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30.12.14

ANO NOVO


De esperar se faz a vida. Ainda que digamos que nada esperamos, sempre uma gavetinha permanece, entreaberta, para algum átomo de novidade, algum passageiro furtivo, algum desejo inconfessado e finalmente satisfeito, algum dia mais, com mais cor, mais sabor. Habituámo-nos a ter dentro de nós um calendário que referimos com desdém, mas sem o qual nos sentiríamos perdidos do tempo único que é o da nossa estadia neste mundo, que dizemos real, já que da virtualidade só o nome, inventado, conhecemos. 
Assim chegámos ao fim do ano catorze do século vinte e um desta era por que se vem regendo grande parte da humanidade. Tudo convenções, não mais, fronteiras, direi, a assinalarem o curso das nossas vidas, tão curtas vidas se medidas pela enorme idade do universo, tão longas se apurarmos a soma das alegrias e das tristezas, dos encontros e desencontros, dos sonos e das vigílias.
De esperar, pois, se fará a nossa caminhada no novo ano que começa, um pé na infância que persiste, outro no amanhã que não sabemos, porque do hoje não se faz notícia, porque instante, porque breve, porque nada.

Licínia Quitério

28.12.14

UM CONTO DE NATAL



Ela sempre começava assim: 
“Pensava que fosses tu e foi por isso que não reagi mais depressa. A mala a fugir-me do ombro, eu a voltar-me e não eras tu”. 
Ele sempre replicava: 
“Porque é que havia de ser eu?” 
E enfastiado: 
“E se fosse por que raio ia puxar-te a mala?” 
Nesse ponto da conversa, ela continuava e ele ouvia, ou não ouvia, que era mais habitual abrir o jornal, por os óculos e limitar-se a pontuar o monólogo com ”hum hum”, “ham ham”, mais espaçados à medida que a fala avançava. Ela parecia não se importar, sentava-se, cruzava as pernas e entusiasmava-se a contar pela milésima vez o que lhe acontecera naquele ano, uns dias antes do Natal. Nessa altura, já não era ele que ali estava, molengão, desinteressado, a puxar por cigarro após cigarro. O outro olhava-a atentamente, seguia-lhe os gestos, bem expressiva a achava e ainda atraente, as rugas aos cantos dos olhos a darem-lhe um encanto de fruta madura. A expressão do outro, o interesse do outro, a graça com que o outro ajeitava a melena, inspiravam-lhe o conto que o Natal lhe trouxera, há uns anos, ao ser surpreendida pelo meliante que lhe sacou a mala e a deixou de mãos vazias, assustada, a gritar, sim, a gritar, a plenos pulmões, que o agarrassem, que era ladrão, que era ladrão, sem que ninguém se aproximasse. Nem imaginavam como se sentira só e desamparada, sem nada na mão, uma mulher sem uma mala na mão é como se estivesse despida. Aí ele costumava dizer “pois”, e virava a página do jornal. O outro tinha um sorriso maroto, ela fazia de conta que não notava e continuava. Quando conseguiu chegar à esquadra, muito afogueada, a contar em catadupa de palavras o que lhe acontecera, vítima de um assalto, ali, senhor guarda, agora mesmo, ninguém acudiu, ali, ao pé do jardim, senhor guarda. Ele interrompia-a, com enfado: 
“Sim, já contaste, o guarda disse para te calares e te sentares e só depois de acalmares começou a tomar nota da ocorrência, não foi?” 
E voltava ao jornal, agora de página dobrada ao meio, a apagar o cigarro. Ela sentia um friozinho no estômago, pensava em calar-se, levantar-se, sair, mas logo o outro a perguntar, já mais perto dela: 
“E então, como foi?” 
Era por isso que arranjava coragem para acabar o seu conto de Natal, a dizer que a mala tinha aparecido, sem dinheiro, claro, mas com os documentos todos, o que já não foi tão mau. Era por isso que não chorava quando ele resmungava:  
“Agora só para o ano é que voltas a contar essa treta, OK?” 
O outro lá estava, a dizer: 
“Tens de me contar tudo outra vez. Com mais pormenores”. 
Ajeitava a melena. O jornal continuava. Ela não saía.


Licínia Quitério

NATAL


O Natal ao Sul, ao Sol, espantosamente colorido e tranquilo. Os campos verdes semeados de flores, o rebanho em sossego, a gaiola esperando os pássaros, as árvores preparando em silêncio as folhas futuras. Que mais desejar depois da festa, dos risos, das longas mesas de muitos pratos? Que um dia assim se prolongasse, à beira das coisas simples, do que vale a pena.

Licínia Quitério

26.12.14

TÁ MAR


A protecção divina invocam, que os mares são férteis de peixe e de tempestade, por vezes só de tempestade, sem que o peixe se tenha oferecido. Se houve um Deus que lhes disse, “ganharás o pão com o suor do teu rosto”, outro não houve, ou o mesmo, que os avisasse, “nas voltas de mar, ganharás o peixe ou perderás a vida”. Dura a faina, feita de saber e arrojo. Em terra ficam as mulheres, esperando pela entrada dos barcos, muitas vezes roucas de tanto rezar, “Salvai-o, Senhor, meu Deus.”, de tanto praguejar, “Ah mar dum cão que me roubaste o meu homem.”.


Licínia Quitério

21.12.14

SOLSTÍCIO DEZEMBRO 2014


O dia de hoje é o mais curto do ano. Amanhã tudo começará de novo a crescer. Assim manda o grande Sol, nossa fonte de vida. Pese embora o frio neste hemisfério, o Sol lá está a comandar o ritmo do Inverno, na dormência das sementes, na ausência dos pássaros migrantes, na insegurança dos homens. Entretanto, convocamos o dia em que de novo diremos Primavera, com a eclosão das sementes, o retorno dos pássaros, a confiança dos homens. Avè, Sol!

Foi assim, eu e ele com a árvore de permeio. Únicas, mágicas, as cores deste tombar do dia.

