18.6.16

MACIA, A MANHÃ


Acordou macia, a manhã. Macia e morna. Depois do Sol impante, do vento impertinente, uma pequena chuva molhou a noite e continua dia fora. O rodado dos carros, menos apressados, amortece o som no chão molhado. Lavadas do pó, as árvores põem o fato verde-jade que lhes cresceu com a Primavera. As pessoas adoçam as vozes, para não abafarem segredos húmidos de ramo em ramo, de mesa em mesa. Suave a manhã, de calma a cobrir a insolência dos dias idos.

Licínia Quitério

6.6.16

UM MANGERICO


Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...

O que eu gostava das marchas, e dos tronos, e da sardinha assada, e do requebro na cintura dos marchantes, e das letras tão previsíveis, e das zaragatas de vinho e mau feitio, e do Ary a dizer poesia, já com muito vinho e mau feitio, mas que bem ele dizia, e nós em fila, de mão no ombro do da frente, e polícia fardada e à paisana, e nós a ensaiarmos canções de liberdade ao ritmo da marcha, e a rirmos, nós nessa altura ríamos do que havia e do que esperávamos que houvesse, e havia o amor que nos assaltava num larguinho de Alfama, e nós ríamos e sabíamos que era um amor de acabar quando a festa acabasse,  abril ainda estava longe e nem sequer sabíamos que se chamaria abril, e hoje deu-me para recordar a minha Lisboa, que hoje tão mal conheço, depois de tudo o que passou, nas ruas da cidade, nas minhas próprias ruas.

Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...


Licínia Quitério

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