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26.12.10

ANO VELHO/ANO NOVO

O Ano está Velho. Viu muito, muito amou, muito aprendeu, esqueceu o que havia de ser esquecido, sofreu e chorou. E riu, riu de puro contentamento. E riu pelas ruas e pelas praças das canções e dos amigos. E abraçou os poetas e os sonhadores e os puros e os que foram chegando às suas casas de todos os lugares. E deu palavras muitas e vozes cantantes e histórias que inventou porque as viveu. Gritou também quando foi urgente gritar que sempre a indignidade rejeitou e escorraçou da sua porta e das portas dos deserdados. O Ano é velho e não é santo. Também soube zurzir e desprezar e apagar se foi preciso. Aos ingratos, aos tolos, aos medíocres, aos falsos, disse Não, definitivamente. O Ano é Velho e gosta do seu nome. Será Novo outra vez. A caminho de ser Velho, de mais saber, de mais fazer, de mais amar. Na roda da vida, eu sou o novo e o velho de todos os meus anos.








FELIZ ANO NOVO PARA TODOS VÓS!

 
 
Licínia

21.12.10

OLYMPIA

Uma reprodução da Olympia, de Manet, acompanha-me por várias casas, vários tempos. Uma insignificante estampa de loja de museu, bem infiel ao original que me atraiu, mas assim mesmo um registo a conservar. Enigmática aquela mulher-criança ainda com algum pudor da sua nudez exposta, proposta, vendida. A criada negra, opulenta, com o ramo de flores que chegou de um licitante daquela  frescura triste, ou, quem sabe, de um apaixonado anónimo, tímido e sofrido. E o gato preto, quase uma mancha adivinhada a tocar os lençóis, elemento intruso e misterioso. Tantas histórias o quadro já me deu. Tantas outras me negou. Olympia, serena, humilhada e poderosa, persiste em olhar-me, desafiar-me. E eu cedo, fixo-a também, mas nunca por muito tempo. O gato causa-me algum incómodo.

Licínia Quitério

14.12.10

BOAS FESTAS


Deixa-te disso, Pai Natal. Queres fazer-nos acreditar que lês as as cartas que te escrevem, tu o Provedor para a Altíssima Comunicação Celestial? Nós sabemos da resma de secretários, sub-secretários, ajudantes, consultores, assessores, e outros descansadores, que tu contrataste para essa tarefa. É um escândalo, Pai Natal. Então tu pagas à cambada milhões de reno-dólares saídos directamente do renário público, só porque são teus primos, manos, avós, vizinhos, companheiros de copos, amigos das amigas do Trenó-Bar? Esqueceste-te dum pormaior, PN: "vikingleaks", já ouviste falar? Pois, já calculava, andas muito distraído com o Tundraville e a colheita de líquenes virtuais. Tem juízo, PN! Se te atreveres a aparecer com umas bugigangas coloridas para nos calares a boca sobre a cambada que nos calhou que é igualzinha à tua, eu ligo o turbo da minha lareira e tu entras em órbita para sempre, mais as prendinhas, mais as renas, mais as barbas postiças, mais o Rosebud, mais os jingle bells, mais todos os ohohohoh com que nos tens andadado a atazanar os ouvidos. Mau feitio, eu? Nunca ninguém se queixou.


JC

Nota: Lá pelo Facebook alguém pediu para escrevermos ao Pai Natal. Tomei nota de uma das mensagens. Esta!!!

Licínia Quitério

11.12.10

ESCLARECIMENTO

Os textos de escrita criativa que tenho andado a publicar resultam de desafios lançados no Facebook pelo meu amigo José Pires  que os põe ao dispor do seu grupo de amigos. Por todos os impropérios que se lancem sobre a realidade das redes sociais da internet, a verdade é que as pessoas que lá estão são as mesmas com quem nos cruzamos, ou as que nunca veremos mas existem. Daí que nas redes circulem todos os vícios e virtudes inerentes aos humanos que somos. Lá aparecem os invejosos, os aduladores, os convencidos, os fúteis, os desinteressantes, mas também os generosos, os atentos, os talentosos, os sinceros, os que valem a pena. Pessoas interessantíssimas por lá tenho encontrado e com elas tenho trocado saberes, sendo apreciável o montante de conhecimentos que vou colhendo e também divulgando. A net nunca substitui o real, mas acrescenta-o, para o bem e para o mal. Essa a escolha que nos cabe, como em todas as nossas vidas.

Licínia Quitério

ESCRITA CRIATIVA

TEMA

Parecia estar ali há séculos, sempre com a indiferença dos que já não ouvem palavras de esperança há muito tempo, mas os seus olhos brilhantes eram um convite. Sentei-me.

Dei-lhe a mão e isso foi como se lhe abrisse uma torrente de palavras:
— Sabes, eu...


DESENVOLVIMENTO

... já tive uma mão como a tua. Tão linda, parece de seda. Pois, acreditas. Que bom! Sabes, às vezes julgo que fui sempre assim, velha, feia, com esta pele que sobra por todo o lado. Feia, sim, minha filha. Bonito é ser como tu. Novinha, brilhante, sempre a correr, a rir alto. Não reparas que os velhos já não riem? Abrem a boca, desdentada como a minha, e deitam cá para fora uns barulhos. Sorriso bonito, o meu? É dos teus olhos, amiga. Há tanto tempo que não me seguravam na mão. Nem me olham. Aparecem por aí, muito atarefados, deixam alguma coisinha e vão-se embora sem me verem. Sim, sem me verem. Não fazem por mal, coitados. É a vida. Têm sempre muito que fazer. Sorte tenho eu que vêm cá uma vez por semana. Há aí outros velhos que ninguém visita. Se calhar não estão cá. Ou já morreram todos. Não, filha. Eu não preciso de nada. Os velhos só precisam de ir embora. Maçamos muito os novos, coitaditos. Somos um estorvo. Um estorvo, é o que te digo. Ah esta minha cabeça. Estava a mentir-te. Os velhos precisam muito de sol. Aqui está sempre tão escuro. Talvez seja das cataratas. Deve ser. Mas, filha, não é desse sol. Eu não me sei explicar, fui sempre uma burra. De qual? Daquele que tu trazes na mão e me dás agora. Assim. Assim mesmo. Tão quentinho. Tão macio. Percebes-me? Estou tão contente. Volta, sim. Fico bem, não te preocupes. Vou guardar o teu sol no meu bolso. Quando voltares trazes mais? És um anjo. O anjo do sol, minha querida.


Licínia Quitério

foto da net

1.12.10

ESCRITA CRIATIVA

     

TEMA


"Consegui convencer-te a dar uma volta no calhambeque do meu avô.
Parámos naquele local deserto à beira do lago e..."


