27.4.17

UM CASAL TRANQUILO

Chegaram e sentaram-se, frente a frente, nà mesa do café. Os filhos estão na escola, ele teve folga do serviço, ela, por agora, está desempregada. O dia está bonito, ela até estreou os óculos escuros que parecem Ray-Ban.
O telemóvel dele a tocar, ele a atender “Estou sim, diz coisas, pá”. Ela tira o seu aparelho do saco e, de dedo indicador em riste, dá início à tarefa de ver os e-mails, de correr o Facebook, um like aqui, outro ali, e outro, e outro, nos posts de muitos dos seiscentos e tal amigos. A conversa dele continua, continua. Terminada a distribuição dos likes, ela levanta-se e vai ao balcão pagar. Volta, ele levanta-se, o telemóvel no ouvido, saem os dois. Vejo-os afastarem-se, lado a lado, altos, elegantes. 
Não trocaram uma palavra, não se tocaram, não se olharam nos olhos. Um casal tranquilo, sem espaço para altercações, zangas. Quando for a partilha da guarda dos filhos, terão ocasião de discutir, acaloradamente, mesmo em frente do juiz, os filhos são dela, os filhos são dele, ai. Enfim, a bem ou a mal tudo se há-de resolver.
Surpresa foi a mensagem “Hoje dou cabo dela.” que ele gravou (antes daquilo) e pôs no You-Tube, com música de uma marcha militar em fundo, demasiado alto, mesmo assim a deixar perceber a voz rouca de raiva.
Nesse mesmo dia (antes daquilo), ela desabafou no FB, “Se não fossem os meus ricos filhos, eu sabia o que fazer.”. Teve muitos comentários e bateu o seu record pessoal de likes, mais de cem.

Os miúdos, nos “tempos livres”, desenhavam o pai e a mãe. Tinham ambos uma das mãos na orelha a segurar uma coisa em forma de borrão. O da mãe era cor-de-rosa, o do pai era azul. 

Licínia Quitério

23.4.17

O LIVRO



Hoje é o Dia do Livro. Do Livro de papel, com capa, com autor declarado, com páginas numeradas, com princípio e fim. O Livro como o conhecemos, nas nossas casas, nas nossas escolas, nas nossas mãos. Não é possível ignorá-lo. Mesmo que nunca tivéssemos lido um Livro ele teria chegado até nós. Ele contém o pensamento do autor posto em letras e palavras arrumadinhas. Palavras e letras que dele saem para o leitor, para os leitores, que as tomam, as adoptam, as transformam, as recriam, as amam ou detestam. E as passam a outros, pela voz, pela conversa, pelo acto, pela vida. Este Livro que hoje se celebra poderá deixar de se construir, sair de cena, ficar nos museus, nas caves, nas lembranças. Mas o outro, o Livro que existe em cada ser humano, não pára de ser escrito, de ser inventado, acrescentado, reconstruído, noutras vozes, noutros lugares reais ou virtuais, noutros tempos em que talvez já nem se chame Livro. O Livro há-de ser sempre um lugar onde o homem se pensa, se excede, se oferece, vive.

Licínia Quitério

21.4.17

DONA TELA

Falar da Dona Tela é um exercício arriscado, um solilóquio, uma expiação. Encontrei um pequeno texto que escrevi há um bom par de anos, em resposta a alguém que perguntou quem ela era, e que aqui transcrevo.
"A Dona Tela não sou eu, se bem que por vezes gostasse de ser. Penso que a conheço, ingénua mas não burra, desbocada que baste, deslumbrada por futilidades, de coração de manteiga, presa não tão fácil como parece, mas com perigosas fraquezas, quarentona, sedutora ainda, suburbana e pelintra, muito pelintra. Passo muito tempo sem saber dela. Depois aparece, sempre atenta ao mundo, com a sua linguagem muito viva e heterodoxa."
Ainda hoje ela se me apresenta, agora com as unhas pintadas de azul, as leggings a comprimir algumas molezas, um ombro bem destapado, a jeitosa lá do bairro. Continua a ver telenovelas, sonha com um highphone de último modelo e tem a foto do CR7 ao lado da do dito-cujo, o tal que vende aspiradores e lhe comprou um pedacinho da alma. Só um pedacinho, que a Dona Tela é uma mulher prá-frentex que chora baixinho e ri muito alto, escandalosamente. Confessou-me que simpatiza com a geringonça, mas não me diz qual o elemento do trio ela prefere.

Se eu sou a Dona Tela? Toda a gente sabe que não.

Licínia Quitério

5.4.17

PRIMAVERA



Sabemos que a Primavera é menina de caprichos, instável, imprevisível, de humores vários, temperaturas várias, de alto a baixo da escala, de roupas frescas e de abafos, de neve na serra, de chuva de manhã, de sol à tarde, de arco-íris e de nevoeiros. Também de alergias e gripes tardias, de neuras e depressões, de súbitas paixões, de súbitas separações, de desejos inconsequentes. Dou por mim a perguntar como será viver num país de outros meridianos, de outros paralelos, sem Primavera, sem Outono, sem estas estações de classe média, responsáveis, assim dizemos, por toda a nossa inquietude, pelos espirros e pelos desamores, pela vida mediana e mesmo assim esperançosa que nos faz acreditar em florações perenes, como se as árvores as pudessem suportar.

