30.3.13

TANTAS PEDRAS



Tantas pedras. Tantas casas, tantas coisas, tantas causas, tanto céu, tanta terra, tanta serra, tanta água, tanta mágoa, tanta gente. Tantos olhos que me olharam, tantas as mãos que me acharam, tantas as que me perderam. Eu fico, eu volto, eu recordo, desfio as contas e os contos que de contar não cansei. Tanta légua por andar, tanta légua já andada, e as pedras no meu caminho, e o céu no peito a crescer, e os meus braços alongados, tão cansados de voar, com duas asas de pedra, com duas ondas de mar.

Licínia Quitério

MARÇO



Março, marçagão, manhã de inverno, tarde de verão. Assim se fez o ditado, assim se fez o desejo. Assim não tem sido este Março de maus humores, de carão fechado, de humidades que escorrem e pingam nos nossos quartos interiores, nos nossos pátios que para a luz se construiram. Março velho, mês cansado de sustos e discursos sibilinos, atormentando os ares, sufocando a beleza a que temos direito. Limito-me a olhar através dos vidros embaciados da janela fechada onde espreitam jardins que inventei e que demoram a cumprir-se.

Licínia Quitério


21.3.13

UMA AVENTURA



Era inverno e eu perdia-me no jardim-floresta com as miúdas. Levava-as (levavam-me?) a uma aventura, daquelas dos livros que eu lhes comprava. Nesse tempo, a manta morta entre as árvores era o país dos duendes, verdinhos, de grandes gorros e orelhas que neles não cabiam. Tínhamos cuidados para não os pisar. As miúdas levantavam os pezitos e às vezes estatelavam-se e magoavam os joelhos. Nada de importante, nada de choros. Uma aventura é uma aventura e se uma silva nos arranha as pernas é para depois escrevermos uma história emocionante. Bonito, bonito, e as miúdas não esquecem, e eu não esqueço, foi quando ouvimos a conversa das árvores. Com os ouvidos encostados ao grande tronco, podíamos distinguir os gritos, os rugidos das seivas, das cascas. Com a força do vento da véspera, uma árvore mais débil tombara e apoiara-se na outra, velha e forte. Os olhitos das miúdas aumentavam de tamanho, de brilho e de algum susto. Fi-las olhar para cima, lá muito em cima, onde as ramadas de ambas as árvores se tocavam, se entrelaçavam, se soltavam, numa briga que o vento alimentava. Eram as falas das árvores zangadas que os nossos ouvidos escutavam, maravilhados. Depressa começámos a traduzir as falas vegetais, os suspiros, os ais, o ranger de cordas, tronco acima, tronco abaixo. Nunca mais ouvi uma discussão assim. As miúdas também não. Mas ainda hoje falamos da aventura das árvores que falam. 

Licínia Quitério

1.3.13

O JANTAR



Não se lembra do gosto da carne, nem consegue enumerar os acompanhamentos. Gostou, sim. Durou horas, o jantar, como sempre acontecia nos dias que reservavam um para o outro e que eram muitos, agora que os outros cada vez menos precisavam deles, arrumados que estavam vários destinos. Agora que tudo se fazia mais suave, menos vermelho ou negro, mais um tom indefinido, um mate de chá ou de seda verdadeira. Sabia lá ela dizer a cor da toalha,  se a havia, ou tão só uns papéis coloridos sob os pratos. Sabia-lhe as mãos, tão bonitas as mãos, naquele entrelaçar e soltar de dedos, num pontuar nervoso das frases que ela ia deixando no ar, dançantes, cantantes. Sabia-lhe os olhos, tão bonitos os olhos, tão tristes, tão movediços, tão procurantes, por dentro, por dentro. Lembra-se, isso sim, do vinho, do copo de pé, da minúcia com que ele o olhava, o cheirava, o provava, devagar, um pequenino golo, a ponta da língua a aflorar o palato e os olhos movediços, muito antes de dizer: gosto, prova e diz-me. E ela apressada, sem jeito, a provar e já pronta para lhe fixar os olhos e dizer: gosto.  O leve encolher dos ombros dele, meio amuado, a perdoar-lhe a mentira. Gostava dele, não do vinho, e ele que fazia tudo para lhe oferecer outros gostos, outros saberes, outros ouros, outras flores.  Disso tudo se lembra hoje, mas não sabe, na verdade, se era peixe ou carne o que comeram, antes do vinho cor de amoras maduras que lhe tingiu por instantes a boca, tão bonita a boca.

Licínia Quitério

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