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23.10.13

APARIÇÕES





    A ler um artigo de Alexandra Lucas Coelho, no Público, e a sua descrição de um tal teatrinho perdido no caminho para Death Valley, em cenários que atravessam a nossa memória de filmes de Antonioni, a ler este excelente artigo, dizia, e o pensamento a fugir-me para outro cenário retro em que entrei recentemente. 
    A propósito de colher um papelinho a que se chama vulgarmente atestado médico, acompanhei uma amiga a um prédio bonitinho, fim de século dezanove, rés-do-chão e primeiro andar, porta verde só encostada, dois degraus de pedra bem gasta. Empurra-se a porta e ficamos numa salinha chamada de espera, com um terno de sofás de madeira e napa, uma mesinha para revistas, tudo muito retro de baixo preço. Nas paredes, quadros com fotos da vila, num tom geral azulado que o tempo lhes conferiu. Um deles, tendo como moldura uma fita adesiva verde escura,  pendente do prego na parede por um cordão sedoso, não consegue horizontalidade e espera um ligeiro toque que o endireite. Na mesa, o Borda d' Água, o jornal da região, umas revistas de um laboratório de análises, um lápis e um bloco de apontamentos por estrear. Ninguém na sala, até que, num arrastar de pantufas pelo corredor, chega uma velha senhora que diz "o senhor doutor já vem". Informação dada, senta-se e  começa, em silêncio, a fazer o naperon de crochet que tira do bolso do avental. Esperamos uns longos minutos até que o senhor doutor aparece, diz "boa-tarde, venha",  e volta para o interior da casa, enquanto a senhora de crochet e pantufas ordena "ainda temos de ir a casa da tia Mila". O senhor doutor responde um "sim, mãe" e ainda o oiço dizer para a minha amiga "venha buscar para a semana". 
    Apenas dois degraus e o filme desenrola-se e rebobina-se, oitenta anos para trás, oitenta anos para a frente. Em Death Valley ou em Aboboreira do Mar, as aparições do passado não param de nos surpreender.

Licínia Quitério

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