18.8.14

QUE SABES?


Que sabes que não nos contas?

Quantos amores te viveram?
Quantas dores te confessaram?
Quem escondes nessa cortina?
Quem a porta entreabriu
e nunca mais a fechou?
Tens o número primeiro
daquela rua enrugada
como a pele da tua face
outrora lisa e corada.
Quem te mora vai sobrando
o lampião esmorecendo
a ruína se oferecendo
ao passante que pressente
a dor dos ossos da casa
a dor dos ossos da gente.

Licínia Quitério

15.8.14

ESCREVER




Uma pessoa faz a vida com tudo o que lhe cabe fazer, tem gostos, desgostos, desejos, frustrações, amores, desamores. No fundo de uma certa gaveta, vão adormecendo escritos, versos, desabafos, ficções, uma amálgama de letras, de palavras, em desordem, em revolta. Depois de tudo, surge na sua frente um tempo breve que precisa de preencher, de justificar, de enfeitar com o melhor que lhe ficou. É um tempo de desassossego, de atrevimento, de interrogação, de desacerto, uma vez mais. Pode então acontecer que encontremos quem nos faça um pequeno aceno e nos ponha ao de leve a mão no ombro, a dizer: Vai, continua, és poeta. Acreditamos na sinceridade, mas não na nossa capacidade. A verdade é que tudo começou nesse instante. A gaveta foi remexida, a escrita cresceu, fez-se hábito e vício. Os livros foram aparecendo, outros talentosos amigos elogiando, dando força. Cada vez são mais e a minha gratidão é infinita. Não desejo nada além de bons leitores, por poucos que sejam, e tenho-os, fiéis e generosos. Se ainda houver tempo, outro ou outros livros aparecerão. Se não, sou já uma mulher feliz que pegou na memória dos sentidos e, de pé sobre o silêncio, alongou o seu tempo breve, nomeou os seus sítios e assim vai preenchendo o espaço ainda livre do seu disco rígido.


Licínia Quitério


ESCADA DO TEMPO



Escada do tempo. Esteve sempre ali e estará. Foi o que pensei. Não a subi, não a desci. Pareceu-me ver um druída, com a sua foice de oiro, que a chuva miúda fazia crescer o gui. Regressei. Os seres da floresta precisavam de silêncio.

Licínia Quitério

AH A FAMÍLIA!


Era um tipo comum, mais do que seria desejável numa sociedade que preze a seriedade, o bom senso. Era bom profissional do seu ofício, dedicadíssimo aos patrões, melhor, fidelíssimo, acérrimo defensor se alguém a eles se referisse com irreverência ou mágoa. Dizia para quem o queria ouvir que gostava mais da empresa do que da sua família. Talvez levado por um copito a mais, num dia em que um patrão desqualificou o seu trabalho, perdeu as estribeiras, zangou-se a sério, avermelhou como pescoço de peru, disse ao patrão o que pensava dele e retirou-se, perante a estupefacção do dono de tão fiel criatura que agora lhe mordia a mão. Foi raiva de tal monta, que se despediu na mesma hora e não mais voltou a pisar a empresa, outrora objecto da sua mais pura afeição. Foi por esse mundo fora, nos caminhos de aventura de português sem trabalho, até que encontrou poiso onde exercer a sua profissão. Mandou ir a família, agora subida na escala dos seus afectos, e por lá ficou. Tem saudades da Pátria, de Fátima, e dos velhos tempos em que os comunas, mais tarde ou mais cedo, iam morar atrás das grades. Mau grado estes desgostos, sempre que pode pega na família e vem visitar o seu torrão natal que, diz, é o mais lindo do mundo. Podemos vê-lo nas fotos das festividades do Verão, sempre que possível na cadeira da frente, na fila da frente, ao lado dos ilustres, deitado em abraços sobre os mais robustos, pegando criancinhas ao colo, trincando o courato que é o melhor do mundo, comprando no sul blusas do norte, as mais lindas do mundo, que a família veste, porque ele assim o quer. Se o filho mais velho voltar à Pátria, à terra, esperto, trabalhador e crente e praticante como é, quem sabe não virá a ser, para começar, Presidente da Junta? De política não quer saber e tem raiva de quem sabe, mas se for preciso, por um filho tudo se faz. Ah a Família, a Família! 

