16.11.16

A PEQUENEZ


O mundo muda, a terra treme, as guerras continuam. Os homens exultam, afligem-se, perturbam-se, vagueiam, perguntam-se, o que é que está a acontecer, e não têm respostas. Têm um desacerto nas falas, um desequilíbrio nos passos. Correm mundos em busca da glória, da salvação. Voltam sempre ao colo das mães, à soleira da casa, donde afinal nunca saíram. O que mais lhes custa é a confissão da pequenez, da queda. O mundo muda mais que o coração dos homens.

Licínia Quitério

13.11.16

OS CRAVEIROS-DO-AR



Não me perguntem qual o nome, o dos botânicos. Para mim chamam-se craveiros-do-ar. Foi assim que conheci os seus antepassados, pendurados num ramo da pereira de peras pardas, no quintal da minha avó. Para meu espanto, eles multiplicavam-se e floriam e só bebiam a água da chuva e comiam o que o ar lhes trazia, que eu não podia ver, mas eles viam de certeza. Os craveiros-do-ar mudaram-se do quintal da minha avó, quando ela também se mudou e foi viver como os craveiros, era o que eu queria acreditar, da água da chuva e do que o ar lhe desse. Mudaram-se e foram viver na vedação de grades do quintal da minha mãe, onde tiveram muitos filhos que iam florindo e enfeitando a pouca graça da vedação. Quando a minha mãe foi viver como eles e como a minha avó, da grande água e do grande ar, eles passaram a viver nos muros do meu pátio e a dar-me as flores garridas que me fazem lembrar, sei bem porquê, o gosto das peras pardas.

Licínia Quitério

8.10.16

O OUTONO, POIS



O cheiro do pão acabado de cozer, com a sua pitada de sal, a puxar o sabor.
O bacalhau assado e o azeite fervente, com alho, a regá-lo, a rescender.
A aguardente de cana que veio do Brasil há décadas e que hoje foi aberta, depois de rolada a garrafa na mão aberta, com cuidado, a ler o rótulo, a admirar o selo ainda colado sobre a rolha.
A máquina Singer que irá de novo costurar, e as mulheres de várias idades à procura dos antigos gestos que o engenho aguarda.
As vagens do feijão encarnado a secarem ao Sol, prontas para a debulha.

A intimidade que só o Outono convoca e que me põe o passo lento, a voz mais baixa. Dos olhos, nem é bom falar.

Licínia Quitério

5.10.16

O 5 DE OUTUBRO



O 5 de Outubro traz-me invariavelmente a recordação de quando eu era miúda e o meu Pai ia  a Lisboa, com amigos, para grande preocupação da minha Mãe, comemorar, como ele dizia, a implantação da República.
Voltava tarde fora, com um ar feliz, e recordo-me de um dia ter dito, não, correu tudo bem, a Guarda carregou a cavalo, ai tu não me digas, homem, mas até foi engraçado, engraçado como, para nós dispersarmos lançou gás lacrimogéneo, ai que tu tens os olhos vermelhos, não, não é nada, havias de ver, e ria-se discretamente, até os cavalos choravam.
Era o ritual dos republicanos que iam depositar flores junto à estátua de António José de Almeida, para grande arrelia de Salazar, o ditador que não gostava de ajuntamentos de mais de duas pessoas, já que o que “eles” queriam era conspirar contra o governo, dizia-se.
Era assim a República lá em casa, e nesse dia 5 eu ouvia de novo as histórias do meu avô paterno que assistira feliz ao nascimento da República, que era católico praticante,e que nesse dia dava grandes vivas à República junto à casa do padre lá da terra, seu inimigo figadal, um talassa rezingão que odiava carbonários.
Eu sou republicana, por sucessão e convicção.

Viva a República!

Licínia Quitério

25.9.16

AS ESPLANADAS


Contar, espalhar, aclarar, elucidar, esclarecer e ilustrar, explicar, dissertar, alumiar, clarear, clarificar, dealvar - sinónimos que os dicionários recolhem do verbo esplanar. Consulta que me ocorreu ao verificar que muitas fotografias tenho tirado a esplanadas nos territórios das minhas deambulações ociosas.
As esplanadas esclarecem, ilustram, tempos de paragem no vai-vem das urbes. Nelas se recostam, se alongam, pessoas subitamente serenas, contemplativas, recolhidas no meio do bulício. Conversam, também, com companheiros de vida ou de ocasião, sem largos gestos, sem altas vozes, cuidando de recato porque se sentem em montra, guardando-se de intimidades com os das outras mesas.
Os das esplanadas fotografam os passantes que por sua vez os registam com máquinas cada vez mais pequenas, cada vez mais discretas, cada vez mais devassantes.

Penso as esplanadas como lugares de paz para gente como eu que gosta de se sentar, olhar em volta, fazer nada, dizer nada, esse nada que é preciso para que o mal não aconteça.