Licínia Quitério

20.12.14

MANUEL VEIGA



NOTA DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO "POEMAS CATIVOS", DE MANUEL VEIGA

Aqui estou eu, convidada a dizer algumas palavras sobre o livro Poemas Cativos, do meu amigo Herético, que assim foi por mim nomeado durante largo tempo, conhecidos que fomos através do mundo dos blogues, eu no Sítio do Poema e ele com o seu acertadíssimo Relógio de Pêndulo.
Nos primeiros tempos, fui apreciando os seus belos textos em prosa, assertivos, entusiasmados, contundentes, irónicos, esclarecendo, informando, atento sempre não só à espuma dos dias, mas muito mais, à sua conformidade ou inconformidade com os caminhos e descaminhos da Humanidade, dos seus santos e pecadores, para usar expressão tão pouco herética.
Só mais tarde o fui descobrindo poeta que ia publicando, diria, a medo, ou melhor, com o pudor de quem sente a responsabilidade de fazer uso da palavra poética. Foi o seu Relógio de Pêndulo mostrando, mais regularmente, o poeta sensível, a par com o cidadão empenhado e lutador pelas causas que definem, traçam, consolidam o caminho dos homens rumo à Liberdade e à Alegria.
E assim foi crescendo a minha atenção ao Poeta, de seu nome Manuel Veiga, aqui presente hoje como autor do seu primeiro e excelente livro, Poemas Cativos, em boa hora editado pela Poética Editora, graças à Virgínia do Carmo, ela também poeta já publicada.
Tal como afirmei sobre o Eufrázio Filipe, são as palavras de um Poeta a sua mais exacta definição, a sua indelével marca no processo de comunicação mais perigoso, mais difícil, mais subversivo, mais libertador que é a Poesia.
Passo a dar a minha voz, com o maior gosto, a palavras do Manuel Veiga que tocam os domínios do terreal e do sagrado, do concreto e do intangível, e sempre, sempre, as razões do amor e da luta, com a destreza do verbo e o empenho incorrigível deste militante da vida.

Licínia Quitério

Seixal, 7 de Novembro de 2014


EUFRÁZIO FILIPE

NOTA DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO "PRESOS A UM SOPRO DE VENTO", DE EUFRÁZIO FILIPE 

Como dizer a obra de um Poeta, senão com as suas próprias palavras? Tarefa nada fácil para mim que me habituei a lê-lo e as tomei tantas vezes como se minhas fossem. Ponderadas as possíveis abordagens, decidi que o melhor seria pedir emprestados ao Poeta pelo menos alguns dos substantivos e verbos com que tece a malha inconfundível dos seus versos, para tentar explicar como sinto, porque sinto, a sua Poesia. 
Assim vos digo que uma pessoa se depara com um poema de barcos como viagens, e pássaros debicando romãs, e mulheres que são praia, e sabe logo que é do Mar Arável, melhor dito, do Eufrázio Filipe. O poeta deixa a sua marca original por onde passeia o verbo e o oferece generoso à nossa sede de marés vivas.
É uma doçura, uma leveza, que guarda, contra todas as aparências, o amargo dos dias dos homens e das mulheres que os habitam. Poemas de amor e de luta, os dois vectores indissociáveis do seu pensamento, pois que para ele são uma e a mesma coisa. Nos poemas de Eufrázio há aquela pincelada desgrenhada de azul com que marca o seu blog, com que se assinala a si próprio, numa constância de desejo, numa sensualidade que fica sempre um passo aquém do banal erotismo, numa notável contenção de palavras, pois bem sabe o poeta quão preciosa é a síntese, quão difícil de alcançar. Lê-se como se deslizássemos num chão sonhado, de onde se levantam nomes que podem querer dizer escarpa, ou pátria, ou mulher, porque as palavras para Eufrázio são também subversão, alegoria, grito, que só o leitor sensível e desperto pode perceber, pode receber. São de fogo os seus pássaros, são de loiça os seus cães, são de vento os seus barcos que constantemente partem e chegam, e chegam e partem, num rodopio de vida, numa busca inacabada de flores e de brisas, personagens de um drama poético que se desenvolve e envolve o leitor na aventura de sonhar. 
Lê-se Eufrázio como se navegássemos com ele nas tardes e madrugadas dos seus poemas, nos suaves acenos de uma pestana, de uma pena, de uma vírgula, como sinais, como marcos, da viagem dos seus livros que semeia ao ritmo do semeador, com a segurança do caminhante, com o pudor inconfessado do amante. Há silêncio e canto, desespero e esperança, dor e alegria nas suas praias infinitas, nas ondas de saliva ou de espuma, nas romãs que sangram, no alto das ramadas onde se hasteia o beijo.
Poemas que nos interpelam, com o tu que nos faz cúmplices da sua chamada, e nos deixa a pensar quem somos, se somos nós afinal que com o poeta devemos lançar os barcos, acender as escarpas, semear o pão, fazer calar os cães, desgrenhar as asas dos pássaros, soltar a âncora, rumo à praia onde nos espera, para além de todos relâmpagos, a mulher vestida de nudez com que o poeta se entende, se confunde, de seu nome Liberdade.
Obrigada pelas palavras que me emprestaste, Poeta. Aqui tas devolvo para continuares a caminhada, arando o mar como se terra fosse, sem amos nem amarras. 

Licínia Quitério

Seixal, 7 de Novembro de 2014

A NÊSPERA


Era uma vez
uma jovem nêspera,
nascida e crescida
por entre a folhagem
verdinha, fresquinha,
dos ramos ramudos
da grande nespereira,
plantada e criada
no velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
À custa da seiva
da sua mamã,
a nêspera engordou,
cresceu e corou.
Dava gosto vê-la.
Não, nenhuma irmã
tinha a pele assim
tão lisa e suave.
Parecia cetim.
De tanto crescer,
de tanto engordar,
conseguiu espreitar,
sem se debruçar,
por cima dos muros
do velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
E que viu a nêspera
bonita, gordinha?
Do lado de lá,
pousada no chão,
juntinho ao portão,
redonda e amarela,
muito gorduchinha,
uma nêspera bela,
bem maior do que ela.
Uma prima, talvez.
Tamanha foi a surpresa
que se pôs logo a pensar,
a sonhar, a matutar.
O seu destino era lá
ao pé da prima gordinha,
tão forte, tão bonitinha.
Uma nêspera a valer!
Espiou pelo canto do olho
as irmãs enfezaditas,
escondidas, a bem dizer,
naquelas folhas folhudas,
naqueles ramos ramudos
da nespereira do quintal.
Não!
Não tinha nada que ver
com nêsperas descoradas,
talvez mesmo envergonhadas
por não saberem crescer,
encorpar, arredondar,
para que alguém desejasse
trepar os muros de pedra
do simpático quintal
da nossa amiga vizinha
e as poder admirar,
cheirar ou mesmo tocar.
Pensou, pensou, repensou
e chegou à conclusão:
Estava ali por engano.
Foi então que decidiu
mudar de vida de vez.
À custa de um bom esticão,
largou o ramo ramudo
da nespereira folhuda e
sem dizer nada a ninguém,
saltando o muro velhinho,
estatelou-se no chão,
(com a polpa amachucada,
por causa do trambolhão)
junto da prima gordinha
pousada atrás do portão.
Num instante percebeu
o engano em que caíra.
A abóbora gordinha
de nêspera nada tinha.
E o pior aconteceu
quando, num riso de troça,
a abóbora amarela,
muito maior do que ela,
disse, bem alto e bom som,
para que toda a gente ouvisse:
Volta para casa, maluca,
para o pé das tuas irmãs,
antes que se abra o portão,
por ele entre um camião,
trazendo um homenzarrão,
mais feio que muito bicho,
que a mim me transforme em doce
e a ti te jogue no lixo!