 Licínia Quitério

IMPRENSA REGIONAL



Houve o Jornal do Fundão, houve o Notícias da Amadora, houve o Diário do Alentejo, houve o Comércio do Funchal e outros jornais regionais à frente dos quais estava gente culta, e cujos corpos redactoriais eram formados por pessoas que liam e escreviam bem. A censura massacrava-os, perseguia-os, suspendia-os, prendia directores e jornalistas. Eles lá continuavam, sem nunca abdicarem da qualidade da notícia, da divulgação cultural, sem cederem ao popularucho e ao beato que era apanágio de outros jornais, abençoados e benquistos pela Igreja e pelo Estado Novo. 

Foram esses jornais veículo de informação honesta e desassombrada, de artigos excelentes, de bons autores, do melhor que a sociedade civil produzia e divulgava.
Esperar-se-ia que, depois da chegada da Liberdade, essa imprensa regional vingasse, crescesse, alargasse horizontes. Sonhos de Abril que não passaram de sonhos. Como em tantos outros ramos do jornalismo e da cultura em geral, regressaram os pasquins, entregues, salvo raras excepções, a gente que mal sabe escrever e que não faz a mínima ideia do que é jornalismo ou então a uma direita beata e reaccionária, catequisante e castradora. 
Não serei a pessoa indicada para bem abordar este tema, felizmente sujeito a controvérsia, mas não quis deixar de a ele me referir, até porque conto, na minha história bem longa, a amizade com um censor, redactor do ex-Secretariado da Propaganda (SNI). A ele cabia censurar exactamente a imprensa regional, seguindo as regras estúpidas dos seus superiores. Ora quantas vezes assisti a essa tarefa e quantas vezes consegui convencê-lo a não cortar isto ou aquilo. O Jornal do Fundão, do saudoso Paulouro, era então uma vítima de eleição. Com o atrevimento que a mútua amizade consentia, dava-me ao luxo de dizer: Ó Homem, deixe lá passar isso, não acha que é mesmo uma estupidez? E ele, embora medroso de represália, lá deixava passar, dando algum descanso ao lápis azul. 
Entendem, por certo, o meu desgosto quando, ao visitar uma terra, procuro o jornal regional e dou quase sempre com a maior miséria e iliteracia, que é um eufemismo para analfabetismo, penso eu.

Licínia Quitério

5.8.14

A NOVELA QUE NÃO SOU CAPAZ DE ESCREVER


Se eu soubesse escrever uma novela, situaria a acção em Portugal, nos anos setenta, no ante e após revolução de Abril. A acção decorreria inteiramente numa casa de Lisboa, em rua antiga, uma casa daquelas com muitas divisões, um quarto chamado independente porque tinha porta directamente para o patamar da escada, uma cozinha ampla com chão de mosaicos com desenhos a simular velas de moinhos, brancos e vermelho escuro. Havia de ter uma marquise com acesso a uma chamada escada de serviço, em ferro, de degraus sem espelho, impossível para quem sofresse de vertigens. Não haveria de me esquecer de citar a gaiola do canário com os seus trinados ao nascer do sol, a fazer nascer instintos assassinos nos hóspedes. Sim, porque a história devia passar-se numa casa de viúva sem filhos, sem outros rendimentos além dos que conseguia com o aluguer de todos os quartos da casa, nem que para isso tivesse de dormir num divã, na marquise, por baixo da gaiola do canário. Personagens  havia de os inventar, e não seria muito difícil, que relatos de vidas como as que passavam pela casa da viúva foi coisa que não faltou nesses anos de gente que acorria à capital, vinda de todo o país, para um emprego, para os estudos que na terra não havia,  bem como para os solitários, de fracos trabalhos, que a casa só sua não podiam aspirar. Traçar-lhes o retrato físico e mental havia de ser um bocado complicado, que inventar pessoas é uma coisa, fazê-las agir com a incoerência necessária para que pareçam reais é outra e por isso há os escreventes que escrevem e os escritores que criam, escrevendo. 

(continuará?)