Licínia Quitério

21.9.16

FOI BOM


Foi no tempo em que fumávamos muito e bebíamos o que nos apetecia e amávamos quem queríamos amar, e depois de termos calado tanto nos sentávamos à mesa, e conversávamos noite dentro, e falávamos já de tudo o que iríamos perder porque sabíamos que alguém iria puxar a toalha da mesa e fazer tombar os copos. No entanto, sorríamos muito. Foi bom, porque ainda hoje aparecem fotos que fixaram esse tempo, ou a poeira que dele guardamos.

Licínia Quitério

20.9.16

COISAS VELHAS







Coisas velhas, antigas, gastas, feridas pelo tempo, pela desatenção, preteridas pelas novas recém-chegadas, com outro brilho, outra utilidade, outros desenho e cor.
Nas mudanças de casa, nas mudanças de gente, escaparam à devora de usurários e ao lugar dos lixos. Foram-lhes concedidos sótãos esconsos, gavetas, arcas de memórias. Quando chegaram até mim, procurei-lhes as feridas, tratei-as como pude, fui espreitando as marcas que me contassem histórias de outro tempo, de outra gente. Por vezes tive um certo pudor em as modificar, em lhes dar novos casamentos, lugares impróprios para a função.
A máquina de costura não devia ter ficado num corredor sem janelas, mas há tanto tempo que ninguém cose nela.
A litografia da menina com o crisântemo e a foto do antepassado trocaram de molduras, a dele mais sóbria, de acordo com o olhar severo, a dela, dourada e romântica, fica-lhe a matar.
A mesa de cabeceira foi despromovida por falta de cabeceira, mas suporta um vaso com planta viva, para lhe dar novo alento.
A cadeira, coitada, já não oferecia segurança a quem nela se sentasse e tinha rugas, manchas da provecta idade. Dei-lhe um banho de azul, rejuvenesceu, sustenta com garbo antigas toalhas rendadas e um búzio que lhe dê um sopro de mar.
Pelas gavetas foram encontradas frivolidades de pano e linha, lenços que enfeitaram lapelas de damas e cavalheiros, luvas e golas de menina, roupinhas minúsculas que sobraram de enxoval de criança, e mais e mais peças confeccionadas por mãos de fada, rendeiras, bordadoras, trabalhos exímios de mãos de mulheres. Hoje estão todas juntas num quadro com moldura de madeira em que fixei uma chapinha de metal a dizer em letra cursiva “Modas e Bordados”.
São tesouros, são bagatelas, são vida que gosto de contemplar, afagar, numa linguagem entre tempos que só os velhos entendem.

Licínia Quitério


12.9.16

MULHERES



Encontrei-as na mesma praça, em planos distantes, estas mulheres celebrantes e celebradas, umas dizendo das artes, outra da resistência ao invasor. Trouxe-as comigo. Mulheres.

Licínia Quitério

LUGARES


Há lugares assim...

perdidos na substância do tempo, lugares-fronteira, carregados de presságios, de ajustes de contas, de deuses enfurecidos, iguais aos homens, iguais.

Licínia Quitério

21.8.16

LICÍNIA



Minha mãe deu-me o nome. Se eu nascesse rapaz seria o nome a gosto de meu pai. Foi fácil entre eles o comércio de nomes. É um nome quase esdrúxulo, o meu, com uma quase vogal que se repete. Quase fácil, quase audível, o meu nome. É um nome antigo, já serviu a uma imperatriz, quase mandante, pois reza a história que foi filha e consorte de senhores. Também se diz que é nome de oliveira ou do seu fruto de casta cordovesa. O nome preso a mim, eu presa a ele, caminhamos, quase certos de nunca nos deixarmos, quase.

Licínia Quitério


16.8.16

NAUFRÁGIOS


Acordo com um peso nos ombros. Somos um mundo feito de naufrágios, penso, agarrada às notícias desse mar do meio onde se sepultam os esfomeados. Penso sempre em Agostinho da Silva que alertou para a chegada dos do sul a desnortear a Europa. Entristeço ao saber este lugar de ricos a erguer vedações farpadas para que não entrem os que nada têm senão, ainda, o desejo de viver. Sabemos nós, o homem branco, que nada pode parar o grande êxodo? Todas as guerras que alimentámos, todos os bens que saqueámos, fazem-se agora aflição à nossa porta. Nós, os que tudo temos, trememos de um medo impensável dos que nada têm. Desesperamos e dizemos:
Esta não é a vossa casa. Ficai na vossa, continuai a morrer, não ouseis viver na nossa. Se é difícil alimentar os pobres que na nossa casa criámos, como deixar-vos entrar, deserdados da terra, apagadores dos nossos sonhos de grandeza?

O peso nos meus ombros chamar-se-á remorso? Alguém mais o sente?