Licínia Quitério

18.12.14

A AULA DE MORAL



A aula de Religião e Moral, assim impropriamente chamada, que a religião tratada era só uma e moral era coisa não abordada, era uma das mais divertidas nos meus tempos de liceu, de classes mistas, de ensino privado que na terra não havia outro. O professor era padre católico, pois claro, boa pessoa, mas tremendamente inculto e incapaz de manter disciplina na aula onde, ao contrário do que muita gente hoje presume, já reinava uma balbúrdia colossal a infligir grandes tormentos ao pobre do padre que a eles respondia, regularmente, com chapadões da sua manápula bem fornecida, sem que isso resolvesse o clima anárquico da aula seguinte.
Eu gostava da aula, deliciei-me a ler a versão da Bíblia das Escolas, adorava as histórias do Velho Testamento, as do Novo nem tanto. De vez em quando, o padre projectava uns filmes, creio que em 16 mm, a preto e branco, com a fita sempre a encalhar e a imagem cheia de riscas e luzinhas.  Lembro-me de um deles, sobre o milagre de Fátima, e de outro sobre a Paixão de Cristo e o padre a fazer o relato das imagens, e ninguém a ouvir, que a sala ficava às escuras e a malta aproveitava para comer rebuçados e atirar com os papéis ao ar, os rapazes para apalparem as miúdas da fila da frente que guinchavam, tudo a fingir que ressonava, a darem gargalhadas quando Nosso Senhor era pregado na cruz, e o mais que a imaginação e as feromonas lhes sugeriam. Era uma alegria a aula de moral, como se chamava em abreviatura.
A parte complicada para mim é que, não sendo baptizada, o padre entendeu que era sua missão levar-me à pia baptismal, mas, como para isso tinha de ter autorização do meu Pai, eu passei a ser a mensageira entre o padre e o pai, entre o pai e o padre, o padre diz que, o meu pai diz que.  Convenhamos que para uma miúda de dez ou onze anos não era a tarefa mais conveniente.  Eu queria lá saber se era bom ou mau ser baptizada, eu queria é que os dois adultos me deixassem em paz com a questão. Venceu o meu pai que foi falar com o padre. Eu nunca soube bem como foi a conversa, mas o certo é que deixaram de me encomendar recados.
Ah e fui proibida pelo meu pai de beijar a mão ao padre o que me agradou muito, que aquela mão sapuda me dava alguma repulsa.  O padre, acalmado nos seus ímpetos missionários, deixou de me apoquentar e só de vez em quando passava a mão pela minha cabeça e murmurava: coitadinha, tão boa aluna e não é baptizada.  Lembro-o com alguma ternura e hoje compreendo a sua debilidade perante um homem de fortes convicções como era o meu Pai.


Licínia Quitério

foto da net

14.12.14

O BOLOR



O bolor, o bolor, a insinuar-se, nas máscaras, nos muros, nas falas. Um bolor antigo, travestido, ardiloso, amável, ordeiro, calcário, granítico, multiforme, multíparo. Um bolor consanguíneo, atávico, monstruoso, a avançar no território do sol, a devorar os insones, com suas capas negras, suas cruzes de mil braços, seu fumo de cera ardida, sua colossal mentira. Este é o inverno, o inferno, de vozes doces, de línguas bífidas. Ai dos humanos perdidos em suas dores.

Licínia Quitério

13.12.14

O SABOR DA GELATINA



Foi ao saborear a gelatina não sei de quê, nem perguntei, que me veio o sabor antigo de rebuçados de cinema, os que eram vendidos, antes do filme e nos intervalos, pelo rapaz de casaco branco de sarja, com um tabuleiro pendurado ao pescoço e amparado pelos braços.
Rebuçados de fruta, embrulhados em papel de várias cores conforme o paladar, que a gente desembrulhava durante a exibição do filme, com o ruído estaladiço do papel que depois era atirado ao chão ou, mais ou menos disfarçadamente, sobre a plateia, se calhava  estarmos no balcão. Era o tempo do cinema paraíso, em terra de província, um dos poucos divertimentos que havia. Estratificada que era a sociedade, o cinema era bem o mapa desses estratos, tudo previsto, nada de misturas. A plateia era toda de cadeiras de madeira, daquelas que, ao baixar o assento, e sobretudo ao levantar, faziam um estrépito dos diabos. Nas filas da frente, ficavam os soldados, a gente mais pobre e os rapazes que tinham conseguido um bilhete ou uma borla, ou se tinham aventurado a entrar por uma janela alta das traseiras, sem que os arrumadores, os fiscais, os polícias, os bombeiros, os donos da sala, os tivessem apanhado em prevaricação. Na segunda plateia, as famílias da terra, e um ou outro militar graduado, muito provavelmente sargento. O balcão, de cadeiras estofadas de veludo vermelho, era frequentado pelas famílias mais afortunadas e pelos oficiais de carreira. Na primeira fila, central, sentavam-se as pessoas mesmo muito importantes, mandantes, reverenciadas. 
Quando as luzes se apagavam, a agitação na primeira plateia continuava por minutos e era habitual ouvir assobiadelas, risadas nervosas, palavreado a meia voz, um desassossego de pernas a fazer matraquear os assentos de pau. Sempre alguém, cá de trás, mandava calar os mal educados  lá da frente, e não raro um dos franganotes atrevidos era expulso da sala pelos zeladores da ordem.
Mas o que interessava mesmo era o filme, para não falar dos desenhos animados, isso sim, as gargalhadas a explodirem na incontida alegria. Chato, chato, era o noticiário do país, com o reverendo chefe de estado a cortar fitas, a inaugurar uma barragem pela décima vez, as grandes obras do estado novo, as famílias do estado novo, a esposa do venerando a beijar criancinhas pobres coitadinhas mas protegidas pelo bom governo do senhor presidente do conselho, e a malta a assobiar, ó marreco olha o sonoro, olha a fronha daquele, e chiu, chiu, caluda, que não deixam ouvir nada.
Enfim o filme, o leão a rugir, vesgo, a cabeça para a direita, para a esquerda, oooommm, oooommm, e a malta caladinha. Ah grandes filmes,  com o Errol Flim, o Burte Lencastre, a boazona da Sarita Montiel. Quem não se lembra dos beijos da Sarita que vendia violetas, e a canalha a assobiar, com os mindinhos nos cantos da boca, uma barulheira e tanto. Grandes filmes aqueles, o Ivanhoé, o Tarzan, e os gritos à saída, a baterem no peito, a fazerem que trepavam às árvores da avenida.  E o Bucha e Estica, e o Tótó e o Cantinflas, ah aquilo é que era rir, da primeira à última fila, incluindo a gente muito séria do balcão. 
Nem dá para acreditar que tudo isto estava escrito no fundo da taça da gelatina que comi ao almoço. 

