. Eu a minha. Foi no tempo em que éramos vivos...

FIM

Licínia Quitério

11.6.08

O ROUPEIRO (3º. episódio)

F. sobressaltou-se quando deu consigo a desejar com alvoroço a hora da bica. Em casa, ao serão, em frente ao televisor, não parava de pensar nos decotes em V pronunciado da Menina H., nem nas ancas reboludas, de movimentos largos a que os saltos altos marcavam a cadência. Era pequenina.”Mignone”, tinha ele aprendido a dizer. E nos balões de banda desenhada dos seus pensamentos mais íntimos já só a tratava por H., sem Menina.
Assim começou um caso que escaldou a vida morna do F. Dactilógrafo. Nem ele sabia explicar como é que, numa tarde de sol desmaiado de Outono, numa pensão baratucha de Almirante Reis, o F. se desforrou de tantos anos de abstinências forçadas, de sessões insípidas de sexo de sexta-feira à noite. A H. tinha ardores de trintona temperados com pudores de donzela. Embora dissessem que os prazeres da carne tinham a ver com o Inferno, F. achava que o corpo dadivoso de H. era uma bênção do Céu. Concluía, de bem para consigo próprio, que pecado seria recusar a felicidade na Terra. Acudia-lhe à ideia ingratidão de pobre rejeitando bife. E sorria, à boca pequena.
Para estupefacção dos colegas, F. abandonou o casaco verde seco e comprou farpela toda nova: um “blazer” azul escuro com botões prateados, calças beijes, sapatos de luva, pretos, reluzentes. A pasta de aluno de escola foi substituída por maleta de executivo, porém suficientemente espaçosa para transportar o almoço. Não havia dúvidas, o F. remoçara. Parecia até menos gordo e pesadão. Cantarolava baixinho, enquanto teclava. Usava água-de-colónia a inundar o escritório de frescura barata. Às piadas brejeiras, repontava: “Vocês não me digam nada. Eu ainda sou um homem novo, caramba! Onde é que está o problema?”. Não acedia a contar pormenores. Da vida lá em casa, nem uma palavra. “A minha mulher, coitadita, é uma santa”. Dava o assunto por encerrado, mão aberta a rasoirar os ares.
Com o decorrer das semanas, a H. tomara-se de atrevimentos. Vinha esperá-lo à saída, saltitante, cumprimentando com sorriso dengoso alguns colegas do F. a quem ele apresentara como “A minha amiga H”.
Comentava-se que ele ia deixar a mulher. Como iria descalçar aquela bota? Oxalá não se arrependesse. É que a H., bem vistas as coisas, não tinha lá muito boa pinta. Dizia-se por aí que tinha uma rodagem que Deus nos livre. Enfim, ele lá saberia as linhas com que se cosia.
Chegou o dia em que o F., com um ar misterioso, previamente ensaiado, confessou aos colegas mais chegados que pensava ir viver a tempo inteiro com a H. Era assim a vida. Tinham já tudo organizado. Uma casinha pequena, arrendada nos arredores, coisa muito modesta, quarto, salinha e pouco mais. Quase um amor e uma cabana, pois. Só faltava resolver o problema do roupeiro. A H. prezava o seu grande armário em que guardava a numerosa fatiota. Tinha lá aquele fraquinho pelos trapos. Gostava de se apresentar bem. Mas o roupeiro quase de certeza não caberia no novo ninho.
Preocupado com este pormenor de instalação, o F. passou a andar munido de régua, esquadro e até de um transferidor dos tempos angulosos da escola. Demorava-se a rabiscar desenhos, a anotar medidas, a fazer contas complicadas de cabeça, olhando o tecto com os olhos semi-cerrados. Ouviram-no mesmo telefonar a um amigo desenhador de máquinas. Andava com um pequenino problema. Talvez ele pudesse dar-lhe uma ajuda. Até se sentia envergonhado por ter de o incomodar por aquela ninharia. Quando desligou, uma ruga exibiu-se ondulante no sobrolho. “C’os diabos! Uma pessoa rebaixa-se a fazer um pedido de nada e é a resposta que leva. Qual? Ó homem, isso é querer meter o Rossio na Rua da Betesga. Um pateta, armado em engraçado”.
O tempo foi passando e alguém mais observador comentou que o F. andava soturno. Deixara de cantarolar e agastava-se quando tentavam puxar a conversa dos amores. Ali havia coisa. Algo não corria bem. Até que, num dia baço de Inverno, olhando a chuva miudinha que escorria pelas vidraças, riscando distraidamente com a unha o tampo da secretária, falando não se sabe se para si próprio se para os circunstantes, deixou cair num desalento: “Está tudo acabado. O roupeiro não cabe.”
Foi essa a razão por que a vida voltou à mansidão de outros tempos. As peças do xadrez retomaram no tabuleiro as suas casas de origem. Só o casaco verde seco não voltou a ser vestido. E, verdade, verdadinha, o olhar do F. não reganhou a moleza de antigamente. Bem lá no fundo, ficou uma faulhazita de lume mal apagado, denunciando a esperança num outro roupeiro, desta vez mais maneirinho.
Ainda ontem escreveu em maiúsculas, numa folha A4 que depois amarrotou e deitou, descuidado, para o cesto dos papéis: SOU UM HOMEM MUITO NOVO, CARAMBA!


FIM


Licínia Quitério

3.6.08

O ROUPEIRO (2º. episódio)

Davam depois um passeiozinho à beira-mar, o braço dele oblíquo, a enfiar no dela. Não há melhor que este sol e este cheirinho a maresia. Saía-lhe um arroto que ameaçava sonoridades inconvenientes, logo travadas por um apertar de maxilares e uma pressão forte dos três dedos maiores da mão apressada. Com licença! E o olhar dela, de través, reprovador. Desculpa, filha, não pude evitar. Regressavam a casa cedinho, para evitar as bichas, essa praga que dá cabo dos nervos a um homem e obriga a um despesão em gasolina. Já para não falar no desgaste da “embriage”, com aquele para-arranca, para-arranca… Resumia o quadro, queirosianamente: Uma seca, menina!
Corriam assim as semanas, os meses, os anos. Todo o tempo arrastado num bocejo de felino, a vida num tabuleiro de xadrez arrumado, cada peça imóvel na sua casa originária, à espera dos jogadores.
Na rua do escritório que dava trabalho ao F., havia outros escritórios onde seres seus semelhantes se ocupavam de tarefas igualmente monótonas, sublinhadas por gestos sempre iguais, repetidos até à sonolência, como se de digestão de almoço desmesurado se tratasse. F. conhecia os seus homólogos, de se cruzar com eles diariamente, nos mesmos quarteirões, às mesmas horas.
Depois do almocinho de lancheira, num desvão do escritório, pomposamente chamado de bar, ia tomar uma biquinha à Pastelaria Mèlita, ao balcão exíguo, mas onde, com boa vontade, cabia ainda muita gente. Do lado de lá do balcão, moviam-se, com grande incómodo, os donos, dois irmãos que obviamente se odiavam, e um pobre empregadito que ambos maltratavam, descarregando sobre ele os rancores espartilhados por um pacto social firmado nos tempos em que decidiram juntar os magros pés-de-meia e tomar de trespasse o pequeno café. Acreditavam que uma sociedade entre irmãos seria coisa para prosperar e durar. Os laços de sangue para alguma coisa haveriam de servir. Enganaram-se. A exiguidade do espaço e dos afectos vinham corroendo as bases da sociedade e hoje dificilmente disfarçavam semblantes carregados e congestionados, pragas inaudíveis arranhando-lhes as gargantas. Mas a clientela não tinha de sofrer por isso. Era indispensável segurá-la, tratando-a com mimos. Um dos irmãos, um celta puro, de Arcos-de-Valdevez, arrepanhava os lábios finos e desbotados e ordenava: sai uma bica para o Senhor Doutor X, ou para o Senhor Engenheiro Y, ou para o Senhor Major Z, ou para a Menina Alicinha. Identificavam meticulosamente os clientes. Quem lá fosse mais do que uma vez seria de pronto investigado, de molde a poder ser tratado pelo nome, oportunamente precedido do título académico, se fosse esse o caso. Era um ponto de honra da casa. Na Mèlita não podia haver anónimos.
A Menina H. também tomava bicas na Mèlita. De tantas vezes se encontrarem ao balcão, o F. começou a esboçar um cumprimento. Bons Dias, Menina. Seguiram-se os sorrisos, as frases curtinhas, até que o diálogo se deixou desatar. Tímido, o F. falava do tempo que fazia, deste calor abafado que nos faz transpirar, e deitava um olhar brilhante às pequeníssimas pérolas de suor no buço discreto da Menina H. Acabavam por sair juntos, a despedirem-se por alturas do escritório dela, com um até amanhã de olhos nos olhos. Dias passados, já se apertavam as mãos, sem grandes delongas, tudo muito respeitosamente.

