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6.8.17

MISTER BROWNE

Por razões profissionais, conheci em tempos um americano típico,  Mister Browne, húngaro de nascimento, a viver em Los Angeles, um homenzarrão dos seus sessenta anos, de grandes bigodes grisalhos, que me aparecia de lencinho colorido ao pescoço e não raro com um chapelão de cow-boy. Tratava-me por Maria, eu sempre lhe dizia que não era e ele, imperturbável, continuava, Yes, Maria, tal como tratava todas as jovens portuguesas que, como eu, eram empregadas e tinham patrão. Visitava a empresa duas vezes por ano, para inspeccionar o fabrico das cadeiras que ali se fabricavam, em exclusividade para ele, segundo os seus próprios desenhos e exigências. Ao longo dos anos, fui-me habituando às visitas de trabalho de Mister Browne, que, nos intervalos das infindáveis reuniões, ficava a conversar comigo da sua vida familiar, nomeadamente de um dos filhos que andava quase sempre bêbado e que de trabalhar não gostava, o que trazia Mister Browne apreensivo com o fígado e o futuro do descendente. Invariavelmente abria a carteira e mostrava-me as fotos mais recentes da família, da casa, e ultimamente da piscina que dava um trabalhão a manter limpa, segundo métodos que me explicava. 
Numa dessas conversatas, preparei atalhos para lhe perguntar o que pensava de Hiroshima. Mister Brown retorceu as pontas do bigode, disse ahm, ahm, como dizem sempre os americanos a iniciar as frases, e, perante o meu olhar a filar a resposta, pausadamente, muito pausadamente, ahm, ahm, Maria, Truman fez o que tinha de ser feito, para evitar muito mais mortes. Assim, sem um lamento. Percebeu que eu não estava confortável. Disse, yes Maria, awful, sure Maria, war is awful. 
Passaram 72 anos sobre um dos maiores crimes da humanidade e todos os anos por esta altura recordo Mister Browne, a água límpida da sua piscina, o seu pragmatismo a falar de Hiroshima. 

Licínia Quitério

foto da net

1.8.17

ARQUITECTURA


Gosto quando a arquitectura nos diz de encontros e desencontros, de gostos, funções, testemunhos de muitas e variadas ordens de sucessivos mandantes, e nos deixa perplexos na procura de um fio que nos conduza e nos conte histórias de destruições, de cataclismos, de faustos e misérias e básicas utilidades. A segurar a história estão as pedras, as dos tempos muito antigos, as de hoje, e a juntá-las a cal, a cobri-las a tinta. Da gruta à pirâmide quanto caminho andado, quanto deserto nascido. Do palácio à choupana, quantos amores vividos, quanta fome, quanta sede de mar.  De tudo isto me alimento quando inauguro um sítio escuso, algures, na torreira da tarde, onde ninguém se demora, que ninguém guarda na memória.  

Licínia Quitério

22.6.17

O MEU PAI


Permitam-me que lembre hoje aqui o meu Pai que foi bombeiro voluntário durante longas décadas. Vivi a infância e adolescência a saber de incêndios e desastres, a perceber os toques da sirene que alertavam a população, a dar conta das saídas rápidas, muitíssimo rápidas, do homem lá de casa, a qualquer hora do dia ou da noite, a saber da aflição da minha Mãe a contar as horas até ele finalmente voltar, por vezes com a roupa e o calçado chamuscados. Tinha um imenso orgulho na instituição a que se dedicava, de alma e coração. Hoje ainda sinto, com particular sobressalto, as notícias que nos chegam sobre os incêndios, como se em cada soldado da paz se continuasse a generosidade e coragem do meu Pai.

Disse.

