25.9.16

AS ESPLANADAS


Contar, espalhar, aclarar, elucidar, esclarecer e ilustrar, explicar, dissertar, alumiar, clarear, clarificar, dealvar - sinónimos que os dicionários recolhem do verbo esplanar. Consulta que me ocorreu ao verificar que muitas fotografias tenho tirado a esplanadas nos territórios das minhas deambulações ociosas.
As esplanadas esclarecem, ilustram, tempos de paragem no vai-vem das urbes. Nelas se recostam, se alongam, pessoas subitamente serenas, contemplativas, recolhidas no meio do bulício. Conversam, também, com companheiros de vida ou de ocasião, sem largos gestos, sem altas vozes, cuidando de recato porque se sentem em montra, guardando-se de intimidades com os das outras mesas.
Os das esplanadas fotografam os passantes que por sua vez os registam com máquinas cada vez mais pequenas, cada vez mais discretas, cada vez mais devassantes.

Penso as esplanadas como lugares de paz para gente como eu que gosta de se sentar, olhar em volta, fazer nada, dizer nada, esse nada que é preciso para que o mal não aconteça.

Licínia Quitério

21.9.16

FOI BOM


Foi no tempo em que fumávamos muito e bebíamos o que nos apetecia e amávamos quem queríamos amar, e depois de termos calado tanto nos sentávamos à mesa, e conversávamos noite dentro, e falávamos já de tudo o que iríamos perder porque sabíamos que alguém iria puxar a toalha da mesa e fazer tombar os copos. No entanto, sorríamos muito. Foi bom, porque ainda hoje aparecem fotos que fixaram esse tempo, ou a poeira que dele guardamos.

Licínia Quitério

20.9.16

COISAS VELHAS







Coisas velhas, antigas, gastas, feridas pelo tempo, pela desatenção, preteridas pelas novas recém-chegadas, com outro brilho, outra utilidade, outros desenho e cor.
Nas mudanças de casa, nas mudanças de gente, escaparam à devora de usurários e ao lugar dos lixos. Foram-lhes concedidos sótãos esconsos, gavetas, arcas de memórias. Quando chegaram até mim, procurei-lhes as feridas, tratei-as como pude, fui espreitando as marcas que me contassem histórias de outro tempo, de outra gente. Por vezes tive um certo pudor em as modificar, em lhes dar novos casamentos, lugares impróprios para a função.
A máquina de costura não devia ter ficado num corredor sem janelas, mas há tanto tempo que ninguém cose nela.
A litografia da menina com o crisântemo e a foto do antepassado trocaram de molduras, a dele mais sóbria, de acordo com o olhar severo, a dela, dourada e romântica, fica-lhe a matar.
A mesa de cabeceira foi despromovida por falta de cabeceira, mas suporta um vaso com planta viva, para lhe dar novo alento.
A cadeira, coitada, já não oferecia segurança a quem nela se sentasse e tinha rugas, manchas da provecta idade. Dei-lhe um banho de azul, rejuvenesceu, sustenta com garbo antigas toalhas rendadas e um búzio que lhe dê um sopro de mar.
Pelas gavetas foram encontradas frivolidades de pano e linha, lenços que enfeitaram lapelas de damas e cavalheiros, luvas e golas de menina, roupinhas minúsculas que sobraram de enxoval de criança, e mais e mais peças confeccionadas por mãos de fada, rendeiras, bordadoras, trabalhos exímios de mãos de mulheres. Hoje estão todas juntas num quadro com moldura de madeira em que fixei uma chapinha de metal a dizer em letra cursiva “Modas e Bordados”.
São tesouros, são bagatelas, são vida que gosto de contemplar, afagar, numa linguagem entre tempos que só os velhos entendem.

Licínia Quitério


12.9.16

MULHERES



Encontrei-as na mesma praça, em planos distantes, estas mulheres celebrantes e celebradas, umas dizendo das artes, outra da resistência ao invasor. Trouxe-as comigo. Mulheres.

Licínia Quitério

LUGARES


Há lugares assim...

perdidos na substância do tempo, lugares-fronteira, carregados de presságios, de ajustes de contas, de deuses enfurecidos, iguais aos homens, iguais.

Licínia Quitério

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