Licínia Quitério

10.12.14

BALANÇO 2014


Chegou a época dos balanços. Mais um ano, diz o calendário. Doze meses mais de vida, a juntar a muitos, muitos, no meu caso. Tive um ano bom, com saúde, amigos, viagens, livros, bichos. Muita actividade indoors, pouca outdoors, por escolha minha. Atenta a quem está, a quem passa, observando muito, participando exclusivamente no que me agrada, no que pode agradar a alguém, deixando-me de voluntarismos, que disso já dei que baste e tudo fiz por vontade e por gosto. Agora é outro o meu tempo, o tempo de me preservar de contaminações para poder aprofundar conhecimentos, treinar alguma frieza para entender o torvelinho de mudança que envolve tudo e todos, com uma civilização a caminhar para um vórtice entontecedor e cruel. 
Foi o ano em que, passados muitos anos, voltei a Paris, o lugar de eleição que se afastara de mim e que, graças ao carinho de amigas, pude reencontrar e sentir-me de novo nas águas, nas pedras, nos lugares mitificados de uma outra vida minha que por ali passou.
Foi apenas um ano mais que me fez outra sendo a mesma. 
Foi um ano de muita internet, esta janela aberta para todos vós, com quem me encontro na prosa, na poesia, no humor, na fotografia, no abraço virtual, tantas vezes realizado em encontros preciosos de quem se re(conhece) nos gostos, nos projectos, nos desenhos dos dias.

E pronto, era isto o que vos queria dizer.

Licínia Quitério

2.12.14

SYLVIA


























Flores crepusculares no grande olmo no lado de fora da casa.
As andorinhas voltaram. Ciciam como aviõezinhos de papel.
Oiço o som das horas
A crescer e a morrer nas sebes. Oiço o mugido das vacas.
As cores renovam-se e a palha húmida
Fumega ao sol.
Os narcisos abrem rostos brancos no jardim.

Estou reconfortada. Estou reconfortada.
........

Sylvia Plath, tradução minha

OS CINCO



Até hoje, publiquei cinco livros, quatro de poesia e um de prosa, sempre em edições da autora que sou. São várias as razões por que tenho optado por este processo que sei ser considerado por muitos como um tanto menor, um tanto marginal, já que à partida as edições de autor estão afastadas dos grandes circuitos comerciais de divulgação e venda. De qualquer modo, as minhas pequenas tiragens têm sido esgotadas e, para maior das satisfações, os livros têm chegado a mãos de queridíssimos e notabilíssimos leitores que os acarinham e me dão nota dos seus estimáveis pareceres. Porque cheguei tarde à aventura da publicação, porque tenho consciência do meu modesto merecimento no mundo da escrita, mais não posso desejar. O próximo, O Livro dos Cansaços, será ainda editado por mim. Do futuro nada sei e, já que o cansaço não é só uma metáfora, talvez um dia me entenda com uma das simpáticas editoras que me vêm tentando. Muito obrigada aos queridos leitores que por aqui andam. 

 Licínia Quitério

19.11.14

TRAGÉDIA NO AEROPORTO




Abriu a mala para retocar o batom, num gesto quase maquinal, a quebrar o fastio da espera na sala pouco movimentada. Ao procurar na bolsa, sentiu na mão um objecto com o frio de metal e não o tubo esperado. Espreitou. Mal podia acreditar no que via. Ali, na sua mão direita, um canivete suíço, vermelho, tão longo como a sua mão aberta. Estremeceu, olhou em volta, tornou a fechar a mala. Ninguém podia ver o objecto proibido num lugar daqueles, altamente vigiado, no coração de um continente em crise, com sensores presumivelmente  implacáveis. Certificou-se de que nenhum alarme soava, que nenhum vigilante se lhe dirigia. Continuou fingindo a maior calma, a mala aconchegada no colo, a pensar no que fazer ao canivete. Deixá-lo ali caído, deitá-lo num recipiente de lixo, enfiá-lo no bolso do casaco do passageiro adormecido a seu lado. Nenhuma das hipóteses lhe agradou,  o habitual poder de imaginação a falhar redondamente. Foi quando se fez luz na sua cabeça aturdida pela insólita situação. Para que serve uma arma daquelas? Para cortar. Cortar o quê? Começou então, metodicamente, a cortar em pedaços os poucos passageiros em espera. Cabeça de um que já prometia pendências, pernas de outro, ali convenientemente esticadas, a mão de outro, abandonada no banco,  e mais um pé descalço, e uma orelha do outro a pedir misericórdia, e ainda… “Senhores passageiros do voo XYZ com destino a KKKK queiram dirigir-se à porta 000”.
Desistiu da degola seguinte, agarrou a mala, olhou em volta, nada de alarmes, dirigiu-se à porta indicada. Atrás dela, uma fila de zombies que reconheceu claramente. Um deles chegará a presidente de uma qualquer república, pensou. Já no avião, voltou a procurar o canivete na mala. Lá estava. Achou estranho que agora as lâminas também fossem vermelhas. Agarrou-se aos braços do assento. Tinha sempre medo nas descolagens. Para acalmar, pensou em contos de terror.

Licínia Quitério

16.11.14

ISTO


Já passou tanto tempo desde o dia em que disseste “Vou, estou farto disto”, sem mais nada, a despires o blusão e a atirá-lo para cima do sofá. Voltaste a vesti-lo já estava escuro lá fora, a mala pequena a pesar-te no braço, um casaco no outro braço. Ainda hoje repito “disto, disto, disto”, sem conseguir decifrar de que é que te fartaste. 

 "Isto” não sou eu, sempre tão presente, tão meiga, tão zelosa da tua saúde. “Isto” não é o nosso filho, bonito rapaz, cheio de namoradas, de alguns defeitos, ou melhor, de problemas, que a droga não é defeito, é uma fase má, vai passar, vais ver, não roubou, não matou, não é o único, precisa do nosso apoio, não, não lhe grites, não, não lhe batas, foge, filho, foge. “Isto” não pode ser o dia em que desapareceu o dinheiro, não, não foi ele, foge, filho, foge que ele dá cabo de ti. Ele andou na rua, um bocado perdido, mas voltava sempre para comer, o nosso filho, magrito, não é “isto”, não é dele que te fartaste, nem da casa, sempre tão limpa, arejada e agora nem aquele cheiro mau no quarto dele. A gente não se farta assim do que nos rodeia, de quem nos ama, que ele gostava de ti, não te odiava, mesmo quando dizia que morresses, que eras tu que não prestavas, não era ele a falar, era a malvada que o agarrou.

