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30.3.14

PICO, PICO, SERENICO


Pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, dizia a avó, as mãos pousadas na saia preta de viúva de muitos anos, e a menina tentava acompanhar o ritmo da lenga-lenga  com os deditos minúsculos beliscando, entre o indicador e o polegar, as pregas da mão velhinha, com manchas castanhas e estradas azuis sob o véu da pele. Gostava a menina daquela mão, diferente da sua, diferente da da mãe, com as  pregas que os seus deditos iam pegando, aumentando, desfazendo, pico-pico serenico. Ficou-lhe o retrato da mão da avó, tão bonita, tão disponível, sossegada no colo, na cadeira baixinha, e a voz macia a repetir, pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, e o resto que esqueceu. Não pode lembrar-se de tudo, mas as mãos da avó permanecem com ela, como se fossem as suas.

Licínia Quitério


23.3.14

MUITOS FILMES


Ai a minha cabeça, ai a minha cabeça, voz de mulher num banco mais atrás. Imagino-a ao telefone com alguém lá de casa que lhe diz que se esqueceu de apagar o gás do fogão, ou que deixou o gato fechado no roupeiro, ou que se esqueceu da sogra no supermercado. Isto imagino eu porque de facto nada sei de toda aquela gente que entra e se apeia e se senta, se houver lugar, ou fica de pé, aguentando solavancos e calores condicionados. Eu só posso imaginar que o rapaz de cabelo em repuxo deseja que morra já ali a mulher volumosa que insistiu em ocupar o lugar onde ele sentava a mala grande e pesada. Levou-a ao colo, pois, o resto da viagem, que a mulher assim mandou, de voz forte e redondo corpo. Os outros rapazes e raparigas, que têm mais ou menos fios ligados aos ouvidos, à cintura, às mãos, arrumo-os numa qualquer história batida de seres extraterrestres, extra mesmo galácticos, a espiarem, sempre a espiarem, que é isso que fazem todos os visitantes do longe muito longe. Na diversidade de passageiros, imagino que entre um árabe com uma terrina nos braços ou uma mulher velada com uma galinha morta num saco de palha. Imagino, mas quem aparece na paragem seguinte é um vulgar ser terrestre, vestido de luto carregado, com fitas e caricas coloridas e na mão uma pandeireta pequena que tilinta muito levemente corredor fora, agarra aqui, agarra ali. No final da curta viagem, desaguamos num cais de pressas e sujidades, igual a todos os cais deste mundo, onde se roçam respirações várias, alimento de muitos filmes, muitos livros, muita ficção do real ou irreal de que se fazem as viagens, mesmo as interurbanas de vou ali e já volto.

Licínia Quitério

15.3.14

LER O JORNAL


Nunca encontrei lugar melhor para ler um jornal do que uma mesa de café, de preferência com tampo quadrado, com sessenta por sessenta.  Em casa, nunca tive uma mesa dessas e duvido que, se a tivesse, fosse a mesa de ler o jornal, sem que logo se atafulhasse de papéis, livros, esferográficas, corta-unhas, um pacote de açúcar, o comando electrónico de qualquer geringonça. O certo é que a leitura de um jornal em casa me obriga a esforços que me põem mal disposta . Pode ser a mesa da sala, que tem mais de sessenta numa das dimensões, mas é baixota e não está tão perto do sofá que não me obrigue a debruçar-me, as costas em desamparo, a barriga a dizer que agora é maior e já não admite dobragens como antigamente. Há a mesa de trabalho, vulgo secretária, com o extenso tampo e a cadeira ergonómica, confortável. Apenas um inconveniente, ou melhor, um somatório deles: o tampo está literalmente cheio, de teclados, ratos, monitores, parafrenálias dos novos tempos, e mais as dos antigos que coexistem: os vasinhos cheios de canetas, a tacinha dos clips, os papéis e os pisa-papéis que não pisam mas são pisados pelas várias pilhas de livros prontos a colapsar. Pode-se abrir um espacinho, a custo, clareira em densa floresta, mas não dá. O espaço é sempre menor do que o tablóide aberto e lá ficam os cantos do papel dobrados, presos, amarrotados, a não deixar continuar, sem sobressalto,  a leitura do texto  que continua duas páginas mais tarde. Há a cama, claro, da leitura antes de dormir, mas aquele esticar de braços, as almofadas a escorregarem, o corpo a afundar, o ajeitar permanente dos óculos, a letra de tipo minúsculo que não se conforma com o foco de luz do candeeiro. Resta a mesa da cozinha, mas há sempre o pecado das nódoas, das migalhas que se insinuam por debaixo do papel  e picam ao de leve o cotovelo que em má hora resolvemos apoiar sobre a página dos anúncios. Mais soluções sempre terá a casa, por muito pequena que seja, mas nunca me servirão. Tive há pouco a minha hora de luxo, no café a ler um jornal, muito mal escrito quase na sua totalidade, mas à medida da mesa onde até cabe a chávena da bica e mais o pratinho do bolo e o copo de água, tudo em devido lugar, sem incómodo para o folhear deleitoso do jornal, para trás, para diante, até ao fecho e dobragem em canudo que se instala pacificamente debaixo braço. Um mundo perfeito assim não cabe nas casas onde tenho vivido. Ainda melhor do que isto era aquela mesa onde o jornal dava para dois, muitas vezes para três, e a mesa devia ser extensível, porque o jornal era à nossa medida, à medida dos nossos silêncios, só interrompidos porque uma notícia nos provocava para uma conversa sem fim, o jornal já debaixo do braço, e a conversa a continuar, já sem a mesa, mas nós ainda presos à hora perfeita do encontro. Acho que só se ama verdadeiramente quando se lê o mesmo jornal, na mesma mesa, no mesmo café, e nada disto é monótono e tudo é irrepetível, até o silêncio profundo em redor da mesa que parecia ser única naquele café cheio de gente ruidosa. Hoje, a tal mesa com sessenta por sessenta  é o quadrado perfeito da imperfeição dos meus dias.