(continua)

Licínia Quitério

24.5.08

O ROUPEIRO

F. chegava ao escritório sempre antes da hora. Os passos pesados, de paquiderme ainda jovem, os olhos presos ao chão. Na mão uma pasta, como as antigas dos meninos de escola, em que dava boleia ao almoço. O casaco verde seco era uma segunda pele que o revestia durante pelo menos dois terços do ano. Dizia Bons Dias aos colegas, com ar de quem pedia desculpa por estar presente mais um dia. Sobre a secretária, impecavelmente limpa e arrumada, esperava-o a velha “Messa” que lhe arreganhava um sorriso HCESAR, marcado por um nacionalismo bacoco de pequenos na Europa, grandes no Mundo. F. despia o casaco que colocava cuidadosamente num cabide, ajeitava-se na cadeira, deitava um olhar guloso às pernas das colegas e soltava o primeiro dos muitos suspiros da jornada. Acendia um cigarro, o vício que o fazia sofrer ataques de má consciência. A vida tão difícil e eu a queimar dinheiro! Mas adiante. Um homem não é um santo. Fazia tudo com gestos lentos, irritantemente medidos. Tal como as palavras que articulava como quem soletra, não fosse alguma fugir-lhe ao controlo e dizer o que não queria ou, mais perigoso ainda, o que verdadeiramente pensava. F. era um bom dactilógrafo, por isso chamado propriamente o F. Dactilógrafo. E ele gostava do apelido de serviço. Nada de confundi-lo com o F. Serralheiro. Não é que lhe fizesse grande mossa, mas para as coisas correrem bem, cada macaco no seu galho. F. teclava, isso sim, com desusada rapidez. Quase não olhava as teclas. Os dedos brancos e papudos faziam batidas leves e saltitantes e a campainha anunciadora de fim de linha tocava, tocava, numa cadência estonteante. Quando o trabalho ficava pronto, ia entregá-lo ao chefe, folha sobre folha, tudo muito certinho. Vestia o casaco, apertava só um botão e dirigia-se para o gabinete do venerável. Batia na porta com os nós dos dedos, a medo. Entre! Ouvia-se lá de dentro. Abria a porta, avançava, curvava-se numa mesura, estendia o braço e murmurava: Aqui tem, Sr. J. Espero que esteja tudo conforme o Sr. J. pretendia. Creia que fiz o meu melhor para ficar pronto hoje. É que, não sei se o Sr. J. já reparou, são quinze páginas. Quiiiinze. O Sr. J. cortava abrupto: Ó homem, deixe lá ver isso!
A vida privada do F. corria no mesmo ritmo do escritório. Tudo no seu lugar. A mulher, como a máquina de escrever, cumpria o seu dever, mas só se ele batesse nas teclas certas, que é como quem diz, dançava conforme a música. Que a L. não era para brincadeiras. Seca e angulosa, de queixo proeminente, mais do que aconselham os manuais de estética feminina, sempre de calças, dava azo a comentários malevolentes. A mulher do F. é o homem da casa. Havia mesmo quem afirmasse que ela lhe batia. Exageros. Parece até que eram um casal feliz. A quem Deus não quisera dar filhos, como ele dizia, em tom lastimoso. E tudo levava a crer que Deus não mudaria de ideias, até porque a L., mais velha uns anos que o marido, tendia já para a secura dos cinquenta.
Os magros salários, que a mulher do F. administrava com mão de ferro, não lhes deixavam margem para grandes devaneios. Mesmo assim, podiam dar-se ao luxo de ir, de quinze em quinze dias, aos Domingos, almoçar fora. O F. descobria o carro, que mantinha vestido com uma capota de pano cinzento, com a matrícula pintada a preto, verificava os níveis da água, do óleo, da água na bateria, e punha o motor a trabalhar um bocadinho, para aquecer. A mulher perguntava-lhe, invariavelmente: Tens os documentos? Tinha. Podia lá esquecer-se de uma coisa dessas.
Iam até à Lançada comer umas enguias bem fritinhas, como só o Zé Navalhas sabe fazer. Ou então até à Costa, saborear uns besugos grelhados que, de tão fresquinhos, pareciam vir para a mesa embrulhados na onda. Não faças esse barulho, filho. F. chupava, sorvia com volúpia pedaços de peixe branquinho, soltando-os triunfante de alguma espinha mais teimosa. As pessoas podem olhar. Deixa lá, filha, este “pexinho” está mesmo bom. Limpava os beiços ao guardanapo de papel, devagar, longamente, até este se desfazer em pequenos flocos que ficavam presos aos pelos mais rijos da cova do queixo de anjinho barroco. Comiam depois um pudim flan a meias, ela bebia um descafeinado e ele um café que fazia acompanhar de um bagacinho da casa. Ela repontava sempre. Olha esse fígado. Deus queira que um dia não te arrependas. E tamborilava os dedos na mesa, enquanto fingia olhar com atenção o quadro com o retrato da equipa do glorioso, encimado por um azulejo de louça de Alcobaça que anunciava : Aqui não se fia.

