27.7.11

A HERA




A hera é a obstinação, a frugalidade, a elegância, a discrição, a força. Invasora lhe chamam. Eu digo que um sopro animal lhe anima o traço que segue, persegue, cavalga, abraça, incorpora, expande. Um réptil vegetal ganhando novas caudas, novos membros. O triunfo sereno do grande verde. Observo-lhe o progresso e alimento ainda o espanto pela vida.

Licínia

HÁS-DE CONTAR-LHES



Hás-de contar-lhes como atravessámos os serões com uma faca nos dentes, aguardando as pancadas secas na porta das traseiras. Que só podiam ser três, com um segundo de tempo entre elas medido. Abria-se Sésamo e a conversa folheava histórias com ladrões de pão e de futuro. Declarávamos que as asas da verdade seriam velozes e seus rumos altos e certeiros.
Hás-de dizer-lhes como voltámos ao claro-escuro dos pátios onde deixáramos as construções de saibro e chuva, para nos alegrarmos com o germinar das sementes.
Não lhes dirás que alguns deles rapinarão as águas, nem que outros soltarão os cânticos purificadores da sujidade das ruas.
Deixa que riam quando uma cigana lhes ler a sina na palma da mão.


Licínia Quitério

A CIDADE



Nunca entendeu a cidade. As ruas como serpentes, subindo e descendo colinas, num alvoroço de carros e de gentes. Becos, travessas, calçadas, em profusão. Largos, praças, pracetas. Sabia que lá no fundo se deitava o rio. Dele o cheiro de marés e marinheiros de travessia. Dele a neblina sonolenta a roçar as portadas, a assustar as sardinheiras. Quantas vezes se perdeu na traiçoeira malha de caminhos? Insistia. Retrocedia, aceitava o desafio de uma curva em cotovelo, seguida de outra e outra e mais outra. Dobrava as esquinas que para serem dobradas foram feitas. Por vezes, sentia cansaço e parava num miradouro. Aproveitava para ganhar pontos de referência: uma igreja, um obelisco, um jardim, um prédio assustadoramente alto. Não voltaria a perder-se. Mas a memória estava gasta de lembrar os seus mapas interiores. E voltava a perder-se. Desistiu de entender a cidade. Aprendeu a viver nela sem tentar decifrar-lhe os enigmas. Tranquilamente, percorria os seus labirintos, deixando o acaso escolher as direcções, até que um dia se encontrou em frente de um portão entreaberto, ao fundo de uma ruela sem brilho. Ia jurar que nunca ali tinha passado. Sentiu um arrepio quando o transpôs. Olhou para trás e viu a cidade larga, limpa, sem serpentes nem neblinas. Mas longe, longe... E seguiu em frente.


Licínia Quitério

19.7.11

VOEMOS!



Voemos, pois! Saudemos o grande azul, a brancura luminosa dos gelos, a estrada aberta às nossas asas, miraculosas asas, filhas das madrugadas dos loucos sonhadores. Continuemos o sonho, o voo. Nada mais importa.


Licínia Quitério

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