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7.3.14

O MEU TESTEMUNHO




Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
O meu pai nunca faltou, mas eu e a minha mãe nunca dissemos uma à outra porque é que a janela nos prendia todos os dias àquela hora, nos longos meses daquele verão de chumbo. 
Por detrás da porta do quarto eu ouvia-os falar, a minha mãe quase num soluço, o meu pai a dizer não te rales, eles estão a prender os da primeira página da lista e eu estou na terceira. 
Foi assim no verão em que o banquinho ficou desengonçado, em que o meu tio foi preso, em que os amigos do meu pai foram presos, em que a minha avó foi a Lisboa falar com uns senhores para lhe soltarem o filho, em que a minha mãe chorou muito, em que o meu pai queimou papéis dentro da pia e a minha mãe quase gritou não quero essa porcaria cá em casa e o meu pai ficou triste e saiu sem jantar.
Há quem diga que o fascismo não existiu. Se eu ainda tivesse o banquinho, havia de explicar melhor o que aqui vos disse. Ou então, mesmo diante dos banquinhos desengonçados, haverá sempre quem negue que ele viveu entre nós, sobre nós, dentro dos nossos medos e dos nossos sonhos. Felizmente houve gente como o meu tio, os amigos do meu pai, e o meu pai que estava na terceira página da lista e por isso nunca faltou lá no cimo da rua às sete da tarde do verão de 1948. Graças a eles e a muitos outros como eles, há hoje quem diga que o fascismo nunca existiu. Eu até os percebo. Custa mesmo a acreditar que tanto mal por tanto tempo nos tenha acontecido.


Licínia Quitério


Foto da net

1 comentário:

Anónimo disse...

Interessante pensar que todas as histórias da infância são parecidas, ou iguais.
Todas as crianças subiram o banco para espreitar pela janela, todas as crianças tiveram medo de perder os pais na época do Estado Novo.
Foi bom recordar, uma história comuns a tantos.
Foi bom recordar o medo e sentir que o 25 de Abril trouxe muito a Portugal, mas por vezes, esquecido.



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