Licínia Quitério

14.3.14

MANIFESTO


Eu sou tua mãe. Eu sou teu pai. Somos tuas mães. Somos teus pais. Tu sabes quem te ama e dizes mãe ou pai antes de saberes dizer amor. Tu sabes que não te abandonaremos, não te magoaremos, não te violentaremos, não te negaremos a felicidade de seres a criança que quisemos criar, no respeito, na liberdade, na alegria, no sol. Eu sou tua mãe e tu és o meu filho. Eu sou tua mãe e tu também és o meu filho. Eu sou o teu pai ou mãe, como quiseres dizer, e tu és a minha filha. Temos a responsabilidade de te dar o pão, a saúde, a educação, o sorriso. Respeitamos-te como tu nos respeitas, nas asas imensas do amor que partilhamos. Tu sabes, filho, filha, que mãe ou pai, ou mães ou pais, são as palavras que tens para viveres e cresceres, são a árvore, o rio, a flor, que serão o leito, o colo, o riso que farão de ti o homem, a mulher, o pai ou a mãe que quiseres ser, com quem quiseres ser, na imensa humanidade a que pertences e de onde não deixaremos que te expulsem ou te façam filho menor.

Licínia Quitério

10.3.14

A LOJA DA MATILDE 2


A loja da Matilde continua a ser um lugar de espantos. Agora já tem uma maquineta para as senhas de chegada, que há dias em que a freguesia é muito maior que o espaço onde possa caber. Assim se chega, se tira a senha, se dá uma olhadela lá para dentro a avaliar o número de cabeças, outra ao relógio, e se decide se ainda há tempo de ir ali ao sapateiro ver dos atacadores para as botas. Eu fico, aguardando o meu número de chamada e aproveitando bem o tempo para ver e ouvir tudo o que há para ser visto e ouvido. Nesta espera de boa vontade, lá deito mão a um vasinho de petúnias, floridas de carmesim, a regalarem-me os olhos. Não estava na minha lista de compras, mas vai e, porque não, há quanto tempo eu disse que havia de plantar, uns pezinhos de morangueiro, já com um arremedo de botão de flor. Devo ter um ar suspeito, no meio daquela gente que sabe de terras e de sementes e de trabalhos árduos, tantas vezes sem o sucesso pretendido. Vale-me o conhecimento da Matilde, na sua azáfama, a perguntar tá boazinha, não tem aparecido, a atestar que também ali pertenço. Na loja da Matilde há sempre fenómenos vegetais que no balcão são exibidos até definharem ou apodrecerem. Procuro-os e lá estão. Uma beterraba com cinco quilos trezentos e cinquenta, segundo o rótulo, com sessenta centímetros de comprimento, segundo a medi em palmos. Mas o mais curioso era o nabo, com três quilos duzentos e cinquenta, conforme o rótulo, acompanhado da foto, em papel de brilho, do seu produtor, ali de pé, de corpo inteiro, bem nutrido, orgulhoso, com o troféu seguro em taça numa das mãos possantes. Um lugar de espantos esta loja do meu bairro. Saí, com um saco em cada mão, dois para a senhora ir mais aconchegada. Uma maravilha.