DESENVOLVIMENTO

Eu disse-te que esperasses para saires pela porta do meu lado. Nunca me ouves. Ou não ligas. Já sabes sempre tudo. É como quando te digo: Hoje não venho jantar. Não ouves. Não perguntas. Não te interessa. Há quantos anos não me ouves? Não dás respostas, não fazes perguntas. Falas, falas muito. É a ti que contas as histórias do dia, as histórias dos outros, as histórias do mundo. Só eu nunca entro nessas histórias. Como se fosse invisível ou me tivesses apagado. Eu disse-te que esperasses para saires pela porta do meu lado. Gritei-te. Nada disseste. O lago era apenas um charco com uns palmos de fundura. Naturalmente,seguiste caminhando, a água pela bainha da saia. Ias estranhamente serena. Foste até ao fim do charco. Voltaste de novo pela água, com a saia molhada moldando-te os joelhos. Tive vontade de te ir buscar, de te pegar nos braços, de fazer amor contigo sobre a relva da margem. Não fui capaz. Fiquei de pé, olhando-te, vendo-te aproximar, tirar os sapatos, escorrer-lhes a água, entrar no carro e fechar a porta. Sorrias e desejei beixar-te a boca. Não fui capaz. Entrei no carro e atirei: Eu bem te avisei. O sorriso apagou-se. Percebi que me ouviste. Isso me bastou. Um dia hei-de ser visível de novo. Liguei a ignição. O carro deu um solavanco e levou-nos estrada fora. Nenhum de nós falou. Hoje, que já cá não estás, conto-te isto tudo, com a certeza, agora sim, de que não me responderás.


Licínia Quitério

foto da net

ESCRITA CRIATIVA



TEMA

«Que fado te enraizou, porque cresceram os ramos no teu corpo de mulher?» — perguntou o caminheiro enquanto se apoiava no bordão, dispondo-se a ouvir a história.

«Bem, eu…»

DESENVOLVIMENTO

Bem, eu tenho nas seivas lembranças de mulher. Correm rápidas quando a primavera se anuncia e o meu tronco estremece e nos ramos passam falas que vegetais não são. Não sei ao certo o que quer dizer amor, mas sei que é quando os pássaros me procuram e se aconchegam por entre a macieza verde da folhagem. Lembro-me da ardência do verão na pele que já foi seda e agora é lenho. Chamam-me louca porque me dispo quando chega o frio. Nunca o fiz quando tive o nome de mulher e só à lua mostrva o meu corpo livre, leve, quente por dentro da noite, quando as florestas me chamavam. Não sei quando os meus pés se afundaram na areia e se alongaram e procuraram os bichos cegos de pelagem suave. Foi há muito tempo já. Foi, já te disse, quando eu ainda tinha nome de mulher. Nesse tempo eu queria saber do interior da terra e das alturas do céu. E corria, corria. E tudo me fugia. Agora que me chamam árvore, sei dos segredos da água e da escuridão da terra. Sei também da espessura do azul que acaricia os muitos braços que ganhei. Esqueci o rosto que já tive. Tenho agora os mil rostos dos caminheiros que me fitam. Sei muito de árvore e pouco de mulher. Quem me fadou não sei que forma tem. Dele só sei um nome. Sonho. De sonhar. Respondi-te?

Licínia Quitério

foto da net

PORTUGAL 2

Portugal é o lugar geométrico hoje definido pelas suas fronteiras seculares. Nesse lugar nascem e vivem pessoas que falam a mesma língua e constroem uma memória comum onde se guarda a história das muitas histórias que vão sendo vividas. Por outros lugares que não este, os Portugueses foram passando e, com as vicissitudes dos tempos, foram deixando laços de novas memórias partilhadas e sempre contadas em Português, também ele eivado de novidade. Nesses lugares em que hoje se vive, mais ou menos portuguêsmente, se remete para um Portugal distante que por ali passou, deixou semente e a casa voltou. Portugal físico é o lugar e as suas gentes. A língua portuguesa será a sua reserva e extensão de afectos a que também se pode chamar cultura.

Licínia Quitério

Nota: Este texto e o anterior são respostas a desafios lançados no Facebook, pensados e escritos na hora.

PORTUGAL 1

Portugal é o lugar que me coube no nascer e decerto no morrer. Amo-o e detesto-o, mas dele não posso nem quero alienar-me. É a minha memória, a minha língua, a minha paisagem. É pequeno, é tristonho, conformadinho. Desculpa-se com o fado e a saudade para não ter de falar em futuro. Por vezes, tem rasgos de audácia e sai da sua modorra para a descoberta das terras, do sol, da liberdade.Sabe fazer a festa do vinho, da bailação, do abraço amigo, do amor atrevido. Detesto-o quando é snob, presunçoso, chorando impérios e prometendo outros. Adoro-o quando se senta à sombra, a preguiçar, e depois se levanta e arruma uma quadra e nunca a lê ao filho que é doutor.

Talvez eu fale de um Portugal que só existe porque eu o quero assim.

Licínia Quitério

SORRISO

O céu escureceu, de nuvens grossas, um frio ladrão violou portas e janelas e pôs-nos um arrepio a tocar os ossos. De súbito, a pedrada miúda e enérgica abateu-se sobre as casas, as ruas. Chuva branca, de contas de gelo. É o Inverno, que estalou lá para a as montanhas, a anunciar-se à vista do mar. Que dia! Escuro, frio, desolador. Nada disso. Apenas um episódio de invernia, forte e breve. Logo, logo, os rasgões nas nuvens já esbranquiçadas a alargarem, a deixarem passar o azul puríssimo. Com o azul vem o oiro esplendoroso. É o sol de inverno, neste céu de Portugal. Risonho, gaiato, oblíquo, desafiando o deslumbre do nosso olhar. Foi quando saí de casa e o enfrentei, sorrindo. Quase feliz.


Licínia Quitério

27.11.10

CHEGOU

Nada sabe do mundo a que chegou há pouco. Mama, dorme, chora e já sorri. Crescerá, o seu corpo mudará e o mundo mudará com ela. Uma ínfima partícula do universo, ainda infante. Da voz à fala chegará. Nomeará então as coisas e o céu e o sol e a lua e os homens e as mulheres. Caminhará sobre os seus passos que outros não lhe serão dados. Em algum tempo, terá uma flor em cada mão, estrelas no olhar e na boca bagos de romã. Construtora da própria vida, espectadora e actriz no imenso palco onde representará a sua história. Única, irrepetível, a Mulher que agora começa.

Licínia Quitério

OS MENINOS

Chegam em qualquer mês,
em qualquer dia.
Os meninos.
Como as flores,
que as há de todos os tempos.
Como os beijos que não sabem a hora.
Entram-nos em casa
e procuram-nos o rosto.
Trazem recados de outros tempos
e nós não os sabemos decifrar.
Vêm do ventre das mães,
feitos de sangue novo.
Em que pensam? dizemos.
Nunca o saberemos.
Guardam segredos
que não podem revelar.
Quando puderem
já os terão esquecido.
Inviolável o seu tesouro de meninos.
Chegam com os ventos altos,
com as areias, com as cores do outono.
Sempre chegam, os meninos.
Por eles somos e nada sabemos.