(continua)

Licínia Quitério

15.5.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

5.º e último fascículo

O telefone tocou. O Ferreira atendeu. Mesmo a propósito, a aliviar a alta tensão que se sentia em volta. Para melhor ajudar a mudança de cena, acabava de chegar um montão de correio de que era preciso tratar. Dona Clotilde não se permitia ter trabalho em atraso. Contendia-lhe com os nervos. Não era pessoa de reclamar, de reivindicar, como diziam agora os “comunas”. Dizia a palavra espúria entre dentes, não fosse algum deles (que os havia por todo o lado) ouvir e dizer como a Dona Elvira, da outra vez, na sua linguagem desbragada, muito peculiar: “Isso de comuna por acaso é comigo? Pois, partindo do pressuposto, também lhe digo que antes comuna que cornuda como certas madamas que eu conheço, a armar ao fino.”. Se tivesse um buraco tinha-se metido por ele abaixo. Mas calou, a fazer de conta que não era nada com ela, as mãos a tremer, ainda por cima na altura crítica de lacrar um envelope. Continuava firme nos seus princípios sobre as regras de bem viver: “Ca-da ma-ca-co no seu ga-lho!” Silabava o aforismo, espaçadamente. Uma frase inteira sem “erres” era para ela um raro prazer de oratória que não podia dar-se ao luxo de desperdiçar. Cumpria o seu dever o melhor que sabia e o patrão, graças a Deus, nunca faltara com o ordenadinho no dia certo. Isso mesmo. Como o mundo seria melhor se todos pensassem como ela e, muito mais importante, se assim procedessem. Respirava fundo, de bem consigo própria.
Quando aquilo aconteceu, gritou, chorou, arrepelou a cabeleira farta. O corpo ficou-lhe cheiinho de urticária. Parecia um bicho, salvo seja. Uma porcaria daquelas na sua casa, não! Passaram-lhe coisas muito más pela cabeça, confessava. Se tivesse uma arma ali à mão, tinha acabado com os dois. Mas não tinha, graças a Deus. O certo é que a expressão dela devia ter sido medonha, de tal modo que os dois pombinhos, apanhados em plena e gostosa prevaricação, vestiram à pressa o que tinha sido despido, pegaram nos sapatos, não perderam tempo a calçá-los, e, ala que se faz tarde!, desceram a escada íngreme como se tivessem asas e sumiram-se da vista, toldada pela raiva, da infelicíssima Dona Clotilde.
Como sofreu, dias e noites a fio sem pregar olho. A casa parecia-lhe enorme, sem aqueles dois. Um túmulo, a bem dizer.
Lentamente, começou a deitar contas à vida, às voltas com o seu tormento. Sentia um ódio feroz contra um mundo inteiro que a teria traído, deixando-a como barata virada, a espernear em busca do equilíbrio perdido que lhe assegurasse nada mais que a própria sobrevivência. Apercebeu-se de que, apesar do cansaço, não poderia abrandar o esforço. Tinha de conseguir. Só mais um impulso, bem controlado, e a carapaça voltaria a erguer-se sobre as patitas retorcidas, cambaleantes, a princípio, mas capazes de a tirar debaixo daquele tapete que ameaçava sufocá-la, antes que a curiosidade de algum gato a descobrisse e, num gesto ágil, lhe desfechasse o golpe final.
Deles, nem sinal. Até ao dia em que o telefone retiniu pelas concavidades da casa, de súbito despertada. Atendeu, toda a tremer. A voz dele, num sussurro: “Quero ver-te. Precisamos falar. Eu explico tudo.”. Um tampão na garganta, um zumbido a atravessar-lhe as têmporas. “Está? Está?”. A voz dele, numa interrogação onde se percebia insegurança. Alguém, que não ela, respondeu finalmente por dentro da sua voz: “És tu, Tavinho? O que aconteceu?”. A voz dele, a insistir, já mais seguro: “Precisamos falar. Não te aflijas que tudo se vai arranjar. Confia em mim.”. A mão que segurava o auscultador foi descaindo, o som da voz dele continuando, afrouxando, até não se fazer entender. Desligou. A voz do Tavinho, em eco: “Confia em mim.”. Sentou-se devagar no cadeirão de verga, apoiou as mãos no colo, o olhar fixo nas grandes flores dos cortinados de cretone. Assim ficou, até deixar de sentir as pernas, dormentes como a sua vida.
Graças, mais uma vez, à bondade do senhor doutor Justino, a troco de uns pratinhos de Cantão que ele dizia não querer aceitar, conseguiu aquele emprego no escritório. A princípio, custou-lhe um bocadinho a adaptar-se. Havia dias em que parecia que tudo lhe saía mal. Enervava-se. O cordel embaraçava-se, o tubo de cola esguichava por um furinho imperceptível que, só muito tempo depois, soube ter sido feito com um alfinete pelo “marroto” do senhor Martinho, um mulato danado para a brincadeira e que lhe dizia com a boca e as vogais muito abertas: “Ah Dóna Clótilde, se a senhóra quisesse, podíamos ser tão felizes! Cá o préto nunca se nega a um bom pedaço de mulher.”. Habituou-se depressa àquele novo mundo, povoado de gente diversa de cuja existência não suspeitara nas suas anteriores vidas de piano e de cretone. Certos dias, até arriscava trautear passagens de uma ária da “Trraviata”, que os colegas aplaudiam, embora invariavelmente um deles murmurasse: “Uum…Hoje há moiro na costa!”.
Já vários anos tinham decorrido desde que o acordo fora estabelecido, com honra para ambas as partes. Encontraram-se numa leitaria, longe do bairro em que habitava. Lembra-se ainda, como se fosse hoje, de todos os pormenores do encontro. Até da nova água-de-colónia que ele trazia. Um horror! Cheirava de longe a pecado. E ela coberta de pó-de-arroz, a esconder as olheiras de uma noite de insónia, nervosa como uma adolescente. Ouviu-o falar, falar, enquanto bebia um galão e mordiscava um bolo de arroz e ele sorvia uma imperial, acompanhada de tremoços. A espuma leve da cerveja ficava presa nas pontas do bigode, mas ele logo a limpava, com o triângulo do guardanapo. E ele falava, falava, e ela pestanejava e ouvia. Era um acordo sensato. Ela é que nunca pela cabeça lhe passara que um casamento também pode trazer o seu cansaço. “A rotina, estás a ver? Depois viria o desinteresse e isso, filha, seria o pior que nos poderia acontecer: a morte dum Amor tão bonito como o nosso.”. Ele previra a situação, um homem sabe sempre muito mais da vida do que as mulheres, coitaditas. O que ela vira no quarto, naquele dia? Pura imaginação. Ou melhor, alguma coisa sobrenatural dentro dela a dar-lhe a prever o que poderia acontecer se tudo continuasse como estava. Ele falava, falava... Ela chegara ao fim do galão e limpava as migalhas do bolo do tampo da mesa para o pires. “E agorra? E aquela… infeliz?”. Não se preocupasse. Tudo previsto. Ele era o Pai e estava a cumprir a sua missão o melhor que sabia. Havia de a ajudar a tornar-se a pessoa com que ambos tinham sonhado. Chegara o tempo de ela, Clotilde, ter algum descanso nas preocupações de velar por uma jovem, ainda por cima nestes tempos tão difíceis, tão cheios de armadilhas. Quanto a eles, iriam, se ela estivesse de acordo, iniciar uma nova fase das suas vidas amorosas, com todo o picante de um amor proibido, desses que nunca morrem, pelo contrário, se incendeiam com o passar do tempo. Ela escutava, escutava... Puxara da mala, tirara de lá o espelhinho e o bâton com que retocara os lábios, esfregara-os depois um no outro, a uniformizar o tom, e voltara a pôr tudo na mala. Sentindo um leve arrepio, abotoara o botão de cima da blusa de nylon cor de salmão. Arredava a cadeira para se levantar, quando ele, intrigado, lhe atirou: “Então, não dizes nada?”. Dona Clotilde, já de pé, empertigou os peitos, olhou Gustavo bem nos olhos e, sem expressão, como se desde sempre soubesse de cor a frase exacta, disse: “Passas a dormir lá às quartas-feirras.”.
Era em dias desses que a ouviam trautear a “Trraviatta”.