Licínia Quitério

3.6.17

A VELHA VIZINHA


Tocou à campainha. Vinha de robe azul claro, chinelos de tiras, os braços apoiados em canadianas, e tremia e dizia, desculpe, desculpe, eu estou muito aflita, se a senhora me fizer o favor de me ajudar, o telemóvel, não percebo de telemóveis, quero telefonar ao meu filho, ele ainda não apareceu hoje, estou muito aflita, não consigo ligar-lhe, aparece um cadeado, eu não percebo nada destas coisas, se a senhora puder. O meu marido, o meu marido desapareceu está maluco de todo, tem Alzheimer, saiu e ainda não voltou, deixou a casa toda por arrumar, o lixo espalhado e eu nesta desgraça é que tive de juntar tudo, ai se a senhora puder.
Mora ali mesmo em frente há relativamente pouco tempo, nunca tínhamos falado, mas ela achou que eu a podia ajudar, tinha-me visto entrar em casa.
Pronto, o cadeado já desapareceu, quer ligar, quer que eu ligue, como se chama o seu filho, não, esse nome não vem na lista, vem uma R. Sim, pode ser, é a minha nora, não gosto dela, ela é muito má para mim, mas ligue a senhora, faça-me mais esse favor.
Falou com a R., sem animosidade aparente, falou, falou, despediu-se. Já estava mais sossegada, ai se não fosse a senhora, que deus lhe pague, ai.
Ajudei-a a levantar-se do cadeirão que ela achou muito maciozinho, atravessei a rua com ela, uma eternidade, felizmente não passou nenhum carro, não conseguiu abrir a porta com a chave que trazia pendurada ao pescoço, os dedos não têm força, muito obrigada, deus lhe pague.

Fez-me muita pena. Ela já deve ter muita idade, está aleijada numa anca, tem o marido “maluco”, tomara que ele não volte, disse, não me serve para nada.
Tinha um cadeado no telemóvel, os pés muito inchados,  e uma grande raiva pela vida, a vizinha que hoje me tocou à porta.

Licínia Quitério

30.5.17

A MULHER DOS SÁBADOS




Aparece aos Sábados, o dia da folga, presumo, de trabalho precário, de salário pequenino. Isto a avaliar pela qualidade da vestimenta, dos sapatos, pelo saco dos pertences. Tudo nela é sinal de escassez de meios, de solidão de fim de semana.
Do saco vão saindo outros sacos, um deles com pedaços de pão que ela vai mordiscando. Do outro, espreitam fios de lãs de várias cores com que compõe, em gestos hábeis, flores de crochet. Imagino que daqui a muitas flores aparecerá uma manta a cobrir as zonas puídas do sofá gasto de corpos que uma patroa lhe deu.
Não se demora na renda, foi só o tempo de acalmar a excitação do telefonema infinito que fez com o Carlos, penso que é sempre para o Carlos que faz telefonemas infinitos, em discurso contínuo, apressado, a voz, de vez em quando, em falsete, a marcar alguma indignação, alguma decepção. “Ele” é o objecto do discurso, “ele é assim, ele é assado, ele disse, ele não disse”, e o Carlos só pode estar mudo, que ela não lhe deixa espaço para intervir. Será um Carlos que ouve o que ela tem urgência em dizer sem perder o fôlego, os olhos a varrerem a sala, a meia altura, sem se fixarem em nada, em ninguém. Na mesa, um copo de água que vai beberricando , a amaciar as sílabas, a torrente de sílabas. Diz muitas vezes “não posso”, “não posso”, “estás a ver”, “estás a ver”, “certo”, “certo”, tudo com a mesma entoação, ou melhor, sem entoação alguma.
A dada altura, faz uma pausa, o Carlos deve ter dado sinal de presença, ela faz um arremedo de sorriso, e eu oiço, “pois, o festival, é isso, que bom, Portugal ganhou, chau Carlos”. Mais não disse. Desligou,  arrumou a lã, a agulha, fechou o saco com os pedaços de pão, bebeu um último golo de água, foi pôr o copo no balcão. Disse “até logo”, saiu em passo apressado, no mesmo ritmo com que faz correr as palavras que o Carlos ouve, ou não ouve. Ninguém atura aquela mulher dos Sábados. Só o Carlos. 

Licínia Quitério

1.5.17

PRAIA


Por terra ou por mar, é à praia que chegamos.