Licínia Quitério

9.3.14

OS TURISTAS


Os turistas de massas, presumíveis sucessores dos viajantes aventureiros, deslocam-se em autênticas hordas, mundo fora, obedientes à bandeirinha, ao guia que os faz correr, suar, rápido, rápido, atenção às bolsas, não podem fotografar, entra em igreja, sai de igreja, sobe à torre, não sobe à torre, atenção à hora, quem não estiver não embarca, habla español, english, português no, Bolivar you know, mind the step, signora, nice eyes madam, vamonos, vamonos, time is money, you know, o museu, numa corrida, um quadro, dois quadros, trezentos quadros, uma angústia, quero lá saber de mais quadros, depois vejo na net, os pés, os pés, o calor, o suor, a bandeirinha do guia, não o podemos perder, Garcia Marquez, o tempo de cólera, a varanda de Fermina Daza, o trote do cavalo, pude ouvi-lo, vim de livro aberto, até o violino, sim, uma foto do balcão, e seguir, seguir sempre, a horda, as hordas, só assim eu poderia ver a rua, a varanda, ouvir o violino, sentir a asma da mulher do general, o restolhar das folhas, melhor, a hojarasca, fingir que percebi melhor, que fui mais longe dentro dos livros, da mágica de Gabo, com a horda, graças à horda, colorida, suada, ululante, em movimento, sempre, mundo fora, mundo dentro.


Licínia Quitério

7.3.14

O MEU TESTEMUNHO




Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
O meu pai nunca faltou, mas eu e a minha mãe nunca dissemos uma à outra porque é que a janela nos prendia todos os dias àquela hora, nos longos meses daquele verão de chumbo. 
Por detrás da porta do quarto eu ouvia-os falar, a minha mãe quase num soluço, o meu pai a dizer não te rales, eles estão a prender os da primeira página da lista e eu estou na terceira. 
Foi assim no verão em que o banquinho ficou desengonçado, em que o meu tio foi preso, em que os amigos do meu pai foram presos, em que a minha avó foi a Lisboa falar com uns senhores para lhe soltarem o filho, em que a minha mãe chorou muito, em que o meu pai queimou papéis dentro da pia e a minha mãe quase gritou não quero essa porcaria cá em casa e o meu pai ficou triste e saiu sem jantar.
Há quem diga que o fascismo não existiu. Se eu ainda tivesse o banquinho, havia de explicar melhor o que aqui vos disse. Ou então, mesmo diante dos banquinhos desengonçados, haverá sempre quem negue que ele viveu entre nós, sobre nós, dentro dos nossos medos e dos nossos sonhos. Felizmente houve gente como o meu tio, os amigos do meu pai, e o meu pai que estava na terceira página da lista e por isso nunca faltou lá no cimo da rua às sete da tarde do verão de 1948. Graças a eles e a muitos outros como eles, há hoje quem diga que o fascismo nunca existiu. Eu até os percebo. Custa mesmo a acreditar que tanto mal por tanto tempo nos tenha acontecido.


Licínia Quitério


Foto da net

3.3.14

À MANEIRA DE REQUIEM



A gente habitua-se a saber que a vida que levam, que os leva, não os serve, não lhes cabe, não se encaixa. A gente sabe que um dia, mais do que tropeçar, caem, que a vida que levam, que os leva, não perdoa, não se  dobra, só lhes pega quando os verga. A gente entende que são a outra parte de nós que não cuspimos no prato porque é feio, que não rasgamos a virgindade dos devassos porque é inútil, que não respiramos fundo, nem roubamos, nem nadamos para longe, nem dizemos aos filhos passem sem mim porque estou farto. Eles são o depósito a prazo da nossa adiada liberdade. Um dia sabemos que a morte os pegou, essa sim, com a franqueza que a vida não lhes deu, e nós ficamos órfãos daquele sonho de nós outros, livres da tal liberdade que só os loucos conhecem, só os loucos nos escondem.


Licínia Quitério

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