 Gostava de poder dizer-te tudo, agora que ele não voltou, os mortos não voltam, agora que eu fiquei, não sei bem se fiquei, se fui com ele, não sinto frio, nem fome, nem sede, nem sono, parece que os mortos não sentem. Só gostava de saber o que querias dizer com” estou farto disto”, ou talvez não queira, parece que os mortos não querem, talvez eu não esteja morta, estou como tu, farta disto.

Licínia Quitério

3.11.14

O POETA



De vez em quando, gosto de tomar café numa mesa junto ao Poeta, aquele que em bronze e de perna traçada permanece impávido perante a turba que lhe vem polindo a aba do chapéu, o joelho, o ombro, o sapato. Diz que não é nada, nunca será nada, e não entende o entusiasmo pelo boneco que uns dias é Fernando, outros Álvaro, outros Alberto, outros Ricardo, e até Bernardo, e outros, e outros, que do fundo da arca só ele sabe. Gosta de ouvir a rapariga que canta na rua e depois pede uma moeda no chapéu revirado. Adivinho-lhe um trejeito de comiseração, pobre pequena, cansou-se de comer chocolates. Um par muito jovem dança, ali em frente dele, em frente de toda a gente, corpo contra corpo, ao ritmo da música da viola do rapaz que toca para a rapariga que canta e que depois estende o chapéu e que sorri, sorri sempre. Dançam, apaixonadamente, sem darem por ninguém e sem que ninguém dê pela felicidade que vão desenhando no mover das ancas, na clara luz dos rostos. Só o Poeta pensa, quem lhe dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor. 
Por instantes, lembro o seu amigo Mário que nos cafés esperava a vida. Não fico à espera, vou ali mais abaixo, entregar saudades do Poeta ao rio que corre na minha aldeia.

Licínia Quitério

29.10.14

O PINHEIRO


A Casa Grande e as Pequenas Casas. As grandes histórias e as pequenas histórias. Aquele pinheiro grande foi uma pequena árvore de Natal que alguém resolveu plantar depois da festa acabada. Isto foi há muitos anos, tantos que muitas pessoas das casas pequenas já partiram e chegará o dia em que ninguém saberá da história do pinheiro que é hoje a maior árvore da rua. 

Licínia Quitério

28.10.14

MORTES ANUNCIADAS



Eles matam-nas e matam também os filhos.
Elas calaram-se, esperaram que eles mudassem, não fugiram porque têm os filhos e não sabiam para onde ir.
Elas fugiram e pediram abrigo e continuaram com medo deles.
Elas voltaram um dia para eles que prometeram não tornar a bater-lhes, mas bateram, cada vez com mais força.
Elas não suportaram, pediram o divórcio, eles sairam de casa, elas julgaram-se a salvo, mas eles apanharam-nas na rua e mataram-nas e também mataram os filhos que tentaram protegê-las.
Elas têm vergonha que a família saiba, que os vizinhos saibam, elas gostam deles, elas sentem-se culpadas porque falaram com outro homem, elas sentem-se culpadas porque pensaram em fugir.
Eles têm ciúmes, eles não aceitam perder o processo de divórcio, eles vivem com outras mulheres, mas querem matar aquela.
Os políticos sabem, os vizinhos sabem, as famílias sabem, na polícia sabem, no hospital sabem.
Todos esperam a tragédia, todos sabem que um dia eles as matarão. Todos esperam as mortes anunciadas.

Licínia Quitério

26.10.14

O RELÓGIO


É uma hora de mais, é uma hora de menos, é o sol que dura muito, é o sol que dura pouco, é o dia que nos sobra, é o dia que nos falta, à roda à roda é que vamos, acima do que não queremos, abaixo do que sonhamos, muitas horas, tantas horas, na roda à roda da vida, no corre corre dos dias, no relógio que parou, no relógio que quebrou, no tempo que nos faltou, no tempo que nos sobrou, no amor que se perdeu, no amor que se encontrou, da criança que cresceu, do homem que envelheceu, na roda a rodar a vida, no minuto da chegada, no minuto da partida.

Licínia Quitério

25.10.14

REVELAÇÕES




Projectando capa para O Livro dos Cansaços, vencendo dificuldades de quem muito pouco ainda sabe de laboratórios fotográficos digitais. 
Vai longe o tempo da câmara escura no que deveria ser a despensa, do pano preto no vidro da bandeira da porta, da lâmpada vermelha, do amplificador que rangia na subida da haste, da novidade que foi o pequeno tanque de revelação, das foto-montagens de corte e recorte, do papel tão caro ao abrigo de humidades, das provas de contacto, do estendal das películas com corda e molas de roupa, da alegria de obtermos um alto contraste quase quase artístico. Por amor à arte, como tudo o que se fazia naquela casa, pelo prazer genuíno de conseguir fazer, de perceber o como e o porquê das coisas, tantas vezes com recurso a livros, a manuais, que ajudavam aos saberes, às descobertas, às invenções. Aprendia-se que na vida tudo está feito e tudo está ainda por fazer. A casa era um universo, onde as maiores e mais saborosas viagens aconteciam. 
Isto a propósito da capa que já está pensada, feita, e que talvez se mude que eu continuo a ser muito de mudança, até ao limite que fica sempre distante, tão distante, da perfeição. E ainda bem que assim é.

Licínia Quitério

21.10.14

SÃO ROSAS



São rosas, senhor, meu bem
Rosas verde, rosas carne
Flores de pão, flores de chão
Serão rosas se eu quiser
Serão pão, serão poema
Que diga o que eu não souber
Da vida que me couber
São amor, senhor, meu bem

Licínia Quitério

18.10.14

CONHEÇO-A

     

       Conheço-a desde sempre, desde que eu era criança e ela uma jovem mulher, de gargalhadas frequentes e sonoras, loira, pobre, muito pobre, no tempo de muitos pobres, de vários e pesados trabalhos, de alguns filhos, minha vizinha, que o beco dela abria na minha rua. Décadas me levaram para outra terra e ela para outro beco a dar para outra rua.
Voltei e encontrei-a, ficámos ambas contentes, rimos ambas, ela com a sua sonora gargalhada, a tratar-me por menina, eu já não loirita, ela ainda, na sua matriz celta, persistente. Gostei de a ver, já sem a moda da penúria que dantes lhe coubera. Estava bem, os filhos criados, na sua casinha modesta, com o conforto que nunca tivera. Passei a vê-la quase diariamente, na sua bica e bolinho, ambas no mesmo café, como está a menina, como está a senhora C. Vamos envelhecendo as duas, ela mais adiantada do que eu, sabe-se lá quem chegará primeiro.
Ultimamente não a encontro de boa saúde. A senhora C tornou-se uma velha em banco de jardim, perdido o garbo que nem a pobreza lhe tirou, os cabelos loiros desalinhados, o olhar perdido sabe-se lá em que becos. Respondeu-me ontem apenas com um aceno, sem menina, sem a gargalhada que sempre lhe nascia na garganta.