Licínia Quitério

27.4.17

UM CASAL TRANQUILO

Chegaram e sentaram-se, frente a frente, nà mesa do café. Os filhos estão na escola, ele teve folga do serviço, ela, por agora, está desempregada. O dia está bonito, ela até estreou os óculos escuros que parecem Ray-Ban.
O telemóvel dele a tocar, ele a atender “Estou sim, diz coisas, pá”. Ela tira o seu aparelho do saco e, de dedo indicador em riste, dá início à tarefa de ver os e-mails, de correr o Facebook, um like aqui, outro ali, e outro, e outro, nos posts de muitos dos seiscentos e tal amigos. A conversa dele continua, continua. Terminada a distribuição dos likes, ela levanta-se e vai ao balcão pagar. Volta, ele levanta-se, o telemóvel no ouvido, saem os dois. Vejo-os afastarem-se, lado a lado, altos, elegantes. 
Não trocaram uma palavra, não se tocaram, não se olharam nos olhos. Um casal tranquilo, sem espaço para altercações, zangas. Quando for a partilha da guarda dos filhos, terão ocasião de discutir, acaloradamente, mesmo em frente do juiz, os filhos são dela, os filhos são dele, ai. Enfim, a bem ou a mal tudo se há-de resolver.
Surpresa foi a mensagem “Hoje dou cabo dela.” que ele gravou (antes daquilo) e pôs no You-Tube, com música de uma marcha militar em fundo, demasiado alto, mesmo assim a deixar perceber a voz rouca de raiva.
Nesse mesmo dia (antes daquilo), ela desabafou no FB, “Se não fossem os meus ricos filhos, eu sabia o que fazer.”. Teve muitos comentários e bateu o seu record pessoal de likes, mais de cem.

Os miúdos, nos “tempos livres”, desenhavam o pai e a mãe. Tinham ambos uma das mãos na orelha a segurar uma coisa em forma de borrão. O da mãe era cor-de-rosa, o do pai era azul. 

Licínia Quitério

23.4.17

O LIVRO



Hoje é o Dia do Livro. Do Livro de papel, com capa, com autor declarado, com páginas numeradas, com princípio e fim. O Livro como o conhecemos, nas nossas casas, nas nossas escolas, nas nossas mãos. Não é possível ignorá-lo. Mesmo que nunca tivéssemos lido um Livro ele teria chegado até nós. Ele contém o pensamento do autor posto em letras e palavras arrumadinhas. Palavras e letras que dele saem para o leitor, para os leitores, que as tomam, as adoptam, as transformam, as recriam, as amam ou detestam. E as passam a outros, pela voz, pela conversa, pelo acto, pela vida. Este Livro que hoje se celebra poderá deixar de se construir, sair de cena, ficar nos museus, nas caves, nas lembranças. Mas o outro, o Livro que existe em cada ser humano, não pára de ser escrito, de ser inventado, acrescentado, reconstruído, noutras vozes, noutros lugares reais ou virtuais, noutros tempos em que talvez já nem se chame Livro. O Livro há-de ser sempre um lugar onde o homem se pensa, se excede, se oferece, vive.

Licínia Quitério

21.4.17

DONA TELA

Falar da Dona Tela é um exercício arriscado, um solilóquio, uma expiação. Encontrei um pequeno texto que escrevi há um bom par de anos, em resposta a alguém que perguntou quem ela era, e que aqui transcrevo.
"A Dona Tela não sou eu, se bem que por vezes gostasse de ser. Penso que a conheço, ingénua mas não burra, desbocada que baste, deslumbrada por futilidades, de coração de manteiga, presa não tão fácil como parece, mas com perigosas fraquezas, quarentona, sedutora ainda, suburbana e pelintra, muito pelintra. Passo muito tempo sem saber dela. Depois aparece, sempre atenta ao mundo, com a sua linguagem muito viva e heterodoxa."
Ainda hoje ela se me apresenta, agora com as unhas pintadas de azul, as leggings a comprimir algumas molezas, um ombro bem destapado, a jeitosa lá do bairro. Continua a ver telenovelas, sonha com um highphone de último modelo e tem a foto do CR7 ao lado da do dito-cujo, o tal que vende aspiradores e lhe comprou um pedacinho da alma. Só um pedacinho, que a Dona Tela é uma mulher prá-frentex que chora baixinho e ri muito alto, escandalosamente. Confessou-me que simpatiza com a geringonça, mas não me diz qual o elemento do trio ela prefere.

Se eu sou a Dona Tela? Toda a gente sabe que não.