Licínia Quitério

31.3.17

AGITAÇÕES

Agita as mãos e, a segui-las, os braços. Roda os ombros e com eles o tronco, a aproximar-se e a afastar-se das costas da cadeira. A cabeça também roda, roda, para um lado, para o outro. Cruza os dedos, não os prende, em leque os faz abrir e fechar, abrir e fechar, a tocarem um teclado que só a mulher saberá se existe. Os pés balançam, a um palmo do chão, batem um contra o outro, para logo poisarem e logo saltarem, alternadamente. Uma das mãos no queixo, depois no nariz, na orelha, no cabelo, a afagar, a apertar, a puxar, a ajeitar. Cruza as pernas, descruza-as, a direita sobre a esquerda, a esquerda sobre a direita. A mulher que observo fala, fala em contínuo, e a voz dela também se agita, ora em murmúrio quase inaudível, ora em estridência breve, ora num fraseado monocórdico, acometido aqui e ali por uma espécie de soluço. Interrogo-me. Como será esta mulher quando dorme? E quando faz amor? E quando está sozinha, sem ninguém que a oiça, perdida no seu corpo desamparado? Volto a observá-la. Quando ri tapa a boca com a mão, a reprimir o riso, sem reprimir a dança do corpo. Frenética, neurótica, hiperactiva, que classificação dar a esta mulher, em que escala, com que justeza? Qual o seu grau de felicidade, a tal que não se pode medir? É uma mulher, é uma mulher que fala acompanhada do ritmo alucinado do seu corpo. É uma mulher, uma mulher que eu observo e desconheço.

Licínia Quitério

29.3.17

A MULHER


A mulher diz, sente-se, coma, aqui come-se o que vem para a mesa. A mulher não pergunta se queremos mais, mas a gente percebe que podemos servir-nos as vezes que quisermos. A mulher não diz obrigada, mas a gente sabe que gosta de mimos. A mulher ameaça, olha que levas, mas a mão suspende o gesto, a saber-se obedecida. A mulher tem opinião, declara-a, defende-a, com a fala grossa e o corpo adiantado. A mulher gosta de ser ouvida a desfiar a vida, o rosário de dores que se orgulha de ter vencido, com muito esforço, sem nunca ter deixado de ser brava, digna. Ela diz “séria” e não “digna”, com toda a razão da palavra. É impiedosa para com quem a fez conhecer a miséria, a dela e a dos outros. Fala da ditadura e explica-a como ninguém, porque a sentiu, a entendeu, a adivinhou. Sente-se vingada do silêncio que lhe impuseram, do medo da prisão que levou os pobres da aldeia, coitados, o que sofreram, malvada gente. A mulher conheceu outros mundos e neles sofreu e aprendeu o que escola alguma pode ensinar. Sente-se vingada da pobreza porque hoje tem o conforto que a labuta lhe deu, tão duras as tarefas que lhe rebentaram o corpo, a fazê-la gemer baixinho.
Oiço-a com enlevo, com curiosidade, até que ela põe termo à conversa, levanta-se, olha em volta e diz, para onde foram todos, vou ver deles, assim à maneira de recado para mim, por hoje já ouviste o que eu quis contar, agora chega. É ela quem decide quando começa e acaba a conversa.

Quem quiser saber o que foi o fascismo em Portugal tem de encontrar mulheres como esta, de as ouvir, com atenção, com a humildade de quem tem muito para aprender. Aconteceu-me conhecer esta que tanto me ensina.

Licínia Quitério

17.3.17

HISTÓRIAS

Há dias assim. A gente acorda para continuar o calendário e as ideias desarrumam-se em frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, que raio, são restos de ontem, de um outro ontem mais antigo. Um desenho vago no vidro da janela, um passante que sobe a rua, não o conheço, cada vez cada vez há mais desconhecidos, cada vez há mais gente a passar, ou eu deixei de os saber contar, o homem coxeia, dantes ninguém coxeava, como tudo mudou. 
Mudou muito aquela mulher que ontem se sentou à minha mesa, pediu, posso, e já pendurava a mala nas costas da cadeira que arrastava, não está a conhecer-me, não, não estou a ver, eu nunca reconheço alguém que vem do fundo do tempo, aquela mulher velha que eu não sei quem é, vem de dentro da mulher menina que, essa sim, eu conheci, dantes eu conhecia muita gente, sabia-lhes os nomes, as moradas, hoje sei lá quem são, onde moram, por que será que se lembram de mim. Ela continua, eu sou a F, sou irmã, sou filha, não, mãe não sou, a outra é que é. Quem será ao certo e o que quererá de mim esta mulher ali na minha frente, os olhos muito abertos por detrás das lentes, os olhos dos velhos nem sempre encolhem, por vezes ficam assim, como os dela, desmesuradamente grandes. Já disse quem é, ainda não percebeu que eu não sei ao certo quem é, começa a desenrolar o novelo da história que me quer contar, é para isso que ali está. 
Sempre aparece alguém, como ontem, que me quer contar uma história, a sua história, a história que não é a sua mas que quer mostrar, uma pessoa sem uma história digna de ser contada não chega a ser uma pessoa que valha a pena ser ouvida, mesmo que seja em faz de conta, como eu faço, a espreitar as entrelinhas, no que não diz mas eu oiço, no que desdiz e eu não oiço. São assim as pessoas que me contam histórias, não, não mentem, inventam-se, que bem precisam de ser outras, nem que seja por dentro, muito por dentro, como se dessem lustro à carcaça. Histórias que se enrolam no meu despertar e me dão frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, como as de hoje.

Licinia Quitério

11.2.17

A MIÚDA


A miúda passava todos os dias, à mesma hora, defronte do café dos velhos que a seguiam com olhos saudosos de juventude. A miúda não reparava neles, ia sempre apressada, segura de querer chegar onde a esperavam. Foi assim até ao dia em que a atenção dela foi tocada por um baque surdo e uma vozearia de aflição. Virou-se, deu uns passos atrás, perguntou, precisa de ajuda. Ajude-me a levantar, menina, estes velhos não conseguem. Ela sorriu, abraçou-o pelas costas e ergueu-o. Estava pálido, ela só se foi embora quando o viu sentado e a beber um copo de água. Os outros velhos diziam frases desgarradas, que coisa, tu vê lá, estás bem, ó pá atiraste-te para o chão para a miúda te agarrar, cala essa boca.

