20.3.15

O ECLIPSE 2


Num jardim, numa praça da cidade, eu em cima de um banco, ele no chão, muita gente por ali, eram os anos em que as pessoas tinham curiosidades, havíamos saído há pouco de um eclipse social. Foi um eclipse total do Sol, daqueles que só vemos uma vez na vida, se ela não for demasiado longa. Foi breve a escuridão, um vento se levantou do chão da praça e fez redemoinhar as copas das árvores, a dar-me um arrepio, talvez nas costas, talvez no coração. Lembro-me de um curto silêncio, da estupefacção das pessoas, tudo muito breve, já passou, a minha mão ainda uns instantes no ombro dele, não fosse a terra cair, não fosse o mundo acabar, agora  que o mundo novo, a nova vida, apenas começavam para mim.

Licínia Quitério

O ECLIPSE


Naquele tempo, falava-se do eclipse como de algo misterioso, perigoso. Contava-se que as galinhas recolhiam ao seu poleiro de dormir à hora do eclipse, fosse qual  fosse a hora do relógio. Em minha casa, o pragmatismo de meu pai desmentia as lendas de desgraças, de anúncios de fim do mundo, a contrariar o que alguns amigos da escola me contavam, com as mãozitas a taparem metade da boca, que medo, foi a minha avó que disse, é deus que se zanga, o teu pai é que sabe, lá estás tu com as manias.
Naquele tempo, julgava-se que olhar o Sol através de um vidro fosco era protecção suficiente para os olhos e não se sabia de óculos especiais, nem sequer a televisão nos falava deles, até porque, naquele tempo, não havia televisão, mas havia, isso havia, eclipses que me entusiasmavam muito. 
Quando hoje despertei e a janela me devolveu um dia escurecido a situar-me em apogeu de eclipse, desviei os olhos do céu, e tudo o que vi foi o meu pai com um vidro numa mão, uma vela acesa na outra, a escurecer o vidro de negro de fumo, um vidro maior para ele, um mais pequeno para mim, não sujes as mãos, pega assim, e nós os dois no extremo do quintal, vês, vejo, pai, só há um bocadinho de Sol, foi a Lua que o escondeu. E havia de repente um friozinho, como se fosse anoitecer, e era mesmo, uma noite especial, antes da outra, depois da outra, isto dos astros intrigava-me muito. A minha mãe na cozinha, vejam vocês, eu agora não posso, e a voz dela era estranha, talvez pensasse no fim do mundo, as mães pensam mais nessas coisas.

Licínia Quitério

foto da net

17.3.15

IDOS DE MARÇO


É a roupa a corar
É o musgo no muro
A andorinha a ensaiar
O seu voo futuro

São as águas de Março
O Inverno acabado
São os idos de Março
É preciso cuidado

Licinia Quitério

16.3.15

PEIXE FRESCO



A bancada a abarrotar de peixe fresquíssimo, na loja do bairro onde supostamente habita gente de vidas desafogadas, talvez afortunadas. Fim de manhã, o mês ainda não chegou ao meio e zero de clientela. É assim invariavelmente naquela e nas outras lojas do mesmo bairro. Eu digo: Tanto peixe e tão bonito. Ela diz: E tão poucos clientes. Logo acrescenta: E dizem que as coisas estão melhores, mas não vejo nada. E continua: Nem me posso queixar, lá vai dando, mas as praças estão todas a fechar, é uma tristeza.
Comam peixe, comam, com ómegas um, dois ou três que ninguém sabe o que é, mas toda a gente repete, obedientemente.
Bendito mar que banhas esta costa imensa, belíssima, que nos dás peixe fresco, tão fresco que vai morrer de cansaço nas bancadas das lojas, das praças onde já ninguém vai. As "superfícies", grandes e médias, ah essas alimentam-se bem, que lá vão todos à procura das promoções, dos cartões, dos saldos, das linhas brancas, do que houver à medida dos desejos, à medida do cartão de crédito, generoso, a cobrar uns jurozitos de somenos, para alegria de quem o exibe, às vezes até gold, como os vistos.
Um país, muitos países de opereta em colectividade de bairro.

Licínia Quitério

11.3.15

"ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"


Conhecemo-nos desde os anos do princípio do século em que os blogues abriram portas para outros mundos virtuais e se tornaram encontro de muita gente que se uniu por gostos comuns, que se atreveu a expor ideias, saberes, talentos até ali inéditos. Foi por aí que no meu blogue O Sítio do Poema me travei de simpatias e amizades com gente de que vagamente sabia um nome ou um "nome de guerra", uma fotografia ou um avatar. Com o correr dos anos, muitos desistiram, desapareceram, por uma razão ou por outra faltaram aos encontros que, na febre da novidade, chegavam a ser diários. Depois veio o Facebook e nos blogues, perdido o encanto inicial, persistiram os jornalistas, os escritores, os fotógrafos, e outros e outros e até eu que teimo em publicar o que vou escrevendo. 
Vem isto a propósito do almoço de hoje, do abraço de hoje, da conversa de hoje, interminável, a agendar novos capítulos, com uma amiga desses tempos, fiel leitora, amável comentadora, de comuns amigos, de idênticos gostos. 
Não paro de me espantar com este "admirável mundo novo" a que a vida ainda fez o favor de me indicar a porta de entrada e onde me encontrei com gente que do virtual se fez real, me tocou à porta e comigo riu e falou, falou, numa alegria quase infantil, de tu cá tu lá, há quanto tempo a gente se conhece.  
Estranho mundo para os mais cépticos, perigoso mundo para os mais temerosos, mundo de seres tão semelhantes, tão diferentes, tão gente afinal, para mim que não desisto da Humanidade.

Licínia Quitério

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