FIM

Licínia Quitério

5.5.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

Capítulo 4º.


O telefone tocou. O Ferreira atendeu. Mesmo a propósito, a aliviar a alta tensão que se sentia em volta. Para melhor ajudar a mudança de cena, acabava de chegar um montão de correio de que era preciso tratar. Dona Clotilde não se permitia ter trabalho em atraso. Contendia-lhe com os nervos. Não era pessoa de reclamar, de reivindicar, como diziam agora os “comunas”. Dizia a palavra espúria entre dentes, não fosse algum deles (que os havia por todo o lado) ouvir e dizer como a Dona Elvira, da outra vez, na sua linguagem desbragada, muito peculiar: “Isso de comuna por acaso é comigo? Pois, partindo do pressuposto, também lhe digo que antes comuna que cornuda como certas madamas que eu conheço, a armar ao fino.”. Se tivesse um buraco tinha-se metido por ele abaixo. Mas calou, a fazer de conta que não era nada com ela, as mãos a tremer, ainda por cima na altura crítica de lacrar um envelope. Continuava firme nos seus princípios sobre as regras de bem viver: “Ca-da ma-ca-co no seu ga-lho!”. Silabava o aforismo, espaçadamente. Uma frase inteira sem “erres” era para ela um raro prazer de oratória que não podia dar-se ao luxo de desperdiçar. Cumpria o seu dever o melhor que sabia e o patrão, graças a Deus, nunca faltara com o ordenadinho no dia certo. Isso mesmo. Como o mundo seria melhor se todos pensassem como ela e, muito mais importante, se assim procedessem. Respirava fundo, de bem consigo própria.
Quando aquilo aconteceu, gritou, chorou, arrepelou a cabeleira farta. O corpo ficou-lhe cheiinho de urticária. Parecia um bicho, salvo seja. Uma porcaria daquelas na sua casa, não! Passaram-lhe coisas muito más pela cabeça, confessava. Se tivesse uma arma ali à mão, tinha acabado com os dois. Mas não tinha, graças a Deus. O certo é que a expressão dela devia ter sido medonha, de tal modo que os dois pombinhos, apanhados em plena e gostosa prevaricação, vestiram à pressa o que tinha sido despido, pegaram nos sapatos, não perderam tempo a calçá-los, e, ala que se faz tarde!, desceram a escada íngreme como se tivessem asas e sumiram-se da vista, toldada pela raiva, da infelicíssima Dona Clotilde.
Como sofreu, dias e noites a fio sem pregar olho. A casa parecia-lhe enorme, sem aqueles dois. Um túmulo, a bem dizer.
Lentamente, começou a deitar contas à vida, às voltas com o seu tormento. Sentia um ódio feroz contra um mundo inteiro que a teria traído, deixando-a como barata virada, a espernear em busca do equilíbrio perdido que lhe assegurasse nada mais que a própria sobrevivência. Apercebeu-se de que, apesar do cansaço, não poderia abrandar o esforço. Tinha de conseguir. Só mais um impulso, bem controlado, e a carapaça voltaria a erguer-se sobre as patitas retorcidas, cambaleantes, a princípio, mas capazes de a tirar debaixo daquele tapete que ameaçava sufocá-la, antes que a curiosidade de algum gato a descobrisse e, num gesto ágil, lhe desfechasse o golpe final.
Deles, nem sinal. Até ao dia em que o telefone retiniu pelas concavidades da casa, de súbito desperta. Atendeu, toda a tremer. A voz dele, num sussurro: “Quero ver-te. Precisamos falar. Eu explico tudo.”. Um tampão na garganta, um zumbido a atravessar-lhe as têmporas. “Está? Está?”. A voz dele, numa interrogação onde se percebia insegurança. Alguém, que não ela, respondeu finalmente por dentro da sua voz: “És tu, Tavinho? O que aconteceu?”. A voz dele, a insistir, já mais seguro: “Precisamos falar. Não te aflijas que tudo se vai arranjar. Confia em mim.”. A mão que segurava o auscultador foi descaindo, o som da voz dele continuando, afrouxando, até não se fazer entender. Desligou. A voz do Tavinho, em eco: “Confia em mim.”. Sentou-se devagar no cadeirão de verga, apoiou as mãos no colo, o olhar fixo nas grandes flores dos cortinados de cretone. Assim ficou, até deixar de sentir as pernas, dormentes como a sua vida.


continua...


Licínia Quitério

24.4.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

Fascículo 3º.

Um dia, um colega mais atrevido, conhecedor de pormenores da história através de amigos comuns, disparou de chofre: "Ó Dona Clotilde, como é que a senhora nunca deu por nada? Ali mesmo nas suas barbas, salvo seja!". "Ó senhor Ferreira, como é que me poderia passar pela cabeça que entre pai e filha aqueles carinhos não fossem da maior pureza? Ponha-se no meu lugar. Eu sei que é difícil, mas faça lá um esforço, se me faz favor. O meu Gustavo sempre fora muito meigo, muito dado a festas, a coceguinhas. Não lhe digo? Digo, sim senhor. Ele é e há-de ser, até que a morte nos separe, como jurei perante Deus, no dia do nosso matrimónio, o meu “marrido”!". A voz em flauta, quase em grito. "Pronto, pronto, não se exalte, Dona Clotilde, olhe que lhe sobe a tensão e depois lá vai de charola como daquela vez. E fui eu que a carreguei, lembra-se? Safa, como a Senhora pesa, embora não pareça, lá isso é uma verdade. O certo é que ainda hoje, quando há mudança de tempo, o meu joelho direito começa logo aos estalos. E foi desde aí, não haja a menor dúvida. Que fique para desconto dos meus pecados, mas não conte comigo para mais nenhuma alhada desse tipo.".
Conversas sobre este assunto não eram frequentes, mas, quando aconteciam, Dona Clotilde parecia perpassada por um diabinho que vivia dentro dela, e que então se deixava avistar, num ápice, como um pequenino luzeiro, no fundo dos olhos cor de avelã, ao mesmo tempo que o corpo dela se contorcia, ligeira, muito ligeiramente.