Entre dois golos, ele só disse, baixinho, para ela não ouvir, é tão bonita
.
Licínia Quitério

5.2.17

A ROSA


Por vezes, na tarde acontece o vermelho da rosa.

Licínia Quitério

4.2.17

VENTO


"De vez em quando todos precisamos de algum vento nas costas." - no filme I Daniel Blake, de Ken Loach.

15.1.17

JOANETES


A Dona Cândida tinha joanetes. Era para onde eu mais olhava quando ela vinha fazer a sua visita anual. A Dona Cândida passava o Verão em casa da minha avó que lhe cobrava uma quantia simbólica pelo alojamento e que a Dona Cândida fazia questão de pagar, coitada da Dona Adelina, era o que mais faltava, bem basta o favor, é só para a água e a para a luz. A Dona Cândida era solteira, solteirona, diga-se, que já ia avançada na idade, uma velha muito velha, no meu entender de criança .Vivia para os sobrinhos que eram as pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais bem educadas deste mundo, filhos da sua irmã e do seu cunhado, só poderiam ter saído assim, umas jóias. Na minha família e em famílias amigas, os sobrinhos da Dona Cândida eram motivo de muitas citações e boas risotas. Estou a vê-la, com o lenço de seda amarrado debaixo do queixo, a cobrir o cabelo ralo que à noite prendia com uma rede, segundo a minha avó contava. Voltando aos joanetes, que eu até então nunca tinha visto, aquelas redondezas a saírem por entre as tiras dos sapatos, de presilha em volta do tornozelo e salto de pião, prendiam-me a atenção e cheguei a pensar que atrás da redondeza um dia apareceria o dedo todo, coitado dele, forçado à contenção pelas tiras de couro beije. Na família e nos amigos, comentavam-se os exageros da Dona Cândida, não só no que às virtudes dos sobrinhos diziam respeito, mas também às suas histórias de pretendentes rejeitados que ninguém conhecera, entre os quais ela contava o príncipe Dom Afonso que um dia, passando de carruagem no Rossio, lhe tinha quase atirado com os cavalos para cima, só para lhe chamar a atenção. A Dona Cândida devia ser muito velha mesmo, visto que se referia ao tempo dos reis, sua majestade para cá, sua alteza real para lá, num embevecimento que lhe punha um sorriso desajeitado no rosto a que a minha mãe, irónica, chamava “cara de grão-de-bico”, mas isso eu não podia repetir, nem pensar. Guardo o cheiro do pó de arroz da Dona Cândida, um cheiro doce e velho, como ela, menina para sempre, a efabular histórias dos seus namorados sonhados, tia extremosa dos queridos sobrinhos, que nos visitava nos meses de Verão, chegada da grande cidade com que eu começava a sonhar.

Licínia Quitério

O PESO



Com mais peso menos peso
lá vamos levando a vida
leveza é nosso destino
os anos, nossa medida



Licínia Quitério

12.1.17

MEDOS



Ela tem medo. Do dia, começou menos mal, mas nunca se sabe como acaba. Da noite, não se vê livre das insónias. Deste Verão quente como não há memória, a calamidade dos incêndios que nada poupam. Deste Inverno, morno, só pode trazer o diabo no ventre, as gripes que o digam, para não falar nas pneumonias.
Ela tem medo. Do mundo, que anda tão perigoso, não tanto por ela, mas pelos filhos, pelos netos que hão-de vir. Já não pode ouvir notícias de desgraças, todos os dias. Melhor seria não ver nem ouvir, mas ela espreita a televisão, de passagem, para dizer, está tudo doido, é o que é.
Ela tem medo. Das informáticas, do progresso que só traz maldade, nunca se viu tanta violência.
Ela tem medo. Das doenças que andam por aí, não poupam ninguém, gente tão nova a morrer, dantes era tudo mais saudável, só se come porcaria.
Ela tem medo. De viajar, com este horror das bombas e dos atentados, melhor ficar, mas já não há lugares seguros, gente malvada em todo o lado.
Ela tem medo. Dos ladrões. Reforçou a fechadura da porta, os trincos dos estores, já ninguém confia em ninguém, assaltos não faltam, até no bairro dantes tão sossegado, já não se pode trazer um fiozinho de ouro, aparece logo um meliante.
Ela tem medo. Do modo como andam a educar os jovens, só faltas de respeito, só palavrões, que belos adultos hão-de vir a ser. Pobres pais, para não falar dos avós, coitados, querem lá saber dos velhos.
Ela tem medo. De viver, de morrer. Do amor, que já lá vai e não deu certo, nem é bom falar. Daquele cavalheiro que a anda a rondar na internet, sabe lá quem é, os retratos enganam muito, ainda se fosse como parece.
Ela tem medo. Da solidão, embora não saiba o que isso é. Graças a Deus tem muito com que se entreter, um tricô, as mãos ocupadas é bom, umas palavras cruzadas, a cabecinha ocupada é bom.

O pior são as noites. Malvadas insónias.


Licínia Quitério

11.1.17

SOL DE INVERNO


Ao Sol de Inverno, as velhas mulheres procuram luz e algum calor sentadas nos bancos de pedra, sem encosto, postos ali para ver e andar. Se não fosse o Sol que tanto nos visita, este país morria muitas vezes do frio que alaga espaços públicos onde falta o verde, a madeira, a forma do aconchego, quase assépticos, quase.

Licínia Quitério

7.1.17

AS MENINAS





As meninas cresceram e tanto que já apareceram novas meninas. E também há meninos pequenos e meninas pequenas e meninos grandes, muito grandes. A gente ganha heranças. A mim calham-me heranças, por diversas vias, de gente e mais gente. Uma das meninas que herdei faz hoje anos. Tão depressa cresce esta minha gente. A seguir a sua pressa, a minha velhice ganha lentidão e doçura. Parabéns, Menina! 

