31.8.15

MINEIROS



Era o comboio que levava
a pedra que reluzia.
Era o homem que arrancava
o que da terra nascia.

Era o comboio que apitava,
era o homem que tossia,
era o suor que voltava,
mais um dia, mais um dia.

Até que a mina fechou.
A pedra mais ninguém quis.
O comboio enferrujou.
Do homem pouco se diz.

Licínia Quitério

Para os netos dos mineiros do Lousal

24.8.15

PALMIRA



Eu nunca estive em Palmira que viu passar os séculos, os povos, os artistas, os demónios. Palmira para mim é uma fotografia, muitas fotografias, algumas leituras, relatos em directo nenhuns. Palmira, portanto,  era como se não existisse. Uma cidade lá longe, numa encruzilhada de caminhos, muitas colunas, ruínas do que algum dia terá sido. Palmira, para mim que nunca lá estive, era uma cidade mítica. Falarem-me da sua existência era como falarem-me da Atlântida, ou de Ítaca, ou dos Jardins das Hespérides. Vivemos mais de paisagens inventadas que de lugares reais. Era assim que eu pensava em Palmira, ou não pensava, como penso, ou não penso, na muralha da China onde também não estive. 
Alguma coisa mudou para eu ter acordado a pensar na cidade de Palmira onde nunca estive. Dizem que apareceu um corpo de um homem pendurado numa das inúmeras colunas que restam de Palmira. Um corpo assassinado, exposto à turba das notícias, ávida de corpos assassinados, expostos. É um corpo de homem de que eu nunca tinha ouvido falar e cujo nome não sei pronunciar. É um corpo de um homem que estudava a cidade, o que foi a cidade, como foi a cidade. São precisos homens assim que estudam as cidades sobrevivas, os seus ossos enterrados, os seus muros esfacelados. Homens que me fazem pensar em cidades onde nunca estive e que as tornam minhas. Mataram o homem, ameaçam destruir o que resta da cidade, agitam a bandeira do medo, fazem-nos pensar no fim das cidades, dos homens que as habitam. Não sabem que há sempre uma cidade por debaixo da outra, e mais outra, e ainda mais abaixo uma pedra onde um homem há-de ler o princípio da cidade. Assim continuará Palmira, uma cidade onde nunca estive e em que pensei ao acordar.

Licínia Quitério

foto da net 

17.8.15

OS LOUCOS




Perturbavam-na, os loucos. Assediavam-na, dizia. Caíam-lhe na casa, na mesa, no outro lado da linha. Uma frase de Gabriela Llansol – “Perder a memória, pensei, é absorver o presente, numa constante iniciação, - encontrar-se num estado de nudez.” –  alertou-a. Seria isso. Os loucos perderam a memória. No seu tempo repetitivo, falam e falam, riem e riem, choram e choram. Ouvia-os, por curiosidade, por compaixão, até chegar o dia de os despedir, de lhes dizer, sem dizer, vai, não voltes ao meu mundo em construção, ainda. Dos cenários dos loucos, quase palpáveis, absurdamente nítidos, ela temia as paredes viscosas, por onde eles escorregavam, sozinhos, tão sozinhos, vestidos de antigas vozes. Sabia que os loucos haviam de voltar, outros, os mesmos, não a fitando nos olhos, vagueando pela casa como se fora a deles, suplicando-lhe, ajuda-me, e ela a afastar-lhes as mãos, os braços, chamando-lhes o olhar, que não vinha. Procuravam-na, porque nela viam a tal memória de que estavam nus, desconjuntados os corpos, falsamente frágeis, falsamente robustos. Chegava o dia em que não abria a porta, quando os sabia ali, do lado de fora, à espera de lhe contarem tudo o que os afligia, com que a afligiriam. Em silêncio, por detrás da porta fechada, ouvia-lhes os passos, a afastarem-se, a retrocederem, até deixar de os ouvir. Sentia um alívio momentâneo, uma picada no peito, talvez eu pudesse, talvez. Porque haviam de a procurar, a ela, de memória longa, enredada em contínuas revisitações? Quem lhe dera perdê-la, “absorver o presente, numa constante iniciação”, esperando o tempo em que os loucos não desviariam os olhos dos dela, e não a perturbasse o visco que lhes cobria as paredes.