Licínia Quitério 

8.10.14

LEITURA




Nunca fui o que se chama leitora compulsiva. Sei ler desde os quatro anos e comecei a ser leitora por volta dos oito. Livros passaram a ser as minhas prendas de anos que eu devorava, e relia, relia, até as historias ficarem dentro de mim para sempre. Não eram muitos os livros, que o orçamento caseiro era bem fraco. Na primeira adolescência, coincidente com primeiros anos do liceu, li tudo o que me aprecia à mão, desde o Cavaleiro Andante, aos livrinhos de cowboys que os meus amigos rapazes me emprestavam.
Quando comecei a ter autorização para ir à biblioteca municipal, à noite, pude devorar desde a Condessa de Ségur, aos Três Mosqueteiros, depois à Pearl Buck e, a todos os que na época eram considerados leitura para meninas e que não eram nem de longe os meus favoritos. Por obrigação escolar, com prazer, conheci os clássicos, Júlio Dinis, Alexandre Herculano (todo), Eça (todo), Camilo (pouco). Descobri então Victor Hugo e, em tempo roubado a estudos obrigatórios, apaixonei-me por Paris, pela Esmeralda, pelo Jean Valjean.
Da Biblioteca Municipal, passei para a carrinha da Gulbenkian que me deu tudo, os neorrealistas, e Pratolini e Sartre, e Camus e Malaparte, e sempre um livro de poesia. E havia uma prateleira fechada com livros que o funcionário me dava, disfarçadamente, e dizia baixinho "vai gostar".
Curado Ribeiro tinha um programa de rádio, "Leituras" que passou a ser o meu guia espiritual na busca do que julgava o melhor. Cedo passei a trabalhadora estudante, e as livrarias de Lisboa passaram a ser lugar de culto, para ler e comprar, um ou dois livritos por mês, que para mais não dava o meu ganho em explicações.
Não sei bem quando comecei a ler menos, a deixar a meio livros que não me satisfaziam. Começou o meu poder de crítica, de discernir o bom, o menos bom, o execrável. Findou o tempo do endeusamento da leitura pela leitura. A Poesia, essa, foi a minha grande descoberta e tudo procurava, e me extasiava, e me irritava porque não compreendia, e só alguma filosofia dos compêndios me ajudava naquela linguagem que de humanos não seria, pelo menos de outro tipo de humanos que não faziam parte dos meus amigos, dos meus conhecidos.
Veio o tempo da angústia de tudo querer ler e não poder, de quão pouca era a minha vida para a torrente de saberes que os homens produziam, incessantemente, ao longo dos milénios, muito antes da escrita em livros, muito antes de toda a escrita.
Houve até um tempo de pouco ler, de muito fazer, de beber a vida em longos tragos, de saber do mel e do fel, de incitar os outros à leitura, de dar livros, num proselitismo de uma nova época, mais de canto que de leitura.
Hoje, que dei em escrever, leio, sim, leio, regularmente, sem pressas, sem a angústia do livro por ler, tantas vezes em diagonal, em complacência pelo que julgo menos bom. Há muitos autores que devia ter lido e ainda não li. Não li Proust, de Joyce não li o Ulisses. Imperdoável, devia ter vergonha de o dizer, mas não tenho. Sei que uma "madalena" me dará o tempo que perdi, que Lisboa me segreda a viagem nunca feita.

Tenho diante de mim um livro de poesia de Luís Quintais que ontem comprei, O Vidro. Vou demorar umas horas a lê-lo. Há sempre uma novidade que me espera de que saberei gostar, ou não. Sem remorsos, que a liberdade não tem culpas.

LICÍNIA QUITÉRIO

4.10.14

GATOS


A minha relação estreita com os gatos vem desde há muito, já que quando nasci havia um gato lá em casa e eu fui crescendo a brincar com ele.  Houve gatos nas minhas várias casas, assim como houve plantas vivas, em pequenos espaços abertos. Gatos que sempre viveram em liberdade, ausentando-se de casa por tempo indeterminado, cumprindo os seus rituais de namoro e acasalamento, correndo os riscos que a vida livre implica. Trato-os quando adoecem, mimo-os sem exageros, fico triste quando morrem. Não lhes ponho coleiras nem chips. São gatos-gatos, sem pedigree, sem raça que nome tenha. Nunca comprei nem vendi um gato. Dão-mos ou são eles que vêm ter comigo, pela janela, pela porta, escolhendo-me, percebendo, no seu instinto apurado, que comigo não lhes faltará comida e bom trato. À medida que envelheço, vou ficando mais tolerante com eles, permitindo-lhes estragos em sofás, em vasos, acalmando a fúria pela sua teimosia, a sua gulodice, cedendo mais facilmente ao fascínio dos seus olhos onde ainda dorme a fera que um dia foram. 
Faz hoje um ano que chegou a minha casa o Tigre, recuperado do abandono a que o votaram, com uns dois meses de vida. Se não fosse ele, não teria escrito este texto. Vários gatos têm habitado outros textos meus. São inspiradores, provocadores, indomáveis, independentes. 
Nunca fui dona de humanos e também não sou dona de gatos. Uns e outros chegam e partem e, cada um à sua maneira, deixam uma história, uma lembrança, uma indelével marca de Vida.

Licínia Quitério

28.9.14

Lisboas


A Lisboa alindada, a dos turistas aos magotes, a da luz incomparável, a de novas culturas, a lindíssima cidade, e a outra, a dos sábados à tarde, de gente pobremente vestida, de gente idosa, sozinha, desfrutando bancos de jardim, esplanadas antigas, de mesas gastas, de pouco ou nenhum consumo, do metro de todos os países, de gente de muitas falas, de jovens mascando pastilha e falando ao telemóvel, de velhos, antecipadamente velhos, de poucos dentes, de grandes olheiras. Lisboa das avenidas das "marcas", das avenidas "novas" e gastas pelo uso, pelo desleixo, com resquícios de uma beleza antiga. Lisboa dos loucos, dos quase loucos, duma loucura cansada e pacífica, que dos brandos costumes ressalta hoje uma loucura branda, de fado e despedida, de morna e mar, de um novo tempo que envelhece, numa espera de maré alta, de gaivotas em terra, que assuste e acorde e vista de sorriso o que agora se gasta, se arrasta, se cala e se conforma e entristece.