Licínia Quitério

foto da net

6.1.17

DIA DE REIS


- Vê lá estas flores que me ofereceram. Tão bonitas, não são? Eu não me recordo de as ter visto em amarelo.
- Não conhecias? No meu quintal tenho montes delas, montes.

- Estou a precisar de uma receita de bacalhau que não seja muito conhecida, para variar. Sabes de alguma?
- Precisas? Faz como eu. Eu invento as minhas receitas e, não é para me gabar, mas saem sempre pratos muito apreciados.

- Ando com umas dores de cabeça há dois dias que nem te conto.
- Escusas de contar. Dores de cabeça tenho eu quase todos os dias, mas não me queixo. Não é por me queixar que as dores passam mais depressa.

- Já reparaste no meu novo corte de cabelo? Que tal? Fica-me bem?
- Para ser sincera, não gosto muito. Sabes que eu sou assim, muito sincera, quando gosto, gosto, quando não gosto, não me ponho com intrujices. Se tivesses um rosto mais redondo…
- Como o teu?
- Não digo tanto, mas parecido, talvez…

- O meu neto mais novo está muito engraçado, muito esperto. Sabes com que é que ele se saiu ontem?
- Ah as crianças são todas muito engraçadas, muito espertas, principalmente as nossas, mas conta lá a habilidade do menino.
Pronto, não fiques chateada, até parece que eu disse alguma mentira. Acredita que se eu fosse falar das gracinhas dos meus nunca mais me calava.

- Queres uma fatiazinha de bolo-rei? Comprei porque gosto de ter em casa neste dia.
- Eu não ligo nenhuma a dias. De reis ou de presidentes, são todos iguais, mas aceito.
Ah não se fazem bolos como os de antigamente. Olha-me para isto, nozes nem vê-las, e a massa, desmaiada, coitada, cortaram-se nos ovos.
- Lembras-te de quando traziam prenda?
- Não me lembro eu de outa coisa. Saía-me sempre a mim e os meus irmãos roíam-se de inveja.
- Pois a mim calhava-me a fava muitas vezes. Cada um é para o que nasce.
- Não sou nada dessa opinião. A vida é a gente que a faz. Há quem tenha jeito, há quem não tenha.
Bem, vou andando que a minha vida não é só conversatas moles, mas já agora levo outra fatia para o caminho.
- Leva, sim, uma ou duas.

Leva, para ver se adoças esse amargo com que nasceste.

(Segunda parte da fala, por detrás da porta fechada)

Licínia Quitério

foto da net

2.1.17

GATO PINGADO





O gato entrou de rompante e logo invadiu a mesa, estonteado, a afirmar que eu tenho de escolher entre ele e o ecrã, por momentos que seja. Passo-lhe a mão pelo lombo, a tentar sossegá-lo e a pedir que se afaste. A mão sente o pelo molhado, borrifado apenas, e percebo assim que começou a chuva lá fora. É um "gato-meteo", penso. Diz-me do sol escaldante com a quentura do corpo esguio e luzidio, do vento, quando o pelo se dessarruma e arrepia e o gato parece mal-disposto. Posso saber de todas estas condições se olhar pela janela da frente e vir como se vestem e comportam os passantes, posso olhar pela janela das traseiras e observar a pele das plantas, brilhantes de sol, molhadas de chuva, agitadas de vento. As pessoas, as plantas, o bicho, o meu universo de sensações e entendimentos.



Licínia Quitério

1.1.17

SOBREPOSIÇÕES


De regresso a lugares que são meus, porque deles guardo o desenho e as cores, sobrepostos no correr dos anos.

Licínia Quitério

30.12.16

BOAS ENTRADAS



Previsíveis, muito previsíveis nas frases e nos gestos. Servem-se abundantemente de frases feitas, de  lugares  comuns, de jargão em moda, de provérbios que aprenderam com as mães que os ouviram das avós e que chegaram até eles deturpados, abreviados, alongados, sem falar nas anedotas de que mal sabem o final e que não colhem efeito por parte dos circunstantes.
Aguentam horas num diz que diz, num não dizer, a moerem palavras, a moerem-se, sem nunca chegarem a dizer por que razão estão naquele lugar anódino, todos os dias, à mesma hora.
Dizem que saem dali mais leves, menos chateados, até riram um bocado, o gajo é um chato, mas às vezes tem piada.
A vida são dois dias, cada um sabe de si, olha às vezes nem de mim sei, acreditam, isto é uma maneira de dizer. Chatices todos temos, mas há coisas bué da fixe, por exemplo, andas muito modernaço, vem no dicionário, para que saibas, só se for no das parvoíces, tá bem, pronto, já não sei o que ia a dizer, conta lá, desculpa a interrupção, de nada, mas apagou-se-me mesmo, deve ser do alemão, porra, vira para lá essa boca.
Agora por alemão, as palavras são como as cerejas, vocês sabem aquela do alemão, do inglês e do português, sabemos, sabemos, deixem-me contar, era assim, ah isso é que não deixamos, que lindo coro vocês fazem, amigos da onça.
Bom, tenho que ir, tenho umas coisas para fazer lá em casa, merdas de Natal, o costume, deixa lá que o trabalho não azeda, pois não, mas a mulher é que fica azeda e depois mói-me o juízo, és sempre o mesmo, guardas tudo para a última hora, e não guardas, pá, confessa, é pá, também tu, larga-me da mão.
E o teu filho vem passar a consoada convosco, claro, comidinhas como as da velha não lhe passam pelo estreito lá pela terra dos bifes. E a tua nora, ainda é a mesma, acho que sim, querem saber mais alguma coisinha, perguntar não ofende, não, claro, mas esta cena das festas e prendinhas e cantiguinhas põe-me nevoso, acreditem.
Bom, vou. Pessoal, tenham umas boas entradas, com saúde e a mim que não me falte. Boas Festas, Carnaval feliz.
Este gajo não muda. Bruto, mas bom tipo, embora a gente saiba que a vida dele não é um mar de rosas. Não há rosa sem espinhos, não é. Olá se é.
Então se a gente já não se vir antes, entrem bem o ano e não se esqueçam das cuecas azuis e de subir para a cadeira, o pior vai ser descer que o sacana deste joelho anda a pedir chuva. Está como o tempo, que isto do sol é muito bonito, mas depois vamos amargar.
Boas Festas. Saúde é o principal. Disseste bem. Saúde e alguma grana. Nem mais.

