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17.4.13

O PRIMEIRO RELÓGIO




Já era crescidinha, já, quando mo deram, embora tivesse ainda uma grande curiosidade de criança. Foi por isso que depressa se avariou. Não parava de o abrir, de o mirar e de, pior ainda, lhe tocar as minúsculas peças que me fascinavam no seu vai-vem-tic-tac-tic-tac. As rodinhas, as pedrinhas vermelhas, a seta e, enroladinho, fininho, o que eu sabia chamar-se " o cabelo". Muitos minutos, talvez horas, de puro enlevo, abre, fecha, dá corda, acerta, escuta. Um dia, o cabelo desenrolou-se, com um quase inaudível clic e a minha aflição cresceu, cresceu. Encobri o crime, disse apenas "o relógio não trabalha", o meu Pai abriu-o e ralhou, oh se ralhou, que mania a minha de mexer onde não devia, que não ganhava juízo, por isso o relógio não tinha vindo há mais tempo. Acho que chorei, de vergonha mais que de arrependimento. Voltei a abri-lo, muitas vezes, a  tentar entender aquele mecanismo de peças tão diligentes nas suas infalíveis voltas e voltinhas, para trás, para a frente, tic-tac tic-tac. Foi guardado, conservado em vitrine, no seu tempo de reforma, há muitos, muitos anos, milhões de milhões de horas depois do seu tic-tac ter emudecido para sempre. Conservada também a minha curiosidade por saber como são as coisas por dentro, como funcionam, como pensam, se pensam. Por vezes, ainda avario um ou outro mecanismo que me cai nas mãos. Sinto sempre alguma vergonha, mesmo sabendo que ninguém me vai ralhar, mas arrependimento nunca. São crimes tão saborosos.

Licínia Quitério

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