30.12.12

NEVOEIRO


Anoiteceu com um nevoeiro a invocar fantasmas, as torres da igreja liquefeitas, a luz dos candeeiros a explodir em auréolas contra a cortina, as árvores a agarrarem o céu, a espicaçarem o escuro. Também o calendário anoitece e com ele as folhas a procurarem cama breve no asfalto. É nas noites de nevoeiro que sinto a respiração alta da terra a convocar-me para encontros imprecisos, em lugares desconhecidos, de mágoas diluídas nos meus passos silenciosos. Não resisto e vou. E volto antes que o nevoeiro se desfaça.

Licínia Quitério


23.12.12

EDUARDO


Tinha quinze anos, era um menino triste, carinhoso, e embalava sonhos dentro de livros. Durante duas semanas, sentámo-nos à mesma mesa, eu, ele e os outros. Tínhamos tudo para fazer e ele fazia amizade com outros meninos. Olhava-me como se olha uma mãe e eu não tinha tempo para entender o que ele não tinha. Procurou-me algum tempo depois. Vinha ver-me, dar-me um beijo. Triste, ainda. Passou tanto 
tempo, mas, no meu desvão das memórias, guardei-o e fiz dele personagem fantasiada de escritas avulsas. E o tempo passou, tanto tempo, até que um dia me descobriu na net e me falou. Estremeci comovida. O menino voltava a procurar-me. Triste, ainda. Como sempre, não entendi o que é que ele não tinha. Hoje soube. Desistiu, o menino. Não aguentou ser triste por mais tempo. Talvez um dia o encontre, a ler para os outros meninos, finalmente contente, a olhar-me como se olha uma mãe.


Licínia Quitério

17.12.12

POESIA


O PEDRO RAMOS leu o meu livro OS SÍTIOS e fez este desenho que me ofereceu.  A Poesia continuou, noutro registo.

Licínia Quitério

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