A vida levou uma volta, se levou.
Quando os apanhou em flagrante delito, no seu próprio quarto, no seu próprio leito, num desaforo, foi como se uma bomba buum! lhe rebentasse dentro da cabeça. Dizia que verdadeiramente tinha perdido a inocência naquele instante. Então viu tudo. Tinham criado, no seu seio, uma víbora (ou serpente, confundia sempre) venenosa, traiçoeira. Com aquele arzinho de menina pudica e grata aos seus Pais, afinal era a própria tentação, o pecado. Com a Bíblia sempre à cabeceira, como é que ela, Dona Clotilde, tão apreciadora dos textos sagrados, de que sabia de cor muitas passagens, principalmente do Livro dos Salmos, não fora capaz de ver que, no seu Jardim do Éden, Satanás se preparava para actuar, para levar o Tavinho a morder a maçã rosada e carnuda em que aquela criança se transformara, ali mesmo debaixo dos seus olhos de mãe extremosa? "Pois, estava-lhe na massa do sangue. Herdou daquela p…, desculpe, senhor Ferreira, que a palavra ia-me saindo. Sim, quem sai aos seus… Ele há coisas!". Silenciava uns instantes, a remoer migalhas da dor que lhe ficara a “atazanar” a alma, como dizia o seu falecido Padrinho. Mas o Ferreira, de olhinho pequeno, a brilhar de gozo, voltava à carga: "Confesse, Dona Clotilde, que a senhora andava muito distraída. Então eles disfarçavam assim tão bem? Olhe que, se dizem que as mulheres têm um sexto sentido, a senhora pelo menos deve ter perdido o faro. Desculpe, sem ofensa.". "Não me diga mais nada, senhor Ferreira. É melhor pararmos a conversa por aqui, que eu, quando falo disto, sinto que fico “forra” de mim e sou capaz de lhe dizer alguma coisa de que o senhor não goste.".

continua...


Licínia Quitério

15.4.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

Fascículo 2º.

Paixão é paixão, os ouvidos só ouvem o que querem ouvir, e o namoro prosseguiu e aqueceu, mau grado os avisos constantes do Padrinho: "Olha que esse Fulano não é flor que se cheire. Aquelas falinhas mansas escondem alguma tramóia. Tu és uma criança, não sabes nada da vida. Depois não digas que não te avisei.".
Que não, Padrinho, o Gustavo era um anjo que descera à Terra para a fazer feliz.
"Olha, Filha, estou cansado de gastar palavras sobre este assunto... Nunca te esqueças de que quem fizer ruim cama nela se deita.".
Choramingou, soltou ais do fundo da sua alma em rebuliço. Tinha tanta pena que a alegria dela não contagiasse o seu protector! Mas não perdeu muito tempo com lamentos. Após os preparativos algo apressados, fez mesmo a cama, deitou-se nela e gostou.
Era finalmente uma senhora casada com um pedaço de homem que só de o olhar sentia os braços em pele de galinha.
Para que a felicidade fosse completa naquele lar, só faltavam mesmo as risadas de crianças, no plural, que filhos, ter só um, é como não ter nenhum.
Mas o destino pregou-lhes a partida. Apesar de todas as ardências partilhadas com assiduidades convenientes, (mas sem deboches, que o Tavinho sabia respeitar o recato próprio duma esposa amantíssima) o tão desejado rebento tardava e os pais putativos desesperavam.
O destino, sempre o destino, (digam o que disserem já nascemos com ele traçado) colocou-lhes nos braços uma pobre criança, rejeitada pela mãe, uma perdida, indigna desse sagrado nome. Piores que os animais, que esses lutam para não perderem as crias. A princípio, ainda hesitaram. Era uma responsabilidade muito grande. Levar para casa uma criança não é o mesmo que comprar um canário ou mesmo um cãozinho. É um ser humano que precisa de amor, de educação e de boa alimentação. Não era por isso uma decisão a tomar levianamente. Falaram muito sobre o assunto, quantas vezes agarradinhos um ao outro, sem saber se haviam de chorar se de rir. Mas parece que Deus os chamava para uma missão, sem dúvida nenhuma, nobre. E o anjinho era lindo, uma menina de poucos meses que fazia “dádádá prrrr” quando lhe afloravam o narizito com o indicador. Como resistir? Não era carne da carne deles, mas tinham todo o amor deste mundo para lhe dar.
O processo de adopção ainda teve os seus quês. Valeu-lhes a simpatia do senhor doutor Justino que, a troco de algum dinheiro, bem entendido, nada se faz sem dinheiro, deu por eles todas as voltas necessárias, que foram muitas, e tratou da papelada que parecia não ter fim. O certo é que, ao fim de menos de um ano, conseguiram ter, à face da lei, a filha que Deus não quisera chegasse por outros meios. Filha de Gustavo de Sousa Paiva e de Clotilde da Conceição Correia Sousa Paiva, assim passou a fazer parte das suas vidas a Fatinha, afilhada de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Dona Clotilde sentia-se em estado de graça, abençoada pelo amor da Terra e dos Céus.
Na escola, Fatinha só deu alegrias aos Pais. Boa aluna, embora sem grandes brilhos, bem comportada, respeitadora dos senhores professores a quem levava prendinhas pelo Natal e pela Páscoa. Pouco amiga de brincadeiras arrapazadas, quase não sujava as batitas de colarinhos brancos, tesos de goma. Já no liceu, o corpito começou em estremecimentos anunciadores de floração próxima. Dona Clotilde sentiu uma estranha angústia quando a sua menina anunciou que já era senhora, o que significava o despertar confuso da mulher com toda a sua corte de espantos e explosões. Nesse exacto dia, iniciou uma novena à Virgem Nossa Senhora, para que, dentro das regras do negócio divino, a Imaculada guardasse Fatinha das tentações do mundo, cheio de lobos à espreita de cordeiros tenrinhos.

continua...

Licínia Quitério

6.4.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

Fascículo 1º.

A Dona Clotilde era madurona. O cabelo pintado de negro, avolumado por muita laca, com transparências indiscretas (peladas, não senhor, coisas dos nervos que apanhara). Os lábios, pintados de escarlate, ganhavam a forma de um coração em caixa de bombons. Passada que fora a beleza consentida pela frescura dos anos, ficara-lhe o ar de boneca de papelão abandonada em sótão, um pouco amachucada, mas ainda colorida e risonha. Mamalhuda, de perninha fina, sempre encavalitada em saltos altos, inclinava-se para a frente ao andar, lembrando um patito fora do charco. A propósito de alguma referência brejeira à abundância e proeminência mamárias, confidenciava, com indisfarçável orgulho, que, ao contrário de muitas mulheres da sua idade, tinha de usar coletes especiais, feitos por si, de forma a contrariarem a indiscreta tendência de subida dos peitos. Ao dizer “peitos”, corava ligeiramente. Vinham-lhe à memória elogios marotos do Tavinho.
Acalentava um sonho que a fazia amealhar os parcos tostões sobrantes do trabalho no escritório. Havia de ter o seu próprio negócio, coisinha pouca, para principiar. Uma espécie de capelista, nome que já quase só ela usava. Explicava que se tratava de uma loja pequenina, de vão-de-escada talvez, a vender umas revistas, uns macitos de tabaco, uns brinquedos de plástico, uns chupa-chupas e o mais que o espaço e a inspiração permitissem.
Fazia o seu dia a dia no escritório com boa disposição, risadinhas semi-fechadas, para não desfazer as comissuras do coração. Cabia-lhe, como principal função, abrir e fechar o correio. Muito metódica, obcecada por arrumações e simetrias, manejava com segurança e destreza facas abridoras de envelopes, agrafadores, desagrafadores, novelos de cordel encerado, tesouras, balanças sensíveis ao grama (dizia com ênfase “o” grama), tubos de cola de várias marcas e até, quando o progresso se fez notar, uma máquina de franquiar. Retirava os selos que chegavam das mais distantes paragens para engrossarem a colecção do patrão que por eles esperava, com impaciência. “Não demorra nada, senhorr doutorr”. Carregava nos “erres”, mas fazia questão de esclarecer não ter nada a ver com Setúbal. O Padrinho, senhor finíssimo e rico, que a criara com esmeros de bordados, piano e francês, falava assim. Não lhe herdara os bens (que Deus tivesse a sua alma em descanso), mas os “erres” e as boas maneiras.
Ao fim do dia, lavava escrupulosamente, com um papel embebido em álcool, o tampo da secretária e arrumava as ferramentas do ofício, em alinhamento de exército pronto para a batalha do dia seguinte. Transportava, num saco de napa castanha com fecho “éclair”, entre outros artigos de higiene (coisas íntimas, de senhoras), a escova de dentes, o copo de plástico e a pasta medicinal. Prezava a dentadura, muito certinha e ainda completa, e lavava-a após cada refeição, por muito ligeira que fosse, escovando-a em vários sentidos e direcções, um número exacto de vezes. As necessárias. “São as minhas pérrolas.”. E pestanejava, enlevada.
Falava, várias vezes por dia, do “marrido”. Apesar das circunstâncias bizarras, continuava a ser, para o bem e para o mal, na alegria e na tristeza, o seu esposo, o seu homem, o único que conhecera na vida e por quem se apaixonara na verdura da juventude de menina recatada. O Padrinho, (Deus lhe perdoe), não gostou do cavalheiro. Suspeitava que o bigodinho à cinéfilo, que lhe provocava sonhos eróticos, escondia interesse por dote que aconchegasse aquele pedaço ardente de castidade. Caturrices de velho, pensou. Pergintava-se como podia uma pessoa boa como o Padrinho ser levado a ter pensamentos tão horríveis sobre aquele Príncipe que, era bem de ver, além de bonito, tivera educação esmerada, rara mesmo nos tempos que correm.