Licínia Quitério

Foto da net: Le Radeau de la Méduse, de Gericault

O FOGO



O fogo é um animal de muitos braços que envolve, seca, queima, arrasa, da copa à raiz, do telhado à soleira, ameaça animais e homens e, se for de sua vontade, mata. O fogo é um mestre cruel que mostra aos homens as suas fraquezas, os seus erros. Quem melhor do que o fogo nos diz a desertificação do interior, a proliferação do minifúndio sem lei, os velhos, muitos velhos, no isolamento de povoados, o discurso difícil e incoerente das gentes perante a tragédia? Sub-desenvolvimento, pode chamar-se, que serve, sempre serve, aos negociantes do mal.
Do fogo, as cinzas. Das cinzas um dia virá uma ave rara que ensine os homens a afirmar, em vez de "isto é meu", "isto somos nós".
Que venha a chuva que apague o fogo.

Licínia Quitério

25.7.16

OS ESCRITORES


Os escritores enchem de jóias o cofre da Humanidade. São guardiões da memória e construtores do sonho. Enfiam as palavras em lágrimas e sangue e dão-nos fios de coragem e de ternura com que afugentamos a mesquinhez das pequenas vidas. Eles contam, contam-nos, inventam, inventam-nos, avisam-nos, mergulham nos nossos silêncios e falam por nós. São a consciência dos homens e dos povos. São perseguidos, escarnecidos, vilipendiados, ignorados. Os poderes adulam-nos ou apagam-nos. Temem-nos. Eles possuem o ouro da palavra que resiste à usura, ao tempo dos dinheiros.

Licínia Quitério

16.7.16

NÃO HÁ LONJURAS



Um cão ladra continuadamente em Nice e eu oiço-o aqui, quase em simultâneo, na minha bancada de observar o mundo. Ontem ao serão, ouvi distintamente, também "em directo", como costuma dizer-se, o tiroteio na Turquia. Tudo acontece em ricochete na minha bancada. O mundo encolheu, não há lonjuras, um homem grita na outra metade do paralelo e eu oiço-o, eu entendo a sua língua que é já a mesma, planetária, interplanetária. Todos os segredos podem ser violados, mesmo ainda dentro das nossas cabeças. É o admirável mundo novo. Um cão ladra em Nice, e eu, à beira da bancada, abro os olhos, os ouvidos, o espanto, e não entendo, não entendo por que razão aconteceu este medo que perpassa no mundo, "em directo", como costuma dizer-se.

Licínia Quitério

9.7.16

O CR7


De facto, o Rapaz é uma máquina humana que se supera e se eleva e consegue o inconcebível. Toca a bola como quem toca o mundo, segreda-lhe a trajectória, obriga-a a cumprir o seu destino. O Rapaz solta um urro que vem das profundezas, retesa os músculos, é o dono do mundo por instantes. É um ser extraordinariamente poderoso, estátua viva do Olimpo terreno.

É o CR7, o Rapaz do nosso contentamento.

Licínia Quitério

O NINHO


O menino soube um ninho
Caído no chão, coitado.
Lá dentro, um ovo quebrado.
Não vai nascer passarinho.

Assim a vida termina
Antes de ter começado.
Assim o ninho guardado
Em palma de mão-menina.


Licínia Quitério

5.7.16

JUNO



Um engenho produzido por humanos terráqueos orbita a partir de agora o maior planeta do sistema solar. Chama-se Juno, a deusa mulher de Júpiter que vê através das nuvens, e durante um par de anos mandará notícias daquelas paragens que ajudarão ou não a melhor compreender as origens, as razões, os destinos. É o Homem no seu estado mais avançado, o mesmo homem que se faz explodir com engenhos artesanais e mata os outros homens que o mandaram eleger como inimigos, o mesmo homem que se afinca a fazer retroceder os tempos para escuridões primitivas de ignorância e negação. 
O mais e o menos é tudo o que somos.

Licínia Quitério

3.7.16

SILLY SEASON



Aí está a silly season, com as suas quenturas a pedirem bebidas frescas, as esplanadas de Domingo cheias de gente morena, suada, de crianças rabugentas a quem foi subtraída a sesta, de cães à trela ameaçando arrastar cadeira e dono. Para o fim da tarde chegam os da praia, areia a transbordar das havaianas, a água estava boa, um bocado fria, no Algarve é que é bom, talvez em Agosto, um fim de semana, só, e já é bem bom, há quem nem isso possa fazer. Há os que se sentam para uma cerveja e uns tremoços, caracóis não há aqui, puxam dos telemóveis, olha, sabes quantos likes já tenho, quarenta, e ontem ainda tive mais. Uma mão para o tremoço a outra para tactear o écran, agilidade, agilidade, são da era do polegar, do toque subtil, dos olhos pregados na imagem, nas imagens, muitas, nos textos, curtos, muito curtos, pouco mais do que sinalefas, ícones,  emojis, emoticons, palavras que não sei escrever, os novos hieróglifos, os novos tempos, o novo Verão no hemisfério norte.

