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1.3.13

O JANTAR



Não se lembra do gosto da carne, nem consegue enumerar os acompanhamentos. Gostou, sim. Durou horas, o jantar, como sempre acontecia nos dias que reservavam um para o outro e que eram muitos, agora que os outros cada vez menos precisavam deles, arrumados que estavam vários destinos. Agora que tudo se fazia mais suave, menos vermelho ou negro, mais um tom indefinido, um mate de chá ou de seda verdadeira. Sabia lá ela dizer a cor da toalha,  se a havia, ou tão só uns papéis coloridos sob os pratos. Sabia-lhe as mãos, tão bonitas as mãos, naquele entrelaçar e soltar de dedos, num pontuar nervoso das frases que ela ia deixando no ar, dançantes, cantantes. Sabia-lhe os olhos, tão bonitos os olhos, tão tristes, tão movediços, tão procurantes, por dentro, por dentro. Lembra-se, isso sim, do vinho, do copo de pé, da minúcia com que ele o olhava, o cheirava, o provava, devagar, um pequenino golo, a ponta da língua a aflorar o palato e os olhos movediços, muito antes de dizer: gosto, prova e diz-me. E ela apressada, sem jeito, a provar e já pronta para lhe fixar os olhos e dizer: gosto.  O leve encolher dos ombros dele, meio amuado, a perdoar-lhe a mentira. Gostava dele, não do vinho, e ele que fazia tudo para lhe oferecer outros gostos, outros saberes, outros ouros, outras flores.  Disso tudo se lembra hoje, mas não sabe, na verdade, se era peixe ou carne o que comeram, antes do vinho cor de amoras maduras que lhe tingiu por instantes a boca, tão bonita a boca.

Licínia Quitério

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