Licínia Quitério



video

SINTRA

Não tarda que desça o véu de brumas cinzentas a ocultar recortes de castelos e conventos nos cumes da serra. Choram os penedos e o manto líquido escorre encosta abaixo, mansamente, dissolvendo os tons das velhas casas, dando um novo brilho às folhas ainda presas nas árvores do outono. Por todo o lado, ganham forças novas as trepadeiras nos seus abraços seculares aos muros, às paredes das casas. Espiam as janelas, as falta dos vidros, as falhas das madeiras, e deitam contas ao tempo de aventuras nos interiores das salas vazias de gente. Antigos lampiões, enferrujados, aguardam a noite, seu palco de brilhos de uma última velhice. A Lua, sua única rival, senhora da serra, erguer-se-á, uma destas noites, serena e pálida, e cobrirá de prata todos os verdes, todos os muros, todos os caminhos de serpente. Alguém se há-de perder nas cruzes das veredas e caminhará, em frente, sempre em frente, até ao novo dia. Retirada a Lua para a sua casa do céu, o caminhante terá a alvorada mais clara de todos os seus dias. Descerá a serra com o novo saber no coração. É sempre um outro o homem que se perde na serra e a desce ao amanhecer.

Licínia Quitério

A BUGANVÍLIA

Vive há muitos anos apertada num vaso grande, de barro. Não tem chão para alongar as raízes, procurar frescuras, trocar cumprimentos com pequenos animais. Sofre, a minha buganvília, mas teima em viver, com uma força que só é permitida a uma frágil planta. Inventou estratégias de sobrevivência que me desconcertam. Duas vezes floresce, em cada ano, duas vezes se reduz a hastes aparentemente secas, espinhosas. Fico sempre triste e digo: Foi agora que desistiu. Num resto de esperança, dou-lhe alguma água que é tudo o que lhe posso dar. Para ali fica, semanas a fio, sem sinal de vida. Até que um dia, e de novo agora aconteceu, explode em ramos novos, verdes, tenros que rapidamente se deixam polvilhar de flores vistosas, galantes. Eu sorrio e ela também, juro. Sobreviventes, teimosas, de raízes apertadas, ambas poupamos energias até florir de novo, ainda, em dádiva de cor, inverno fora, para espanto de quem passa.

Licínia Quitério

JARDINS

Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".


Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.

Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.




Licínia Quitério

MÃE

Tu sabes, Mãe, eu sou assim, esqueço-me dos dias assinalados no calendário dos homens. Sei do dia em que nasceste, mas não sei bem o dia em que te foste embora. Estiveste comigo durante muitos, muitos anos. Tantos que me habituei à ideia de que estarias sempre ali para me dizeres: Filha, não andes tão à pressa. Eu sei ...que tens muito que fazer, mas senta-te um bocadinho aqui. Tenho muitas coisas para te contar. Poucas vezes me sentei ali, a escutar-te. E a tua voz era tão bonita! Tão cheia de risos e de cantos e de outras vozes que reproduzias na perfeição. Mas eu tinha tanto que fazer. Eu tive sempre tanto que fazer. Hoje que já não tenho tanto para fazer, lembrei-me, vê lá tu, de me sentar aqui um bocadinho a recordar todas as histórias que não tive tempo para ouvir. Conta lá, Mãe, conta. Com a tua voz límpida, com as tuas mãos de gestos serenos a sublinharem, com elegância, o discurso directo que dá tanto colorido aos teus relatos. Sabes, Filha.... Não, Mãe, conta lá.

Licínia Quitério

A CIDADE

O cinzento opaco do céu escureceu a cidade anunciando o aguaceiro. Não tardou. Chuva grossa, pesada, apressada, tanta que a cidade não a conseguiu beber toda. Por algum tempo as ruas da cidade baixa fizeram-se leito de rios de águas escuras, gordurosas, a invadir as casas, a imobilizar os carros. Os homens trataram de expulsar a água das casas aflitas, de secar os rios de ocasião.


Cansado daquele grande choro, o céu foi clareando, primeiro quase a medo, logo logo mostrando amplos rasgões de azul. Era a bonança.

Nas colinas, a cidade, ali escorrida e quase enxuta, movia-se, na sua cadência de todos os dias. Foi quando reparei na couve e nos girassóis e no alecrim crescendo em torno da árvore, e na rede protectora da horta-jardim. Mesmo ali, no meio do passeio, olhando a Sé lá ao fundo e o vinte-e-oito que sobe que desce que sobe que desce. Matreira, esta cidade das couves inesperadas, perto, muito perto do Pátio do Carrasco, envergonhado, espreitando a garridice das Portas do Sol. Não há chuva que lhe tire esta ironia, este sorriso malandro que nos atira em cada esquina. E eu gosto dela assim.

Licínia Quitério

A SALAMANDRA

A minha salamandra envelheceu. A pele enrugou, as articulações desgastaram-se. Já não aguenta o lume. Não admira. Foi uma longa vida de serviço à casa e a quem a habitou. Através do vidro, deixava ver o fogo e o seu bailado de chamas rubras. Espalhava pela casa um calor bondoso que punha mansidão nas falas e brandura n...os gestos. As paredes ainda conservam memórias dos serões da salamandra, como foram chamados. Ali permanece, com a elegância de uma velha senhora que tem um longo passado de horas calorosas e histórias desses tempos que conta a quem as quer ouvir.

Licínia Quitério

CHOVEU

Choveu. Eu dormia e a chuva caía. Quando abro a janela há um cheiro bom de terra molhada. A malva-rosa enxuga as lágrimas. Os espargos parecem quebrar de tão tenros. Os mal-me-queres estão tristes, de corolas fechadas, zangados mesmo. A gata recusa o passeio matinal. Volta a ronronar, sem preocupações de relógio ou calendário. Eu inauguro a viagem assinalada no mapa do dia. Brinco às escondidas com um sonho antigo. Quem sabe agora? Quem sabe nunca?

Licínia Quitério

O BANCO

Que faz ali aquele banco? Por detrás tem uma bonita sebe e pela frente, mesmo à beirinha, uma rua antiga e estreita onde passam carros. Que se pode fazer sentado naquele banco novinho em folha? Ler? E o barulho dos carros zz zzz! Conversar com alguém? Porquê ali, de cabecinha ao sol, mesmo rente à rua zzz zz? Um banco destes tem de fazer parte da história da terra. Tem de receber os velhos a procurarem a sombra, tem de sentir os pés das crianças traquinas a empoleirarem-se-lhe nas costas, tem de ouvir segredos de namorados à noitinha e conversas banais dos que a ele se encostam porque não têm tempo de se sentarem. Um banco em lugar público tem de ser a extensão da cadeira de lona do nosso alpendre, um cúmplice do nosso olhar sobre a pele dos dias. Verdade, verdadinha, nunca vi ninguém sentado neste banco. Foi por isso que não tive pudor em fotografá-lo.

