21.8.16

LICÍNIA



Minha mãe deu-me o nome. Se eu nascesse rapaz seria o nome a gosto de meu pai. Foi fácil entre eles o comércio de nomes. É um nome quase esdrúxulo, o meu, com uma quase vogal que se repete. Quase fácil, quase audível, o meu nome. É um nome antigo, já serviu a uma imperatriz, quase mandante, pois reza a história que foi filha e consorte de senhores. Também se diz que é nome de oliveira ou do seu fruto de casta cordovesa. O nome preso a mim, eu presa a ele, caminhamos, quase certos de nunca nos deixarmos, quase.

Licínia Quitério


16.8.16

NAUFRÁGIOS


Acordo com um peso nos ombros. Somos um mundo feito de naufrágios, penso, agarrada às notícias desse mar do meio onde se sepultam os esfomeados. Penso sempre em Agostinho da Silva que alertou para a chegada dos do sul a desnortear a Europa. Entristeço ao saber este lugar de ricos a erguer vedações farpadas para que não entrem os que nada têm senão, ainda, o desejo de viver. Sabemos nós, o homem branco, que nada pode parar o grande êxodo? Todas as guerras que alimentámos, todos os bens que saqueámos, fazem-se agora aflição à nossa porta. Nós, os que tudo temos, trememos de um medo impensável dos que nada têm. Desesperamos e dizemos:
Esta não é a vossa casa. Ficai na vossa, continuai a morrer, não ouseis viver na nossa. Se é difícil alimentar os pobres que na nossa casa criámos, como deixar-vos entrar, deserdados da terra, apagadores dos nossos sonhos de grandeza?

O peso nos meus ombros chamar-se-á remorso? Alguém mais o sente?

Licínia Quitério

Foto da net: Le Radeau de la Méduse, de Gericault

O FOGO



O fogo é um animal de muitos braços que envolve, seca, queima, arrasa, da copa à raiz, do telhado à soleira, ameaça animais e homens e, se for de sua vontade, mata. O fogo é um mestre cruel que mostra aos homens as suas fraquezas, os seus erros. Quem melhor do que o fogo nos diz a desertificação do interior, a proliferação do minifúndio sem lei, os velhos, muitos velhos, no isolamento de povoados, o discurso difícil e incoerente das gentes perante a tragédia? Sub-desenvolvimento, pode chamar-se, que serve, sempre serve, aos negociantes do mal.
Do fogo, as cinzas. Das cinzas um dia virá uma ave rara que ensine os homens a afirmar, em vez de "isto é meu", "isto somos nós".
Que venha a chuva que apague o fogo.

Licínia Quitério

25.7.16

OS ESCRITORES


Os escritores enchem de jóias o cofre da Humanidade. São guardiões da memória e construtores do sonho. Enfiam as palavras em lágrimas e sangue e dão-nos fios de coragem e de ternura com que afugentamos a mesquinhez das pequenas vidas. Eles contam, contam-nos, inventam, inventam-nos, avisam-nos, mergulham nos nossos silêncios e falam por nós. São a consciência dos homens e dos povos. São perseguidos, escarnecidos, vilipendiados, ignorados. Os poderes adulam-nos ou apagam-nos. Temem-nos. Eles possuem o ouro da palavra que resiste à usura, ao tempo dos dinheiros.

Licínia Quitério

16.7.16

NÃO HÁ LONJURAS



Um cão ladra continuadamente em Nice e eu oiço-o aqui, quase em simultâneo, na minha bancada de observar o mundo. Ontem ao serão, ouvi distintamente, também "em directo", como costuma dizer-se, o tiroteio na Turquia. Tudo acontece em ricochete na minha bancada. O mundo encolheu, não há lonjuras, um homem grita na outra metade do paralelo e eu oiço-o, eu entendo a sua língua que é já a mesma, planetária, interplanetária. Todos os segredos podem ser violados, mesmo ainda dentro das nossas cabeças. É o admirável mundo novo. Um cão ladra em Nice, e eu, à beira da bancada, abro os olhos, os ouvidos, o espanto, e não entendo, não entendo por que razão aconteceu este medo que perpassa no mundo, "em directo", como costuma dizer-se.

Licínia Quitério

9.7.16

O CR7


De facto, o Rapaz é uma máquina humana que se supera e se eleva e consegue o inconcebível. Toca a bola como quem toca o mundo, segreda-lhe a trajectória, obriga-a a cumprir o seu destino. O Rapaz solta um urro que vem das profundezas, retesa os músculos, é o dono do mundo por instantes. É um ser extraordinariamente poderoso, estátua viva do Olimpo terreno.

É o CR7, o Rapaz do nosso contentamento.

Licínia Quitério

O NINHO


O menino soube um ninho
Caído no chão, coitado.
Lá dentro, um ovo quebrado.
Não vai nascer passarinho.

Assim a vida termina
Antes de ter começado.
Assim o ninho guardado
Em palma de mão-menina.


Licínia Quitério

5.7.16

JUNO



Um engenho produzido por humanos terráqueos orbita a partir de agora o maior planeta do sistema solar. Chama-se Juno, a deusa mulher de Júpiter que vê através das nuvens, e durante um par de anos mandará notícias daquelas paragens que ajudarão ou não a melhor compreender as origens, as razões, os destinos. É o Homem no seu estado mais avançado, o mesmo homem que se faz explodir com engenhos artesanais e mata os outros homens que o mandaram eleger como inimigos, o mesmo homem que se afinca a fazer retroceder os tempos para escuridões primitivas de ignorância e negação. 
O mais e o menos é tudo o que somos.