Licínia Quitério

5.4.17

PRIMAVERA



Sabemos que a Primavera é menina de caprichos, instável, imprevisível, de humores vários, temperaturas várias, de alto a baixo da escala, de roupas frescas e de abafos, de neve na serra, de chuva de manhã, de sol à tarde, de arco-íris e de nevoeiros. Também de alergias e gripes tardias, de neuras e depressões, de súbitas paixões, de súbitas separações, de desejos inconsequentes. Dou por mim a perguntar como será viver num país de outros meridianos, de outros paralelos, sem Primavera, sem Outono, sem estas estações de classe média, responsáveis, assim dizemos, por toda a nossa inquietude, pelos espirros e pelos desamores, pela vida mediana e mesmo assim esperançosa que nos faz acreditar em florações perenes, como se as árvores as pudessem suportar.

Licínia Quitério

31.3.17

AGITAÇÕES

Agita as mãos e, a segui-las, os braços. Roda os ombros e com eles o tronco, a aproximar-se e a afastar-se das costas da cadeira. A cabeça também roda, roda, para um lado, para o outro. Cruza os dedos, não os prende, em leque os faz abrir e fechar, abrir e fechar, a tocarem um teclado que só a mulher saberá se existe. Os pés balançam, a um palmo do chão, batem um contra o outro, para logo poisarem e logo saltarem, alternadamente. Uma das mãos no queixo, depois no nariz, na orelha, no cabelo, a afagar, a apertar, a puxar, a ajeitar. Cruza as pernas, descruza-as, a direita sobre a esquerda, a esquerda sobre a direita. A mulher que observo fala, fala em contínuo, e a voz dela também se agita, ora em murmúrio quase inaudível, ora em estridência breve, ora num fraseado monocórdico, acometido aqui e ali por uma espécie de soluço. Interrogo-me. Como será esta mulher quando dorme? E quando faz amor? E quando está sozinha, sem ninguém que a oiça, perdida no seu corpo desamparado? Volto a observá-la. Quando ri tapa a boca com a mão, a reprimir o riso, sem reprimir a dança do corpo. Frenética, neurótica, hiperactiva, que classificação dar a esta mulher, em que escala, com que justeza? Qual o seu grau de felicidade, a tal que não se pode medir? É uma mulher, é uma mulher que fala acompanhada do ritmo alucinado do seu corpo. É uma mulher, uma mulher que eu observo e desconheço.

Licínia Quitério

29.3.17

A MULHER


A mulher diz, sente-se, coma, aqui come-se o que vem para a mesa. A mulher não pergunta se queremos mais, mas a gente percebe que podemos servir-nos as vezes que quisermos. A mulher não diz obrigada, mas a gente sabe que gosta de mimos. A mulher ameaça, olha que levas, mas a mão suspende o gesto, a saber-se obedecida. A mulher tem opinião, declara-a, defende-a, com a fala grossa e o corpo adiantado. A mulher gosta de ser ouvida a desfiar a vida, o rosário de dores que se orgulha de ter vencido, com muito esforço, sem nunca ter deixado de ser brava, digna. Ela diz “séria” e não “digna”, com toda a razão da palavra. É impiedosa para com quem a fez conhecer a miséria, a dela e a dos outros. Fala da ditadura e explica-a como ninguém, porque a sentiu, a entendeu, a adivinhou. Sente-se vingada do silêncio que lhe impuseram, do medo da prisão que levou os pobres da aldeia, coitados, o que sofreram, malvada gente. A mulher conheceu outros mundos e neles sofreu e aprendeu o que escola alguma pode ensinar. Sente-se vingada da pobreza porque hoje tem o conforto que a labuta lhe deu, tão duras as tarefas que lhe rebentaram o corpo, a fazê-la gemer baixinho.
Oiço-a com enlevo, com curiosidade, até que ela põe termo à conversa, levanta-se, olha em volta e diz, para onde foram todos, vou ver deles, assim à maneira de recado para mim, por hoje já ouviste o que eu quis contar, agora chega. É ela quem decide quando começa e acaba a conversa.

Quem quiser saber o que foi o fascismo em Portugal tem de encontrar mulheres como esta, de as ouvir, com atenção, com a humildade de quem tem muito para aprender. Aconteceu-me conhecer esta que tanto me ensina.

