25.3.11

LUA



Foi então que a Lua me chamou e eu fui, rua acima, ao seu encontro. Poisou sobre o eucalipto e dele fez anémona e medusa. Paisagens irreais, subaquáticas, geometrias impossíveis, longe além do longe. Acordei com um brilho estranho no rosto, como as crianças que riem à Lua nos seus berços de noite.

Licínia Quitério

24.3.11

LISBOA



Lisboa ao entardecer. Muitos séculos a contemplam. Tem uma longa história para contar. Tem a luz única que lhe brota das pedras, da água do rio. Tem um amanhã ainda por saber. Chamo-lhe minha e nada lhe peço. Como quem ama.

Licínia Quitério

23.3.11

O MEU JARDIM DE VASOS


 
 O meu jardim de vasos tem sofrido com a persistências das chuvas, com o granizo perfurante, com a queima das geadas, com o desatino dos ventos. Tem sofrido, digo eu, que nada sei de humores vegetais. Sei que ele aí está, a oferecer a gala das cores cantantes, a simetria estonteante das formas, o veludo e o espinho, a humildade e o atrevimento. Meu tão simples jardim.


Licínia Quitério

16.3.11

FRÁGIL

No Bahrein, os homens matam-se. Dizem-se chiitas ou sunitas e matam-se. Nos intervalos das matanças, neste e em muitos outros Bahrein, rezam.


O Japão que se quebra, se alaga, explode. Antes do desastre, já usavam máscaras, já dormiam em gavetas de armários.

Aqui ameaçam mudar o mau pelo mau. Todos desesperam, mas poucos sabem o que os espera.

Tudo tão frágil, tão precário.

Bom dia, Terra! Bom dia, Sol!

Licínia Quitério

14.3.11

VOO



Os poemas aí vão, em voo planado, no seu destino de pássaros, ganhando alturas, ventos de feição, algumas lágrimas de nuvem, remoinhos, acalmias, novos ímpetos, arrojos, ternuras envergonhadas, sinais de lume, olhos de lince, lonjuras, lonjuras, música, música, mundos, aquém e além dos astros, tudo, nada. Eu fico.

Licínia Quitério

11.3.11

MAL ME QUER



"mal me quer, bem me quer, muito, pouco, mesmo nada. faz a conta, tira a prova, volta atrás. mal me quer enganador, diz que sim, diz que volta o meu amor." - Podia ser esta a cantilena. Há sempre uma cantiga a nascer quando olhamos uma flor e lhe confiamos os desejos.

Licínia Quitério

10.3.11

MAR!



Este deslumbramento nunca extinto de ter o mar ali ao pé de mim, numa promessa de rendas, num murmúrio de recados, numa oferta de estrelas miudinhas. Um invólucro, uma pertença, uma pátria que só eu sei. Temos sido tão felizes, Mar!

Licínia Quitério 

8.3.11

MULHER



Por todas (tantas) as que ainda têm o caminho vedado, a palavra calada, o corpo magoado, a dignidade afrontada, a consciência ensombrada.
Por todas (e tantas) as que lutaram, e sofreram, e não se calaram, e resistiram e não desistiram e têm a dignidade intacta e a consciência livre de sombras.
Por todas (e tantas) as que amam os homens grandes e limpos que com elas fazem os filhos e o caminho justo.

Licínia Quitério

6.3.11

SEIS ÓRGÃOS



Pela frialdade do mármore, ecoaram os sons da orquestra de seis órgãos, em cumplicidades, em desafios, em estrondos de trombetas, em pianíssimos teclados, em lonjuras e tonturas, em ingenuidades e solenidades. Assim os ouvi, hoje, quando o sol da tarde, já a caminho do mar, pintava tiras de luz nas nervuras das pedras.

Licínia Quitério

5.3.11

GATO PRETO, MURO BRANCO



Mira-nos do alto do muro e os olhos em fresta dizem uma antiga desconfiança sobre a bondade dos humanos. Convive bem com os pombos e as gaivotas, companheiros de beirais e chaminés, respeitando-se mutuamente na escolha de domínios. Os bichos de asas voadoras causam-lhe uma certa inveja. Porque vão mais alto onde ele não se atreve e porque não têm dono que os tente dominar a troco de comida. Já tem uns anitos o gato preto no alto do muro branco. Vive agora confortado nos seus desassossegos desde que ouviu falar de um gato que terá ensinado uma gaivota a voar. Sente-se orgulhoso por assim se dizer do outro da sua espécie e é por isso que, nos olhitos em fresta, se acendem luzinhas verdes, à medida dos seus sonhos de gato.

Licínia Quitério

2.3.11

PROJECTO



Debicar cortinas do passado.
Folhear histórias por viver.
Brincar às escondidas com o dia.
Jogar ao faz-de-conta com a noite.
Olhar o homem sentado no degrau
e dizer vela amarrada no cais.
Trepar à amoreira e anunciar a seda.
Esquecer a beira-morte e dizer beira-mar.
Beber ainda o sol no teu olhar.

Licínia Quitério

1.3.11

TÃO POUCO!

Ei-los que partem! Esta praia os expulsa.
Vão procurar nas brumas o sol aqui negado.
Ficamos nós e o mar, de sal acrescentado.
Tão pouco!

Licínia Quitério

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