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8.8.15

ESPIGUEIROS


“Nous sommes un pays de bâtisseurs», diz ela. «Hei-de pensar nisso», digo. “Somos construtores”, penso, e não penso em antas, menhirs, penso agora em espigueiros, engenhosos celeiros, esculpidos com método, cuidado, sabedoria. Os grãos guardados em suas casas de pedra, arejadas e defendidas dos roedores, dos intrusos, com suas pedras talhadas a preceito, a lembrarem estranhas capelas, suas cruzes no vértice do triângulo cimeiro, a afastarem demónios, a rogarem protecção divina. Laje sobre laje, ancestrais saberes de geómetras, de magos, de camponeses de terra dura, desfeita a pedra, bebida a água que das fragas se desprende, murmurante em seus caminhos, tantas vezes levada por onde e para onde o homem a chamou.

“Nous sommes des bâtisseurs”, disse ela. “Casa quanto caibas, terra quanto vejas”, penso. Entre o que ela diz e o que eu penso, ergue-se um homem, uma mulher, um país. Também as palavras, que são casa, antes e depois de as proferirmos. Sair de casa e voltar, sair do país e não voltar, a terra sempre tornar. Palavras presas num fio de aranha infatigável, obsessiva. Constrói-se no centro da teia. A geometria é obsessão. Não se constrói o caos, nem se destrói. É preciso achar o centro para irradiar, sair. Há quem diga fugir. Direi apenas ir, aller, go, gehen…Não há gramática que limite o construtor. Irradiar é arte de tecelão. Da pedra, do ferro, da madeira, do linho, da linha, do barro que aperta nas mãos e entrega ao Sol. 
Porque ela me disse “bâtisseurs”, pensei em casa, ou antes, na ideia de casa. E logo nos espigueiros e  nos gigantes que os ergueram. A montanha rejeita as coisas menores, as ideias menores. Grandes as mãos dos construtores, grande a fome dos lobos pela noitinha. País o nosso de tão grande achamento, de tamanha perdição.

“Nous sommes des bâtisseurs, tu sais”, disse ela.

Lcínia Quitério

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