Licínia Quitério

28.12.16

A LOUCA MANSIDÃO


Vão a todos. Ela troca a boina vermelha pela branca, ele põe a gravata preta, de nó fininho, acerta com precisão o risco ao lado no cabelo grisalho, ainda bonito. Ela toma-lhe a dianteira, uma dúzia de passos, não mais, mas espera por ele à porta da casa do velório. Entram de braço dado, de olhos no chão, ar contristado. Caminham entre os circunstantes, à procura de familiares chegados do defunto a quem darão os pêsames, ele em surdina, ela em falsete.
Há-de haver um lugar vago, pelo menos um, para se sentarem e ficarem até ao final da cerimónia. Se não houver, de momento ficarão de pé, lá atrás, encostados à parede, que as pernas já não aguentam muito esforço na vertical.
Entre os assistentes trocam-se olhares interrogativos e ouve-se “não, não sei quem são”.
Vão a todos. Para poderem cumprir escrupulosamente este dever cívico que se impuseram, consultam diariamente os anúncios com as cruzes e retratos afixados nos lugares públicos, os mesmos de sempre, há muitos anos.
Com as suas idades maiores, têm envelhecido ultimamente com alguma pressa. Um dia faltarão ao encontro com os mortos da terra, quebrarão o pacto com os viajantes.

Nas suas próprias viagens, serão acompanhados por um extenso cortejo de sombras que só eles poderão ver, agora que terminaram as tarefas, incrivelmente precisas, a que a louca mansidão dos dias os condenou.

Licínia Quitério

26.12.16

AGITAÇÃO

  


  Agita as mãos e, a segui-las, os braços. Roda os ombros e com eles o tronco, a aproximar-se e a afastar-se das costas da cadeira. A cabeça também roda, roda, para um lado, para o outro. Cruza os dedos, não os prende, em leque os faz abrir e fechar, abrir e fechar, a tocarem um teclado que só a mulher saberá se existe. Os pés balançam, a um palmo do chão, batem um contra o outro, para logo poisarem e logo saltarem, alternadamente. Uma das mãos no queixo, depois no nariz, na orelha, no cabelo, a afagar, a apertar, a puxar, a ajeitar. Cruza as pernas, descruza-as, a direita sobre a esquerda, a esquerda sobre a direita. 

  A mulher que observo fala, fala em contínuo, e a voz dela também se agita, ora em murmúrio quase inaudível, ora em estridência breve, ora num fraseado monocórdico, acometido aqui e ali por uma espécie de soluço. 
Interrogo-me. Como será esta mulher quando dorme? E quando faz amor? E quando está sozinha, sem ninguém que a oiça, perdida no seu corpo desamparado? 
  Volto a observá-la. Quando ri tapa a boca com a mão, a reprimir o riso, sem reprimir a dança do corpo. Frenética, neurótica, hiperactiva, que classificação dar a esta mulher, em que escala, com que justeza? Qual o seu grau de felicidade, a tal que não se pode medir? É uma mulher, é uma mulher que fala acompanhada do ritmo alucinado do seu corpo.
  É uma mulher, uma mulher que eu observo e desconheço.

Licínia Quitério

16.11.16

A PEQUENEZ


O mundo muda, a terra treme, as guerras continuam. Os homens exultam, afligem-se, perturbam-se, vagueiam, perguntam-se, o que é que está a acontecer, e não têm respostas. Têm um desacerto nas falas, um desequilíbrio nos passos. Correm mundos em busca da glória, da salvação. Voltam sempre ao colo das mães, à soleira da casa, donde afinal nunca saíram. O que mais lhes custa é a confissão da pequenez, da queda. O mundo muda mais que o coração dos homens.

Licínia Quitério

13.11.16

OS CRAVEIROS-DO-AR



Não me perguntem qual o nome, o dos botânicos. Para mim chamam-se craveiros-do-ar. Foi assim que conheci os seus antepassados, pendurados num ramo da pereira de peras pardas, no quintal da minha avó. Para meu espanto, eles multiplicavam-se e floriam e só bebiam a água da chuva e comiam o que o ar lhes trazia, que eu não podia ver, mas eles viam de certeza. Os craveiros-do-ar mudaram-se do quintal da minha avó, quando ela também se mudou e foi viver como os craveiros, era o que eu queria acreditar, da água da chuva e do que o ar lhe desse. Mudaram-se e foram viver na vedação de grades do quintal da minha mãe, onde tiveram muitos filhos que iam florindo e enfeitando a pouca graça da vedação. Quando a minha mãe foi viver como eles e como a minha avó, da grande água e do grande ar, eles passaram a viver nos muros do meu pátio e a dar-me as flores garridas que me fazem lembrar, sei bem porquê, o gosto das peras pardas.

Licínia Quitério

8.10.16

O OUTONO, POIS



O cheiro do pão acabado de cozer, com a sua pitada de sal, a puxar o sabor.
O bacalhau assado e o azeite fervente, com alho, a regá-lo, a rescender.
A aguardente de cana que veio do Brasil há décadas e que hoje foi aberta, depois de rolada a garrafa na mão aberta, com cuidado, a ler o rótulo, a admirar o selo ainda colado sobre a rolha.
A máquina Singer que irá de novo costurar, e as mulheres de várias idades à procura dos antigos gestos que o engenho aguarda.
As vagens do feijão encarnado a secarem ao Sol, prontas para a debulha.