Licínia Quitério




31.8.10

CRÓNICA DO CALOR

Vem a propósito do calor. Não um qualquer calor de Verão. Um calor perturbador, ameaçador, persistente, viscoso, que pede líquidos e os bebe de um trago e de retorno dá mais sede e mais seca e uma moleza de mistura com uma raiva que escalda a mente e a pele desnuda. As mulheres, na esplanada frente ao rio, sonhando com mares distantes e muito azuis que lhes tinham contado serem lugar de férias de afortunados e de nativos desafortunados. O calor prende as falas, fazem-se frases curtas e truncadas de finais a adivinhar. Mesmo com a tarde a mais de meio, o casario da outra margem tremelicava, desfocado no retrato. Tempo perigoso este. Todo o cuidado é pouco com os velhos. E com as crianças. Mais uma imperial? Não me nego. É o que apetece. Os pardais, gorditos, não se alimentavam de sestas, mas das migalhas caídas por aqui e por ali. No paredão, mesmo em frente, um homem magro e tisnado de muitas estações quentes, pescava. Tinha as calças arregaçadas até aos joelhos, uma t-shirt desbotada onde ainda se podia ler o nome de uma marca sabida em todo o mundo, um boné com a pala virada para a nuca, lembrando jovens rebeldias. A seu lado, a parafrenália de baldes, de caixas de engodos, de anzóis, e até uma geleira. Pescador, paciente, esperançado e precavido. As mulheres das imperiais bem geladinhas, de copo embaciado, a escorrer condensações com que refrescavam as palmas de ambas as mãos, num abraço de breve alívio a seus ardores, olhavam repetidamente o pescador. Espiavam-lhe os gestos exactos, certeiros, o lançar da linha, o rodar do carreto, o acerto da inclinação da cana. Arte de gente solitária, diz-se. Também de gente que procura uma ceia a preço módico para a família. Peixe de babugem, muitas vezes, mas, bem amanhado e escalado, daria um petisco de truz. Que peixe fresco não tem preço para homem assim tisnado e de t-shirt de marca, desbotada. Nunca falaram dele, as mulheres das imperiais.  Era um homem fora do contexto, silencioso, contido, exposto à ardência da tarde, afrontando o mal-estar dos homens e mulheres que se abrigavam da calmaria, numa esplanada em frente ao rio, maldizendo o verão tórrido que ameaçava gentes, e florestas, e casas, e gado, e ajudava os criminosos na sua acção devastadora. Ali não cabia a tranquilidade de um homem que, ignorando o sol, tinha os olhos no rio que lhe daria uma ceia de fartura. Quando ele se retirou, com a geleira atestada de peixes grossos e miúdos, cana ao ombro e um sorriso fresco que  mais ninguém ali podia ter, houve um suspiro que perpassou a esplanada e fez fugir os pardais. Uma das mulheres, disse então, para quem quis ouvir. Isto devia ser proibido. Assim, sem mais explicações. A palavra proibido é sempre um refrigério para quem a pronuncia. Não obstante, o ar continuava denso, opaco, terroso, amargo. Se fosse possível proibir um calor assim...

Licínia Quitério

18.7.10

CRÓNICA DE DESVARIOS

Era nas tardes de calor que a podiam ver sentada na beira do lago, um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça, uma perna pendente a baloiçar devagarinho, as mãos sobre o colo, num abandono de sesta. Indiferente a quem passava, atenta aos peixes, nos seus movimentos rápidos, de sentidos imprevisíveis, provocando pequenas turbulências, remoinhos, ondulações, desassossegos na mansidão da água. Um movimento contínuo, silencioso, fresco. Via-os crescer, encorpar nas suas peles esverdeadadas, ou douradas, ou negras, ou vermelhas, ou feitas de muitas cores. Ninguém a conhecia. Passaram a chamar-lhe a senhora dos peixes. Nunca lhe ouviram uma palavra. Talvez fosse muda, como os peixes, e se entendessem na comum mudez. No fim do verão deixou de aparecer. O lago parecia mais triste sem a senhora dos peixes com o seu chapéu de palha e a perna baloiçando devagar. Ninguém soube explicar como no meio do lago nasceram duas hastes de bambu que cresceram muito segundo a sua condição de elegância e resistência. Uma delas, apenas uma, a meio da tarde, houvesse vento grosso ou aragem fina, bamboleava-se por uns instantes, devagar, para cá, para lá, enquanto os peixes descreviam círculos como danças em redor das torres finas, verdes, silenciosas. Ao crepúsculo, um olhar mais atento podia ver uma sombra projectada na fundura do lago, cuja forma, dizia-se, se assemelhava a um pequeno chapéu. Só os peixes poderiam desvendar os mistérios do lago, mas eles não falam e, se é verdade que não dormem, não têm sonhos, os peixes. Deixam essa tarefa para as senhoras que aparecem e se sentam e balançam uma perna e depois desaparecem quando crescem novas hastes de bambu.

Licínia Quitério

11.7.10

CRONICA DO QUOTIDIANO 2

Gosto de lá ir. Não é como no supermercado. A porta está sempre escancarada ao vento áspero da minha terra. Também não é a feira em campo aberto. Tem telhado e paredes sólidas. Não há azáfamas. Só umas pequenas pressas de um “pexinho” para cozer ainda para o almoço, dos pimentos para a sardinhada de domingo, de dois parrameiros para matar as saudades da amiga que virá passar a tarde connosco.

Vai-se à praça dar uma espreitadela. Da entrada, abarca-se com o olhar os tabuleiros mais distantes, semi-cerrando o olhar, aconchegando o casaco a afastar um súbito arrepio. O ar da praça, àquela hora da manhã, é lavado e fresco. “Ó senhora Estrudes, estas nabiças são de hoje?”. “Atão não haveram de ser, valha-a Deus. E olhe! Trazia quarenta mãos delas e só há o que vê”. “E quanto custa isso?”.“Por ser para si, e só para não dizer que as levo para casa, faço-lhe os dois molhos por trazentos escudos”. “Duzentos?” .“Traazentos”!, confirma, enquanto remexe os trocos no bolso fundo da bata e faz vaguear o olhar matreiro pelos ares, fingindo ignorar que ainda ali estou. Divirto-me com este toca-e-foge. “Não, não quero.”. Retiro-me devagar, dando-lhe o tempo preciso para me chamar. “Psst! Ó menina!” (Só aqui me chamam ainda de menina.). ”Leve lá por duzento xinquenta. Ai, isto não tá p’ra ninguém.”. Cumpriu-se o ritual do negócio. Na minha terra, como em qualquer Marrocos deste mundo.

Na praça está o Senhor Paulo que só tem um dente. Os outros foram ficando pela côdea do cascudo, pela coxa dura de roer da poedeira que deixou de cumprir. Faz contas de cabeça, com rapidez, sonorizadas por uma imperceptível ladainha. Acabado o exercício, afasta o boné para trás, coça o alto da cabeça com a unha negrita do dedo médio e atira o resultado com ar falsamente envergonhado: “Não sará assim?”. “É, claro. O senhor é uma máquina.”. Um sorrisinho de orgulho indisfarçado, os olhos em baixo. “Como um comportador?”. E o sorriso explode em gargalhada rouca e breve.

