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15.1.17

JOANETES


A Dona Cândida tinha joanetes. Era para onde eu mais olhava quando ela vinha fazer a sua visita anual. A Dona Cândida passava o Verão em casa da minha avó que lhe cobrava uma quantia simbólica pelo alojamento e que a Dona Cândida fazia questão de pagar, coitada da Dona Adelina, era o que mais faltava, bem basta o favor, é só para a água e a para a luz. A Dona Cândida era solteira, solteirona, diga-se, que já ia avançada na idade, uma velha muito velha, no meu entender de criança .Vivia para os sobrinhos que eram as pessoas mais inteligentes, mais bonitas, mais bem educadas deste mundo, filhos da sua irmã e do seu cunhado, só poderiam ter saído assim, umas jóias. Na minha família e em famílias amigas, os sobrinhos da Dona Cândida eram motivo de muitas citações e boas risotas. Estou a vê-la, com o lenço de seda amarrado debaixo do queixo, a cobrir o cabelo ralo que à noite prendia com uma rede, segundo a minha avó contava. Voltando aos joanetes, que eu até então nunca tinha visto, aquelas redondezas a saírem por entre as tiras dos sapatos, de presilha em volta do tornozelo e salto de pião, prendiam-me a atenção e cheguei a pensar que atrás da redondeza um dia apareceria o dedo todo, coitado dele, forçado à contenção pelas tiras de couro beije. Na família e nos amigos, comentavam-se os exageros da Dona Cândida, não só no que às virtudes dos sobrinhos diziam respeito, mas também às suas histórias de pretendentes rejeitados que ninguém conhecera, entre os quais ela contava o príncipe Dom Afonso que um dia, passando de carruagem no Rossio, lhe tinha quase atirado com os cavalos para cima, só para lhe chamar a atenção. A Dona Cândida devia ser muito velha mesmo, visto que se referia ao tempo dos reis, sua majestade para cá, sua alteza real para lá, num embevecimento que lhe punha um sorriso desajeitado no rosto a que a minha mãe, irónica, chamava “cara de grão-de-bico”, mas isso eu não podia repetir, nem pensar. Guardo o cheiro do pó de arroz da Dona Cândida, um cheiro doce e velho, como ela, menina para sempre, a efabular histórias dos seus namorados sonhados, tia extremosa dos queridos sobrinhos, que nos visitava nos meses de Verão, chegada da grande cidade com que eu começava a sonhar.

Licínia Quitério

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