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11.12.10

ESCRITA CRIATIVA

TEMA

Parecia estar ali há séculos, sempre com a indiferença dos que já não ouvem palavras de esperança há muito tempo, mas os seus olhos brilhantes eram um convite. Sentei-me.

Dei-lhe a mão e isso foi como se lhe abrisse uma torrente de palavras:
— Sabes, eu...


DESENVOLVIMENTO

... já tive uma mão como a tua. Tão linda, parece de seda. Pois, acreditas. Que bom! Sabes, às vezes julgo que fui sempre assim, velha, feia, com esta pele que sobra por todo o lado. Feia, sim, minha filha. Bonito é ser como tu. Novinha, brilhante, sempre a correr, a rir alto. Não reparas que os velhos já não riem? Abrem a boca, desdentada como a minha, e deitam cá para fora uns barulhos. Sorriso bonito, o meu? É dos teus olhos, amiga. Há tanto tempo que não me seguravam na mão. Nem me olham. Aparecem por aí, muito atarefados, deixam alguma coisinha e vão-se embora sem me verem. Sim, sem me verem. Não fazem por mal, coitados. É a vida. Têm sempre muito que fazer. Sorte tenho eu que vêm cá uma vez por semana. Há aí outros velhos que ninguém visita. Se calhar não estão cá. Ou já morreram todos. Não, filha. Eu não preciso de nada. Os velhos só precisam de ir embora. Maçamos muito os novos, coitaditos. Somos um estorvo. Um estorvo, é o que te digo. Ah esta minha cabeça. Estava a mentir-te. Os velhos precisam muito de sol. Aqui está sempre tão escuro. Talvez seja das cataratas. Deve ser. Mas, filha, não é desse sol. Eu não me sei explicar, fui sempre uma burra. De qual? Daquele que tu trazes na mão e me dás agora. Assim. Assim mesmo. Tão quentinho. Tão macio. Percebes-me? Estou tão contente. Volta, sim. Fico bem, não te preocupes. Vou guardar o teu sol no meu bolso. Quando voltares trazes mais? És um anjo. O anjo do sol, minha querida.


Licínia Quitério

foto da net

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