 Licínia Quitério

O VIZINHO INVISÍVEL


APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE FRANCISCO JOSÉ FARALDO "O VIZINHO INVISÍVEL"

Vivemos no mesmo bairro há muito e mal nos conhecemos. Não sabemos se estas pessoas partilham os nossos hábitos, se comem mais carne ou mais peixe do que nós, se preferem o fado ou o rock, se lêem ficção ou poesia ou nem sequer lêem, se prezam os antepassados ou preferem ignorá-los, se são de alguma igreja ou de nenhuma, se são gente de partir ou de ficar. Não conhecemos e não procuramos conhecer. Preferimos a estranheza à convivência.
O que se diz do bairro, pode dizer-se da rua ou, se bem atentarmos, do prédio-formigueiro com cada um em sua toca, de encontros fortuitos em espaços comuns.
Se assim é e se de tal só damos conta e nos admiramos quando paramos para pensar nos nossos pequenos mundos, ali à nossa mão, diante do nosso olhar, que dizer de dois países que em grande medida se ignoram, apesar de partilharem a mesma península, de ibérica chamada, toda virada ao mar a não ser numa faixa de altos relevos que mal a deixam espreitar, ou ser espreitada, pelos outros povos além Pirinéus, aquém Urais de que se diz Europa.
De um passado de invasões, lutas, conquistas, expulsões, reconquistas, pelos séculos se foram criando na península condados, reinos, regiões, se foram traçando fonteiras, transpondo fronteiras, fechando fronteiras. Entre batalhas, pelejas, guerras, todas infames, todas sangrentas, nesta península se firmaram e perduraram até aos nossos dias dois países que hoje se chamam Espanha e Portugal, o mais pequeno ligado ao maior, a norte e a leste, ambos usufruindo a mesma Natureza, os mesmos rios, montanhas, planuras, securas, verduras, indiferentes às motivações, às linguagens dos homens.
Quiseram os ventos, os dos “maus casamentos” e os da história da insensatez e ambição dos homens que portugueses e espanhóis tenham vivido costas com costas, remoendo o passado, ignorando o presente, nesta jangada de pedra que Saramago, por artes mágicas da vara de negrilho com que Joana Carda riscou o chão, fez cortar o istmo e vogar mar adentro, ou mar afora, e dizer adeus ao velho continente, numa alegoria, atrevo-me a presumir, da inevitável unidade do destino de seus povos, numa deriva atlântica. Mais do que de costas voltadas, vivemos na ignorância uns dos outros, na ausência de curiosidade, na repetição de velhas, estafadas anedotas, falando nós portugueses de “nuestros hermanos” sem qualquer convicção de irmandade e olhando-nos, os espanhóis, como um povo parecido com eles, mas cuja fala têm dificuldade em entender, gente simpática mas um bocado tristonha e pouco mais. Nós orgulhamo-nos de Gama e eles de Colón, nós de Camões e eles de Cervantes, como se não tivessem nascido, escrito e aventurado num tempo comum, numa gesta comum de um tempo em que ambos demos cartas ao mundo, de arrojo e sabedoria, muitas vezes também de crueldade e despotismo.
É sobre nós, os vizinhos ibéricos, que Francisco Faraldo, um espanhol que conhece e ama Portugal como uma das suas casas, tanto que escolheu morar também nesta, decidiu em boa hora escrever o livro El vecino invisible, que hoje aqui se apresenta, vertido para português, agora com o nome de O vizinho invisível.
É esse vizinho invisível, o Portugal ignorado pelos espanhóis, que Faraldo faz descobrir, com grande perspicácia, com rigor histórico, e sobretudo com uma deliciosa ironia, que nos leva ao sorriso e ao riso, quando nos mostra, a nós portugueses, as nossas idiossincrasias que só um olhar exterior e penetrante consegue avistar e descrever. Mais do que um livro para os espanhóis melhor nos entenderem e conhecerem, é este um livro para nós portugueses nos revermos, nos redescobrimos. É neste sentido um livro para todos os que na jangada vivem e se interessam pelas razões do que somos, pelas nossas diferenças e afinidades, como povos unidos pelo determinismo da geografia.
Depois de ter lido El Vecino Invisible, fiquei com grande vontade que o livro viesse a ser editado em Portugal, tendo em conta a abordagem inteligente e descomprometida dos nossos percursos e costumes feita por alguém que tão bem conhece os dois países ibéricos. Em conversas com o autor, várias vezes lhe fiz sentir este meu desejo de que o seu livro se tornasse acessível ao público português. Estava eu muito longe de supor que Francisco Faraldo, o meu amigo Paco, perante a minha impertinente questão, me lançasse, num tom falsamente distraído, “se fores tu a traduzir…”. Da minha resposta ao repto sabem os leitores deste livro, que a Poética aceitou em boa hora editar e que hoje aqui se apresenta. Traduzir esta obra foi de facto um grande desafio a que me atrevi, tentando não trair a confiança que o autor em mim depositou e a quem agradeço de todo o coração.
Porque a Poesia nunca me larga e porque o autor também é Poeta, termino esta apresentação com um poema de Ruy Belo de que gosto muito e que nos remete para a questão da vizinhança, no seu sentido lato:

  “E tudo era possível”
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Licínia Quitério

21 de Maio de 2016

18.6.16

MACIA, A MANHÃ


Acordou macia, a manhã. Macia e morna. Depois do Sol impante, do vento impertinente, uma pequena chuva molhou a noite e continua dia fora. O rodado dos carros, menos apressados, amortece o som no chão molhado. Lavadas do pó, as árvores põem o fato verde-jade que lhes cresceu com a Primavera. As pessoas adoçam as vozes, para não abafarem segredos húmidos de ramo em ramo, de mesa em mesa. Suave a manhã, de calma a cobrir a insolência dos dias idos.

Licínia Quitério

6.6.16

UM MANGERICO


Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...

O que eu gostava das marchas, e dos tronos, e da sardinha assada, e do requebro na cintura dos marchantes, e das letras tão previsíveis, e das zaragatas de vinho e mau feitio, e do Ary a dizer poesia, já com muito vinho e mau feitio, mas que bem ele dizia, e nós em fila, de mão no ombro do da frente, e polícia fardada e à paisana, e nós a ensaiarmos canções de liberdade ao ritmo da marcha, e a rirmos, nós nessa altura ríamos do que havia e do que esperávamos que houvesse, e havia o amor que nos assaltava num larguinho de Alfama, e nós ríamos e sabíamos que era um amor de acabar quando a festa acabasse,  abril ainda estava longe e nem sequer sabíamos que se chamaria abril, e hoje deu-me para recordar a minha Lisboa, que hoje tão mal conheço, depois de tudo o que passou, nas ruas da cidade, nas minhas próprias ruas.

Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...


Licínia Quitério

30.5.16

PATAS


pata aqui pato acolá
mas que fresquinho aqui está
ó senhores venham cá
não nos façam cara má
patuscos é o que mais há
deixem tristeza pr'a lá
quá-quá, quá-quá e quá-quá

Licínia Quitério

16.5.16

QUATRO MENINOS


Eram quatro meninos com a adolescência enfiada nas mochilas, quatro à mesa, de volta dos seus hamburgers, dos seus sumos de lata e palhinha, falando e rindo, sem qualquer alarde de irreverência, daquela que tantas vezes se ata ao nome de meninos assim grandes como estes. Espremiam o frasco da maionese sobre as batatas fritas e depois comiam-nas com as mãos, pegadas pelas pontas, no equilíbrio entre a máxima a vir à boca e a mínima a agarrar-se aos dedos. Comiam e falavam e riam e tinham um ar guloso que dava gosto ver. Os telemóveis descansavam ao lado do prato, mas não lhes tocavam, riam, comiam e conversavam. Pagaram, moedinhas bem contadas, pegaram nas mochilas e saíram. Tinham um ar feliz, estes quatro meninos do seu tempo, tão diferentes do retrato daqueles de que se diz serem mal-educados, mal-comportados, mal-vestidos, mal-de-nós quando só formos capazes de assim os vermos.

Licínia Quitério

2.5.16

ESPERAS


Senhora do seu nariz, ao telefone, queixa-se da comida, nem bons produtos, nem bem cozinhada, sim, tem vista para o mar, e isso o que lhe importa, não, não há-de acabar ali os seus dias, está na clínica à espera que a chamem para um exame médico, uma seca, há horas, o que é que eles estão a fazer lá dentro que não chamam ninguém, neste momento estou sozinha, sim, ela foi às compras e deixou-me aqui, já há um tempão, hoje em dia são assim, em todo o lado, olha, vem a chegar, vou desligar. 
Chegou a acompanhante, com farda de profissão, jovem, traz-lhe bolachinhas, a senhora ainda não comeu, e água, bebeu, mas tem de beber, eu vou buscar. 
A senhora tira do saco um segundo telemóvel e diz para a jovem lhe pôr ali o número do Gonçalo, está no outro, veja lá, porcaria de telemóveis, tenho de comprar um que seja bom, mas a senhora já tem dois, pronto, o número do Gonçalo já está também neste, a senhora insiste, tenho de comprar um melhor. 
A senhora não deve ter falta de dinheiro, nem de telemóveis, o que a senhora não tem é paciência para esta porcaria de vida que já lhe deu muitos anos, diabetes, e horas de espera numa clínica, que ela detesta esperar, principalmente agora que já não tem ninguém que espere por ela.