A intimidade que só o Outono convoca e que me põe o passo lento, a voz mais baixa. Dos olhos, nem é bom falar.

Licínia Quitério

5.10.16

O 5 DE OUTUBRO



O 5 de Outubro traz-me invariavelmente a recordação de quando eu era miúda e o meu Pai ia  a Lisboa, com amigos, para grande preocupação da minha Mãe, comemorar, como ele dizia, a implantação da República.
Voltava tarde fora, com um ar feliz, e recordo-me de um dia ter dito, não, correu tudo bem, a Guarda carregou a cavalo, ai tu não me digas, homem, mas até foi engraçado, engraçado como, para nós dispersarmos lançou gás lacrimogéneo, ai que tu tens os olhos vermelhos, não, não é nada, havias de ver, e ria-se discretamente, até os cavalos choravam.
Era o ritual dos republicanos que iam depositar flores junto à estátua de António José de Almeida, para grande arrelia de Salazar, o ditador que não gostava de ajuntamentos de mais de duas pessoas, já que o que “eles” queriam era conspirar contra o governo, dizia-se.
Era assim a República lá em casa, e nesse dia 5 eu ouvia de novo as histórias do meu avô paterno que assistira feliz ao nascimento da República, que era católico praticante,e que nesse dia dava grandes vivas à República junto à casa do padre lá da terra, seu inimigo figadal, um talassa rezingão que odiava carbonários.
Eu sou republicana, por sucessão e convicção.

Viva a República!

Licínia Quitério

25.9.16

AS ESPLANADAS


Contar, espalhar, aclarar, elucidar, esclarecer e ilustrar, explicar, dissertar, alumiar, clarear, clarificar, dealvar - sinónimos que os dicionários recolhem do verbo esplanar. Consulta que me ocorreu ao verificar que muitas fotografias tenho tirado a esplanadas nos territórios das minhas deambulações ociosas.
As esplanadas esclarecem, ilustram, tempos de paragem no vai-vem das urbes. Nelas se recostam, se alongam, pessoas subitamente serenas, contemplativas, recolhidas no meio do bulício. Conversam, também, com companheiros de vida ou de ocasião, sem largos gestos, sem altas vozes, cuidando de recato porque se sentem em montra, guardando-se de intimidades com os das outras mesas.
Os das esplanadas fotografam os passantes que por sua vez os registam com máquinas cada vez mais pequenas, cada vez mais discretas, cada vez mais devassantes.

Penso as esplanadas como lugares de paz para gente como eu que gosta de se sentar, olhar em volta, fazer nada, dizer nada, esse nada que é preciso para que o mal não aconteça.

Licínia Quitério

21.9.16

FOI BOM


Foi no tempo em que fumávamos muito e bebíamos o que nos apetecia e amávamos quem queríamos amar, e depois de termos calado tanto nos sentávamos à mesa, e conversávamos noite dentro, e falávamos já de tudo o que iríamos perder porque sabíamos que alguém iria puxar a toalha da mesa e fazer tombar os copos. No entanto, sorríamos muito. Foi bom, porque ainda hoje aparecem fotos que fixaram esse tempo, ou a poeira que dele guardamos.

Licínia Quitério

20.9.16

COISAS VELHAS







Coisas velhas, antigas, gastas, feridas pelo tempo, pela desatenção, preteridas pelas novas recém-chegadas, com outro brilho, outra utilidade, outros desenho e cor.
Nas mudanças de casa, nas mudanças de gente, escaparam à devora de usurários e ao lugar dos lixos. Foram-lhes concedidos sótãos esconsos, gavetas, arcas de memórias. Quando chegaram até mim, procurei-lhes as feridas, tratei-as como pude, fui espreitando as marcas que me contassem histórias de outro tempo, de outra gente. Por vezes tive um certo pudor em as modificar, em lhes dar novos casamentos, lugares impróprios para a função.
A máquina de costura não devia ter ficado num corredor sem janelas, mas há tanto tempo que ninguém cose nela.
A litografia da menina com o crisântemo e a foto do antepassado trocaram de molduras, a dele mais sóbria, de acordo com o olhar severo, a dela, dourada e romântica, fica-lhe a matar.
A mesa de cabeceira foi despromovida por falta de cabeceira, mas suporta um vaso com planta viva, para lhe dar novo alento.
A cadeira, coitada, já não oferecia segurança a quem nela se sentasse e tinha rugas, manchas da provecta idade. Dei-lhe um banho de azul, rejuvenesceu, sustenta com garbo antigas toalhas rendadas e um búzio que lhe dê um sopro de mar.
Pelas gavetas foram encontradas frivolidades de pano e linha, lenços que enfeitaram lapelas de damas e cavalheiros, luvas e golas de menina, roupinhas minúsculas que sobraram de enxoval de criança, e mais e mais peças confeccionadas por mãos de fada, rendeiras, bordadoras, trabalhos exímios de mãos de mulheres. Hoje estão todas juntas num quadro com moldura de madeira em que fixei uma chapinha de metal a dizer em letra cursiva “Modas e Bordados”.
São tesouros, são bagatelas, são vida que gosto de contemplar, afagar, numa linguagem entre tempos que só os velhos entendem.

Licínia Quitério


12.9.16

MULHERES



Encontrei-as na mesma praça, em planos distantes, estas mulheres celebrantes e celebradas, umas dizendo das artes, outra da resistência ao invasor. Trouxe-as comigo. Mulheres.

Licínia Quitério

LUGARES


Há lugares assim...

perdidos na substância do tempo, lugares-fronteira, carregados de presságios, de ajustes de contas, de deuses enfurecidos, iguais aos homens, iguais.