Licínia Quitério

17.3.17

HISTÓRIAS

Há dias assim. A gente acorda para continuar o calendário e as ideias desarrumam-se em frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, que raio, são restos de ontem, de um outro ontem mais antigo. Um desenho vago no vidro da janela, um passante que sobe a rua, não o conheço, cada vez cada vez há mais desconhecidos, cada vez há mais gente a passar, ou eu deixei de os saber contar, o homem coxeia, dantes ninguém coxeava, como tudo mudou. 
Mudou muito aquela mulher que ontem se sentou à minha mesa, pediu, posso, e já pendurava a mala nas costas da cadeira que arrastava, não está a conhecer-me, não, não estou a ver, eu nunca reconheço alguém que vem do fundo do tempo, aquela mulher velha que eu não sei quem é, vem de dentro da mulher menina que, essa sim, eu conheci, dantes eu conhecia muita gente, sabia-lhes os nomes, as moradas, hoje sei lá quem são, onde moram, por que será que se lembram de mim. Ela continua, eu sou a F, sou irmã, sou filha, não, mãe não sou, a outra é que é. Quem será ao certo e o que quererá de mim esta mulher ali na minha frente, os olhos muito abertos por detrás das lentes, os olhos dos velhos nem sempre encolhem, por vezes ficam assim, como os dela, desmesuradamente grandes. Já disse quem é, ainda não percebeu que eu não sei ao certo quem é, começa a desenrolar o novelo da história que me quer contar, é para isso que ali está. 
Sempre aparece alguém, como ontem, que me quer contar uma história, a sua história, a história que não é a sua mas que quer mostrar, uma pessoa sem uma história digna de ser contada não chega a ser uma pessoa que valha a pena ser ouvida, mesmo que seja em faz de conta, como eu faço, a espreitar as entrelinhas, no que não diz mas eu oiço, no que desdiz e eu não oiço. São assim as pessoas que me contam histórias, não, não mentem, inventam-se, que bem precisam de ser outras, nem que seja por dentro, muito por dentro, como se dessem lustro à carcaça. Histórias que se enrolam no meu despertar e me dão frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, como as de hoje.

Licinia Quitério

11.2.17

A MIÚDA


A miúda passava todos os dias, à mesma hora, defronte do café dos velhos que a seguiam com olhos saudosos de juventude. A miúda não reparava neles, ia sempre apressada, segura de querer chegar onde a esperavam. Foi assim até ao dia em que a atenção dela foi tocada por um baque surdo e uma vozearia de aflição. Virou-se, deu uns passos atrás, perguntou, precisa de ajuda. Ajude-me a levantar, menina, estes velhos não conseguem. Ela sorriu, abraçou-o pelas costas e ergueu-o. Estava pálido, ela só se foi embora quando o viu sentado e a beber um copo de água. Os outros velhos diziam frases desgarradas, que coisa, tu vê lá, estás bem, ó pá atiraste-te para o chão para a miúda te agarrar, cala essa boca.

Entre dois golos, ele só disse, baixinho, para ela não ouvir, é tão bonita
.
Licínia Quitério

5.2.17

A ROSA


Por vezes, na tarde acontece o vermelho da rosa.

Licínia Quitério

4.2.17

VENTO


"De vez em quando todos precisamos de algum vento nas costas." - no filme I Daniel Blake, de Ken Loach.