6.2.16

MUD


Remexendo em baús, encontrei este emblema que, era eu muito pequena, o meu Pai chegou a trazer na lapela e depois, quando o fascismo lá na terra aqueceu, foi escondido em casa, em lugar que eu não sabia. O meu Pai partiu há muito, o fascismo, tal como era, acabou, vencido pelos amigos do emblema, e hoje eu fotografei-o e venho aqui mostrá-lo. Vão ao Google e procurem MUD-Movimento de Unidade Democrática e encontrarão dados sobre este Movimento da Resistência que fez tremer Salazar. Apetece-me dizer aos que nasceram com a Liberdade e aos que não deram por nada: Aprendam que eu não duro sempre.

Licínia Quitério

5.2.16

AS MENINAS


As meninas chegam e a casa ganha passos miúdos, vozes tenras, desalinhos, interrogações. Circulam, cirandam, procuram, pegam e largam, escolhem, transformam os lugares. A casa acolhe-as e elas tornam-se a casa. As meninas partem e a casa acrescenta-se, alinda-se, para as meninas, para o regresso das meninas.

Licínia Quitério

31.1.16

PRESENTES


Colhidas por mãos pequenas
de menina, de menino,
flores do campo 
são presentes
inesperados,
comoventes.
Cada qual da sua cor
valem oiros,
valem glórias.
São pedacinhos de amor
com que se escrevem, 
se lêem
os grandes livros
de histórias.

Licínia Quitério

25.12.15

REGRESSO


O Natal a terminar. É tempo de regressar, à terra, à casa, às rotinas, aos desafios. Pegar na mala com lembranças da visita e partir. Mais um abraço, um beijo, um adeus até breve, que talvez seja, ou não. Confundem-se luzes e sombras, interiores e exteriores, sobrepõem-se planos, despontam difusas caligrafias. Alguém fotografa o cais da viagem, sabendo que nada se fixa, nada é definitivo, nada se sabe do que vai no coração de quem parte, de quem fica. 

Licínia Quitério

4.12.15

TELHAS


A telha portuguesa usada na cobertura das antigas casas. O seu assentamento indiciava a finalização da fase mais urgente da construção – a cobertura. O pedreiro, curvado, de rins à força do sol, os pés em equilíbrios que só ele sabia sobre as traves de madeira ainda descobertas. O servente enchia o balde de massa e levava-o ao ombro pela escada de mão acima. Com a colher de bico arredondado, o mestre pedreiro vedava com o cimento a boca das telhas que umas sobre as outras imbricava. Era bonito de se ver crescer, na inclinação do telhado, as fileiras de barro vermelho, umas às outras paralelas, e as madeiras a desaparecerem sob a protecção das telhas que as haviam de guardar das chuvas, Inverno após Inverno.
Depois de muitos consertos e algumas limpezas, também as telhas vão envelhecendo, soçobrando, deixando de ser a protecção das madeiras que, apodrecidas, descaídas, irão dizer a quem passa que a casa chegou ao fim e que das gentes que guardou já pouco sabe.

Licínia Quitério

3.12.15

AS VIOLETAS


As violetas floriram, por entre a sombra de outras plantas. Cuidado é preciso para não as magoar quando se arrancam ervas bravas. Dão o sinal da presença com o seu perfume delicadíssimo que nos inunda a mão. São também filhas e netas da minha Mãe, da minha Avó, que cuidaram de suas mães, suas avós. São assim as verdadeiras heranças: de sementes, de cores, de cheiros, de delicadezas maiores que todo o oiro. 

Licínia Quitério

22.11.15

BALADA DA TERRA



Poisar os dedos na terra
E o coração a segui-los
Porque ela só se revela
A quem a sente, a adivinha,
A toca como quem ama
Com a mansidão das tardes
Quando recolhem as aves.

Dá um nó no nosso peito
Que à noite se desenlaça
E deixa um leve tremor
A fazer-nos balançar
Na corda do desamparo.

É a terra que nos sabe
Nos acolhe ou nos rejeita
Nos oferece o verde, o grão
Ou o espinho e a secura
Conforme o pão repartimos
Ou esquecemos a ternura.

