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24.8.09

A JANELA DA INFÂNCIA


Pela janela da infância o mundo entrava. O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste,com um carrapito preso por ganchos de tartaruga. O bater sola,cadenciado,do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca. O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois. Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava. E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas, Meu vadio, meu malandro, Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer. O piar dos pardais, à boquinha da noite, disputando um abrigo nos braços enormes do velho plátano solitário. Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância. Estranhos pássaros a chiar como ratos. E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares. Chiiu, chiiu, chiiu… E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava o mundo, em nova ordem, bizarro e encantatório. Era então que o canário da vizinha Celeste,liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem qualquer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais. E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua. Depois, num clarão deslumbrante,as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia,deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz, quem sabe o nada. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério-2002

13.8.09

A CIDADE

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer um pequeno título de glória. Mas não podia evitar (isso não podia) que nos olhos lhe pairasse a névoa melancólica que envolve todo o ser desterrado.

Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.

Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas muralhas, tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.

Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.

O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.

Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.

Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.


José Saramago

3.8.09

SONHAR, TRABALHAR...

Uma biblioteca duma escola, muitos meninos, papéis com palavras escritas e uma conversa animada acerca de livros e de poesia e de tantas outras coisas que iam nascendo, em grupo, em cumplicidade.
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.

Licínia Quitério

20.7.09

O CONVENTO


Ter nascido e crescido à vista e à sombra de um monumento destes alguma influência há-de ter na pessoa que sou e no modo como vejo a vida. Eu já sabia muita coisa sobre a história do colosso, tal como a aprendi na escola, nos velhos, nos livros. Sabia que tinha sido construído por capricho ou vontade de um rei que eu considerava ser da minha terra. Sabia das histórias de fantasmas como a do capitão-sem-cabeça e das ratazanas gigantescas nos esgotos, ameaçando invadir a vila. Sabia chamar "musaninhos" às salas com janelas ovaladas lá no alto. Sabia o que eram escadas de caracol quando subia até à torre para ver um amigo tocar os carrilhões. Sabia histórias dos santos de pedra, com pés enormes para os meus olhos de menina de metro e pouco. Havia os amigos que moravam "lá dentro" e os que eram cá "de fora". Conhecia cantos escusos que não eram dados a conhecer a visitantes. Ficaria horas a falar do tempo em que eu e o convento nos entendíamos, como menina e casa grande que lhe escuta os segredos.
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".

Licínia Quitério

3.7.09

DANÇAR E MORRER



Nada sei de dança. Não sei, mas gosto. Gosto do voo breve dos corpos, do seu sofrimento rente ao solo, da sensualidade, do suor, das contorsões, da fala, do grito, do encontro e da fuga. Passei a gostar mais, desde que vi pela primeira vez, no pequeno écran, um bailado de Pina Bausch. Nunca a vi ao vivo e agora sei que nunca a verei. Era uma mulher do meu tempo. Pode dizer-se que morreu dançando. Quando passei há dias em Loulé, fixei este par desafiando o azul. Quase liberto, quase. Pronunciei baixinho: Pina Bausch. Foi a homenagem possível, em passeio acidental.