continua...

Licínia Quitério

26.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO 4

E logo agora que a Isa acedera a casar-se com ele. Jovem, banal, sentiu a atracção daquele homenzarrão sábio e carinhoso que lhe dispensava ternuras de pai e lhe acenava com promessas de amante que nunca tivera.
Há muito que ninguém o via tão feliz. Ia finalmente ter a sua almejada Primavera. Depois daquele ataque de tosse inesperado e violento que o deixou prostrado e ofegante, perguntou-lhe mais uma vez, com olhos húmidos de cachorro sem dono, se aceitaria casar com ele. A Isa olhou-o, tocou-lhe a mão febril. Repetiu a pergunta, ansioso. Então ela disse, num fiozinho de voz insegura: “Sim”. Por isso mesmo, tinha de acabar com aquelas estúpidas andanças de médicos, exames, hospitais. A Isa tranquilizava-o. O que era preciso, antes de tudo, era tratar-se, curar-se. Quanto aos preparativos do casamento, ela iria, calmamente, tratando de tudo.
Não melhorou. A doença cumpriu os seus desígnios, implacável. Ficaram os amigos que faziam coro com os gracejos que foi desfiando até ao último fôlego. Falava dos reposteiros de veludo que finalmente poria no escritório. Da última prestação a pagar ao Senhor Ezequiel pela jarrinha de Cantão que tanto namorara. Simpático, o Senhor Ezequiel, mau grado aquela mania de o segurar, dir-se-ia com fúria, pela banda do casaco, enquanto falavam. Fazia planos para uma almoçarada com amigos. A refeição haveria de se fazer regar por um tinto monumental devidamente servido em duas colunas dóricas. Ou, pensando melhor, coríntias. Há dias que a Isa não aparecia. “Coitada, anda muito atarefada e eu aqui sem poder ajudá-la.". Em cena, a Commedia dell’Arte de que tanto gostava. Colombina a fugir. Arlequim sem pular. O Adorável Mentiroso…
Foi para o cemitério dos Prazeres. Que nome curioso para um lugar daqueles! O G gracejava com tudo. Praticava a festa das palavras. E aquela pensão que se chamava Dormidas da Estefânia! E aquela sua amiga, a Glória, do Ribatejo! E os dias cinzentos, de morrinha, a que chamava dia-gnósticos! E… E…

Os amigos demoraram a abandonar o novo lugar do G. Em pequeno bando, caminharam em direcção à saída, lentamente, apesar do Sol impiedoso, em silêncio dorido. Era como se, com o desaparecimento do G, as palavras, suas companheiras de brinquedos, também elas, se tivessem desconsoladamente recolhido. Foi já no limite do grande portão de ferro que um deles conseguiu soltar a voz e então, por instantes, não parou de dizer: “Era tão engraçado! Tão engraçado!”. Os outros olharam-no, olharam-se e repetiram, maquinalmente, em tom de oração: “Era tão engraçado! Tão engraçado!”.
Agora já podiam separar-se.
Ainda nenhum conseguiu esquecê-lo.

FIM

Licínia Quitério

17.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO 3

Fora casado, uma vez. Por amor, claro, como tudo o que fez na vida. Não durou muitos anos a relação. Adivinhava-se que alguma grande dor lhe tinha ficado, pela maneira ligeira, em suspiro, com que se referia, muito raramente, à Mulher. Conservador, católico não praticante, como se costuma dizer, fazia finca-pé na indissolubilidade do matrimónio. Por isso, só por isso, recusou, até a lei lho permitir, o divórcio. Embora gostando de muitas mulheres, continuava a amar a “sua” Mulher. Filhos, tinha havido, nados-mortos. Lamentava, mais por ela, a pobrezinha, de maternidades frustradas, que por ele.
Era conhecido e estimado no seu bairro da Lisboa antiga, como um prior de aldeia. Para os mais velhos, o Menino Jorge, para os mais novos, o Senhor Doutor. Não era licenciado, não era vaidoso, mas fazia questão de não esclarecer o equívoco. Explicava: “Não vou desapontá-los. Assim são mais felizes.”
No rés-do-chão do prédio que habitava, funcionava uma padaria. Quando chegava a camioneta da lenha, as coisas complicavam-se na rua estreita e movimentada. O carro encostava de tal modo à casa que a porta do G ficava bloqueada. Nesses dias, telefonava para o emprego e explicava em tom lamentoso e algo enigmático: “Não posso sair de casa enquanto não descarregarem a lenha.” Até que um dia o vizinho, pedindo desculpas pelo repetido incómodo, lhe disse: “O Senhor Doutor só tem que me pedir a chave do carro. Depois, entra por uma porta e sai pela outra.” Ficou deliciado e não perdia a oportunidade de atravessar a viatura que afinal, como comentava, tinha porta para o Paraíso.
Não tinha carro, nem carta de condução. Gostava de viajar em transportes públicos, onde colhia elementos para histórias deliciosas que depois contava, divertidamente teatralizadas. Tinha processos muito próprios de atrair as atenções. Frequentemente, lia um livro ou um jornal de pernas para o ar e espiava, deliciado, os olhares algo aflitos dos passageiros perante aquele senhor tão bem posto e que afinal parecia ter um parafuso a menos.
Não se interessava muito por viagens. Preferia as suas viagens interiores, os seus mundos sonhados, sem horários nem cansaços. A primeira e única vez que foi a Londres, por obrigações de serviço, pouco saiu do bairro em que, dizia, as casas eram todas irritantemente iguais, parecidas com jazigos de família. Passeou por Saint James Park, mas, para além de cisnes e pessoas mal vestidas, pouco mais encontrou. E depois, falavam todos inglês, aquela língua horrorosa... Para ele, o francês, isso sim, era la langue de Dieu, mesmo quando dela se servia para dizer: “Volto já. Vou ao cabinet d’essences”. Se estava ocupado, batia com os nós dos dedos na porta, com suavidade, e gemia, desta vez em italiano: “No po più”. Invariavelmente, o ocupante, intrigado, apressava-se e dava-lhe o lugar.
Dele se pode dizer que não devia ter morrido tão cedo. Mal tinha passado do meio século, quando a doença se mostrou, óbvia, ameaçadora. Não tinha paciência para estar doente. Levou para os hospitais a tradução de espanhol de um livro sobre arte em que andava empenhadíssimo. “Que má altura para ficar doente!”, lastimava-se. “É que não tenho tempo!”.