15.1.17

JOANETES


A Dona Cândida tinha joanetes. Era para onde eu mais olhava quando ela vinha fazer a sua visita anual. A Dona Cândida passava o Verão em casa da minha avó que lhe cobrava uma quantia simbólica pelo alojamento e que a Dona Cândida fazia questão de pagar, coitada da Dona Adelina, era o que mais faltava, bem basta o favor, é só para a água e a para a luz. A Dona Cândida era solteira, solteirona, diga-se, que já ia avançada na idade, uma velha muito velha, no meu entender de criança .Vivia para os sobrinhos que eram as pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais bem educadas deste mundo, filhos da sua irmã e do seu cunhado, só poderiam ter saído assim, umas jóias. Na minha família e em famílias amigas, os sobrinhos da Dona Cândida eram motivo de muitas citações e boas risotas. Estou a vê-la, com o lenço de seda amarrado debaixo do queixo, a cobrir o cabelo ralo que à noite prendia com uma rede, segundo a minha avó contava. Voltando aos joanetes, que eu até então nunca tinha visto, aquelas redondezas a saírem por entre as tiras dos sapatos, de presilha em volta do tornozelo e salto de pião, prendiam-me a atenção e cheguei a pensar que atrás da redondeza um dia apareceria o dedo todo, coitado dele, forçado à contenção pelas tiras de couro beije. Na família e nos amigos, comentavam-se os exageros da Dona Cândida, não só no que às virtudes dos sobrinhos diziam respeito, mas também às suas histórias de pretendentes rejeitados que ninguém conhecera, entre os quais ela contava o príncipe Dom Afonso que um dia, passando de carruagem no Rossio, lhe tinha quase atirado com os cavalos para cima, só para lhe chamar a atenção. A Dona Cândida devia ser muito velha mesmo, visto que se referia ao tempo dos reis, sua majestade para cá, sua alteza real para lá, num embevecimento que lhe punha um sorriso desajeitado no rosto a que a minha mãe, irónica, chamava “cara de grão-de-bico”, mas isso eu não podia repetir, nem pensar. Guardo o cheiro do pó de arroz da Dona Cândida, um cheiro doce e velho, como ela, menina para sempre, a efabular histórias dos seus namorados sonhados, tia extremosa dos queridos sobrinhos, que nos visitava nos meses de Verão, chegada da grande cidade com que eu começava a sonhar.

Licínia Quitério

O PESO



Com mais peso menos peso
lá vamos levando a vida
leveza é nosso destino
os anos, nossa medida



Licínia Quitério

12.1.17

MEDOS



Ela tem medo. Do dia, começou menos mal, mas nunca se sabe como acaba. Da noite, não se vê livre das insónias. Deste Verão quente como não há memória, a calamidade dos incêndios que nada poupam. Deste Inverno, morno, só pode trazer o diabo no ventre, as gripes que o digam, para não falar nas pneumonias.
Ela tem medo. Do mundo, que anda tão perigoso, não tanto por ela, mas pelos filhos, pelos netos que hão-de vir. Já não pode ouvir notícias de desgraças, todos os dias. Melhor seria não ver nem ouvir, mas ela espreita a televisão, de passagem, para dizer, está tudo doido, é o que é.
Ela tem medo. Das informáticas, do progresso que só traz maldade, nunca se viu tanta violência.
Ela tem medo. Das doenças que andam por aí, não poupam ninguém, gente tão nova a morrer, dantes era tudo mais saudável, só se come porcaria.
Ela tem medo. De viajar, com este horror das bombas e dos atentados, melhor ficar, mas já não há lugares seguros, gente malvada em todo o lado.
Ela tem medo. Dos ladrões. Reforçou a fechadura da porta, os trincos dos estores, já ninguém confia em ninguém, assaltos não faltam, até no bairro dantes tão sossegado, já não se pode trazer um fiozinho de ouro, aparece logo um meliante.
Ela tem medo. Do modo como andam a educar os jovens, só faltas de respeito, só palavrões, que belos adultos hão-de vir a ser. Pobres pais, para não falar dos avós, coitados, querem lá saber dos velhos.
Ela tem medo. De viver, de morrer. Do amor, que já lá vai e não deu certo, nem é bom falar. Daquele cavalheiro que a anda a rondar na internet, sabe lá quem é, os retratos enganam muito, ainda se fosse como parece.
Ela tem medo. Da solidão, embora não saiba o que isso é. Graças a Deus tem muito com que se entreter, um tricô, as mãos ocupadas é bom, umas palavras cruzadas, a cabecinha ocupada é bom.

O pior são as noites. Malvadas insónias.


Licínia Quitério

11.1.17

SOL DE INVERNO


Ao Sol de Inverno, as velhas mulheres procuram luz e algum calor sentadas nos bancos de pedra, sem encosto, postos ali para ver e andar. Se não fosse o Sol que tanto nos visita, este país morria muitas vezes do frio que alaga espaços públicos onde falta o verde, a madeira, a forma do aconchego, quase assépticos, quase.