Licínia Quitério

31.5.09

QUANDO A TERNURA



Meu querido filho,

Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
Eu tremi. E é irónico um poeta a tremer, a temer, quando o filho lhe diz que também, à sua maneira, quer ser poeta. Eu tremi, meu filho. E sei porque é que tremi.
Percebi desde logo que tinhas escolhido o caminho mais belo e, se calhar, por isso mesmo, o mais difícil. Aquele que está mais afastado do mundo mecanicista em que vivemos. Aquele que te vai fazer voar até alturas impensáveis e mergulhar no mais fundo de ti e dos homens teus irmãos.
Vais trabalhar com as mais complexas matérias que habitam desde sempre o coração dos homens: os símbolos. Tu sabes, já sabes hoje, que os símbolos são as palavras e as formas que desde sempre nos permitiram dialogar com as nossas angústias e os nossos medos mais fundos. São as chaves que te permitirão entrar em terríveis e complexos labirintos cuja saída só tu poderás encontrar.
Mesmo assim, sabendo tudo isto, escolheste o caminho mais difícil, aquele que te vai trazer muito mais dúvidas que certezas, muito mais infinito que descontos para a reforma.
Vais trabalhar sem repartição nem horário. Levarás o teu ofício colado à pele para todo o lado. Não poderás fugir a essa febre. Tudo, a lágrima e a dor, a revolta e o júbilo, o pão e o vinho, a tua juventude e o teu envelhecimento, um corpo de mulher e um riso de criança, tudo te vai servir de matéria prima. Estás condenado a uma fantástica doença.
Tem sido um pouco assim a minha vida e, pelos vistos, à tua própria maneira, assim será a tua. Os teus passos vão levar-te a andar sempre e sempre à volta dessa fome de tudo ao mesmo tempo a que se chama Arte. Arte das palavras, das formas e das cores, da música, da dança. Arte. Tão incompreendida nesta sociedade que tudo quer reduzir ao pacote de margarina, ás pobres vedetas da televisão ou às modas que ainda mal o são e já deixaram de ser.
Não há dúvida de que escolheste o caminho mais difícil. Aquele que ninguém trilhou. Porque é o teu, só teu, e como dizia o poeta espanhol António Machado: “Caminhante, não há caminho/ faz-se o caminho ao andar.”
Vais esbarrar com muitas dificuldades e mais incompreensões. Vais sofrer na pele o ferrete de assistir ao êxito ribombante das vedetas descartáveis, dos opinosos iníquos, dos comerciantes de influências, dos fabricantes de “facas sem lâmina a que lhes falta o cabo”, como dizia o Alexandre O’Neill. Tudo isso vai acontecer enquanto tu atravessas as noites lutando contigo em busca de uma cor azul, de um perfil exacto, de uma grande harmonia ou de um imenso desacato.
Julgo que já não podes voltar atrás. Escolheste o caminho mais difícil. E, por isso, meu filho, estou cheio de orgulho em ti.

JOSÉ FANHA


Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog
Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.


Licínia Quitério

25.5.09

A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES

Mutuamente se observam, as suricatas e os humanos. Disseram-lhes que pertencem ao mesmo maravilhoso mundo dos episodicamente vivos. Como as palmeiras anãs ou as iguanas ou a mosca da fruta ou as amibas. Passam os milénios que os homens tomam por medida e toda esta massa pulsante de viventes se transforma e adapta e evolui e continua em sucessivos estádios de comunhão com os glaciares e as estrelas. Nós, os não cientistas, nem teólogos, nem filósofos, nem poetas de alta estirpe, raras vezes nos olhamos interrogativamente e, quando o fazemos, brevemente desistimos de obter respostas que relegamos para o lugar confortável dos "insondáveis mistérios".
Vem isto a propósito duma excelente exposição sobre o pensamento e acção de Darwin e suas implicações no mundo de hoje. E a propósito também de dois jovens que encontrei numa paragem de transporte público. Não me viram. Não se viram. O rapaz exercitava freneticamente os polegares em dois telemóveis que constantemente produziam sons breves e desencontrados. Quando os sons se detinham, o rapaz continuava a agitar os polegares sem tocar os aparelhos e mordia o lábio inferior, num sinal que intrepretei como angústia perante a momentânea quebra de contacto. A rapariga trajava de negro, tinha ao peito um pin branco com uma caveira e duas tíbias a negro e lia contos de Allan Poe. Quando interrompia a leitura, os olhos eram de um lindo azul translúcido, parados como os olhos parados dos velhos.
Que sei eu daqueles humanos com que me cruzei senão o que Darwin afirmou? Eu, as suricatas, o rapaz teclante, a rapariga de negro, somos partes de um mesmo todo. Uma universal solidão nos agrega, colmatando a diversidade das espécies.


Licínia Quitério

19.5.09

Uma pista

http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/

Se me permitem, um conselho: entrem neste link, vejam, oiçam e fiquem felizes. Já agora, não deixem de dar uns passeios pelo blog do Tiago - Geométricas - que é um belo campo de olhares e sentires. A net também tem destas coisas bonitas, de gente com nervos e coração.


Licínia Quitério

7.5.09

TURISMO OCIDENTAL 2

"O meu avô contava de um homem que era tão pobre, tão pobre, que a única coisa que possuia era dinheiro."

