29.4.13

CRISE



Um corpo assim complexo
só pode ser um desafio 
à eternidade e afinal 
uma pequena oscilação, 
um ínfimo deslize, 
uma desatenção 
podem ser a explosão,
o fim da crise

Licínia Quitério


24.4.13

NÃO FORA ABRIL



Mal nos conhecíamos. Só tínhamos aquele conhecer por outras bocas, aquele saber de morar no mesmo sítio sem nos cruzarmos, aquele nada que sendo essência se fazia distância. Poderíamos ter vivido e morrido sem nada mais termos um do outro, um para o outro, sem nada mais que nos sabermos do mesmo lado, como tantos outros que entre nós e de nós falavam. Teria sido assim, sem mais notícia, sem mais prazer, sem mais pesar. Não fora Abril e não nos teríamos encontrado, de súbito, nos lugares mais claros que alguma vez teríamos sonhado, nós que vivíamos a sonhar com o fim da escuridão. Não precisámos que nos explicassem porque estávamos ali, naqueles dias, olhando-nos como se sempre nos tivéssemos olhado, olhando-nos com o falar ansioso da longa espera, sabendo exactamente o que nos cabia fazer. E foi tanto o que fizemos que nunca pudemos parar de nos olhar falando, na alegria e na tristeza, como se diz de quem se ama. Não fora Abril e eu não saberia.


Licínia Quitério

18.4.13

LUA NOVA


Lua que não se mostra
não ilumina
não entontece 

não anima 
não engravida
não enlouquece
não bate à janela
não chama lobo
não despe mulher.
Lua de maré-baixa
de cabeleira curta
de erva rasteira
de noite escura
de descaminho
de perdição.
Lua Nova
não nascida
ausente.
Promessa silenciosa de crescente.
Decrescente.

Licínia Quitério

17.4.13

O PRIMEIRO RELÓGIO




Já era crescidinha, já, quando mo deram, embora tivesse ainda uma grande curiosidade de criança. Foi por isso que depressa se avariou. Não parava de o abrir, de o mirar e de, pior ainda, lhe tocar as minúsculas peças que me fascinavam no seu vai-vem-tic-tac-tic-tac. As rodinhas, as pedrinhas vermelhas, a seta e, enroladinho, fininho, o que eu sabia chamar-se " o cabelo". Muitos minutos, talvez horas, de puro enlevo, abre, fecha, dá corda, acerta, escuta. Um dia, o cabelo desenrolou-se, com um quase inaudível clic e a minha aflição cresceu, cresceu. Encobri o crime, disse apenas "o relógio não trabalha", o meu Pai abriu-o e ralhou, oh se ralhou, que mania a minha de mexer onde não devia, que não ganhava juízo, por isso o relógio não tinha vindo há mais tempo. Acho que chorei, de vergonha mais que de arrependimento. Voltei a abri-lo, muitas vezes, a  tentar entender aquele mecanismo de peças tão diligentes nas suas infalíveis voltas e voltinhas, para trás, para a frente, tic-tac tic-tac. Foi guardado, conservado em vitrine, no seu tempo de reforma, há muitos, muitos anos, milhões de milhões de horas depois do seu tic-tac ter emudecido para sempre. Conservada também a minha curiosidade por saber como são as coisas por dentro, como funcionam, como pensam, se pensam. Por vezes, ainda avario um ou outro mecanismo que me cai nas mãos. Sinto sempre alguma vergonha, mesmo sabendo que ninguém me vai ralhar, mas arrependimento nunca. São crimes tão saborosos.

Licínia Quitério

11.4.13

LÍQUIDO




Assim chorosa, assim pingada, a gente passa, a vida vai, a vida fica, e eu a ver, sem perceber, que tempo faz, que hora é, há um desacerto, há um engano, há um enredo, há uma aflição, e a gente passa, e eu a ver, e a chuva cai, uma balada, uma toada, uma batida, rente à janela um coração.

Licínia Quitério

9.4.13

PAN



Ouvi o silvo tentador, ao longe, depois mais perto, mais perto. Um assobio, uma chamada, uma música de sílabas poucas. Pensei nos seus pés de cabra, no seu erguer de bicho-homem, poderoso, ameaçador e triste, tão triste. De que fogem as ninfas neste bosque sombrio, gotejante, com odores do princípio dos mundos? Do bicho-homem que as seduz, forte e hirsuto, débil como um canavial de outono, chamando um amor perdido com a flauta em que transformou a fala, essa rouca e agreste, desamparada e inútil.
Acordei tarde, ao som do amola-tesouras que passou na rua, procurando sustento, prolongando as chuvas. 

Licínia Quitério

7.4.13

REGRESSOS



A hora dos regressos, costumava ele dizer. Tudo se cansa, tudo arde, tudo se decompõe, tudo desiste, tudo deixa de ser. Até aquele jeito de ele falar dos regressos como se esperasse ainda que, para lá da chaminé, do telhado, da rua, de todas as ruas e todas as serras que sempre moram para lá das ruas, ela iniciasse o seu caminho de volta. Até deixar de ser, contava as gaivotas, ou as andorinhas, ou os tordos, ou os estorninhos, ou os pardais quando, esses sim, regressavam da sua faina de voar. Depois, os olhos caiam-lhe mais para longe, mais longe do que a serra que nem sequer sabia se lá morava, e ficava no seu jeito de esperar, um jeito assim amolecido e turvo, de ombro descaído, de pálpebra frouxa, de sussurro que só ele ouvia, que só ela ouviria na hora de voltar, para cá da serra, para cá da rua, para cá da chaminé da casa onde ele contava as aves, na hora dos regressos, como sempre dizia.

Licínia Quitério 

4.4.13

O GELO



Dobro-me, enovelo-me, reduzo-me, enquisto-me. Só eu resto da alvura dos lençóis, dos dourados da festa, do tumulto, do ardor, do suor, do amor. Só eu, o meu manto de pele, este travo de fel. O gelo.

Licínia Quitério

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