Na praça conversa-se, de lugar para lugar. É preciso enganar o tempo. “Ó priga, qué feito da tu mãe? Há canto tempo ná a vejo!”. “Tá rija e tesa. Tomara você e eu chegar à idade dela com aquela genica toda. Ah mulher dum sacana! Vai a caminho dos satenta e nove. Faz em Dezembro se lá chegar, se Deus Nosso Senhor quiser. Só lhe digo que inda onte mondou umas leiras de nabiças que só queria que você visse.”.

Na praça as freguesas encostam-se aos tabuleiros. Primeiro ao de leve, só a redondeza da barriga a roçar a moldura. Depois, perante o aproximar de uma conhecida, apoiam o braço, com firmeza. Ficam um bocadinho por ali, a falar. Dos achaques. “Com este tempo húmido, tenho andado à rasquinha aqui deste artelho. Atão na cama, mulher, nem queira saber, parece formigas a subir pela canela da perna. Os anos não perdoam. Isto tem andado mesmo bera.” Dos mortos. “Coitado, parece que vendia saúde, sempre com uma graça, inda a semana passada tive com ele nas Finanças.” .Dos pequenos escândalos. Aqui, a mão em concha encobre meia boca e da outra metade a fala jorra mansa, a prenunciar confidências, a fazer a outra aproximar discretamente o ouvido, a olhar para o chão e a desviar com o pé um recorte de folha de couve… “Isto é um perigo. Não é preciso mais para partir uma perna. Lagarto, lagarto, lagarto!” .Feito o esconjuro certo, não vá o Diabo tecê-las, vão ao que interessa: “Disseram-me há bocadichinho que a Nela… Sim, a Nela, a filha da Ti Canetas. Não conhece você outra coisa. Aquela que morava por cima do Xico da Jula. Ó mulher, como é que lhe hei-de explicar? Aquela que andou metida com o marido da Marimelinda. Pronto. Já tá a ver quem é? Tava a ver que não era para hoje. ”A curiosidade bem espicaçada. A conversa promete. A outra ajeita o travessão que lhe prende o cabelo já grisalho. “Quando era rapariga, tinha uma trança de cabelo a meter inveja a qualquer uma. Da grossura deste punho. Agora, é estas farripas que tão à vista. Ó mulher, vamos ali mais para aquele lado que a gente tamos a estorvar.”. Vão. Para ficarem. Longamente.

A praça é assim. Não é como o supermercado. Ainda há tempo para dois dedos de má língua. “Ora, tudo faz parte da vida! E, a bem dizer, isto não é dizer mal de ninguém. Se não for verdade, estou a vender pelo mesmo preço que comprei.”.

Na praça não há artigos empacotados. O senhor Joaquim tem o tabuleiro tão desarrumado que a rama das cenouras espreita por entre os nabos e os limões. Mas, se procurarmos bem,( “Prècure a senhora à su vontade!”), por baixo de toda aquele emaranhado, encontramos umas beterrabas gorduchas. “Já me têm dito que faz bem ao saingue. Dizem, que eu cá disso não sei nada. E não quer também um pipino? Olhe que lindo!”.

Na praça não há cogumelos, nem rebentos de soja, nem papaias, nem tarambolas. Nomes e cheiros que nos chegam de longe. Mas, no tempo certo, na praça aparece planta de tomateiro e cebolo. Para dispor, claro. E flores! Não, não são as das floristas. Segadas com a foice da erva para os coelhos. “Sim, senhora, dou erva aos meus. Tá visto que comem reção, mas só p’ra variar. E a carne fica logo com outro sabor.” Ah, sim, as flores. Todas juntas, à laia de natureza morta em quadrinho de feira. Um ramalhete de rosas, de mistura com uns agapantos, uns malmequeres. “Quer uma pernadinha de zipsofila? Fica muita bonito com as rosas. Pronto, a senhora só leva o que quer”. Tudo borrifado. Foram apanhadas bem cedinho e metidas em garrafas de plástico cortadas a meio. “Dálias? Nã senhora. Tenho-as lá em botão. E é cada um! Lá p’ra semana, ou p’ra outra, já as tenho abertas. Sim, daquelas dobradas. Lindas!”.

No supermercado não há fruta com bicho. Na praça ainda há. É sinal que não levou produto. “Palavra. Coisíssima nenhuma. Disto pode a senhora levar à confiança. Até se dá às criencinhas. Os meus netos não querem outra coisa. Tadinhos. Lá em Lisboa na apanham disto. Olhe este pêro vermelhinho. Feio? Doce comó mel. É o que lhe digo. P’ra qué queu tava a enganar a senhora? Já não quer os limões? Prontos, eu desarrisco. Todos os males fossem esse.”.

Na praça há sempre falta de sacos de plástico. Bastas vezes, são as freguesas que os juntam em casa e os levam aos fornecedores do costume. “Obrigadinha! Que Deus lhe dê saúde e a mim que não me falte.”.E assim se sai da praça com as compras em sacos exibindo logotipos das grandes superfícies de venda. O mesmo para os ovos. “Quando a senhora tiver lá caixinhas, não as deite p’ro lixo. Se se alembrar traga, que a gente tem sempre precisão.”. A praça vai assim promovendo a reutilização. Não protesta contra os gigantes da concorrência. Aceita-os com conformismo e aproveita-lhes os despojos.

Na praça não se compram ervas aromáticas. A salsa, os coentros, a hortelã, muitos pés com raízes e terra húmida agarrada, são dados, como brinde, aos fregueses bem comportados. Talvez por isso, quase nunca estão à vista. Debaixo ou por detrás dos tabuleiros, meio tapados. Só para quem merece. “Que ele há para aí umas madamas com ares de que todos lhes devem e ninguém lhes paga. Coitadas. Umas cagonas, desculpe a senhora. Vai-se a ver, umas pelintras que não têm onde cair mortas. E a porem defeitos em tudo, com ar de enjoadas. Para essas, não há nada. Nadinha. Prefiro migar tudo e dar aos animais. Isto que a senhora aqui vê é cebola para aturar uns tempos. Qual da Espanha! Essa, a senhora pode pagar menos, mas não vale nada. É o que eu lhe digo. É reles, reles a valer. Esta é da nha horta, quer dizer, da horta do mê filho. Não, na é ele que amanha. Ele tem outras vidas. A gente nova hoje já não quer saber da terra pra nada. Agora é tudo dòtores. Também tou de acordo, sim senhora. Saber mais nunca fez mal a ninguém. Eu cá sou um estúpedo. Não conheço uma letra do tamanho do convento.” O Convento é inevitavelmente o padrão de medida para quem lhe conheceu a sombra. “Cá me tenho governado. Claro, também sei muita coisa que os mais novos não sabem. Mas isso é a senhora que pensa assim. Adiente. Faço a continha ou leva mais alguma coisa?”.

Na praça as conversas são sonoras, sincopadas, metafóricas, vivas. Têm o cheiro agridoce dos coentros e alguma mordacidade das malaguetas. Nascem do pó da antiga linguagem camponesa. Denunciam amiúde a sedução pelas telenovelas brasileiras. É quando as línguas se soltam e os gestos ganham algum nervosismo. “ Aquilo é tudo uma fantochice, mas distrai a gente. É melhor que tar a ver desgraças. Era escusado era mostrarem tanta desavergonhice. Se eu alguma vez na nha vida pensei ver coisas daquelas. Ó Joana, na viste onte aqueles na cama? É pessoal, até fazia faísca!”. Dura pouco o desvario. “Isto é o fim do mundo, é o que eu te digo.”.

