28.7.14

NEUTRO



Neutro é o cinzento que sujou o branco e despreza o preto.
Neutra é a Suíça que lava mais branco o que já nasceu sujo.
Neutro é o que tem opinião, mas a esconde.
Neutro é o que deseja entrar no campo do vencedor.
Neutro é o que espera lucrar com os dois lados da guerra.
Neutra é a morte que não escolhe, por profissão.


Licínia Quitério

A VIDA PASSA


A vida passa, a gente vai andando, vai sendo outra, ganhando, perdendo, deixando para trás tempos, lugares, histórias, pessoas que vamos esquecendo, enquanto outras entram no nosso patamar, na nossa mesa, nas nossas preocupações, para outras chegarem e se sentarem connosco nos mesmos livros, nas mesmas salas, com as mesmas vozes. A vida passa e de repente aparece-nos um rosto que não reconhecemos, que nos chama pelo nome, que nos trata por tu como se fosse ontem que tivéssemos deixado a carteira da escola em que fomos meninas, ela morenita, eu branquinha, como ela diz, ela que se lembra de tanta coisa que eu esqueci na voragem dos anos. Pouco a pouco, revejo-a, vou dizendo nomes que julgava perdidos, vamos, a duas vozes, refazendo o quadro que vivemos, há tantos anos, há tantos sonhos. Certificados de vida estes encontros, nascidos numa idade em que nada sabíamos das mulheres que haveríamos de ser, ainda assim de pé, num abraço, sem porquê a não ser o desejo dela de vir ao encontro do meu nome que nunca esqueceu.


Licínia Quitério

19.7.14

DANÇAS


Na penumbra da sala, veio-lhe à memória o primeiro nome dele. E logo os apelidos, três. O rosto magro, os olhos a trespassarem-lhe o corpo, os dedos esguios num toque suave na cintura, a fazerem-na estremecer, a voz ao ouvido, enquanto dançavam, numa saborosa clandestinidade. Foi há tanto tempo. Passaram décadas, cada um seguiu a sua vida, raras vezes tornaram a ver-se, um telefonema por uma morte, outro por outra morte. Foram somando mortes e filhos e netos. Da última vez que se viram, numa festa do liceu, ele tinha engordado, deixara de fumar porque as artérias tinham entupido e ameaçado o indesejável. Os olhos ainda lhe trespassaram o corpo, os dedos tocaram-lhe a cintura ao de leve, amável, a indicar-lhe o caminho, mas ela já não estremeceu. 
Foi no dia em que voltou a casa e a encontrou invulgarmente fria que recordou o nome dele. Foi às agendas antigas, amarelecidas, guardadas na gaveta dos papéis inúteis, e procurou, procurou. O nome lá estava, o apelido em primeiro lugar, que ela sempre fora metódica nos seus apontamentos, um pouco esborratada a tinta pelas humidades do tempo, da casa, dos corpos. Um número  de telefone à frente, esse bem legível, de poucos algarismos, que já teria sido mudado, acrescentado, decerto. Pediu ao neto que tentasse na internet saber o número actualizado. Ele ainda refilou, a afirmar a rebeldia, mas na mesma tarde telefonou-lhe. Tinham sido adicionados três algarismos, no princípio. O nome do assinante era o mesmo, sim senhora. 
Hesitou bastante em ligar, achou-se velha tonta, julgou a ideia uma indignidade para com a memória do seu homem  que partira há muito, pensou no que diria se fosse a mulher dele que atendesse, sentiu-se corada e menina, em clandestinidades de outrora.
Foi breve o diálogo, entrecortado por breves silêncios, de uma e de outra parte:
- Desculpe, é de casa do senhor J G M T?
Uma voz jovem de mulher perguntou:
- É, sim. Quem fala?
- Uma velha amiga. Ele está?
- Não, o avô não está. 
- Ah! Gostava de lhe falar. Fomos amigos há muitos anos.
- Pois. O avô está agora num Lar. Se quiser, digo-lhe onde é. Tem visitas da parte da tarde.
Disse Ah! e desligou. 

Com certeza os olhos dele já não lhe trespassariam o corpo, agora tão desajeitado, nem os dedos lhe guiariam a cintura que engrossara.  Nunca as danças se repetem. Só as dores.