Licínia Quitério

3.7.16

SILLY SEASON



Aí está a silly season, com as suas quenturas a pedirem bebidas frescas, as esplanadas de Domingo cheias de gente morena, suada, de crianças rabugentas a quem foi subtraída a sesta, de cães à trela ameaçando arrastar cadeira e dono. Para o fim da tarde chegam os da praia, areia a transbordar das havaianas, a água estava boa, um bocado fria, no Algarve é que é bom, talvez em Agosto, um fim de semana, só, e já é bem bom, há quem nem isso possa fazer. Há os que se sentam para uma cerveja e uns tremoços, caracóis não há aqui, puxam dos telemóveis, olha, sabes quantos likes já tenho, quarenta, e ontem ainda tive mais. Uma mão para o tremoço a outra para tactear o écran, agilidade, agilidade, são da era do polegar, do toque subtil, dos olhos pregados na imagem, nas imagens, muitas, nos textos, curtos, muito curtos, pouco mais do que sinalefas, ícones,  emojis, emoticons, palavras que não sei escrever, os novos hieróglifos, os novos tempos, o novo Verão no hemisfério norte.

 Licínia Quitério

O VIZINHO INVISÍVEL


APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE FRANCISCO JOSÉ FARALDO "O VIZINHO INVISÍVEL"

Vivemos no mesmo bairro há muito e mal nos conhecemos. Não sabemos se estas pessoas partilham os nossos hábitos, se comem mais carne ou mais peixe do que nós, se preferem o fado ou o rock, se lêem ficção ou poesia ou nem sequer lêem, se prezam os antepassados ou preferem ignorá-los, se são de alguma igreja ou de nenhuma, se são gente de partir ou de ficar. Não conhecemos e não procuramos conhecer. Preferimos a estranheza à convivência.
O que se diz do bairro, pode dizer-se da rua ou, se bem atentarmos, do prédio-formigueiro com cada um em sua toca, de encontros fortuitos em espaços comuns.
Se assim é e se de tal só damos conta e nos admiramos quando paramos para pensar nos nossos pequenos mundos, ali à nossa mão, diante do nosso olhar, que dizer de dois países que em grande medida se ignoram, apesar de partilharem a mesma península, de ibérica chamada, toda virada ao mar a não ser numa faixa de altos relevos que mal a deixam espreitar, ou ser espreitada, pelos outros povos além Pirinéus, aquém Urais de que se diz Europa.
De um passado de invasões, lutas, conquistas, expulsões, reconquistas, pelos séculos se foram criando na península condados, reinos, regiões, se foram traçando fonteiras, transpondo fronteiras, fechando fronteiras. Entre batalhas, pelejas, guerras, todas infames, todas sangrentas, nesta península se firmaram e perduraram até aos nossos dias dois países que hoje se chamam Espanha e Portugal, o mais pequeno ligado ao maior, a norte e a leste, ambos usufruindo a mesma Natureza, os mesmos rios, montanhas, planuras, securas, verduras, indiferentes às motivações, às linguagens dos homens.
Quiseram os ventos, os dos “maus casamentos” e os da história da insensatez e ambição dos homens que portugueses e espanhóis tenham vivido costas com costas, remoendo o passado, ignorando o presente, nesta jangada de pedra que Saramago, por artes mágicas da vara de negrilho com que Joana Carda riscou o chão, fez cortar o istmo e vogar mar adentro, ou mar afora, e dizer adeus ao velho continente, numa alegoria, atrevo-me a presumir, da inevitável unidade do destino de seus povos, numa deriva atlântica. Mais do que de costas voltadas, vivemos na ignorância uns dos outros, na ausência de curiosidade, na repetição de velhas, estafadas anedotas, falando nós portugueses de “nuestros hermanos” sem qualquer convicção de irmandade e olhando-nos, os espanhóis, como um povo parecido com eles, mas cuja fala têm dificuldade em entender, gente simpática mas um bocado tristonha e pouco mais. Nós orgulhamo-nos de Gama e eles de Colón, nós de Camões e eles de Cervantes, como se não tivessem nascido, escrito e aventurado num tempo comum, numa gesta comum de um tempo em que ambos demos cartas ao mundo, de arrojo e sabedoria, muitas vezes também de crueldade e despotismo.
É sobre nós, os vizinhos ibéricos, que Francisco Faraldo, um espanhol que conhece e ama Portugal como uma das suas casas, tanto que escolheu morar também nesta, decidiu em boa hora escrever o livro El vecino invisible, que hoje aqui se apresenta, vertido para português, agora com o nome de O vizinho invisível.
É esse vizinho invisível, o Portugal ignorado pelos espanhóis, que Faraldo faz descobrir, com grande perspicácia, com rigor histórico, e sobretudo com uma deliciosa ironia, que nos leva ao sorriso e ao riso, quando nos mostra, a nós portugueses, as nossas idiossincrasias que só um olhar exterior e penetrante consegue avistar e descrever. Mais do que um livro para os espanhóis melhor nos entenderem e conhecerem, é este um livro para nós portugueses nos revermos, nos redescobrimos. É neste sentido um livro para todos os que na jangada vivem e se interessam pelas razões do que somos, pelas nossas diferenças e afinidades, como povos unidos pelo determinismo da geografia.
Depois de ter lido El Vecino Invisible, fiquei com grande vontade que o livro viesse a ser editado em Portugal, tendo em conta a abordagem inteligente e descomprometida dos nossos percursos e costumes feita por alguém que tão bem conhece os dois países ibéricos. Em conversas com o autor, várias vezes lhe fiz sentir este meu desejo de que o seu livro se tornasse acessível ao público português. Estava eu muito longe de supor que Francisco Faraldo, o meu amigo Paco, perante a minha impertinente questão, me lançasse, num tom falsamente distraído, “se fores tu a traduzir…”. Da minha resposta ao repto sabem os leitores deste livro, que a Poética aceitou em boa hora editar e que hoje aqui se apresenta. Traduzir esta obra foi de facto um grande desafio a que me atrevi, tentando não trair a confiança que o autor em mim depositou e a quem agradeço de todo o coração.
Porque a Poesia nunca me larga e porque o autor também é Poeta, termino esta apresentação com um poema de Ruy Belo de que gosto muito e que nos remete para a questão da vizinhança, no seu sentido lato:

  “E tudo era possível”
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Licínia Quitério

21 de Maio de 2016

18.6.16

MACIA, A MANHÃ


Acordou macia, a manhã. Macia e morna. Depois do Sol impante, do vento impertinente, uma pequena chuva molhou a noite e continua dia fora. O rodado dos carros, menos apressados, amortece o som no chão molhado. Lavadas do pó, as árvores põem o fato verde-jade que lhes cresceu com a Primavera. As pessoas adoçam as vozes, para não abafarem segredos húmidos de ramo em ramo, de mesa em mesa. Suave a manhã, de calma a cobrir a insolência dos dias idos.