Licínia Quitério

15.8.15

VENDER A CASA


Tinha umas calças largas, brancas, com bolinhas pretas. É tudo o que lembro dela, além do olhar. Vago, fixo numa qualquer distância, fora da esplanada de praia onde me encontrou, fora do dia ventoso a agitar-lhe as pernas das calças que, nesse ondular, fixei. Vi-a rondar o chapéu-de-sol, observar a base de metal, tocá-la com a ponta do pé, depois virar-se, endireitar o pescoço e dirigir-se a mim. Parou, junto à mesa, e começou a falar. Disse, não tarda este está cheio de ferrugem, como aquele, e apontava para o chapéu no outro extremo da esplanada. Continuou, o mar estraga tudo, fiz eu bem em vender a casa, a despesa em manutenção era um horror, todos os anos pinturas, a limpeza do telhado, até os vidros das janelas, tudo estragado, o sal dá cabo de tudo, bem fiz eu em vender, só o que eu pagava todos os meses ao jardineiro, e as plantas nunca ficavam nada de jeito, o mar é muito bonito, mas uma casa à beira mar é um problema, muito dinheiro, fiz bem, obras e mais obras, e roubam-nos sempre, dizem que custa tanto e depois levam tanto, e os materiais, a gente manda pôr uma coisa e eles põem outra, fartei-me, fiz muito bem, mesmo com a crise ainda fiz um negócio jeitoso, não sei bem o que fazer ao dinheiro, pô-lo a render, mas onde, os bancos estão como se vê, talvez umas acções, não sei, o que sei é que fiz bem em vender a casa, agora já não estou presa a ela, farta de ir passar férias ao mesmo sítio, e os problemas das obras, o ar do mar estraga tudo, até os fechos das portas, agora estou aqui, tenho cá família, logo vou até ao Algarve, a gente num hotel não se preocupa com nada, sai mais barato do que fazer obras na casa, as raparigas gostam do Algarve, têm lá divertimentos, fiz bem em me livrar da casa.
Não me deu tempo a dizer fosse o que fosse. No seu andar um pouco titubeante, com as calças de bolinhas a ondear, dirigiu-se para o outro lado da esplanada e sentou-se a uma mesa onde uma jovem, que se empenhava em tactear um telefone inteligente, nem sequer a olhou.
Terá ela feito bem em vender a casa? Estará agora menos sozinha, ora num hotel, ora noutro, a mudar de praia, a mudar de vida? Sabia que eu não tinha respostas para lhe dar. Foi por isso que, como chegou, assim partiu.

Licínia Quitério

12.8.15

A TASCA DO DELFIM


De passagem por Arcos-de-Valdevez, alargando a curiosidade por ruas antigas e estreitas, de belas varandas de ferro forjado, engalanadas de vasos de gerânios e petúnias, despertou-nos a curiosidade a porta aberta, por cima da qual um papel dizia ser ali A Tasca do Delfim e Museu do Acordeão. Franqueámos o degrau, lá de dentro veio um fresquinho a calhar no dia tórrido, e perguntámos se podíamos ver. A voz de mulher, no seu inconfundível sotaque minhoto, a afirmar que sim, façam o favor, vejam, vejam, sentem-se, tomem uma bebida, a ginja é uma delícia. Ficámos e percebemos que estávamos rodeados e encimados por uma profusão impensável de objectos, a cobrirem as paredes, a penderem do tecto. Um sem número de acordeãos, ao longo das prateleiras, testemunhas de lugares e tempos vários, por onde e quando o senhor Delfim tinha tocado. Muitos oferecidos, outros comprados, assim foi nascendo o Museu. Pessoa muito conhecida, o Senhor Delfim, marido da Dona Maria, já não toca por aí. Agora quem toca é o filho que lá está numa foto com o Senhor Malato, pois foi há pouco à televisão, sim, como a senhora pode ver. Por entre postais, flores de plástico, maçarocas de milho, miniaturas de alfaias, cabaças, santinhos, e tudo e tudo que se possa imaginar, deparo com fotos do Senhor Delfim, ali mesmo em sua Tasca/Museu, com Dona Amália Rodrigues e o Senhor Eusébio. Por mero acaso, fui eu então parar a um lugar de culto, uma riqueza de história de como vivem e tocam e cantam as gentes do Minho. A Dona Maria é uma Senhora linda, no seu traje garrido, a sua cabeleira ondulada, do genuíno loiro do Norte, a sua pele branca, o seu oiro galhardo, o seu sorriso de puro contentamento, ali sentada, a responder a perguntas formuladas à pressa por quem aparece sem saber o que encontra. Perguntei-lhe se a podia fotografar, pode sim, senhora, à sua vontade, com muito gosto, tire as fotos que queira, a tudo, e a mim, e endireitou-se mais e encarou a máquina. 
Aqui fica o que registei da minha visita improvável à Tasca do Delfim/Museu do Acordeão, ali ao Norte, nos Arcos.  Se passarem por lá, não percam.

