2.2.08

JÁ NÃO SERVEM

Com voz seca e bem timbrada, a juíza proferiu, nos termos da lei, a sentença: FALÊNCIA. Logo fechou os livros, tirou os óculos e arredou ligeiramente a cadeira. Se fosse um filme, teria surgido a palavra FIM sobreposta àquela imagem definitivamente paralisada. A assistência, numerosa, engoliu por breves segundos a palavra sentenciadora, há tanto esperada quanto temida, que sobre eles acabava de desabar como o som de um trovão em tarde seca que não consente lágrimas do céu.
Quando os mandaram, os homens e as mulheres, de cabeleiras maioritariamente acinzentadas, levantaram-se e saíram, ordeiramente. Com lentidão, sem sobressaltos visíveis, olhos no chão ou olhos nos olhos. Das gargantas foram-se desprendendo à toa palavras de fingida conformação, de falso alívio.
Arrastaram-se pelo átrio e foi como se uma força oculta, vinda das garras do passado comum, os tentasse prender ao chão. Em grupos gerados ao acaso, ligados por dezenas de anos de intensa vivência de lutas, de precariedades, de humilhações, também de alegrias, de pequenos e grandes afectos, tardavam em separar-se.
Pouco a pouco, as línguas foram-se soltando, em frases desgarradas, aparentemente sem qualquer nexo. Aqui e além, a raiva explodia, finalmente incontida, transbordado o cálice: Vigaristas! Bandidos! Deixei lá os melhores anos da minha vida! Foi melhor assim! Aquilo já não era nada! E o que mais me custa é que o trabalho nunca faltou! Foi golpada, ninguém me convence do contrário!
Referiam-se ainda, com calor, às suas máquinas, às suas ferramentas que por lá ficaram, para um dia destes serem tocadas por mãos impuras que nunca as amaram ou odiaram e que lhes darão um rótulo, um número, um preço... para o leilão.
Antes do fim da tarde fria, debandaram como pombos magoados em busca do asilo nocturno. Trocaram acenos quase imperceptíveis, deixaram escapar a custo brevíssimas expressões de um mesmo adeus: até sempre, até à vista, a gente vê-se por aí...
Assim nasceram os desempregados da fábrica de que em tempos se orgulharam, como se sua fosse e que agora, a troco nem eles sabiam de quê, se entregava a outros, a velha rameira.
Podemos descobri-los pelas esquinas soalheiras, pelas tasquinhas aconchegantes, solitários ou em pequenos grupos. Quando se encontram, nas deambulações do acaso, trocam ligeiros sorrisos de cumplicidade que só eles entendem. No entanto, os seus olhos andam baços, distantes. Dir-se-ia que envelheceram mais do que os dias que o calendário vai somando.
Continuam a levantar-se bem cedo. Foram tantos anos com o tempo medido pelo grito da sirene! Alguns encontrarão um novo emprego. Porventura ganharão até mais algum dinheirito. Que os salários lá foram sempre tão magros!...Mas mudar de vida, quando já meio século a mediu, tem que se lhe diga.
Baixa, fundo de desemprego, pré-reforma, reforma - enunciam-se fórmulas nunca resolventes. Bem lá no fundo, verdade, verdadinha, o que todos sabem é que, independentemente do que o futuro lhes trouxer, nada apagará aquela dor que nasceu quando outros, talvez mensageiros de deuses de um qualquer Olimpo de sombras e de gelos, decidiram que eles já não servem.
FIM


Licínia Quitério

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