Licínia Quitério

6.6.16

UM MANGERICO


Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...

O que eu gostava das marchas, e dos tronos, e da sardinha assada, e do requebro na cintura dos marchantes, e das letras tão previsíveis, e das zaragatas de vinho e mau feitio, e do Ary a dizer poesia, já com muito vinho e mau feitio, mas que bem ele dizia, e nós em fila, de mão no ombro do da frente, e polícia fardada e à paisana, e nós a ensaiarmos canções de liberdade ao ritmo da marcha, e a rirmos, nós nessa altura ríamos do que havia e do que esperávamos que houvesse, e havia o amor que nos assaltava num larguinho de Alfama, e nós ríamos e sabíamos que era um amor de acabar quando a festa acabasse,  abril ainda estava longe e nem sequer sabíamos que se chamaria abril, e hoje deu-me para recordar a minha Lisboa, que hoje tão mal conheço, depois de tudo o que passou, nas ruas da cidade, nas minhas próprias ruas.

Ó i ó ai, vou comprar um mangerico...


Licínia Quitério

30.5.16

PATAS


pata aqui pato acolá
mas que fresquinho aqui está
ó senhores venham cá
não nos façam cara má
patuscos é o que mais há
deixem tristeza pr'a lá
quá-quá, quá-quá e quá-quá

Licínia Quitério

16.5.16

QUATRO MENINOS


Eram quatro meninos com a adolescência enfiada nas mochilas, quatro à mesa, de volta dos seus hamburgers, dos seus sumos de lata e palhinha, falando e rindo, sem qualquer alarde de irreverência, daquela que tantas vezes se ata ao nome de meninos assim grandes como estes. Espremiam o frasco da maionese sobre as batatas fritas e depois comiam-nas com as mãos, pegadas pelas pontas, no equilíbrio entre a máxima a vir à boca e a mínima a agarrar-se aos dedos. Comiam e falavam e riam e tinham um ar guloso que dava gosto ver. Os telemóveis descansavam ao lado do prato, mas não lhes tocavam, riam, comiam e conversavam. Pagaram, moedinhas bem contadas, pegaram nas mochilas e saíram. Tinham um ar feliz, estes quatro meninos do seu tempo, tão diferentes do retrato daqueles de que se diz serem mal-educados, mal-comportados, mal-vestidos, mal-de-nós quando só formos capazes de assim os vermos.

Licínia Quitério

2.5.16

ESPERAS


Senhora do seu nariz, ao telefone, queixa-se da comida, nem bons produtos, nem bem cozinhada, sim, tem vista para o mar, e isso o que lhe importa, não, não há-de acabar ali os seus dias, está na clínica à espera que a chamem para um exame médico, uma seca, há horas, o que é que eles estão a fazer lá dentro que não chamam ninguém, neste momento estou sozinha, sim, ela foi às compras e deixou-me aqui, já há um tempão, hoje em dia são assim, em todo o lado, olha, vem a chegar, vou desligar. 
Chegou a acompanhante, com farda de profissão, jovem, traz-lhe bolachinhas, a senhora ainda não comeu, e água, bebeu, mas tem de beber, eu vou buscar. 
A senhora tira do saco um segundo telemóvel e diz para a jovem lhe pôr ali o número do Gonçalo, está no outro, veja lá, porcaria de telemóveis, tenho de comprar um que seja bom, mas a senhora já tem dois, pronto, o número do Gonçalo já está também neste, a senhora insiste, tenho de comprar um melhor. 
A senhora não deve ter falta de dinheiro, nem de telemóveis, o que a senhora não tem é paciência para esta porcaria de vida que já lhe deu muitos anos, diabetes, e horas de espera numa clínica, que ela detesta esperar, principalmente agora que já não tem ninguém que espere por ela.

6.2.16

MUD


Remexendo em baús, encontrei este emblema que, era eu muito pequena, o meu Pai chegou a trazer na lapela e depois, quando o fascismo lá na terra aqueceu, foi escondido em casa, em lugar que eu não sabia. O meu Pai partiu há muito, o fascismo, tal como era, acabou, vencido pelos amigos do emblema, e hoje eu fotografei-o e venho aqui mostrá-lo. Vão ao Google e procurem MUD-Movimento de Unidade Democrática e encontrarão dados sobre este Movimento da Resistência que fez tremer Salazar. Apetece-me dizer aos que nasceram com a Liberdade e aos que não deram por nada: Aprendam que eu não duro sempre.

Licínia Quitério

5.2.16

AS MENINAS


As meninas chegam e a casa ganha passos miúdos, vozes tenras, desalinhos, interrogações. Circulam, cirandam, procuram, pegam e largam, escolhem, transformam os lugares. A casa acolhe-as e elas tornam-se a casa. As meninas partem e a casa acrescenta-se, alinda-se, para as meninas, para o regresso das meninas.

Licínia Quitério

31.1.16

PRESENTES


Colhidas por mãos pequenas
de menina, de menino,
flores do campo 
são presentes
inesperados,
comoventes.
Cada qual da sua cor
valem oiros,
valem glórias.
São pedacinhos de amor
com que se escrevem, 
se lêem
os grandes livros
de histórias.