É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Antes do furacão há um vento quente que despenteia os palmares e rola os corais mortos no areal. A exuberância vegetal é um grito de espanto perante a invasão das construções que abrigam "souvenirs", como se a memória não fosse mais do que um cartaz a cores berrantes.
É o vergar do trópico cansado da sua guerra elementar há muito perdida na voragem fundacional do novo mundo.
A obesidade mórbida dos turistas ameaça a resistência da lona das cadeiras. A pele cor de azeviche dos indígenas forra-lhes a magreza e faz sobressair as dentaduras arruinadas e aparentemente muito brancas.
O reggae põe-me doida, digo. Um slogan, como qualquer outro, que inventei para meu conforto na passagem por lugares que não consigo adjectivar.
Não fora aquela história que um guia contou, floresta adentro, e que acima registo, talvez a solidão dos homens me tivesse sido insuportável.

Licínia Quitério

4.4.09

UM CONCERTO A SOLO

Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.


Licínia Quitério

Foto retirada da net

25.3.09

O MEU AMIGO ANTÓNIO

São tantas as portas que se fecham, diariamente, neste país onde nasci. Como se vai fechar mais uma sobre o esforço e a dedicação do meu amigo António. O negócio está mal, não há sucessores à altura. É o que consta. É preciso reduzir o pessoal. Ele já é velho. Daqui a um par de anos será sexagenário. No meu país, sexagenário só patrão ou administrador ou banqueiro ou...
Desde puto que acumula saberes aprendidos nos braços e nos livros. Sabe fazer, sabe como se faz, procura saber mais, de tudo. Da metalurgia pesada, da agricultura, da mecânica, da razão das coisas da nação, do mundo, do amor da família, dos amigos que sempre chegam e a quem dá o que tem e o que sabe. Gosta de se pôr à prova em problemas novos e quando lhes descobre a solução solta um riso gaiato porque ganhou mais um tesouro.
O magro salário do António chegou ao fim. O país não pode dar-se ao luxo de pagar a homens como ele. Não foram estes Antónios que saquearam o trabalho dos outros, a inteligência dos outros, a honestidade dos outros e inventaram dinheiro para depois o roubarem. Mas são estes Antónios que hoje são expulsos do trabalho, da casa, da dignidade com que respira um Homem.
O meu amigo António não é digno de pena. A sabedoria que acumulou ninguém lha poderá roubar, porque a toda a hora a acrescenta e a reparte. Por muitas portas que neste país se vão fechando.


Licínia Quitério

21.3.09

QUERER


Um dia em que se fala de Primavera, de Florestas, de Poesia. Palavras bonitas que nos põem no coração esperanças e frescuras e cantigas. Assim fossem todos os dias, em todos os lugares do mundo que sabemos.

Como disse Ruy Belo:
...

Entre mim e as coisas havia vizinhança
E tudo era possível
Era só querer


Licínia Quitério

27.2.09

ANA


Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.

Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec

Licínia Quitério

9.2.09

TURISMO OCIDENTAL

Abdul conduziu-nos a um chá num oásis no limiar do deserto. Talvez lhe chame oásis porque havia árvores e tanques com água e pássaros cantadores. Porque no limiar dos desertos tem de haver um chá e a tenda em que ele fumega. Na tenda tem de haver tapetes e almofadas e cheiro de menta. Por todo o lado a simetria dos desenhos e a cor escandalosa do açafrão só acalmada pelo verde negro das palmeiras do anoitecer. Ah e a música e os requebros do ventre e o choro-cante a ecoar nas nossas antigas oliveiras. Por toda a parte os belíssimos olhos negros de Ali-Babá e de Moriana. Ou de Abdul, com um joelho avariado a por-lhe um pequeno soluço na voz a cada degrau transposto. Breve passagem por um cenário de faz-de-conta em que tudo nos é dado como certo excepto o soluço escondido na voz de Abdul, o nosso guia.

Licínia Quitério

24.1.09

UM DIA DIFERENTE


Uma avaria grande, disseram na rua. Tem de ir um camião buscar uma peça. Previsões não dão. Como não? O que é que eu vou fazer sem electricidade? Um lamento comum ao pessoal da rua.