(continua)


Licínia Quitério

7.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO (2)

Tinha um cágado chamado Horácio cujas unhas pintava de vermelho, sempre que terminava a sua letargia do Inverno, para, como dizia, lhe tornar mais alegre o regresso à Vida. O grande e velho andar onde habitava estava infestado de baratas, com que convivia sem repugnância, recusando que as envenenassem. Encarregava a gata preta, a Dona Antónia, de as afugentar, em correrias e saltos pelo corredor comprido, na calada da noite.
Quando se deitava, postava os sapatos a par, muito alinhados, virados para a porta. Dizia que não eram sapatos, mas barcos, e, como tal, deviam estar sempre prontos a zarpar do porto, apenas aguardando ordens do almirantado. A criada velha benzia-se: “O Menino tem cada uma! Já sabe que essas coisas me assustam!”.
A sua relação com o dinheiro era altamente dinâmica, ao ponto de o fazer sair antes de ter entrado, o que lhe permitia viver em deficit permanente que, aliás, considerava o único processo estimulante de gerir os proventos. Como era de uma grande seriedade, o saldo inquestionável dos seus compromissos permitia-lhe fontes de crédito totais e variadas. Costumava dizer que estava assegurando a imortalidade, porquanto fazia sempre os possíveis por não ter onde cair morto.
Detestava que lhe exigissem horários, prazos. Trabalhava quando queria e exclusivamente por prazer. Chalaceava, ditando aos amigos o epitáfio que gostaria lhe pusessem na sepultura: “Aqui repoisa quem nunca fez outra coisa”. Mas trabalhava muito, noite fora, como gostava, cigarro sobre cigarro, escrevendo, escrevendo, na mesa fradesca, rectangular. Abominava mesas redondas cuja ausência de cantos, afirmava, produzia a queda assídua dos cinzeiros, seus companheiros de vida e de morte.
Comia e bebia do melhor, nos mais elegantes restaurantes, durante a primeira semana do mês. Depois, até ao próximo ordenado, era cliente altamente considerado dos tascos castiços e algo imundos da cidade que era a sua. Quando o cozinheiro, a escorrer gordura, vinha propositadamente da cozinha, com o polegar enfiado no empadão a rescender na travessa, fazia-o por deferência para com o Xenhor Doutor que honrava a casa com a sua presença. “Dejejo que lhe xaiba às maravilhas.” E sabia. O G ficava bem em qualquer cenário, sem se constranger. Inconfundível.
Dizia gostar de ter sido Papa, que achava o cargo mais atraente do mundo. Ter-se-ia chamado Papa Açorda I. No seu escritório-biblioteca, tinha uma casula e outros paramentos, hieraticamente dispostos num cabide de pé. Nas vitrinas, um livro de cantochão, um cálix e respectiva patena e muitas outras preciosidades que ali tinham chegado por heranças ou por via das muitas visitas a antiquários que insistiam para que mantivesse a sua conta-corrente. Um figurão, este G.
Vivia em estado de paixão permanente. Procurava a frescura das mulheres jovens, a eterna primavera nas montanhas de que carecia para respirar fundo. Sofria, em profundidade, sucessivos desaires amorosos, nunca se deixando porém vitimizar. Quando, mais uma vez, uma rapariguinha de dezoito anos trocou os seus encantos de homem maduro e sabedor pelos ímpetos de um jovem macho afirmativo, lastimou-se por ter sido preterido por alguém com um defeito físico evidente. Qual? Usava óculos, o infeliz.
Os amores proibidos perturbavam-no. Não era homem de clandestinidades. Quando um dia se pegou de paixão por uma dama casada, ficou cheio de pruridos pela traição que, em seu entender, o pobre do marido não merecia. Cedeu, a custo, a todas as incitações e excitações da aventura, tanto quanto o picante da situação o convenceu. Mas a uma coisa resistiu: O pijama do marido, não. Recusou a pele do outro. Coitado, bastava-lhe a da mulher. Começou a ter pesadelos recorrentes: alguém o perseguia, de noite, na rua, com uma faca na mão. Acordava com o coração a pular, banhado em suor. Foi, talvez por isso, uma aventura com um único capítulo.

(continua)


Licínia Quitério

1.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO


Na tarde quente e suada do Verão lisboeta, a Isa apareceu, sozinha, apagadita, rente às árvores mais altas do cemitério. Sem chorar. O G não suportaria vê-la no papel de noiva inconsolável. Quando os rituais acabaram, afastou-se, ligeira, sem dar azo a conversas a que não saberia dar as réplicas convenientes. Ele não tivera tempo de lhas ensinar. Como não houvera tempo de saber tanta coisa sobre ele. Um dia, quando o G não fosse mais do que um relevo na planura da sua previsível solidão, tentaria juntar as peças do puzzle que pudessem enformar aquele bom gigante cuja queda almofadou com o jeito possível de menina tardia.

Do alto do seu metro e oitenta e tal, imponente na corpulência obrigatória de um chanceler alemão que se preze, o G irradiava o ar bondoso de um patriarca que perdeu a prole. O cigarro, dependurado na carnosidade do lábio inferior, tornava-lhe os olhos lacrimejantes, a lembrar um bebé de chucha, acabado de acordar. Vestia como um cavalheiro inglês da City, sacudia necessariamente a cinza que lhe manchava as bandas do blazer azul escuro, a gravata de seda de pequeninas bolas.

Para os colegas mais novos, era um guru que tudo sabia e ensinava-lhes que o mais importante da vida era descobrir o lado cómico que mesmo a tragédia esconde. O humor, dizia, era a arma mais poderosa para fragilizar num ápice os prepotentes, para ridicularizar os vaidosos, para limpar, sempre que possível, a vida das suas teimosas fealdades. Tudo o que era sombrio e agreste se desvanecia com um dito de espírito e uma gargalhada à medida. Brigas, não valiam a pena. Até porque nada tinham de engraçado.

Lia muito, carregava sacos amarrotados, cheios de livros. Era conhecido dos melhores alfarrabistas de Lisboa, onde catava raridades que depois mandava encadernar, à antiga, a preceito. Quando ficavam prontos, olhava-os embevecido, acariciava-os. Com o dedo indicador molhado em saliva, removia algumas pequenas máculas que só ele notava. Se alguém observava a falta de higiene do processo, respondia que o seu cuspo era santo e soltava um sorriso divertido perante a careta enojada do interlocutor.