Licínia Quitério

25.12.15

REGRESSO


O Natal a terminar. É tempo de regressar, à terra, à casa, às rotinas, aos desafios. Pegar na mala com lembranças da visita e partir. Mais um abraço, um beijo, um adeus até breve, que talvez seja, ou não. Confundem-se luzes e sombras, interiores e exteriores, sobrepõem-se planos, despontam difusas caligrafias. Alguém fotografa o cais da viagem, sabendo que nada se fixa, nada é definitivo, nada se sabe do que vai no coração de quem parte, de quem fica. 

Licínia Quitério

4.12.15

TELHAS


A telha portuguesa usada na cobertura das antigas casas. O seu assentamento indiciava a finalização da fase mais urgente da construção – a cobertura. O pedreiro, curvado, de rins à força do sol, os pés em equilíbrios que só ele sabia sobre as traves de madeira ainda descobertas. O servente enchia o balde de massa e levava-o ao ombro pela escada de mão acima. Com a colher de bico arredondado, o mestre pedreiro vedava com o cimento a boca das telhas que umas sobre as outras imbricava. Era bonito de se ver crescer, na inclinação do telhado, as fileiras de barro vermelho, umas às outras paralelas, e as madeiras a desaparecerem sob a protecção das telhas que as haviam de guardar das chuvas, Inverno após Inverno.
Depois de muitos consertos e algumas limpezas, também as telhas vão envelhecendo, soçobrando, deixando de ser a protecção das madeiras que, apodrecidas, descaídas, irão dizer a quem passa que a casa chegou ao fim e que das gentes que guardou já pouco sabe.

Licínia Quitério

3.12.15

AS VIOLETAS


As violetas floriram, por entre a sombra de outras plantas. Cuidado é preciso para não as magoar quando se arrancam ervas bravas. Dão o sinal da presença com o seu perfume delicadíssimo que nos inunda a mão. São também filhas e netas da minha Mãe, da minha Avó, que cuidaram de suas mães, suas avós. São assim as verdadeiras heranças: de sementes, de cores, de cheiros, de delicadezas maiores que todo o oiro. 

Licínia Quitério

22.11.15

BALADA DA TERRA



Poisar os dedos na terra
E o coração a segui-los
Porque ela só se revela
A quem a sente, a adivinha,
A toca como quem ama
Com a mansidão das tardes
Quando recolhem as aves.

Dá um nó no nosso peito
Que à noite se desenlaça
E deixa um leve tremor
A fazer-nos balançar
Na corda do desamparo.

É a terra que nos sabe
Nos acolhe ou nos rejeita
Nos oferece o verde, o grão
Ou o espinho e a secura
Conforme o pão repartimos
Ou esquecemos a ternura.

Licínia Quitério

21.11.15

A FESTA


A vida mudou muito, aqui a ocidente, mesmo para nós, os lusos, no país a descair para o mar, de costas para o outro que tão mal conhecemos. Agora, num encontro de amigos, numa celebração de aniversário, há os que vêm de outras terras para onde foram trabalhar, há os que já os visitaram, há os que falam de viagens, de aeroportos, de cidades, do que dantes se dizia, "lá fora", e de que agora se fala com alguma intimidade, porque mesmo que nunca lá tenhamos ido há a sensação de que todo o lugar nos é possível, todo o preparativo de viagem se resume a avaliar o peso duma mala. É assim, mas talvez essa ligação com o mundo faça um interregno, se suspenda num armário de velhas roupagens, de velhos medos, de novas interrogações. Hoje mesmo, a conversa vai-se pontuando de notícias de última hora, de mortandades de última hora, das bombas de ontem, do susto que vai povoando o amanhã. Por detrás de nós, há um relógio que decidiu inverter o sentido dos ponteiros, que nos lembra que tudo pode já ter sido assim, que talvez volte a ser, e que de novo digamos "lá fora" onde hoje dizemos "ali", e o mundo nunca venha a ser o que sonhámos, sem ninguém que  fosse "de fora", porque todos caberiam "cá dentro", era só aumentar o tamanho da mesa e o número dos pratos.
Depois da festa de hoje, foi nisto que pensei.

Licínia Quitério​

17.11.15

O AMÁVEL



No andar mais baixo do prédio, a janela aberta, o começo duma tarde quente, um braço a descansar no parapeito, aconchegado por pequena almofada, à medida daquele braço sem vida, a mão fechada, o polegar escondido. A procurar a janela que fica recuada e mais baixa do que o passeio onde caminho, rodo um pouco a cabeça e dou com o rosto daquele braço inerte, um rosto de olhos parados, muito abertos, um esgar no lugar da boca, o tufo de cabelos ondulados a descair sobre as têmporas. Estremeço quando percebo que conheci aquele resto de homem noutro homem inteiro, enérgico, de fala grossa, a dizer-me olá, a tratar-me pelo pequeno nome de infância. Porventura pensara que já tivesse morrido, há muito deixara de o ver, a gente esquece-se dos vivos se não continuam a passar por nós, ao menos de longe em longe, a lembrar, ainda aqui estou, tu também, se calhar sempre estaremos, quem sabe a morte não existe mesmo.

Abrando o passo e não desvio o olhar da janela, do braço do homem, do olhar vazio do homem que era o mesmo, afinal era ele, ainda quase vivo, podia ter morrido que eu nem daria por isso, mas vê-lo assim em esboço, em sombra, em arremedo, dá-me uma tristeza exagerada, sei lá eu porque entristeço assim, às vezes, era só meu conhecido, que raio, a idade torna-nos piegas. Por detrás dele, o vulto sombreado da mulher, a mulher dele que também conheci, não sei como se chama, o nome dele sei, é um nome bonito, chama-se Amável. Ela lá está, tem na mão um prato, deve ser para lhe dar de comer, uma mulher que dá de comer ao seu homem, ao que resta do seu homem, agora só Amável de nome, que a doença decerto o tornou irascível, a balbuciar palavrões que nunca usava dantes, a ameaçar bater-lhe com o braço que não morreu ainda. Há horas, muitas horas, em que ela chora, choraminga, tem tanta pena dele, tem tanta pena dela. Não pode ir-se abaixo, é seu ofício tratá-lo, alimentá-lo, vigiá-lo, suportar-lhe os acessos de fúria, aguentar, aguentar, afastar frases terríveis que se lhe atravessam na cabeça, em momentos mais negros, morre, porque não morres, eu não aguento mais. Já descobriu como apagar as palavras que nunca dirá, por mais que elas se apresentem. Vai ao café mais próximo, bebe um café ao balcão, responde à empregada, está melhorzinho, graças a Deus. Regressa a casa, devagar, a prolongar o tempo, a alongar o espaço, o que havia de lhes acontecer. 

