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7.4.13

REGRESSOS



A hora dos regressos, costumava ele dizer. Tudo se cansa, tudo arde, tudo se decompõe, tudo desiste, tudo deixa de ser. Até aquele jeito de ele falar dos regressos como se esperasse ainda que, para lá da chaminé, do telhado, da rua, de todas as ruas e todas as serras que sempre moram para lá das ruas, ela iniciasse o seu caminho de volta. Até deixar de ser, contava as gaivotas, ou as andorinhas, ou os tordos, ou os estorninhos, ou os pardais quando, esses sim, regressavam da sua faina de voar. Depois, os olhos caiam-lhe mais para longe, mais longe do que a serra que nem sequer sabia se lá morava, e ficava no seu jeito de esperar, um jeito assim amolecido e turvo, de ombro descaído, de pálpebra frouxa, de sussurro que só ele ouvia, que só ela ouviria na hora de voltar, para cá da serra, para cá da rua, para cá da chaminé da casa onde ele contava as aves, na hora dos regressos, como sempre dizia.

Licínia Quitério 

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