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18.10.14

CONHEÇO-A

     

       Conheço-a desde sempre, desde que eu era criança e ela uma jovem mulher, de gargalhadas frequentes e sonoras, loira, pobre, muito pobre, no tempo de muitos pobres, de vários e pesados trabalhos, de alguns filhos, minha vizinha, que o beco dela abria na minha rua. Décadas me levaram para outra terra e ela para outro beco a dar para outra rua.
Voltei e encontrei-a, ficámos ambas contentes, rimos ambas, ela com a sua sonora gargalhada, a tratar-me por menina, eu já não loirita, ela ainda, na sua matriz celta, persistente. Gostei de a ver, já sem a moda da penúria que dantes lhe coubera. Estava bem, os filhos criados, na sua casinha modesta, com o conforto que nunca tivera. Passei a vê-la quase diariamente, na sua bica e bolinho, ambas no mesmo café, como está a menina, como está a senhora C. Vamos envelhecendo as duas, ela mais adiantada do que eu, sabe-se lá quem chegará primeiro.
Ultimamente não a encontro de boa saúde. A senhora C tornou-se uma velha em banco de jardim, perdido o garbo que nem a pobreza lhe tirou, os cabelos loiros desalinhados, o olhar perdido sabe-se lá em que becos. Respondeu-me ontem apenas com um aceno, sem menina, sem a gargalhada que sempre lhe nascia na garganta.

Licínia Quitério 

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