Licínia Quitério

15.11.15

A VIAGEM DA CAIXINHA - leitura

13.11.15

NOVO LIVRO


8.11.15

RIO



Ah rio da minha vida, 
dá-me água, dá-me luz,
dá-me um fado se quiseres,
mas não pares, não emudeças,
não escureças,
que as pedras desta cidade,
o céu sobre elas deitado,
é por ti que se enamoram
e os seus nomes inscrevem
nos livros da marinhagem,
da salsujem, da ferrugem
dos barcos sempre encalhados
nos teus baixios de saudade.

Ah rio do meu caminho,
traz-me novas, traz-me naves,
traz-me verde se puderes,
não te percas, não te vendas,
não te prendas,
que os homens desta cidade,
o céu sobre eles deitado,
é por ti que filhos fazem
nas tardes da beira-rio,
no voltear da folhagem,
numa margem, noutra margem,
no lado de cá da sorte,
nos dois braços da viagem.

Licínia Quitério

4.11.15

CIÚMES


“Quem me dera no tempo de saltar os muros para ir roubar ameixas, ainda verdes, de fugir dos cães, dos cães que guardavam as árvores, os quintais, que ladravam e às vezes mordiam a quem trazia, a quem levava, a quem estava e não devia estar ali, no seu entender de cães.”
Isto dizia ele, uma das mãos na bengala, a outra a passar o lenço pela água dos olhos, azulados agora, e tão incompetentes que mal guardavam a memória do azul, daquele azul que dantes era o céu de todo o ano, ainda que chovesse e os adultos dissessem que era Inverno e o dia estava triste.
“Saltavas muros e rasgavas os calções e esfolavas os joelhos e depois mentias à tua mãe, coitada, que tinhas caído, que te tinham empurrado. Era assim ou não era? Eras fresco, sempre foste fresco, sem juízo nenhum, sempre a saltar de um lado para o outro, de quintal em quintal, de casa em casa, de mulher em mulher.”
Isto dizia ela, ajeitando o cabelo mal pintado de castanho, a raiz branca a crescer, a malinha de mão entre os dois, no banco de pedra de todas as manhãs, com uma bela vista para o jardim público.
Ele não a ouvia e repetia, na rouquidão da voz:
“Quem me dera, quem me dera naquele tempo…”
Ela olhava-o de través, com uma ternura azeda.
“Bem sei no que estás a pensar. Não é nas ameixas, não, sempre foste um valdevinos, mas agora acabou-se. É a vida, homem. Envelhecemos. O que passou, passou. Agora já não há nada a fazer.”
As mãos dele na bengala, uma sobre a outra, tremiam, de um tremor doente, que não era medo, que não era frio, que não era desejo. Deixou correr a água dos olhos. Queria lá saber que ela visse. Quem lhe dera poder ainda comer ameixas verdes como aquelas, deitar-se com mulheres frescas como aquelas.
Ela poisou uma mão sobre as dele, a parar-lhe a tremura, a adoçar a ternura.
“Deixa lá, meu velho desavergonhado. Quem me dera a mim ter para recordar frutos verdes, rapazes novos.”
Aí, ele afastou-lhe a mão das dele e endireitou as costas quanto pôde.
“Querem ver que a idade te deu para a asneira? Tem mas é juízo, mulher.”
Ela percebeu-lhe o sobrolho carregado e virou a cara para o outro lado, a esconder um sorriso.

“Vá lá, ao menos hoje sentiu ciúmes.”

Licínia Quitério

"CALCITRIN"


Pobre senhora desacertada, velha, suscitando sorrisos complacentes, com as suas vestimentas exóticas, os seus risos sincopados e estridentes. Não é tão evidente o seu desacerto porque os dias são de gente fora de catálogo, de tantos e tão variados modos e falas, procurando-se, lançando linhas ao lago vazio de peixes, talvez escondidos no fundo, lá bem no fundo, que oiçam, a seu modo, os pedidos de ajuda, de companhia, de esperança. 
Pobre senhora, a atirar frases aos que lhe falam e aos outros que não dão por ela, a ficar magrita, daquela magreza a assinalar os ossos. 
Senhora que parece perdida de um mundo que terá sido o seu, alvo de  sorrisos e também de carinhos inesperados, de atenções à sua saúde, às suas rotinas implacáveis. "Calcitrin", só toma um por dia, avó, diz a neta que o não é, obediente aos mercados, atentos sempre ao bem estar dos ossos das senhoras, por muito desacertados que elas tenham os relógios, que elas tenham a vida. 

Licínia Quitério

A louca de Chaillot - foto da net

24.10.15

UMA JOVEM MULHER


Ela é uma jovem mulher inteligente, atenta, sensata. Conversávamos sobre tudo, sobre o mundo. 
A minha vida já muito longa retira-me por vezes a humildade de perceber que viver muito nem sempre é sinónimo de pensar muito, nem tão pouco de pensar bem. Acontece por isso dar comigo a dissertar sobre temas para os quais me julgo muito informada, com ideias prontas, e afinal esbarrar com asserções tremendamente válidas, quantas vezes ao arrepio das minhas frágeis convicções. Porque a minha interlocutora me é muito querida, não sinto qualquer incómodo, antes admiração e contentamento por saber que depois de mim virá gente muito melhor, muito mais bem preparada do que eu alguma vez serei. A isto chamo o real progresso da humanidade, em que acredito, sabendo embora dos inevitáveis retrocessos. Como sempre, as mulheres e os homens de inteligência e honestidade não serão a maioria, mas serão eles e elas que levarão por diante o aperfeiçoamento das sociedades em bem estar e bem saber. 
Tenho a sorte de ter gente assim com quem trocar umas ideias, sem tempo medido, sem agenda nem sumário.