Licínia Quitério

24.9.14

GOSTO


Gosto de quem sabe fazer. Gosto da pedra e do pedreiro. Gosto do ferro e do ferreiro. Gosto do ouro e do ourives. Gosto do vidro e do vidreiro. Gosto da tinta e do pintor. Gosto do construtor. Gosto do pão e do padeiro. Gosto da semente e do semeador. Gosto de mãos que amassam, enformam, transformam. Gosto de quem eleva, desloca, arrasta, conduz. Gosto da roda e do carpinteiro. Gosto do fio e da tecedeira. Gosto da argila e do oleiro. Gosto de quem molda, ata, desata, encaixa, arranca, prega, conserta, restaura. Gosto de Arquimedes e da alavanca. Gosto de quem gosta de quem faz.

Licínia Quitério

9.9.14

UM POUCO MAIS ACIMA


Um pouco mais acima e tudo muda, tudo se reduz, se dilui. Linhas que são estradas, verde-escuro a que chamamos bosques, cinzentos  a que chamamos campos. Lá pelo meio,  a geometria ovalada de uma vila, aldeia ou outro nome que damos às casas com gente dentro que se encostam, em defesa, em fuga, em solidão. Tudo fixo, imóvel, num sossego de mapa. Se há animais, ou homens, ou vento nas folhas, só a quietude e o silêncio se avistam. Se há paz ou guerra, ou mortes, ou sinos de festa, tudo estático, numa única dimensão, lá em baixo, no ínfimo pedaço de crosta do planeta. Mais alto agora e só o azul e o algodão e nem rasto de anjo nem de estrela. Tudo o resto lá em baixo, longe, muito longe e nós um átomo viajante, inconformado, julgando divisar a eternidade.

Licínia Quitério

8.9.14

A VIAGEM DA CAIXINHA


Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. Aconchegava a redondeza da caixa na palma da mão. Com a outra abria-a e fechava-a, uma vez, outra vez. Mirava-se no espelhinho que era o interior da tampa. Cheirava delicadamente o pó cor de rosa desmaiada que se escondia sob a rede, sob a almofadinha macia, macia, como outra não sabia. Fechada a caixa, o estalido metálico do fecho, perdia-se a olhar a estampa do que, já aprendera nos livros, ser o Sacré Coeur, as suas torres, os cavalinhos com cavaleiros, as colunas, os degraus. Trouxera-lha o tio que viajava, no seu trabalho duro de conduzir pessoas que viajavam em descanso mole. Era tão doce o tio de trabalho duro, um gigante com lágrimas quando revia os sobrinhos. Ela não parava de mirar, de abrir, de fechar, a caixinha com o Sacré Coeur na tampa. Esqueceu-se de passar a esponja pelo pó e de a passar no rosto, como faziam as meninas do seu tempo, chegada a idade de se prepararem para escolher e serem escolhidas para o tal casamento de que falavam as mães, as avós, as tias, as amigas das mães, das avós, das tias. Apaixonada esteve a menina pela caixa, não bem pela caixa, pela ideia de viagem que a caixa lhe trazia. Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. E o pó continuava intacto debaixo da rede, debaixo da esponja. Paixão é paixão e a menina não parou até ao dia em que anunciou: Vou lá. Parto amanhã. Foi e subiu os degraus, olhou os cavalos, os cavaleiros, as torres. A caixinha ficou, a menina veio e voltou e voltou e viu muito mais do que as torres e os degraus. Viu cidades e mares e florestas e gente, muita gente. A caixinha morou por longos anos numa vitrine, junto das coisas pequenas com histórias grandes, se as quisermos contar. A menina cresceu, amou, envelheceu e mais uma vez voltou à cidade da tampa da caixinha, com o pó intacto, com um cheiro a coisas antigas que um dia foram belas. Foi desta vez que, num relance, olhou a vitrine e disse: Hás-de lá ir. Hás-de lá ir. Foi. A caixa fez a sua viagem de regresso. A menina, cada vez mais velha, sentiu que conseguira terminar mais um capítulo da sua  própria viagem.

Licínia Quitério   


6.9.14

IMIGRAÇÃO


O museu da imigração, em Paris. Um lugar a visitar. Ali está uma França digna a afirmar, logo à entrada, "nem todos somos filhos de gauleses". Lá dentro, muitíssimo bem concebida, a exposição da história da imigração que em França procurou vida e alimento e onde deu o suor, a dor, a força incrível de ganhar outras raízes nunca perdendo de vista as primeiras, as dos seus países que, em dados momentos da História, não lhes permitiram a dignidade, a liberdade, a sobrevivência. Entre outros, em lugar destacado, ali estamos nós, os portugueses, os que, entre o "ici" e o "lá-bas", construiram, limparam, serviram, reabilitaram, renovaram a grande cidade. Fotos, objectos, vídeos, testemunhos gravados, nomes de homens e mulheres--coragem que Salazar rejeitou e que outro país recebeu, com todas as grandezas e maldades que sempre sucedem a quem pede asilo e trabalho. Outras vagas estão a acontecer, de cá e de outros mundos, e o museu está atento, registando as trouxas, os pobres sacos dos que chegam, muitos de além-mar, sem nada a não ser a esperança de um lugar onde possam viver e criar os seus filhos. É este museu um lugar que se visita com um aperto no coração, donde se sai devagar, com poucas falas, que nunca se poderá dizer absolutamente a miséria que somos, a grandeza que somos.

Licínia Quitério

18.8.14

QUE SABES?


Que sabes que não nos contas?

Quantos amores te viveram?
Quantas dores te confessaram?
Quem escondes nessa cortina?
Quem a porta entreabriu
e nunca mais a fechou?
Tens o número primeiro
daquela rua enrugada
como a pele da tua face
outrora lisa e corada.
Quem te mora vai sobrando
o lampião esmorecendo
a ruína se oferecendo
ao passante que pressente
a dor dos ossos da casa
a dor dos ossos da gente.

Licínia Quitério

15.8.14

ESCREVER




Uma pessoa faz a vida com tudo o que lhe cabe fazer, tem gostos, desgostos, desejos, frustrações, amores, desamores. No fundo de uma certa gaveta, vão adormecendo escritos, versos, desabafos, ficções, uma amálgama de letras, de palavras, em desordem, em revolta. Depois de tudo, surge na sua frente um tempo breve que precisa de preencher, de justificar, de enfeitar com o melhor que lhe ficou. É um tempo de desassossego, de atrevimento, de interrogação, de desacerto, uma vez mais. Pode então acontecer que encontremos quem nos faça um pequeno aceno e nos ponha ao de leve a mão no ombro, a dizer: Vai, continua, és poeta. Acreditamos na sinceridade, mas não na nossa capacidade. A verdade é que tudo começou nesse instante. A gaveta foi remexida, a escrita cresceu, fez-se hábito e vício. Os livros foram aparecendo, outros talentosos amigos elogiando, dando força. Cada vez são mais e a minha gratidão é infinita. Não desejo nada além de bons leitores, por poucos que sejam, e tenho-os, fiéis e generosos. Se ainda houver tempo, outro ou outros livros aparecerão. Se não, sou já uma mulher feliz que pegou na memória dos sentidos e, de pé sobre o silêncio, alongou o seu tempo breve, nomeou os seus sítios e assim vai preenchendo o espaço ainda livre do seu disco rígido.


