8.2.13

POMBOS



Os plátanos dormem o seu tempo de braços nus. O vento sopra pelas esquinas e traz recados de um mar revolto. Na praça, o sol, a caminho do poente, ilumina as fachadas. Os pombos esvoaçam,  poisam nos troncos da cor do inverno e fazem corpo com eles, imóveis, por instantes a iludirem-nos o olhar. 

Licínia Quitério

1.2.13

CIRCE


Tinha uma camisola cinzenta. É tudo o que sei da senhora que fazia crochet durante a viagem de metro. Sei das mãos dela segurando o círculo de lã que ia crescendo, em volta, em volta. De vez em quando as mãos paravam de tecer e os dedos contavam pontos, contavam. E a rodela de várias cores continuava a crescer, a crescer, em volta, em volta. A camisola cinzenta era um pano de fundo da peça que volteava, volteava. Houve um momento em que as mãos pararam, a rodela parou de voltear. Foi um momento breve, mais breve do que a paragem do comboio na estação. Depois, num arranque brusco da mão, a senhora puxou o fio, puxou, desfez, desfez, voltas e voltas a desmanchar, a desmanchar, à roda, à roda, no sentido inverso do fazer, do fazer. A rodela a minguar, a minguar, o comboio a andar, a andar, a camisola cinzenta como pano de fundo, enquanto Ulisses nos braços sedosos de Circe.

Licínia Quitério 

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