Licínia Quitério

21.11.15

A FESTA


A vida mudou muito, aqui a ocidente, mesmo para nós, os lusos, no país a descair para o mar, de costas para o outro que tão mal conhecemos. Agora, num encontro de amigos, numa celebração de aniversário, há os que vêm de outras terras para onde foram trabalhar, há os que já os visitaram, há os que falam de viagens, de aeroportos, de cidades, do que dantes se dizia, "lá fora", e de que agora se fala com alguma intimidade, porque mesmo que nunca lá tenhamos ido há a sensação de que todo o lugar nos é possível, todo o preparativo de viagem se resume a avaliar o peso duma mala. É assim, mas talvez essa ligação com o mundo faça um interregno, se suspenda num armário de velhas roupagens, de velhos medos, de novas interrogações. Hoje mesmo, a conversa vai-se pontuando de notícias de última hora, de mortandades de última hora, das bombas de ontem, do susto que vai povoando o amanhã. Por detrás de nós, há um relógio que decidiu inverter o sentido dos ponteiros, que nos lembra que tudo pode já ter sido assim, que talvez volte a ser, e que de novo digamos "lá fora" onde hoje dizemos "ali", e o mundo nunca venha a ser o que sonhámos, sem ninguém que  fosse "de fora", porque todos caberiam "cá dentro", era só aumentar o tamanho da mesa e o número dos pratos.
Depois da festa de hoje, foi nisto que pensei.

Licínia Quitério​

17.11.15

O AMÁVEL



No andar mais baixo do prédio, a janela aberta, o começo duma tarde quente, um braço a descansar no parapeito, aconchegado por pequena almofada, à medida daquele braço sem vida, a mão fechada, o polegar escondido. A procurar a janela que fica recuada e mais baixa do que o passeio onde caminho, rodo um pouco a cabeça e dou com o rosto daquele braço inerte, um rosto de olhos parados, muito abertos, um esgar no lugar da boca, o tufo de cabelos ondulados a descair sobre as têmporas. Estremeço quando percebo que conheci aquele resto de homem noutro homem inteiro, enérgico, de fala grossa, a dizer-me olá, a tratar-me pelo pequeno nome de infância. Porventura pensara que já tivesse morrido, há muito deixara de o ver, a gente esquece-se dos vivos se não continuam a passar por nós, ao menos de longe em longe, a lembrar, ainda aqui estou, tu também, se calhar sempre estaremos, quem sabe a morte não existe mesmo.

Abrando o passo e não desvio o olhar da janela, do braço do homem, do olhar vazio do homem que era o mesmo, afinal era ele, ainda quase vivo, podia ter morrido que eu nem daria por isso, mas vê-lo assim em esboço, em sombra, em arremedo, dá-me uma tristeza exagerada, sei lá eu porque entristeço assim, às vezes, era só meu conhecido, que raio, a idade torna-nos piegas. Por detrás dele, o vulto sombreado da mulher, a mulher dele que também conheci, não sei como se chama, o nome dele sei, é um nome bonito, chama-se Amável. Ela lá está, tem na mão um prato, deve ser para lhe dar de comer, uma mulher que dá de comer ao seu homem, ao que resta do seu homem, agora só Amável de nome, que a doença decerto o tornou irascível, a balbuciar palavrões que nunca usava dantes, a ameaçar bater-lhe com o braço que não morreu ainda. Há horas, muitas horas, em que ela chora, choraminga, tem tanta pena dele, tem tanta pena dela. Não pode ir-se abaixo, é seu ofício tratá-lo, alimentá-lo, vigiá-lo, suportar-lhe os acessos de fúria, aguentar, aguentar, afastar frases terríveis que se lhe atravessam na cabeça, em momentos mais negros, morre, porque não morres, eu não aguento mais. Já descobriu como apagar as palavras que nunca dirá, por mais que elas se apresentem. Vai ao café mais próximo, bebe um café ao balcão, responde à empregada, está melhorzinho, graças a Deus. Regressa a casa, devagar, a prolongar o tempo, a alongar o espaço, o que havia de lhes acontecer. 

Licínia Quitério

15.11.15

A VIAGEM DA CAIXINHA - leitura

13.11.15

NOVO LIVRO


8.11.15

RIO



Ah rio da minha vida, 
dá-me água, dá-me luz,
dá-me um fado se quiseres,
mas não pares, não emudeças,
não escureças,
que as pedras desta cidade,
o céu sobre elas deitado,
é por ti que se enamoram
e os seus nomes inscrevem
nos livros da marinhagem,
da salsujem, da ferrugem
dos barcos sempre encalhados
nos teus baixios de saudade.

Ah rio do meu caminho,
traz-me novas, traz-me naves,
traz-me verde se puderes,
não te percas, não te vendas,
não te prendas,
que os homens desta cidade,
o céu sobre eles deitado,
é por ti que filhos fazem
nas tardes da beira-rio,
no voltear da folhagem,
numa margem, noutra margem,
no lado de cá da sorte,
nos dois braços da viagem.