Escrevia bem. Deixou obra, alguma publicada: contos, peças de teatro, poemas de amor. Gostava de abordar, por diletância apenas, temas esotéricos. Conversava sobre eles com uma sua amiga, exótica senhora que tinha pintado de azul o gatinho branco e que insistia com os convidados para que provassem sopa de jarros, tratados e cozinhados por ela. A essas tertúlias comparecia gente estranha e algo alucinada que o divertia imenso e que, por sua vez, muito apreciava as suas divagações filosóficas sobre o significado da elipse, da hipérbole e da parábola. Era assim. Naturalmente eleito em ambientes os mais diversos.

(continua)

Licínia Quitério

2.2.08

JÁ NÃO SERVEM

Com voz seca e bem timbrada, a juíza proferiu, nos termos da lei, a sentença: FALÊNCIA. Logo fechou os livros, tirou os óculos e arredou ligeiramente a cadeira. Se fosse um filme, teria surgido a palavra FIM sobreposta àquela imagem definitivamente paralisada. A assistência, numerosa, engoliu por breves segundos a palavra sentenciadora, há tanto esperada quanto temida, que sobre eles acabava de desabar como o som de um trovão em tarde seca que não consente lágrimas do céu.
Quando os mandaram, os homens e as mulheres, de cabeleiras maioritariamente acinzentadas, levantaram-se e saíram, ordeiramente. Com lentidão, sem sobressaltos visíveis, olhos no chão ou olhos nos olhos. Das gargantas foram-se desprendendo à toa palavras de fingida conformação, de falso alívio.
Arrastaram-se pelo átrio e foi como se uma força oculta, vinda das garras do passado comum, os tentasse prender ao chão. Em grupos gerados ao acaso, ligados por dezenas de anos de intensa vivência de lutas, de precariedades, de humilhações, também de alegrias, de pequenos e grandes afectos, tardavam em separar-se.
Pouco a pouco, as línguas foram-se soltando, em frases desgarradas, aparentemente sem qualquer nexo. Aqui e além, a raiva explodia, finalmente incontida, transbordado o cálice: Vigaristas! Bandidos! Deixei lá os melhores anos da minha vida! Foi melhor assim! Aquilo já não era nada! E o que mais me custa é que o trabalho nunca faltou! Foi golpada, ninguém me convence do contrário!
Referiam-se ainda, com calor, às suas máquinas, às suas ferramentas que por lá ficaram, para um dia destes serem tocadas por mãos impuras que nunca as amaram ou odiaram e que lhes darão um rótulo, um número, um preço... para o leilão.
Antes do fim da tarde fria, debandaram como pombos magoados em busca do asilo nocturno. Trocaram acenos quase imperceptíveis, deixaram escapar a custo brevíssimas expressões de um mesmo adeus: até sempre, até à vista, a gente vê-se por aí...
Assim nasceram os desempregados da fábrica de que em tempos se orgulharam, como se sua fosse e que agora, a troco nem eles sabiam de quê, se entregava a outros, a velha rameira.
Podemos descobri-los pelas esquinas soalheiras, pelas tasquinhas aconchegantes, solitários ou em pequenos grupos. Quando se encontram, nas deambulações do acaso, trocam ligeiros sorrisos de cumplicidade que só eles entendem. No entanto, os seus olhos andam baços, distantes. Dir-se-ia que envelheceram mais do que os dias que o calendário vai somando.
Continuam a levantar-se bem cedo. Foram tantos anos com o tempo medido pelo grito da sirene! Alguns encontrarão um novo emprego. Porventura ganharão até mais algum dinheirito. Que os salários lá foram sempre tão magros!...Mas mudar de vida, quando já meio século a mediu, tem que se lhe diga.
Baixa, fundo de desemprego, pré-reforma, reforma - enunciam-se fórmulas nunca resolventes. Bem lá no fundo, verdade, verdadinha, o que todos sabem é que, independentemente do que o futuro lhes trouxer, nada apagará aquela dor que nasceu quando outros, talvez mensageiros de deuses de um qualquer Olimpo de sombras e de gelos, decidiram que eles já não servem.
FIM


Licínia Quitério

12.1.08

DESVAIRADAS GENTES (Folhetim)

Fascículo último

De há uns tempos para cá, o barbeiro começara a vir almoçar a casa. A mulher deixava-lhe tudo arranjadinho, mesa posta, era só aquecer. Por que raio havia de comer na tasca, se trabalhava a dois passos de casa? Melhor para a saúde e para a bolsa. Um dia destes, quando tentou acender o bico do gás… nada. Pensou: Os patifes fecharam o gás sem avisar. Experimentou o esquentador. Acendeu à primeira. Diacho! O filho da mãe do fogão deu o berro. Agora já nada dura. Tudo uma trampa. O que é que eu faço? Comida fria não era com ele. Mais a mais feijoada à moda da Terra. De repente, lembrou-se. Talvez a vizinha Elvina o desenrascasse. Ganhou coragem, tocou à campainha. Ela espreitou pelo ralo da porta. Nem queria acreditar. Num reflexo, compôs o avental e prendeu o cabelo atrás da nuca, com um travessão em forma de borboleta que trazia no bolso.
Nunca seria capaz de contar quanto tempo mediou entre o poisar do tacho sobre o fogão (que não chegou a acender) e o beijo sôfrego de encontro à porta do quarto, ela sem travessão, ele com o nó da gravata desfeito.
Foi precisamente numa quinta-feira que a mulher do barbeiro voltou mais cedo da Escola. A chefe não fora ao serviço, ela precisava tanto de limpar o tecto do corredor, a porcaria das casas velhas nunca se dá conta delas, os fins de semana não chegam para nada, e a colega disse-lhe: Ó mulher, pira-te que ninguém vai dar por nada. E pirou-se mesmo, com um bocadinho de remorsos por, pela primeira vez em catorze anos, ter alinhado numa escapadela.
Quando a Felismina viu o marido a compor o cabelo desalinhado, a sair da casa daquela perdida, o sangue subiu-lhe todinho à cabeça, trepou o lance de escadas a dois e dois, entrou em casa, foi direita à gaveta grande do armário, pegou na faca grande de desossar e gritou, gritou, desalmadamente, enquanto esfaqueava, repetidas vezes, a porta fechada da Elvina, por trás da qual tremiam, como varas enquanto verdes, um barbeiro baixinho e bem cheiroso e uma ruiva cansada de passeatas em jardins de Domingo.
..

Junto ao Tem-Tudo, os comentários multiplicavam-se. O Senhor Amaral, com a mão em concha no ouvido maroto, perguntou: O que é que ela diz? Tira-lhe o quê? As tripas, homem, as tripas, explicou o Senhor António, sem abandonar a soleira. Até o Feliciano largou do talho, esbaforido, com um cutelo na mão. A D. Rosa, rente ao passeio, avistou-lhe o aventalão manchado de sangue, e chiou: Ai Jesus! Acudam! A D. Amália puxou do seu sentido prático e avisou: Vou chamar a polícia. Antes que haja uma desgraça. O Zeca limitou-se a torcer a orelha e a dizer: Já agora espero que venha a bófia. A minha mãe deve ter mais fósforos lá em casa.


FIM


Licínia Quitério

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