16.11.16

A PEQUENEZ


O mundo muda, a terra treme, as guerras continuam. Os homens exultam, afligem-se, perturbam-se, vagueiam, perguntam-se, o que é que está a acontecer, e não têm respostas. Têm um desacerto nas falas, um desequilíbrio nos passos. Correm mundos em busca da glória, da salvação. Voltam sempre ao colo das mães, à soleira da casa, donde afinal nunca saíram. O que mais lhes custa é a confissão da pequenez, da queda. O mundo muda mais que o coração dos homens.

Licínia Quitério

13.11.16

OS CRAVEIROS-DO-AR



Não me perguntem qual o nome, o dos botânicos. Para mim chamam-se craveiros-do-ar. Foi assim que conheci os seus antepassados, pendurados num ramo da pereira de peras pardas, no quintal da minha avó. Para meu espanto, eles multiplicavam-se e floriam e só bebiam a água da chuva e comiam o que o ar lhes trazia, que eu não podia ver, mas eles viam de certeza. Os craveiros-do-ar mudaram-se do quintal da minha avó, quando ela também se mudou e foi viver como os craveiros, era o que eu queria acreditar, da água da chuva e do que o ar lhe desse. Mudaram-se e foram viver na vedação de grades do quintal da minha mãe, onde tiveram muitos filhos que iam florindo e enfeitando a pouca graça da vedação. Quando a minha mãe foi viver como eles e como a minha avó, da grande água e do grande ar, eles passaram a viver nos muros do meu pátio e a dar-me as flores garridas que me fazem lembrar, sei bem porquê, o gosto das peras pardas.

Licínia Quitério

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