Licínia Quitério

21.8.16

LICÍNIA



Minha mãe deu-me o nome. Se eu nascesse rapaz seria o nome a gosto de meu pai. Foi fácil entre eles o comércio de nomes. É um nome quase esdrúxulo, o meu, com uma quase vogal que se repete. Quase fácil, quase audível, o meu nome. É um nome antigo, já serviu a uma imperatriz, quase mandante, pois reza a história que foi filha e consorte de senhores. Também se diz que é nome de oliveira ou do seu fruto de casta cordovesa. O nome preso a mim, eu presa a ele, caminhamos, quase certos de nunca nos deixarmos, quase.

Licínia Quitério


16.8.16

NAUFRÁGIOS


Acordo com um peso nos ombros. Somos um mundo feito de naufrágios, penso, agarrada às notícias desse mar do meio onde se sepultam os esfomeados. Penso sempre em Agostinho da Silva que alertou para a chegada dos do sul a desnortear a Europa. Entristeço ao saber este lugar de ricos a erguer vedações farpadas para que não entrem os que nada têm senão, ainda, o desejo de viver. Sabemos nós, o homem branco, que nada pode parar o grande êxodo? Todas as guerras que alimentámos, todos os bens que saqueámos, fazem-se agora aflição à nossa porta. Nós, os que tudo temos, trememos de um medo impensável dos que nada têm. Desesperamos e dizemos:
Esta não é a vossa casa. Ficai na vossa, continuai a morrer, não ouseis viver na nossa. Se é difícil alimentar os pobres que na nossa casa criámos, como deixar-vos entrar, deserdados da terra, apagadores dos nossos sonhos de grandeza?

O peso nos meus ombros chamar-se-á remorso? Alguém mais o sente?

Licínia Quitério

Foto da net: Le Radeau de la Méduse, de Gericault

O FOGO



O fogo é um animal de muitos braços que envolve, seca, queima, arrasa, da copa à raiz, do telhado à soleira, ameaça animais e homens e, se for de sua vontade, mata. O fogo é um mestre cruel que mostra aos homens as suas fraquezas, os seus erros. Quem melhor do que o fogo nos diz a desertificação do interior, a proliferação do minifúndio sem lei, os velhos, muitos velhos, no isolamento de povoados, o discurso difícil e incoerente das gentes perante a tragédia? Sub-desenvolvimento, pode chamar-se, que serve, sempre serve, aos negociantes do mal.
Do fogo, as cinzas. Das cinzas um dia virá uma ave rara que ensine os homens a afirmar, em vez de "isto é meu", "isto somos nós".
Que venha a chuva que apague o fogo.

Licínia Quitério

25.7.16

OS ESCRITORES


Os escritores enchem de jóias o cofre da Humanidade. São guardiões da memória e construtores do sonho. Enfiam as palavras em lágrimas e sangue e dão-nos fios de coragem e de ternura com que afugentamos a mesquinhez das pequenas vidas. Eles contam, contam-nos, inventam, inventam-nos, avisam-nos, mergulham nos nossos silêncios e falam por nós. São a consciência dos homens e dos povos. São perseguidos, escarnecidos, vilipendiados, ignorados. Os poderes adulam-nos ou apagam-nos. Temem-nos. Eles possuem o ouro da palavra que resiste à usura, ao tempo dos dinheiros.

Licínia Quitério

16.7.16

NÃO HÁ LONJURAS



Um cão ladra continuadamente em Nice e eu oiço-o aqui, quase em simultâneo, na minha bancada de observar o mundo. Ontem ao serão, ouvi distintamente, também "em directo", como costuma dizer-se, o tiroteio na Turquia. Tudo acontece em ricochete na minha bancada. O mundo encolheu, não há lonjuras, um homem grita na outra metade do paralelo e eu oiço-o, eu entendo a sua língua que é já a mesma, planetária, interplanetária. Todos os segredos podem ser violados, mesmo ainda dentro das nossas cabeças. É o admirável mundo novo. Um cão ladra em Nice, e eu, à beira da bancada, abro os olhos, os ouvidos, o espanto, e não entendo, não entendo por que razão aconteceu este medo que perpassa no mundo, "em directo", como costuma dizer-se.

Licínia Quitério

9.7.16

O CR7


De facto, o Rapaz é uma máquina humana que se supera e se eleva e consegue o inconcebível. Toca a bola como quem toca o mundo, segreda-lhe a trajectória, obriga-a a cumprir o seu destino. O Rapaz solta um urro que vem das profundezas, retesa os músculos, é o dono do mundo por instantes. É um ser extraordinariamente poderoso, estátua viva do Olimpo terreno.

É o CR7, o Rapaz do nosso contentamento.

Licínia Quitério

O NINHO


O menino soube um ninho
Caído no chão, coitado.
Lá dentro, um ovo quebrado.
Não vai nascer passarinho.

Assim a vida termina
Antes de ter começado.
Assim o ninho guardado
Em palma de mão-menina.


Licínia Quitério

5.7.16

JUNO



Um engenho produzido por humanos terráqueos orbita a partir de agora o maior planeta do sistema solar. Chama-se Juno, a deusa mulher de Júpiter que vê através das nuvens, e durante um par de anos mandará notícias daquelas paragens que ajudarão ou não a melhor compreender as origens, as razões, os destinos. É o Homem no seu estado mais avançado, o mesmo homem que se faz explodir com engenhos artesanais e mata os outros homens que o mandaram eleger como inimigos, o mesmo homem que se afinca a fazer retroceder os tempos para escuridões primitivas de ignorância e negação. 
O mais e o menos é tudo o que somos.