Licínia Quitério

4.11.15

CIÚMES


“Quem me dera no tempo de saltar os muros para ir roubar ameixas, ainda verdes, de fugir dos cães, dos cães que guardavam as árvores, os quintais, que ladravam e às vezes mordiam a quem trazia, a quem levava, a quem estava e não devia estar ali, no seu entender de cães.”
Isto dizia ele, uma das mãos na bengala, a outra a passar o lenço pela água dos olhos, azulados agora, e tão incompetentes que mal guardavam a memória do azul, daquele azul que dantes era o céu de todo o ano, ainda que chovesse e os adultos dissessem que era Inverno e o dia estava triste.
“Saltavas muros e rasgavas os calções e esfolavas os joelhos e depois mentias à tua mãe, coitada, que tinhas caído, que te tinham empurrado. Era assim ou não era? Eras fresco, sempre foste fresco, sem juízo nenhum, sempre a saltar de um lado para o outro, de quintal em quintal, de casa em casa, de mulher em mulher.”
Isto dizia ela, ajeitando o cabelo mal pintado de castanho, a raiz branca a crescer, a malinha de mão entre os dois, no banco de pedra de todas as manhãs, com uma bela vista para o jardim público.
Ele não a ouvia e repetia, na rouquidão da voz:
“Quem me dera, quem me dera naquele tempo…”
Ela olhava-o de través, com uma ternura azeda.
“Bem sei no que estás a pensar. Não é nas ameixas, não, sempre foste um valdevinos, mas agora acabou-se. É a vida, homem. Envelhecemos. O que passou, passou. Agora já não há nada a fazer.”
As mãos dele na bengala, uma sobre a outra, tremiam, de um tremor doente, que não era medo, que não era frio, que não era desejo. Deixou correr a água dos olhos. Queria lá saber que ela visse. Quem lhe dera poder ainda comer ameixas verdes como aquelas, deitar-se com mulheres frescas como aquelas.
Ela poisou uma mão sobre as dele, a parar-lhe a tremura, a adoçar a ternura.
“Deixa lá, meu velho desavergonhado. Quem me dera a mim ter para recordar frutos verdes, rapazes novos.”
Aí, ele afastou-lhe a mão das dele e endireitou as costas quanto pôde.
“Querem ver que a idade te deu para a asneira? Tem mas é juízo, mulher.”
Ela percebeu-lhe o sobrolho carregado e virou a cara para o outro lado, a esconder um sorriso.

“Vá lá, ao menos hoje sentiu ciúmes.”

Licínia Quitério

"CALCITRIN"


Pobre senhora desacertada, velha, suscitando sorrisos complacentes, com as suas vestimentas exóticas, os seus risos sincopados e estridentes. Não é tão evidente o seu desacerto porque os dias são de gente fora de catálogo, de tantos e tão variados modos e falas, procurando-se, lançando linhas ao lago vazio de peixes, talvez escondidos no fundo, lá bem no fundo, que oiçam, a seu modo, os pedidos de ajuda, de companhia, de esperança. 
Pobre senhora, a atirar frases aos que lhe falam e aos outros que não dão por ela, a ficar magrita, daquela magreza a assinalar os ossos. 
Senhora que parece perdida de um mundo que terá sido o seu, alvo de  sorrisos e também de carinhos inesperados, de atenções à sua saúde, às suas rotinas implacáveis. "Calcitrin", só toma um por dia, avó, diz a neta que o não é, obediente aos mercados, atentos sempre ao bem estar dos ossos das senhoras, por muito desacertados que elas tenham os relógios, que elas tenham a vida. 

Licínia Quitério

A louca de Chaillot - foto da net

24.10.15

UMA JOVEM MULHER


Ela é uma jovem mulher inteligente, atenta, sensata. Conversávamos sobre tudo, sobre o mundo. 
A minha vida já muito longa retira-me por vezes a humildade de perceber que viver muito nem sempre é sinónimo de pensar muito, nem tão pouco de pensar bem. Acontece por isso dar comigo a dissertar sobre temas para os quais me julgo muito informada, com ideias prontas, e afinal esbarrar com asserções tremendamente válidas, quantas vezes ao arrepio das minhas frágeis convicções. Porque a minha interlocutora me é muito querida, não sinto qualquer incómodo, antes admiração e contentamento por saber que depois de mim virá gente muito melhor, muito mais bem preparada do que eu alguma vez serei. A isto chamo o real progresso da humanidade, em que acredito, sabendo embora dos inevitáveis retrocessos. Como sempre, as mulheres e os homens de inteligência e honestidade não serão a maioria, mas serão eles e elas que levarão por diante o aperfeiçoamento das sociedades em bem estar e bem saber. 
Tenho a sorte de ter gente assim com quem trocar umas ideias, sem tempo medido, sem agenda nem sumário.

Licínia Quitério

22.10.15

A NOITE


A noite tem destas coisas. Acende cores, apaga formas, transforma, ilude, seduz. É capaz de cenários com actores invisíveis, sombras palpáveis, música improvável, talvez nascida nas raízes das plantas que teimam em crescer, rasgando as pedras. Só a Lua percebe a comédia dos homens no teatro da noite.

Licínia Quitério

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