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6.8.15

O HOMEM DO ACORDEÃO


O homem do acordeão toca e do seu corpo brota uma dança que lhe põe na cintura requebros de juventude. Enquanto toca, anda para cá, para lá, os pés a marcarem compassos de antigas músicas. Abrindo e fechando os braços, abrindo e fechando o acordeão, abrindo e fechando o coração, a grande alegria a inundar-lhe o sorriso, os olhos vestidos de doçura, o homem do acordeão ressuscita rituais de sedução guardados na memória, que o corpo insiste em ofertar. 
É belo de verdade, o homem do acordeão, que já foi de outros mundos, que já aprendeu outras falas, que já regressou da dança de roda que a vida lhe deu, que a vida lhe tirou. Foi com a força dos braços, com a lembrança intacta do cheiro da terra, do sopro da montanha, das vozes dos animais, que o homem voltou, agora pronta a Casa, os filhos grandes, os netos nascidos.
Toca na festa e as mulheres cantam, os pares dançam. Todos sabem de cor as letras das desgarradas, nascidas para amenizar a dureza dos trabalhos da enxada, da foice, do malho. Todos sabem a vida de cor, a vida antes da Casa, a vida com a Casa. Foi com as músicas que seguraram as paredes da Casa, das casas que refizeram a aldeia a que nunca deixaram de voltar, com que nunca deixaram de sonhar, nas noites frias que o som das músicas, “là-bas”, embalava, aquecia.

Licínia Quitério

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