Licínia Quitério

22.10.15

A NOITE


A noite tem destas coisas. Acende cores, apaga formas, transforma, ilude, seduz. É capaz de cenários com actores invisíveis, sombras palpáveis, música improvável, talvez nascida nas raízes das plantas que teimam em crescer, rasgando as pedras. Só a Lua percebe a comédia dos homens no teatro da noite.

Licínia Quitério

UTOPIA


Utopia é capaz de ser isto mesmo. Acordar com um sorriso interior a pensar em algo bom que aconteceu, que pode não ser muito, que pode ser uma pequena luz, que nos faz pensar, nada está perdido, continua, é esse o caminho, e vamos, vamos, dia fora, noite fora, o mundo não acabou, o tempo chegará mesmo sem ser o teu.

Licínia Quitério

12.9.15

SABER FAZER


Gosto de ferramentas, daquelas palpáveis, com nomes como martelos, chaves, parafusos, e mais mil, e de tentar fazer uso delas nas reparações das pequenas avarias que vão surgindo nas casas.
Vem este gosto de quando acompanhava o meu Pai nos consertos caseiros, nas inovações de que ele era capaz, e me ensinava nomes e serventias, dando-me mesmo o cargo de ajudante - Dá cá a chave inglesa, dá cá duas porcas sextavadas, vês este parafuso, tem cabeça de tremoço. E eu, toda ufana, convencida do meu grande préstimo em trabalhos de adultos e, mais importante ainda, trabalhos de homem. 
O certo é que fui treinando as mãos nos gestos de aparafusar, pregar, compor o que estava descomposto, e apurando o gosto por saber fazer.
Cresci, o gosto e o jeitinho ficaram comigo, e tornei-me ajudante de outro mestre, não menos engenhoso,  apreciador das minhas desusadas inclinações, atendendo ao género e à época. Desse tempo, recordo o dia em que foi preciso instalar novo estendal para a roupa e o meu mestre disse - Precisamos de cerra-cabos. Ora eu, que nunca tinha ouvido falar deles, logo ali decidi não perguntar o que eram nem como eram, na minha imaginação surgindo estranhos instrumentos, de medianas dimensões, funcionando sabia eu lá como. Foi na loja de ferragens do senhor Porfírio, que eu adorava frequentar, que percebi o engano, que a homófona me tinha traído, que afinal a tal engenhoca não serrava mas cerrava, o que me fez soltar em voz de espanto - É isto? O senhor Porfírio, porventura sem entender a minha interrogação, limitou-se a dizer – Quer maior? Não temos. Lá trouxe os cerra-cabos que, bem vi, cerraram na perfeição os extremos das cordas, na tensão requerida. 
Esta vivência de proximidade com o saber fazer muito me ajudou quando me encomendaram a tradução do Inglês de um volumoso manual de ferramentas, tantas e tão variadas, que me obrigou a consultar o meu mestre, o senhor Porfírio, e especialistas do ramo, que bem me acolheram, um tanto admirados pelos meus conhecimentos do assunto, sendo eu mulher e escrevente de profissão. 
Hoje, com as mãos menos obedientes, ainda me atrevo a utilizar, se necessário, os tesouros da minha caixa de ferramentas, agora maneirinha, mas provida das armas necessárias com que se consertam os desconsertos da casa.
Tenho pena de não saber outras artes de consertar mundos. Talvez noutra vida, noutras vidas, sabe-se lá.

Licínia Quitério

3.9.15

CARTAS A LAURO



Apetece-me escrever cartas de amor, daquelas bem ridículas que se escrevem para nunca serem lidas, porque, dizem, o ridículo mata e eu já não tenho idade para morrer de amor. Que há uma idade para morrer e também uma idade para o amor.
Façamos de conta que tenho dezanove anos, ou mais, vinte e nove, é melhor assim, quase trinta, a tal idade de Balzac, mas isso era no tempo de Balzac, quando as mulheres começavam a amar muito cedo e deixavam de amar também muito cedo. Não decidi ainda como começar a carta, um princípio é sempre um tempo tão difícil, um passo no escuro, uma escrita na água, tudo tão incerto, tão sem propósito nem feitio. Meu bem, meu amor, meu X. É-me indiferente, desde que seja declaradamente possessivo. Não, é melhor dizer apenas nome dele, em diminutivo, um pequeno carinho, as mulheres gostam de diminutivos, em inho, em ito, o Zezinho, o Joãozito. Os homens preferem encurtar os nomes delas e reduzi-los a uma, duas sílabas, a Bé, a Zuca. Pelo menos era assim no meu tempo de ensaiar paixões, de as inventar, de as matar antes de terem nascido.
Vou mesmo começar a escrever cartas de amor.