Licínia Quitério

3.7.16

SILLY SEASON



Aí está a silly season, com as suas quenturas a pedirem bebidas frescas, as esplanadas de Domingo cheias de gente morena, suada, de crianças rabugentas a quem foi subtraída a sesta, de cães à trela ameaçando arrastar cadeira e dono. Para o fim da tarde chegam os da praia, areia a transbordar das havaianas, a água estava boa, um bocado fria, no Algarve é que é bom, talvez em Agosto, um fim de semana, só, e já é bem bom, há quem nem isso possa fazer. Há os que se sentam para uma cerveja e uns tremoços, caracóis não há aqui, puxam dos telemóveis, olha, sabes quantos likes já tenho, quarenta, e ontem ainda tive mais. Uma mão para o tremoço a outra para tactear o écran, agilidade, agilidade, são da era do polegar, do toque subtil, dos olhos pregados na imagem, nas imagens, muitas, nos textos, curtos, muito curtos, pouco mais do que sinalefas, ícones,  emojis, emoticons, palavras que não sei escrever, os novos hieróglifos, os novos tempos, o novo Verão no hemisfério norte.

 Licínia Quitério

O VIZINHO INVISÍVEL


APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE FRANCISCO JOSÉ FARALDO "O VIZINHO INVISÍVEL"

Vivemos no mesmo bairro há muito e mal nos conhecemos. Não sabemos se estas pessoas partilham os nossos hábitos, se comem mais carne ou mais peixe do que nós, se preferem o fado ou o rock, se lêem ficção ou poesia ou nem sequer lêem, se prezam os antepassados ou preferem ignorá-los, se são de alguma igreja ou de nenhuma, se são gente de partir ou de ficar. Não conhecemos e não procuramos conhecer. Preferimos a estranheza à convivência.
O que se diz do bairro, pode dizer-se da rua ou, se bem atentarmos, do prédio-formigueiro com cada um em sua toca, de encontros fortuitos em espaços comuns.
Se assim é e se de tal só damos conta e nos admiramos quando paramos para pensar nos nossos pequenos mundos, ali à nossa mão, diante do nosso olhar, que dizer de dois países que em grande medida se ignoram, apesar de partilharem a mesma península, de ibérica chamada, toda virada ao mar a não ser numa faixa de altos relevos que mal a deixam espreitar, ou ser espreitada, pelos outros povos além Pirinéus, aquém Urais de que se diz Europa.
De um passado de invasões, lutas, conquistas, expulsões, reconquistas, pelos séculos se foram criando na península condados, reinos, regiões, se foram traçando fonteiras, transpondo fronteiras, fechando fronteiras. Entre batalhas, pelejas, guerras, todas infames, todas sangrentas, nesta península se firmaram e perduraram até aos nossos dias dois países que hoje se chamam Espanha e Portugal, o mais pequeno ligado ao maior, a norte e a leste, ambos usufruindo a mesma Natureza, os mesmos rios, montanhas, planuras, securas, verduras, indiferentes às motivações, às linguagens dos homens.
Quiseram os ventos, os dos “maus casamentos” e os da história da insensatez e ambição dos homens que portugueses e espanhóis tenham vivido costas com costas, remoendo o passado, ignorando o presente, nesta jangada de pedra que Saramago, por artes mágicas da vara de negrilho com que Joana Carda riscou o chão, fez cortar o istmo e vogar mar adentro, ou mar afora, e dizer adeus ao velho continente, numa alegoria, atrevo-me a presumir, da inevitável unidade do destino de seus povos, numa deriva atlântica. Mais do que de costas voltadas, vivemos na ignorância uns dos outros, na ausência de curiosidade, na repetição de velhas, estafadas anedotas, falando nós portugueses de “nuestros hermanos” sem qualquer convicção de irmandade e olhando-nos, os espanhóis, como um povo parecido com eles, mas cuja fala têm dificuldade em entender, gente simpática mas um bocado tristonha e pouco mais. Nós orgulhamo-nos de Gama e eles de Colón, nós de Camões e eles de Cervantes, como se não tivessem nascido, escrito e aventurado num tempo comum, numa gesta comum de um tempo em que ambos demos cartas ao mundo, de arrojo e sabedoria, muitas vezes também de crueldade e despotismo.
É sobre nós, os vizinhos ibéricos, que Francisco Faraldo, um espanhol que conhece e ama Portugal como uma das suas casas, tanto que escolheu morar também nesta, decidiu em boa hora escrever o livro El vecino invisible, que hoje aqui se apresenta, vertido para português, agora com o nome de O vizinho invisível.
É esse vizinho invisível, o Portugal ignorado pelos espanhóis, que Faraldo faz descobrir, com grande perspicácia, com rigor histórico, e sobretudo com uma deliciosa ironia, que nos leva ao sorriso e ao riso, quando nos mostra, a nós portugueses, as nossas idiossincrasias que só um olhar exterior e penetrante consegue avistar e descrever. Mais do que um livro para os espanhóis melhor nos entenderem e conhecerem, é este um livro para nós portugueses nos revermos, nos redescobrimos. É neste sentido um livro para todos os que na jangada vivem e se interessam pelas razões do que somos, pelas nossas diferenças e afinidades, como povos unidos pelo determinismo da geografia.
Depois de ter lido El Vecino Invisible, fiquei com grande vontade que o livro viesse a ser editado em Portugal, tendo em conta a abordagem inteligente e descomprometida dos nossos percursos e costumes feita por alguém que tão bem conhece os dois países ibéricos. Em conversas com o autor, várias vezes lhe fiz sentir este meu desejo de que o seu livro se tornasse acessível ao público português. Estava eu muito longe de supor que Francisco Faraldo, o meu amigo Paco, perante a minha impertinente questão, me lançasse, num tom falsamente distraído, “se fores tu a traduzir…”. Da minha resposta ao repto sabem os leitores deste livro, que a Poética aceitou em boa hora editar e que hoje aqui se apresenta. Traduzir esta obra foi de facto um grande desafio a que me atrevi, tentando não trair a confiança que o autor em mim depositou e a quem agradeço de todo o coração.
Porque a Poesia nunca me larga e porque o autor também é Poeta, termino esta apresentação com um poema de Ruy Belo de que gosto muito e que nos remete para a questão da vizinhança, no seu sentido lato:

  “E tudo era possível”
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Licínia Quitério

21 de Maio de 2016

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