Foi esse o dia em que falaram a dois, a três, a quantos iam chegando. Os que passavam falavam a quem se encostava às ombreiras. Do lado de fora da porta, como nunca se vira. As casas iam arrefecendo e felizmente cá fora havia sol. Melhor ficar por ali, num remanso forçado, a desatar as falas tão guardadas que nem se sabia que existiam. Quem havia de dizer que se foram descobrindo amigos comuns? O mundo é bem pequeno, já todos tinham ouvido dizer. Mas a senhora sabe de artes gráficas? É que muita gente me pergunta: Que é isso em que trabalhas? E foram falando da feitura de livros. A máquina em que agora opera tem vinte e três metros de comprimento. Um orgulho no cerrar dos lábios, no arquear das sobrancelhas.

Claro que o Senhor Joaquim conhece a vizinha. Não, como ela supunha, por lhe dar o calçado a arranjar, por lhe conceder os bons dias, as boas tardes, a que ele responde sem levantar os olhos da obra. Conhece-a desde sempre, o pai, a mãe, o marido, alguns amigos. Foram, a bem dizer, colegas na mesma grande empresa já lá vai muito tempo. Agora porta com porta. Quem diria?

E a luz que não vem. Isto está para durar. Mais vale fechar a loja por um instantinho que a freguesia também anda perdida. E vão as duas, as três, tomar um café na outra rua, onde a avaria não fez estragos. Extravagâncias a que nunca se permitem, a não ser hoje, que esta arrelia não deixa fazer nada. Já passava das cinco quando a luz apareceu. Houve uns gritinhos de alegria. Depois disseram: Bom, vamos andando que tenho tudo atrasado. Talvez amanhã voltem a falar de coisas que nem sonhavam que sabiam.

Em casa, a velha senhora, depois de passada a hora de desacerto em que todos os gestos de autómato não produziram efeito, sentou-se. Simplesmente sentou-se. Pegou num livro, pegou noutro, mas não conseguia concentrar-se na leitura. Só mais tarde entendeu que na casa havia um silêncio desconhecido. Todos os aparelhos desligados, recordou a orquestra de ruídos, de zumbidos, de estalidos que fazia parte dos seus dias. Passou a tarde a escutar os passos, as vozes na rua, os miados dos gatos nos quintais das traseiras, a tosse do vizinho do lado. A inoperância das máquinas deu-lhe a percepção de mais vida. Soube-lhe bem a imobilidade. Nem deu pelo frio da casa. Pensou, como sempre, nos seus mortos, mas não ficou com olhos húmidos. Achou que talvez estivesse próximo do silêncio deles. Fazia já escuro quando a luz voltou. Estremeceu, levantou-se e não parou até acertar todos os autómatos. Há muito que não tinha um dia como este. Avariado. Diferente.


Licínia Quitério

2.1.09

AN EYE FOR AN EYE




Fiquei a escutá-la. Tem um nome de que desconheço a pronúncia. Tzipi Livni. A pele é branca e o cabelo mostra-se loiro. É uma mulher do meu mundo a que chamam ocidental. A terra dela fica na linha fronteiriça de muitos ódios. Terras vizinhas de deuses e de profetas e de disputas sangrentas por água e terra e pastagens e camelos e oleodutos e mísseis. Berço de civilizações, diz-se. A mulher tem filhos crescidos. A mulher notabilizou-se na perseguição e aniquilação de inimigos. São inimigos dela, dos pais, dos avós e de todos os avós de toda a sua gente. A mulher tem uma inteligência aferida em 150 não sei que unidades. A mulher chefia, praticamente, a sua nação que está desde sempre em guerra. Com todo o interesse aguardei a sua comunicação sobre a guerra desta semana. Foi quando me apercebi de que tem dificuldade em articular certos sons. A língua avança demasiado e os dentes demoram em descerrar. O som produzido é semelhante a um silvo. Nesse preciso instante, há um estremecimento no rosto de maxilas largas. Só os olhos não denunciam a dificuldade, a imperfeição. São olhos parados, secos, esquecidos das pálpebras. A mulher acabou de afirmar que a guerra continuará e se intensificará até à destruição do inimigo. É ela quem ordena. Avisa que morrerão inocentes. Como em todas as guerras, explica. Retira-se, com o olhar sem pálpebras.

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.


Mahatma Gandhi disse, na língua dos seus inimigos: An eye for an eye makes us blind. Não sei em que unidades se poderá aferir a inteligência do seu coração.


Licínia Quitério

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