      CARTA 1

Lauro,
Escrevo-te para te dizer que aprendi a amar-te muito tempo antes de te ter encontrado naquela noite, naquela sala de música e conversa, quando não éramos mais do que passageiros de vidas únicas, solitárias, livres. Reconheci-te, de outros encontros, de outros livros, de outros filmes, de outras batalhas, de outros caminhos por onde provavelmente nunca passaste e nem eu mesma sei se os percorri. Quando me disseste, o que achas disto, e te referias a um vago projecto que os teus olhos já desenhavam, eu respondi-te qualquer coisa como, é isso mesmo que eu quero, com uma tal certeza nas palavras e na voz que uma interrogação se cravou na tua testa e as minhas mãos se moveram, perdidas de mim.
Não era tarde nem cedo, nem noite, nem dia. Era o olho do furacão, era a brancura do alvo, era água a nascer. Era também alguma ave que morria, que eu bem vi a pluma que poisou na mesa e tu sopraste, e eu soprei, e eu disse princípio e tu disseste fim.
Terá sido este o tempo de começar o amor. É o que eu digo daquela noite. Será assim, ainda que digas que não estiveste lá, naquela sala, naquela noite. Há pormenores que não devem constar de uma carta de amor. Há palavras que não pertencem ao amor.
Deixo-te um beijo.
Laura


       
       CARTA 2

        Lauro,
Conforme queria dizer-te na carta de ontem, eu já te sabia de cor havia muito tempo, daquele saber sem tradução em língua viva, talvez nascido numa fala tão antiga que dela não podemos ter memória. Poderias vir ao meu encontro, ou não, em qualquer volta da estrada, num amanhecer de lírios ou numa noite de cardos. O teu rosto seria apenas um rosto, sem idade, um rosto que espera o seu tempo de madurar ou desistir, com uma ruga ondulante a atravessar a testa, o sinal da tua chegada que eu haveria de acolher, no mais doce campo de silêncio das nossas vidas.
Um dia havias de me dizer que tudo não passou de uma folha de cálculo de probabilidades, do comprovativo de uma das leis de Murphy, pura matemática, pura abstracção, que o amor não era mais do que uma teoria dos limites, nunca provada, porque assim devia ser. Eu nunca soube de ciência, nem de leis universais, nem de números ímpares, e muito menos de quadrantes solares que tu te esforçavas por construir, em salas sombrias que me entristeciam e onde, dizias, estava tudo, sendo tudo o mesmo nada de que te alimentavas. Isso foi depois. Voltarei ao assunto noutra carta.
Hoje recordo o relâmpago nos teus olhos, naquele primeiro encontro, quando, à despedida, eu só fui capaz de dizer, sei exactamente como és, e tu nada disseste, e deixaste escapar um sorriso desajeitado, de quem teme a nudez e a deseja.
Ainda hoje te vejo com esse sorriso.
Fica um beijo.

Laura



        CARTA 3

Lauro,
Escrevo esta para te dizer que finalmente arrumei os papéis daquele monte, sempre a ameaçar ruir, que fomos juntando, porque podiam vir a ser precisos, este fica, este também, que mal faz ficar aqui, depois deitamos fora, agora não, há muito trabalho à nossa espera, há muita gente à nossa espera, há tempo, há sempre tempo, dizias. E foi assim mesmo. O tempo não faltou à chamada. Faltaste tu e até eu faltei. Os papéis, esses, continuaram lá, a somar desequilíbrios, a exercitar derrocadas. Cheguei a pensar que tinham vida própria, que me espreitavam, que me provocavam, que se riam da tua inércia, da nossa inércia, da nossa vaidade de termos tempo, da nossa incapacidade de arrumar passados.
Foi numa destas tardes de morrinha, quando as estações do ano se baralham e as nossas dores também, que decidi mergulhar na pilha de folhas de todos os tamanhos, de todas as cores, a guardarem capítulos da nossa história. Puxei uma delas, e outra mais acima, e outra mais recolhida, e outra, e muitas, muitas outras, até sentir apoderar-se das minhas mãos um frenesi e o meu corpo num balanço, ano acima, ano abaixo, vida acima, vida abaixo, a desfazer o que tanto tempo nos levara a edificar.
Era já tarde quando o cansaço me fez parar, com uma dor a ameaçar-me o peito, como se fosse desatar num choro, mas, tu sabes, eu raramente choro. Adormeci ali mesmo, na cadeira junto à mesa, a pilha desfeita, o chão atapetado de folhas de papel.
Comecei esta carta a dizer-te que arrumei finalmente os papéis. Foi o que fiz. Vão ficar ali no chão, espalhados, tal qual as folhas do Outono na nossa rua. Na Primavera, se ainda não tiveres voltado, talvez arranje uma árvore onde os pendure e fique à espera que a nossa história, qualquer dia, se abra em flor.
Espero que tenhas gostado de saber.
O beijo.

Laura


CARTA 4

Lauro,
Há já bastante tempo, escreveste-me uma carta que trazia por remetente o teu nome e um número de guerra. Não era bem uma carta, era um papel dobrado e fechado que servia de carta e de envelope. Isto foi num tempo estranho que nos aconteceu e em que as mulheres recebiam papéis assim dobrados e fechados, que abriam com o coração a bater muito, sabiam lá elas se na mão que tinha escrito ainda corria sangue de vivo ou se o dono da mão já não estava a ela preso.
Foste sempre de poucas palavras e todas as que quiseste dizer couberam naquele arremedo de carta. Não vou repetir o que escreveste, o papel já se sumiu na voragem das mudanças, mas sei de cor as palavras, ainda tenho uma boa memória. Fiquei parada no lugar, no tempo, o papel suspenso nos dedos ou os dedos suspensos dele, e já a tarde se encobria quando comecei a andar, a andar, não sei para onde, não me perguntes, a gente às vezes anda porque tem de andar, não pode fazer mais nada, e depois é difícil parar, lembro-me de ter parado porque alguém perguntou, onde vais, e eu pensei que era alguém com a tua voz, e parei, e voltei ao lugar fora de tempo donde tinha partido, o papel sempre suspenso dos dedos da mão.
Nunca respondi a essa carta, que não era bem uma carta, porque nela dizias que não tinha resposta, que não querias saber de resposta, isto já eras mesmo tu a avisar que o tempo e o lugar estranhos que te tinham cabido não seriam nunca explicados, as coisas não se explicam, entendem-se ou não, como costumas dizer.
Nem penses que hoje ensaiarei uma resposta, neste meu recente afã de te escrever, de me escrever. Apenas deixo estas linhas como se fossem uma carta-resposta a outra que nem talvez tivesse chegado, que, sabes bem, eu às vezes deliro e tu, paciente, olhas-me com aquele sorriso de sempre, tão desajeitado.


