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5.8.14

A NOVELA QUE NÃO SOU CAPAZ DE ESCREVER


Se eu soubesse escrever uma novela, situaria a acção em Portugal, nos anos setenta, no ante e após revolução de Abril. A acção decorreria inteiramente numa casa de Lisboa, em rua antiga, uma casa daquelas com muitas divisões, um quarto chamado independente porque tinha porta directamente para o patamar da escada, uma cozinha ampla com chão de mosaicos com desenhos a simular velas de moinhos, brancos e vermelho escuro. Havia de ter uma marquise com acesso a uma chamada escada de serviço, em ferro, de degraus sem espelho, impossível para quem sofresse de vertigens. Não haveria de me esquecer de citar a gaiola do canário com os seus trinados ao nascer do sol, a fazer nascer instintos assassinos nos hóspedes. Sim, porque a história devia passar-se numa casa de viúva sem filhos, sem outros rendimentos além dos que conseguia com o aluguer de todos os quartos da casa, nem que para isso tivesse de dormir num divã, na marquise, por baixo da gaiola do canário. Personagens  havia de os inventar, e não seria muito difícil, que relatos de vidas como as que passavam pela casa da viúva foi coisa que não faltou nesses anos de gente que acorria à capital, vinda de todo o país, para um emprego, para os estudos que na terra não havia,  bem como para os solitários, de fracos trabalhos, que a casa só sua não podiam aspirar. Traçar-lhes o retrato físico e mental havia de ser um bocado complicado, que inventar pessoas é uma coisa, fazê-las agir com a incoerência necessária para que pareçam reais é outra e por isso há os escreventes que escrevem e os escritores que criam, escrevendo. 

(continuará?)

Licínia Quitério 

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