Licínia Quitério

16.7.14

A OUTRA COISA


O que eu penso, o que eu sinto, o que eu sei ou não sei, o que eu digo ou não digo, não se encerra naquele corpo que me coube na lotaria dos genes. A outra coisa, a inviolável, a única, a que não tem dimensão, a que voa sem asas, a que chora sem lágrimas, a que vai e sempre fica, a que é e não é, a que ainda está mas já não está, essa coisa que, dizem, fala e ri com aquele corpo, que resiste, que luta, que envelhece, essa coisa, fantasma de mim, é o que procuro naquela foto, e na outra e na outra que teimo em olhar, em olhar, até ao esquecimento.

Licínia Quitério

10.7.14

A PERGUNTA


A cozinha tinha uma porta que dava para o quintal e na porta havia um postigo, um quadro de quatro vidros. Naquele tempo havia muitas moscas que poisavam e caminhavam nos vidros, vagarosas. De tarde, ela observava as moscas que não faltavam ao seu passeio ao sol, nos vidros virados ao sul. Chegava-se mais à porta até elas debandarem. Deixavam marcas redondinhas, pequeninas, nos vidros, que limpava com os dedos, quando a mãe não estava a olhar. Lembra-se de encostar a cabeça ao vidro quente e ficar assim, apoiada, olhando o quintal e não o vendo. Nesse tempo, não sabe precisar quando, nesse exacto lugar e circunstância, entrou, sem se aperceber, no mundo misterioso e inquietante dos que  colocam questões que nunca chegarão a ter solução. Encostada assim ao vidro, muito quieta, formulava, interiormente, as perguntas fatais: Porque é que Eu sou Eu? Porque é que não sou outra pessoa? Porque é que tenho este corpo e não aquele? E desfiava, num mantra silencioso, uma afirmativa-dubitativa: Eu sou Eu, Eu sou Eu, Eu sou Eu… Caía numa espécie de torpor, perdida de si, até que, ao chamamento da mãe, um estremecimento lhe percorria o corpo, a anunciar o regresso de uma viagem por outra dimensão, talvez por um outro Eu, num outro corpo. As miúdas da sua idade gostavam de tagarelar sobre a pergunta quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Ela ria-se, encolhia os ombros e, depois de incitada a responder, atirava um sei lá, a mostrar indiferença pelo assunto que lhe parecia pouco interessante. Só uma vez se atreveu a dizer que o que lhe interessava mesmo era ter resposta à pergunta porque é que Eu sou Eu. As outras olharam-na com surpresa que logo se transformou em troça, de riso forçado. Não regulas bem, é o que é, e com o indicador davam pequenos toques no meio da testa.

Ainda hoje repete a pergunta, na certeza de que não obterá resposta. Conformou-se a habitar aquele corpo, a ter aquele nome, aquela vida com um Eu por dentro. O Eu que lhe coube, há já muitos anos, que bem podia ter cabido noutro corpo, noutro tempo, ou que nunca tivesse sido senão uma pergunta a pairar, um passageiro a vogar eternamente, sem origem nem destino. 

Licínia Quitério

7.7.14

PORTUGAL


Portugal dos que foram, dos que voltaram, dos que por lá ficaram. Portugal belíssimo, das casas abertas uma vez por ano, dos que ainda constroem, dos que ainda cultivam, dos que de novo partem, do temor dos incêndios, dos falares antigos casados com falares alheios. Portugal que um dia se despejou em Hendaye e em Austerlitz, de sagas intermináveis, de brava gente que resistiu ao pior, que diz "a casa feita" como quem diz "o corpo erguido", que ombreia com os melhores de cá e de lá, que está hoje num eido duma aldeia serrana com o mesmo orgulho com que se mede nas capitais do mundo. Percebi que está muito ainda por contar da história da emigração a salto, a medo, na fuga do frio, da fome, na busca de trabalho, de comer, de um mundo para os filhos. País tão lindo, de amor madrasto.


Licínia Quitério

Também aqui

Follow liciniaq on Twitter
 
Site Meter

Web Site Statistics
Discount Coupon Code