Na praça percorrem-se velhos caminhos que nos trazem à memória a espessura do caldo de grandezas e misérias que incorpora a nossa mais profunda ruralidade.

A praça é bem diferente do supermercado. Gosto de lá ir. E de a ouvir.


Licínia Quitério

Nota: Esta crónica foi escrita há uns anitos, antes da criação da ASAE. Muita coisa já mudou. Fica o registo.

9.7.10

CRÓNICA DO QUOTIDIANO

Assomou ao patamar dos degraus de mármore que davam acesso ao piso inferior. Deteve-se por instantes.

Havia um número considerável de fregueses na zona do peixe fresco. Um vozear de mulherio percorrendo as bancadas, avaliando tamanhos, preços, grau de frescura. Pareciam muito zangadas as mulheres, não encontravam o que queriam e já iam na segunda volta. Poucos os homens, esses calados, dando só uma volta. Os vendedores gritavam, uns para os outros, com vozeirões de sotaque de mar, arrastado. O chefe dos vendedores, tinha de ser o chefe, distribuia ordens a torto e a direito e respondia de vez em quando, só de vez em quando, a perguntas dos fregueses. Era um chefe que trabalhava muito, tanto que nunca parava de arranjar peixes grandes, médios, pequenos. Tinha uma faca enorme com que os cortava, batendo-lhes com a lâmina, sem olhar, com desprezo, acertando quase sempre. Antes do corte, era a escamação feita igualmente sem olhar o peixe, como quem os sabe todos de cor. Arrepiadas pela ferramenta de longos bicos, como pregos, as escamas saltavam, espalhavam-se, polvilhavam tudo em redor como vidrinhos baços. E subiam bem alto algumas delas, a avaliar pela quantidade que forrava o boné do chefe, um tanto descaído para trás de modo a que as melenas dianteiras também fossem ocupadas pelos vidrinhos. Escamados e cortados, os peixes eram atirados para um tanque de água, ligeiramente afastado do chefe que nunca saía do seu lugar. De vez em quando a água saltava, transbordava, salpicava a freguesia que dizia em coro: “Eh lá!” e dava um pequeno salto à rectaguarda.

Era esse o momento de acalmia por que esperava para descer a escada. Certeiro. O chefe viu-o, abriu os braços, sem largar a escamadeira, o peixe descansando sobre a bancada, e atirou no seu tom mais alto: “Olha o senhor Alcides. Olha o senhor Alcides. Já tínhamos sentido a sua falta.”

O senhor Alcides trazia dois sacos enormes e o chefe arregalou os olhos para eles. Parado a meio da escada, bem olhado agora por quase todos os compradores. “Estou de volta, amigo”.” E bem, a ver pelo aspecto, senhor Alcides”.

Terminou a descida, sorridente. “Aquilo é outro mundo, Amigo! Outro Mundo!” “Não leva a mal se perguntar aonde?” “Na República, na República.” Os olhos do chefe, por entre as escamas, eram duas interrogações. E o Senhor Alcides, perante a ignorância óbvia, explicitou: “Dominicana, Amigo. Há outra?” “Claro”, disse o chefe. “E peixinho há por lá muito?” “Se há! O Amigo pode não acreditar, mas falámos  em si muitas vezes por causa disso.” “Então valeu a pena?” “Se valeu. Aquilo é outro mundo, outro mundo, digo-lhe eu.” “E então o que é que vai hoje, Senhor Alcides?” E passou à frente de todos os outros fregueses portadores de sacos pequenitos.

Um homem viajado, o senhor Alcides. Tinha estado na República. Fregueses daqueles contavam-se pelos dedos de uma mão. Tudo o resto, uma pelintragem, voltas e mais voltas para levarem pouco e baratinho. Forrado de escamas, o chefe aviava o senhor Alcides do bom e do melhor e ia pensando: “Raios me partam se um dia não vou também à República. Quando voltar nem me conhecem”. Com o antebraço tirou uma escama que lhe saltou mesmo para o olho direito. “E hei-de dizer bem alto: Aquilo é outro mundo, outro mundo.”

Mesmo por entre as escamas, um homem pode ter sonhos de viagens.


Licínia Quitério

30.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 3


A senhora chegou com a cadela muito grande e muito velha. Disse-lhe Senta, Santa! Senta, Santa! e depois para quem estava nas outras mesas da esplanada Está surda, coitadinha. E gritou Senta, Santa! A Santa sentou-se. Depois a senhora disse para a empregada Que bolos tem? A empregada ficou calada, a pensar. E a senhora disse Tem bolos de arroz? E a empregada disse Não! mais com a cabeça do que com a fala. A senhora continuou Tem queques? A empregada disse Sim! com a voz. A senhora disse Então traga. E um chá. Tem chá de quê? A empregada disse dois ou três nomes, em voz baixa. E a senhora disse Esse mesmo. Traga. A Santa continuava sentada. Antes da empregada chegar à mesa, a senhora gritou Nunca mais cá venho. Chá numa caneca. Não. E preta. Isso é que nunca. Que horror! A empregada parou com a caneca preta na bandeja. A senhora disse Ponha aí. Eu vou beber, mas fique sabendo que não volto cá. Um chá deve vir em cafeteira. A empregada disse Eu trago outro chá. A senhora disse Não. Hoje bebo assim. Segundos depois gritou Que horror. A água está morna. Não sabe a nada. E disse para a mesa do lado Não ferveram a água. Eu tenho de dizer. Para aprenderem. A empregada ouviu, foi lá dentro e quando voltou trazia um chá a ferver num bule de metal. A senhora arreganhou um sorriso e disse Pronto. Está bem. Assim é que é. Quando começou a vazar o segundo chá na nova chávena, disse Apre! Assim também não. Desviou a perna para não ser queimada pela água que escorria antes da chávena. A Santa deu um grito de cadela com dor, levantou-se e correu até ao fim da trela. A senhora gritou Nem oito nem oitenta. Santa, meu amor, senta! Nunca mais cá venho.

Licínia Quitério

7.6.10

CRÓNICA DE DESPERTAR 2


Acordei tarde e o dia fez-se parco e o desatino das horas foi a tontura do quarto em desalinho, do sol já alto cravando uma lança de oiro no soalho.  No silêncio da casa uma censura pela ausência do matinal concerto do chiar dos gonzos das portadas, do arrastar dos passos na rotina dos lugares onde mora o aroma do café, a garridice dos amores-perfeitos, o prato do comer da gata miando pela fome prolongada.
Ligar o computador e dar uma vista de olhos ao correio, ao resumo das notícias que pela tarde chegarão, com os seus pormenores bastas vezes devassos e sórdidos.
Preparar um dia não é tarefa fácil, tanto mais quanto o sono o encurtou. Viver a vida não é tarefa fácil, tanto mais quanto o tempo a encurtou. O que nos vale é ter havido um poeta que nos disse do sol, da poesia, das danças e os outros que, mesmo sem o dizerem, alimentam seus versos do riso ou do choro das crianças.

