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12.1.17

MEDOS



Ela tem medo. Do dia, começou menos mal, mas nunca se sabe como acaba. Da noite, não se vê livre das insónias. Deste Verão quente como não há memória, a calamidade dos incêndios que nada poupam. Deste Inverno, morno, só pode trazer o diabo no ventre, as gripes que o digam, para não falar nas pneumonias.
Ela tem medo. Do mundo, que anda tão perigoso, não tanto por ela, mas pelos filhos, pelos netos que hão-de vir. Já não pode ouvir notícias de desgraças, todos os dias. Melhor seria não ver nem ouvir, mas ela espreita a televisão, de passagem, para dizer, está tudo doido, é o que é.
Ela tem medo. Das informáticas, do progresso que só traz maldade, nunca se viu tanta violência.
Ela tem medo. Das doenças que andam por aí, não poupam ninguém, gente tão nova a morrer, dantes era tudo mais saudável, só se come porcaria.
Ela tem medo. De viajar, com este horror das bombas e dos atentados, melhor ficar, mas já não há lugares seguros, gente malvada em todo o lado.
Ela tem medo. Dos ladrões. Reforçou a fechadura da porta, os trincos dos estores, já ninguém confia em ninguém, assaltos não faltam, até no bairro dantes tão sossegado, já não se pode trazer um fiozinho de ouro, aparece logo um meliante.
Ela tem medo. Do modo como andam a educar os jovens, só faltas de respeito, só palavrões, que belos adultos hão-de vir a ser. Pobres pais, para não falar dos avós, coitados, querem lá saber dos velhos.
Ela tem medo. De viver, de morrer. Do amor, que já lá vai e não deu certo, nem é bom falar. Daquele cavalheiro que a anda a rondar na internet, sabe lá quem é, os retratos enganam muito, ainda se fosse como parece.
Ela tem medo. Da solidão, embora não saiba o que isso é. Graças a Deus tem muito com que se entreter, um tricô, as mãos ocupadas é bom, umas palavras cruzadas, a cabecinha ocupada é bom.

O pior são as noites. Malvadas insónias.


Licínia Quitério

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