Licínia Quitério

7.1.17

AS MENINAS





As meninas cresceram e tanto que já apareceram novas meninas. E também há meninos pequenos e meninas pequenas e meninos grandes, muito grandes. A gente ganha heranças. A mim calham-me heranças, por diversas vias, de gente e mais gente. Uma das meninas que herdei faz hoje anos. Tão depressa cresce esta minha gente. A seguir a sua pressa, a minha velhice ganha lentidão e doçura. Parabéns, Menina! 

Licínia Quitério

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6.1.17

DIA DE REIS


- Vê lá estas flores que me ofereceram. Tão bonitas, não são? Eu não me recordo de as ter visto em amarelo.
- Não conhecias? No meu quintal tenho montes delas, montes.

- Estou a precisar de uma receita de bacalhau que não seja muito conhecida, para variar. Sabes de alguma?
- Precisas? Faz como eu. Eu invento as minhas receitas e, não é para me gabar, mas saem sempre pratos muito apreciados.

- Ando com umas dores de cabeça há dois dias que nem te conto.
- Escusas de contar. Dores de cabeça tenho eu quase todos os dias, mas não me queixo. Não é por me queixar que as dores passam mais depressa.

- Já reparaste no meu novo corte de cabelo? Que tal? Fica-me bem?
- Para ser sincera, não gosto muito. Sabes que eu sou assim, muito sincera, quando gosto, gosto, quando não gosto, não me ponho com intrujices. Se tivesses um rosto mais redondo…
- Como o teu?
- Não digo tanto, mas parecido, talvez…

- O meu neto mais novo está muito engraçado, muito esperto. Sabes com que é que ele se saiu ontem?
- Ah as crianças são todas muito engraçadas, muito espertas, principalmente as nossas, mas conta lá a habilidade do menino.
Pronto, não fiques chateada, até parece que eu disse alguma mentira. Acredita que se eu fosse falar das gracinhas dos meus nunca mais me calava.

- Queres uma fatiazinha de bolo-rei? Comprei porque gosto de ter em casa neste dia.
- Eu não ligo nenhuma a dias. De reis ou de presidentes, são todos iguais, mas aceito.
Ah não se fazem bolos como os de antigamente. Olha-me para isto, nozes nem vê-las, e a massa, desmaiada, coitada, cortaram-se nos ovos.
- Lembras-te de quando traziam prenda?
- Não me lembro eu de outa coisa. Saía-me sempre a mim e os meus irmãos roíam-se de inveja.
- Pois a mim calhava-me a fava muitas vezes. Cada um é para o que nasce.
- Não sou nada dessa opinião. A vida é a gente que a faz. Há quem tenha jeito, há quem não tenha.
Bem, vou andando que a minha vida não é só conversatas moles, mas já agora levo outra fatia para o caminho.
- Leva, sim, uma ou duas.

Leva, para ver se adoças esse amargo com que nasceste.

(Segunda parte da fala, por detrás da porta fechada)

Licínia Quitério

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2.1.17

GATO PINGADO





O gato entrou de rompante e logo invadiu a mesa, estonteado, a afirmar que eu tenho de escolher entre ele e o ecrã, por momentos que seja. Passo-lhe a mão pelo lombo, a tentar sossegá-lo e a pedir que se afaste. A mão sente o pelo molhado, borrifado apenas, e percebo assim que começou a chuva lá fora. É um "gato-meteo", penso. Diz-me do sol escaldante com a quentura do corpo esguio e luzidio, do vento, quando o pelo se dessarruma e arrepia e o gato parece mal-disposto. Posso saber de todas estas condições se olhar pela janela da frente e vir como se vestem e comportam os passantes, posso olhar pela janela das traseiras e observar a pele das plantas, brilhantes de sol, molhadas de chuva, agitadas de vento. As pessoas, as plantas, o bicho, o meu universo de sensações e entendimentos.



Licínia Quitério

1.1.17

SOBREPOSIÇÕES


De regresso a lugares que são meus, porque deles guardo o desenho e as cores, sobrepostos no correr dos anos.

Licínia Quitério

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