Vou viver tudo o que tenho até ser noite. E é muito ainda. Amanhã falaremos melhor.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE DESPERTAR

Em que estou a pensar? Perguntam-me ao despertar. Poderia responder: em nada, como se nada fosse nome de coisa em que se pense. Melhor dizer: em muitas coisas, tantas que se apresentam como uma massa informe, parecida, lembrei-me agora, com um pão de sementes antes de ser cozido. É isso. Estão a ver? Uma mole de farinha e água, a tomar jeito, pespontada aqui e ali por grãozinhos de cereais. Farinha foi a noite e os sonhos muitos, incoerentes, difusos, como se querem os sonhos. A noite ainda aqui mora, mas os grãos de ideias multiplicam-se, colidem, atrapalham-se, procuram os seus lugares no dia.
No páteo, um leve zumbido de insectos para a colheita do néctar divino. Há um diálogo de cães, na vizinhança. Que dirão? Fome, sede, amor pela cadelinha branca que os provoca? Tomo o meu café, negro, quente, amargo e só então dou os bons dias a mim mesma. Como quem diz: A moleza por hoje acabou. O dia espera-te.

O céu está azul, imaculado, mas, vinda dos lados do mar, anuncia-se uma neblina que talvez à tarde se diga frescura. Como é costume neste mês de rosas, mas também de caprichos e incertezas.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE PERMANÊNCIA


Havia um relógio na parede, com um cavalinho a encimá-lo. Talvez tivesse uma patinha dianteira erguida, já não sei bem. O balançar do pêndulo hipnotizava-me. Não conseguia desviar os olhos daquele disco dourado, lavrado de arabescos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E a menina que eu era entristecia, como entristecem as meninas, levemente, sem demoras. Logo, logo, se abria uma luzinha nos meus olhos. Na mesma parede, um de cada lado do relógio tic-tac, um azulejo de loiça branca, com uma cara de gato preto. Cara, sim, que os gatos sorriem e só sorri quem tem cara. Ao pescoço uma coleirinha amarela, com um guizo pendente, da mesma cor. Por detrás do gato havia umas folhas verdes que eu imaginava serem de couve e que nunca entendi muito bem para que quer um gato a companhia de uma couve. Iguaizinhos, nos seus baixos relevos brilhantes, lá estavam eles, um de cada lado do tic-tac. Sempre esperei que um dia virassem ao de leve as cabecitas e se olhassem, como se um deles fosse apenas espelho, o que nunca aconteceu. Muitos anos passados, já sem a avó nem o relógio tic-tac, um deles continua comigo. O outro seguiu caminho diferente, vive noutra casa. Por isso deixei de esperar que voltasse a cabeça para olhar o outro como se fosse um espelho.
O certo é que, ainda hoje, quando sinto que a tristeza quer chegar porque algum tic-tac soou no meu coração, olho o meu gato preto, com seu guizinho dourado e sorrimos, frente a frente, como mulher e gato que se conhecem, se adivinham.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 2


Foi uma pequena semente, espalmada como uma minúscula folhinha. Deitaram-na em cama de terra fofa e com a mesma terra a ocultaram. Precisava de um sono tranquilo, prolongado, com sonhos de álacre grandeza.
Da pequena semente foi saindo um corpito decidido a enfrentar o que quer que houvesse do lado de cima, do lado de lá da cama de terra.
Quase cegou quando chegou à luz que tudo banhava em seu redor. Deitou-se a medo no chão que sentiu firme e húmido e logo decidiu crescer e alongar-se em viagem, numa profusão de corpos verdes e de grandes folhas, cada dia maiores. O sol escaldava e pedia vida, muita vida. Respondeu ao pedido e, ao abrigo das grandes folhas, fez-se também flor, tomando a cor do ar quente em seu redor. Flor que nasceu para ser mãe.
E enquanto os seus braços cor de ar quente se encolhiam, se anulavam, um filho lhe crescia, de verde pequenino à ousadia da cor do próprio sol que lhe sorria. Os filhos crescem para ganhar o longe e assim ele partiu, esplendoroso, ganhando mundo para um dia o perder.
Quando o vemos, na madureza da idade, não recordaremos a sementinha que foi, mas aplaudiremos o triunfo do sol, redondo como ele, ardente assim na sua cor de fogo.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 1


Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.

Licínia Quitério

CRÓNICA DAS LONJURAS

Não tardaria aí o minuto de comer as passas, de beber o espumante, de subir para a cadeira, de beijar os amigos, de apitar as gaitas, de bater latas.
A mulher afastou-se discretamente do ruído da sala de festa e foi à varanda. A noite fria, húmida, serena. Iluminações festivas nas ruas ao longe, que aquela ainda guardava o nome de azinhaga e luzes só as das janelas. Na antecipação da explosão, faz-se um silêncio. Breve, ansioso, quase dorido.
Foi esse tempo que o homem aproveitou para se passear pela azinhaga deserta de gentes e de carros. Era só um homem no escuro da rua, que a claridade começava à altura de dois pisos. Com andar desengonçado, sinuoso, falava alto para o telemóvel bem encostado ao ouvido direito. O sotaque de africano falando português, de vogais bem abertas. “Que saudades, maninho. Tou bem. Tou bem. Beijo na Jessica, mano. Tudo bem. Tudo bem.”
Na TV da sala ouvia-se a contagem decrescente: “…cinco…quatro…três…dois…uuum!!”
O homem deu uma gargalhada e desapareceu ao virar da esquina. Dobrara o cabo do ano. A rir, ao telefone, com o maninho num outro continente.
A mulher continuou à varanda e viu o fogo de artifício romper o céu. Novelos de luz, flores de cor, lágrimas descendentes. Uma delas reflectiu-se-lhe no rosto. Como se pedisse guarida. “Tudo bem, maninha. Tudo bem.”


Licínia Quitério

6.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 2

Pelo modo como ela disse Posso? e puxava já uma cadeira, deviam ser conhecidas, mas não muito íntimas, que a outra respondeu Faça favor. A conversa das mulheres desenvolve-se com maior fluidez do que a dos homens.

