17.5.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 1

Reformados já há um bom par de anos, a vida os juntou naquelas mesas de café onde, diariamente, salvo à segunda-feira que era dia de fecho, tomavam os seus lugares cativos, tacitamente aceites. Parecia que se davam bem, se atendermos à convergência de opiniões sobre o rol de assuntos que desfiavam, ao mesmo tempo que, jornais abertos sobre a mesa, iam comentando “as gordas”. A maior parte deles tinham sido militares de carreira, com postos a meio da tabela, que as habilitações literárias mais não permitiram. Tinham feito a guerra que lhes dera a conhecer várias Áfricas. Ao mais velho de todos, o Silvino, até outros continentes. Da guerra, propriamente dita, raramente falavam e, mesmo assim, em frases curtas, sem lugar a prosa continuada. Eram unânimes em achar que os jornais mentiam, que a televisão era uma vergonha, que “Da maneira que isto está, já nada me admira”. Mas admiravam-se quando a mocinha que os servia, loira, com rosto de loiça, vinda lá detrás da cortina de ferro, lhes falava da história de Portugal, a antiga e a recente, com a mesma naturalidade com que perguntava: “Para o senhor é mal cheia, como de costume?” Não a contradiziam, apenas apuravam os ouvidos, uma interrogação nos olhos, uma ligeira subida dos ombros. E gostavam muito da maneira delicada com que os tratava. Incomodados ficavam quando um casal jovem, ela de pele branca, a dele de cetim negro, de mãos dadas, tomavam um breve pequeno almoço, de pé, ao balcão. Só retomavam a conversa depois deles sairem. O mais falador dizia: “Sem comentários”. E as falas prosseguiam, os tons das vozes elevando-se. De verdade, ninguém estava interessado em ouvir. Achavam todos, muito secretamente, que tinha chegado o tempo de serem ouvidos. Falavam pouco dos achaques, daquele joelho a pedir canadiana, daquela vesícula preguiçosa, mas tudo rápido, com uma graçola, do género “Coisas da juventude. É o que é.” Quando algum faltava, avisava os outros: “O Custódio telefonou a dizer que não vem. Passou mal a noite.” Sobejamente informados, ninguém perguntava pormenores. “No tempo da minha mulher”, referia amiúde o viúvo, sem sombra de emoção na voz, a expressão servindo apenas para localizar no tempo devido a acção a desenrolar. Houve mais dias em que o Custódio faltou. Estava internado. “Não tarda está cá fora. Esta cambada quer é despachá-los”. A cambada eram os médicos, os enfermeiros, os porteiros, os taxistas, os dos partidos, todos iguais, os do governo, uns gulosos. Só o Artur uma vez se atreveu a dizer que tinha conhecido um político honesto. “Quem? Quem?” E os olhares eram ameaçadores. Arrependeu-se logo e inventou um argumento esfarrapado. “Propriamente eu não o conheci. Foi o meu cunhado que me disse.” “Ah e tu acreditaste? Não venhas agora armar em ingénuo. Qualquer dia acreditas que o Sporting vai ser campeão.” Eram todos do Benfica, excepto o Custódio que, por sorte ou azar, não estava presente. O Inverno já ia a meio, o reumático fazia-se sentir, “heranças de quem andou por esse mundo a dar o corpo pela Pátria”, como bem dizia o Silvino. Inesperadamente, numa manhã de sol envergonhado, o Custódio apareceu. “Então homem? Já estás rijo?” Senta aí. Queria saber novidades. “Tudo velho, tudo velho. A não ser a minha neta que arranjou novo emprego. A cambada lá achou que a rapariga é competente.” O Custódio saiu mais cedo, tinha que ir levar uma injecção. O Silvino disse. “Está mais magro.” “Magro e verde”, explicitou o Artur. A Primavera anunciou-se e encontrou-os nas mesmas mesas, com os mesmos jornais, a mesma bica mal cheia para o Silvino. Faltava o Custódio. Chegou novo conviva, acabadinho de se aposentar das Finanças, um homem exuberante, de voz aflautada que também odiava a cambada. “Sente-se aí, homem. Era o lugar do Custódio. Foi-se.”

Licínia Quitério

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