Licínia Quitério


ESCADA DO TEMPO



Escada do tempo. Esteve sempre ali e estará. Foi o que pensei. Não a subi, não a desci. Pareceu-me ver um druída, com a sua foice de oiro, que a chuva miúda fazia crescer o gui. Regressei. Os seres da floresta precisavam de silêncio.

Licínia Quitério

AH A FAMÍLIA!


Era um tipo comum, mais do que seria desejável numa sociedade que preze a seriedade, o bom senso. Era bom profissional do seu ofício, dedicadíssimo aos patrões, melhor, fidelíssimo, acérrimo defensor se alguém a eles se referisse com irreverência ou mágoa. Dizia para quem o queria ouvir que gostava mais da empresa do que da sua família. Talvez levado por um copito a mais, num dia em que um patrão desqualificou o seu trabalho, perdeu as estribeiras, zangou-se a sério, avermelhou como pescoço de peru, disse ao patrão o que pensava dele e retirou-se, perante a estupefacção do dono de tão fiel criatura que agora lhe mordia a mão. Foi raiva de tal monta, que se despediu na mesma hora e não mais voltou a pisar a empresa, outrora objecto da sua mais pura afeição. Foi por esse mundo fora, nos caminhos de aventura de português sem trabalho, até que encontrou poiso onde exercer a sua profissão. Mandou ir a família, agora subida na escala dos seus afectos, e por lá ficou. Tem saudades da Pátria, de Fátima, e dos velhos tempos em que os comunas, mais tarde ou mais cedo, iam morar atrás das grades. Mau grado estes desgostos, sempre que pode pega na família e vem visitar o seu torrão natal que, diz, é o mais lindo do mundo. Podemos vê-lo nas fotos das festividades do Verão, sempre que possível na cadeira da frente, na fila da frente, ao lado dos ilustres, deitado em abraços sobre os mais robustos, pegando criancinhas ao colo, trincando o courato que é o melhor do mundo, comprando no sul blusas do norte, as mais lindas do mundo, que a família veste, porque ele assim o quer. Se o filho mais velho voltar à Pátria, à terra, esperto, trabalhador e crente e praticante como é, quem sabe não virá a ser, para começar, Presidente da Junta? De política não quer saber e tem raiva de quem sabe, mas se for preciso, por um filho tudo se faz. Ah a Família, a Família! 

 Licínia Quitério

IMPRENSA REGIONAL



Houve o Jornal do Fundão, houve o Notícias da Amadora, houve o Diário do Alentejo, houve o Comércio do Funchal e outros jornais regionais à frente dos quais estava gente culta, e cujos corpos redactoriais eram formados por pessoas que liam e escreviam bem. A censura massacrava-os, perseguia-os, suspendia-os, prendia directores e jornalistas. Eles lá continuavam, sem nunca abdicarem da qualidade da notícia, da divulgação cultural, sem cederem ao popularucho e ao beato que era apanágio de outros jornais, abençoados e benquistos pela Igreja e pelo Estado Novo. 

Foram esses jornais veículo de informação honesta e desassombrada, de artigos excelentes, de bons autores, do melhor que a sociedade civil produzia e divulgava.
Esperar-se-ia que, depois da chegada da Liberdade, essa imprensa regional vingasse, crescesse, alargasse horizontes. Sonhos de Abril que não passaram de sonhos. Como em tantos outros ramos do jornalismo e da cultura em geral, regressaram os pasquins, entregues, salvo raras excepções, a gente que mal sabe escrever e que não faz a mínima ideia do que é jornalismo ou então a uma direita beata e reaccionária, catequisante e castradora. 
Não serei a pessoa indicada para bem abordar este tema, felizmente sujeito a controvérsia, mas não quis deixar de a ele me referir, até porque conto, na minha história bem longa, a amizade com um censor, redactor do ex-Secretariado da Propaganda (SNI). A ele cabia censurar exactamente a imprensa regional, seguindo as regras estúpidas dos seus superiores. Ora quantas vezes assisti a essa tarefa e quantas vezes consegui convencê-lo a não cortar isto ou aquilo. O Jornal do Fundão, do saudoso Paulouro, era então uma vítima de eleição. Com o atrevimento que a mútua amizade consentia, dava-me ao luxo de dizer: Ó Homem, deixe lá passar isso, não acha que é mesmo uma estupidez? E ele, embora medroso de represália, lá deixava passar, dando algum descanso ao lápis azul. 
Entendem, por certo, o meu desgosto quando, ao visitar uma terra, procuro o jornal regional e dou quase sempre com a maior miséria e iliteracia, que é um eufemismo para analfabetismo, penso eu.

Licínia Quitério

5.8.14

A NOVELA QUE NÃO SOU CAPAZ DE ESCREVER


Se eu soubesse escrever uma novela, situaria a acção em Portugal, nos anos setenta, no ante e após revolução de Abril. A acção decorreria inteiramente numa casa de Lisboa, em rua antiga, uma casa daquelas com muitas divisões, um quarto chamado independente porque tinha porta directamente para o patamar da escada, uma cozinha ampla com chão de mosaicos com desenhos a simular velas de moinhos, brancos e vermelho escuro. Havia de ter uma marquise com acesso a uma chamada escada de serviço, em ferro, de degraus sem espelho, impossível para quem sofresse de vertigens. Não haveria de me esquecer de citar a gaiola do canário com os seus trinados ao nascer do sol, a fazer nascer instintos assassinos nos hóspedes. Sim, porque a história devia passar-se numa casa de viúva sem filhos, sem outros rendimentos além dos que conseguia com o aluguer de todos os quartos da casa, nem que para isso tivesse de dormir num divã, na marquise, por baixo da gaiola do canário. Personagens  havia de os inventar, e não seria muito difícil, que relatos de vidas como as que passavam pela casa da viúva foi coisa que não faltou nesses anos de gente que acorria à capital, vinda de todo o país, para um emprego, para os estudos que na terra não havia,  bem como para os solitários, de fracos trabalhos, que a casa só sua não podiam aspirar. Traçar-lhes o retrato físico e mental havia de ser um bocado complicado, que inventar pessoas é uma coisa, fazê-las agir com a incoerência necessária para que pareçam reais é outra e por isso há os escreventes que escrevem e os escritores que criam, escrevendo. 

(continuará?)

Licínia Quitério 

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