Eles precisam de ter um jornal aberto, de preferência desportivo, para que o assunto se apresente e ganhe cor. Se a televisão estiver ligada, comentarão o programa a que ambos não ligam nenhuma. Lá a patroa é que sabe disto, nomes dos actores, quem anda com quem, vem tudo naquelas revistas cheias de mulheres boas na capa e outras, diga-se, umas carcaças cheias de cremes ou gel, ou lá o que é. Tudo gente fina e cheia de grana, o que lá vai por trás é que não dizem. Isto é tudo uma falsidade, é o que é. E aquele gatuno do árbitro do jogo de ontem? Gatuno, não é bem assim. Não? Então não estava à vista de toda a gente que foi mão do Nequinho? Não? É porque você não viu o replay. Está lá, clarinho como água. Gatuno e vendido. Espere pela pancada. Um dia destes alguém perde a paciência, mete a boca no trombone e você vai ver. Sim, não me admirava. Há jornais que vivem dessas fofoquices. Depois não dá em nada, mas entretanto vão fazendo esticar o assunto e é ver as vendas a subirem. Não variam muito as conversas dos homens que se encontram por detrás duns jornais e que não têm nada para dizer um ao outro. Ter até tinham, mas pieguices dessas são para mulheres. Sempre a queixarem-se, da saúde, dos preços, dos filhos, deles, maridos, que não as ouvem. Mas quem é que tem paciência para aquela lenga-lenga? Quando a minha está virada para aí, ala que se faz tarde. E agora por isso, estou no ir que o almocinho já deve estar a chamar por mim. Até amanhã. E, olhe, não tenha dúvida que foi mão. Estou a gozar consigo, homem. Bom apetite.

Com as mulheres é mais fácil, mais variado. O que é que toma? Um abatanado. Para mim é bica normal. Já sei que anda à procura de emprego. Não está fácil, pois não? Nem me diga. Na minha idade ninguém me dá trabalho. Ainda sou nova, diz a Alda? Já passei dos quarenta, pois. Olham para mim e perguntam: O que foi o seu último emprego? Quando lhes falo do instituto de massagens, franzem logo o nariz. Terapeuta ou dessas de estética? Como se as de estética não tivessem a categoria das outras. Diploma não tenho. Também nos sítios por onde andei ninguém mo pediu. O melhor diploma tenho-o aqui nas costas que isto de passar horas a fazer assim. E arqueava as costas e esticava os braços sobre a mesa, em flexões síncrones dos pulsos. A outra olhou em volta e disse, a fazê-la parar a demonstração. Pronto. Já percebi. Agora tinha uma promessa vaga de tomar conta de crianças nessas coisas dos tempos livres. Seria bem bom, seria. O meu marido? Esse está em grande. O que ganha é para ele e eu que me vire. Foi, foi sempre assim. Só pensa nele. Tem um trabalhito leve, desses com computadores, que ele de parvo não tem nada. E uma saúde de ferro. Ainda agora foi fazer exames de rotina, que ele tem um medo de morrer que deus me livre, e não quer saber a Alda os resultados? Não, muito pelo contrário. Tem tudo bom. Nem uma pontinha de colesterol, a tensão é óptima, até a próstata está como deve ser. Bom, uma ova! Isto anda tudo muito mal distribuído, é o que lhe digo. Mais nova uns anitos sou eu e já tenho uma data de mazelas. Elas não matam, mas moem. Bom, tenho que ir andando que se ele chega e o almoço não está na mesa, está bem, está, temos trombil para o resto do dia. Senta-se a ver o jogo na televisão e conversa nem eu. A porcaria do jogo é que interessa para amanhã ter que falar com os amigos. E desculpe lá estes desabafos, Alda, mas nós mulheres temos de ser umas para as outras. Até amanhã se Deus quiser.


Licínia Quitério

17.5.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 1

Reformados já há um bom par de anos, a vida os juntou naquelas mesas de café onde, diariamente, salvo à segunda-feira que era dia de fecho, tomavam os seus lugares cativos, tacitamente aceites. Parecia que se davam bem, se atendermos à convergência de opiniões sobre o rol de assuntos que desfiavam, ao mesmo tempo que, jornais abertos sobre a mesa, iam comentando “as gordas”. A maior parte deles tinham sido militares de carreira, com postos a meio da tabela, que as habilitações literárias mais não permitiram. Tinham feito a guerra que lhes dera a conhecer várias Áfricas. Ao mais velho de todos, o Silvino, até outros continentes. Da guerra, propriamente dita, raramente falavam e, mesmo assim, em frases curtas, sem lugar a prosa continuada. Eram unânimes em achar que os jornais mentiam, que a televisão era uma vergonha, que “Da maneira que isto está, já nada me admira”. Mas admiravam-se quando a mocinha que os servia, loira, com rosto de loiça, vinda lá detrás da cortina de ferro, lhes falava da história de Portugal, a antiga e a recente, com a mesma naturalidade com que perguntava: “Para o senhor é mal cheia, como de costume?” Não a contradiziam, apenas apuravam os ouvidos, uma interrogação nos olhos, uma ligeira subida dos ombros. E gostavam muito da maneira delicada com que os tratava. Incomodados ficavam quando um casal jovem, ela de pele branca, a dele de cetim negro, de mãos dadas, tomavam um breve pequeno almoço, de pé, ao balcão. Só retomavam a conversa depois deles sairem. O mais falador dizia: “Sem comentários”. E as falas prosseguiam, os tons das vozes elevando-se. De verdade, ninguém estava interessado em ouvir. Achavam todos, muito secretamente, que tinha chegado o tempo de serem ouvidos. Falavam pouco dos achaques, daquele joelho a pedir canadiana, daquela vesícula preguiçosa, mas tudo rápido, com uma graçola, do género “Coisas da juventude. É o que é.” Quando algum faltava, avisava os outros: “O Custódio telefonou a dizer que não vem. Passou mal a noite.” Sobejamente informados, ninguém perguntava pormenores. “No tempo da minha mulher”, referia amiúde o viúvo, sem sombra de emoção na voz, a expressão servindo apenas para localizar no tempo devido a acção a desenrolar. Houve mais dias em que o Custódio faltou. Estava internado. “Não tarda está cá fora. Esta cambada quer é despachá-los”. A cambada eram os médicos, os enfermeiros, os porteiros, os taxistas, os dos partidos, todos iguais, os do governo, uns gulosos. Só o Artur uma vez se atreveu a dizer que tinha conhecido um político honesto. “Quem? Quem?” E os olhares eram ameaçadores. Arrependeu-se logo e inventou um argumento esfarrapado. “Propriamente eu não o conheci. Foi o meu cunhado que me disse.” “Ah e tu acreditaste? Não venhas agora armar em ingénuo. Qualquer dia acreditas que o Sporting vai ser campeão.” Eram todos do Benfica, excepto o Custódio que, por sorte ou azar, não estava presente. O Inverno já ia a meio, o reumático fazia-se sentir, “heranças de quem andou por esse mundo a dar o corpo pela Pátria”, como bem dizia o Silvino. Inesperadamente, numa manhã de sol envergonhado, o Custódio apareceu. “Então homem? Já estás rijo?” Senta aí. Queria saber novidades. “Tudo velho, tudo velho. A não ser a minha neta que arranjou novo emprego. A cambada lá achou que a rapariga é competente.” O Custódio saiu mais cedo, tinha que ir levar uma injecção. O Silvino disse. “Está mais magro.” “Magro e verde”, explicitou o Artur. A Primavera anunciou-se e encontrou-os nas mesmas mesas, com os mesmos jornais, a mesma bica mal cheia para o Silvino. Faltava o Custódio. Chegou novo conviva, acabadinho de se aposentar das Finanças, um homem exuberante, de voz aflautada que também odiava a cambada. “Sente-se aí, homem. Era o lugar do Custódio. Foi-se.”

Licínia Quitério

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