Tua

         Laura



CARTA 5

Lauro,
Venho dar-te notícias do Inverno por aqui. Presumo que para ti continuem a não ter grande importância as estações do ano, já que passas por elas sem as nomeares, nem as aplaudires, nem as exaltares. Adivinho que continuas com o botão da camisa aberto, aquele junto ao pescoço, só um, que no Verão abres dois e assim contentas as pessoas que se admiram de não mudares de vestimenta.  Eu não, eu continuo a ser a rapariga que tem muito frio, muito calor, que fala do tempo como qualquer britânico que se preze, que gosta das estações dos equinócios e não do Sol a pique, nem da neve. Nunca me esqueço daquela vez que subimos a uns dois ou três mil metros de uma montanha de um país, que hoje já nem se chama assim, e tu em mangas de camisa, e a quem te dizia, não tem frio, tu respondias muito naturalmente, estamos no Verão, e estávamos, assim diziam os calendários e o dia esplendoroso no sopé da montanha. É essa a tua lógica de viveres, eu sei, embora às vezes me aflija, sem saber se estás presente ou ausente, porque esse olhar está em todo o lado e em parte nenhuma e eu, sim, também sou de ausências, mas é diferente, eu sou mais presa aos dias, enquanto tu há muito te libertaste do incómodo dos objectos, das conversas vãs, das datas que toda a gente carrega como marcos de comemorações, alegres ou tristes, próximas ou distantes. Um dia também serei assim, como tu, ou como imagino que tu és, e isso será no Inverno em que estaremos juntos de novo, não neste ainda, que está carregado de frios e de troncos cinzentos, e era disso que eu te queria dar notícia ao começar esta carta, mas, tu bem dizes, miúda vamos ao que interessa, a abreviares o assunto, e fazes bem porque quando começo a falar nunca mais me calo. 
Pelo sim, pelo não, fecha o segundo botão da camisa.


Um beijo.

Laura

CARTA 6

Lauro,
Espero que estejas bem, meu amor. Escrevi “meu amor” e logo me admirei do vocativo que uso tão pouco, menos ainda do que tu, na nossa devoção pelo sentido das palavras que não devem ser desperdiçadas, poluídas, na usura da banalidade, do automatismo que as menoriza, as mata. Hoje disse e agora sei porque o disse, mas não vou explicar, tu logo adivinharás, mesmo estando aí, nesse lugar tão longe e tão perto. Adivinhação tem sido um dos nossos jogos de muito silêncio e fortes respirações e de uma faiscante alegria quando quase gritamos a solução, em uníssono, triunfantes por instantes sobre a vida, sobre a morte. Não encolhas os ombros, no habitual disfarçado apreço pelas minhas divagações, a espicaçar-me a vontade de ir mais fundo, mais além. Eu tento, eu esforço-me, e por vezes encontro o caminho, a rua, a página, a palavra certa para chegar ao velho, à criança, ao estropiado, a um dos simples que tu elegeste e me adoptaram.
Mudando de assunto. Nem imaginas como os putos cresceram. Altos, bem mais altos do que tu, uns homens no patamar das vidas, simpáticos, desprezando brilhos, parangonas, atentos às pequenas coisas, saboreando-as, numa postura de homens-crianças que assim hão-de ser, espero, por muito mais tempo. 
Um regresso é sempre um balcão de espantos. Prepara-te para o dia. Não te apresses que ele há-de chegar, disso sabemos.

Amo-te.


Laura

CARTA 7


Lauro,

Aí por onde andas agora, duma coisa tenho a certeza, nunca de mim dirás a “minha mulher”, ou a “minha” companheira, ou a “minha” seja o que for. O meu nome dirás, ou o nome que me deste e que é meu também, precedido do artigo bem definido “a”. Nunca fui tua nem tu és meu. Somos assim, dois, não os mesmos, bem diferentes, a cada um a sua virtude, a cada um o seu defeito, a cada um o seu gostar, o seu fazer. De tão desiguais que somos se faz uma peça única, na alegria e na tristeza, na celebração dos ritos, no não dito desencanto. Não decoraste a cor dos meus olhos, nem dos meus cabelos, mas sabes de cor a minha voz e eu a tua, cada uma com seu timbre, único, intransmissível, todavia conjugáveis. Se tivesses um duplo, um duplicado, um outro igualzinho ao que de ti sei, e ele cruzasse o meu caminho, talvez eu me perdesse e na próxima carta te dissesse, de certo modo já voltaste, de certo modo não te foste embora. Sei que, se isso pudesse acontecer, dirias, tu é que sabes, ainda que a tua mão tremesse e acendesses mais um cigarro, havendo outro a arder no cinzeiro. Não, por agora é por ti que espero, imperfeito e original, de liberdade feito, impaciente nos dias, meditativo nas noites, afirmando não saber de poesia, que isso é comigo, a indicar-me o caminho sem nunca o dizeres, a preparar a viagem sem nunca dela falares. Lembrei-me hoje de te falar disto, da diferença que fizemos, que fazemos, porque encontrei aquele amigo que era teu e passou a ser meu também, o A., e referiu a noite da passagem de ano em que eu bebi demais e desatei a falar sem parar. Foi o serão em que eu declarava, disse o A., para que todos soubessem, numa repetição inflamada, “com ele eu sou eu, com ele eu sou eu, com ele…” e tu olhavas-me, sorrias e abanavas a cabeça, numa fingida censura ao meu entusiasmo, à minha exuberância desusada. Confesso que me senti um pouco envergonhada com a lembrança que o A. me trouxe, tantos anos depois, de que já não me recordava e que agora aqui te trago, nem sei bem porquê, ou sei, mas não te vou dizer hoje. Tu adivinharás, sempre adivinhas.

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