Licínia Quitério 

3.8.14

A RUA


A vida vou-a fazendo
A rua vou-a descendo
O mar ao longe a fitar-me
A serra ao longe a fitar-me
Uns olhos entre a folhagem
Como se fossem verdade
Como se fossem miragem
E a vida vou-a descendo
E a rua minguando
O mar ao perto a fitar-me
A serra  ao perto a fitar-me
Umas mãos entre a folhagem
Como se fossem verdade
Como se fossem miragem
No meu deserto de esperas
No meu bornal de viagem
Rua abaixo, vida abaixo,
Que assim se fazem os contos
Que assim se contam as contas
Do meu colar de surpresas
A alternar com tristezas
Que assim se fazem os dias
Rua abaixo, rua acima,
Vida acima, vida abaixo,
Um rosto entre a folhagem
Esse que é meu de verdade
Esse que não é miragem

Licínia Quitério

EMIGRAÇÃO


Era Abril e a década contava-se por sessenta. Paris era uma ideia, um desejo, um encontro previsto. Trabalhava para pagar os estudos, arduamente, num afã que a juventude permite. A dureza das muitas horas de trabalho adiava, inviabilizava, destruía sonhos de  pequenos vícios, pequenos prazeres, mas a força de quem tem uma vida a começar não admitia desistência.  Havia quem só estudasse, quem não tivesse prazeres adiados, quem navegasse em águas mornas, como se natural fosse essa bem aventurança.  Assim eu vivia, com um pé no estribo outro no chão, aguardando os dias de montaria, rédea larga, mundo fora. Sabia bem que havia os outros que nem de livros, nem de sonhos, só comida pouca, cabeça baixa. Sabia também dos que não sabiam, dos que fingiam não saber, dos que não se importavam.
Paris era então um portão a transpor, um lugar de palavras proibidas, de Montesquieu, de Sartre, de Trenet, de Duras. “Hei-de lá ir” tornou-se um lema, uma divisa, uma profecia.
Era Abril quando me achei, com os outros das mesmas sebentas, com um Cartão Internacional de Estudante, com uma mala grande demais, com um coração a dilatar, na estação de Santa Apolónia, esperando o SUD, as três letras que queriam dizer viagem, partida, deserção ou aventura. Na extensa plataforma da estação, havia os outros, com outras malas, muitos sacos, muitos cestos, sem o sorriso dos meus, com o cenho carregado e húmido dos outros. A nossa tagarelice nervosa  destoava  do silêncio e da rouquidão dos outros. Logo ali comecei a achar que o meu sonho de Paris não era igual aos sonhos deles.  Eu e os meus íamos  à procura das palavras proibidas - liberdade, igualdade, fraternidade-, eles iam em demanda das palavras perdidas ou nunca achadas - trabalho, pão, dinheiro, casa-.
Dentro do comboio, atulharam os corredores de cestos, de malas, de sacos, que guardavam, com a preocupação  de quem não pode perder o único alimento. Pelo caminho, no interior dum país pardacento, entraram mais e mais, e os corredores ficaram a abarrotar de corpos e de tralha. Foram trinta e seis horas de coabitação, mesmo assim de costas voltadas,  dia e noite, nós os das mesmas sebentas e eles os das mesmas queixas. Paris esperava-nos e a cada um tinha para oferecer ou para negar  palavras de libertação ou de sobrevivência. Cansados todos do desconforto da viagem, o SUD despejou-nos na gare de Austerlitz que se encheu de linguajares diversos, do meu país de gente diversa. Foi aí que gravei na memória tantos homens de chapéu escuro, tantas mulheres sem crianças, correndo numa fuga de um país ingrato, na esperança de alguma recompensa prometida. Foi aí que me ficou até hoje o remorso de termos começado  a falar francês, meu pobre francês de escola, para que os de lá não nos relacionassem com os outros, os que quase corriam enquanto soltavam imprecações, no mais puro vernáculo do português falado em suas terras, sem temor nem pecado.
Paris não me desiludiu, não, aprofundou mesmo a minha admiração, o meu espanto pela cidade aonde haveria de voltar e voltar, já sem vergonha de falar português, porque as palavras que eu procurava tinham deixado de ser proibidas.
 
Era isto que tinha para contar sobre a emigração que voltou, a desgraçada, com outras roupagens, outras promessas, outros incertos destinos, neste mundo de fronteiras abertas e tantos sonhos fechados.

Licínia Quitério

2.8.14

OS MENINOS CRESCEM


Os meninos crescem-nos do coração. São gomos frescos de vida. Os meninos têm o choro igual ao riso, igual ao canto. Só param quando a fada passarinho os chama para as suas almofadinhas de sono. Olhamos os meninos e nada  entendemos do mistério de crescer. Habitamos com eles a substância do tempo.

Licínia Quitério

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