Licínia Quitério

8.8.15

ESPIGUEIROS


“Nous sommes un pays de bâtisseurs», diz ela. «Hei-de pensar nisso», digo. “Somos construtores”, penso, e não penso em antas, menhirs, penso agora em espigueiros, engenhosos celeiros, esculpidos com método, cuidado, sabedoria. Os grãos guardados em suas casas de pedra, arejadas e defendidas dos roedores, dos intrusos, com suas pedras talhadas a preceito, a lembrarem estranhas capelas, suas cruzes no vértice do triângulo cimeiro, a afastarem demónios, a rogarem protecção divina. Laje sobre laje, ancestrais saberes de geómetras, de magos, de camponeses de terra dura, desfeita a pedra, bebida a água que das fragas se desprende, murmurante em seus caminhos, tantas vezes levada por onde e para onde o homem a chamou.

“Nous sommes des bâtisseurs”, disse ela. “Casa quanto caibas, terra quanto vejas”, penso. Entre o que ela diz e o que eu penso, ergue-se um homem, uma mulher, um país. Também as palavras, que são casa, antes e depois de as proferirmos. Sair de casa e voltar, sair do país e não voltar, a terra sempre tornar. Palavras presas num fio de aranha infatigável, obsessiva. Constrói-se no centro da teia. A geometria é obsessão. Não se constrói o caos, nem se destrói. É preciso achar o centro para irradiar, sair. Há quem diga fugir. Direi apenas ir, aller, go, gehen…Não há gramática que limite o construtor. Irradiar é arte de tecelão. Da pedra, do ferro, da madeira, do linho, da linha, do barro que aperta nas mãos e entrega ao Sol. 
Porque ela me disse “bâtisseurs”, pensei em casa, ou antes, na ideia de casa. E logo nos espigueiros e  nos gigantes que os ergueram. A montanha rejeita as coisas menores, as ideias menores. Grandes as mãos dos construtores, grande a fome dos lobos pela noitinha. País o nosso de tão grande achamento, de tamanha perdição.

“Nous sommes des bâtisseurs, tu sais”, disse ela.

Lcínia Quitério

6.8.15

O HOMEM DO ACORDEÃO


O homem do acordeão toca e do seu corpo brota uma dança que lhe põe na cintura requebros de juventude. Enquanto toca, anda para cá, para lá, os pés a marcarem compassos de antigas músicas. Abrindo e fechando os braços, abrindo e fechando o acordeão, abrindo e fechando o coração, a grande alegria a inundar-lhe o sorriso, os olhos vestidos de doçura, o homem do acordeão ressuscita rituais de sedução guardados na memória, que o corpo insiste em ofertar. 
É belo de verdade, o homem do acordeão, que já foi de outros mundos, que já aprendeu outras falas, que já regressou da dança de roda que a vida lhe deu, que a vida lhe tirou. Foi com a força dos braços, com a lembrança intacta do cheiro da terra, do sopro da montanha, das vozes dos animais, que o homem voltou, agora pronta a Casa, os filhos grandes, os netos nascidos.
Toca na festa e as mulheres cantam, os pares dançam. Todos sabem de cor as letras das desgarradas, nascidas para amenizar a dureza dos trabalhos da enxada, da foice, do malho. Todos sabem a vida de cor, a vida antes da Casa, a vida com a Casa. Foi com as músicas que seguraram as paredes da Casa, das casas que refizeram a aldeia a que nunca deixaram de voltar, com que nunca deixaram de sonhar, nas noites frias que o som das músicas, “là-bas”, embalava, aquecia.

Licínia Quitério

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