26.1.14

SALAMANCA



Sólida a cidade, Salamanca chamada, maciço de conventos,  igrejas,  colégios pontifícios, realíssimos, catolicíssimos, de saberes seculares. Os tempos atravessados, novos saberes chegados, multidões curiosas, cansadas, estouvadas, variadas, transbordando da exiguidade das ruas, comprimidas por fachadas solenes, de pedra bordada, profusamente exibindo poderes reais, temporais, santidades, severidades, clausuras, pecados, castigos, sonhos também de sinos e alturas. Hei-de voltar.

Licínia Quitério

16.1.14

PRONTO


Pronto para as batalhas, o general guardou os medos na gola do capote e avançou. Perdeu, ganhou, sofreu e voltou. Partiu ainda jovem, perdida a última batalha com a senhora-do-medo. Vemo-lo hoje, na branca pedra, o susto no olhar, a gola de general impecavelmente erguida.

Licínia Quitério

Nota: resposta a desafio em http://outrostemas.blogspot.com

14.1.14

PENÉLOPE


Era dia e Penélope tecia. Esperava e tecia e a idade crescia. E a raiva crescia e a cama vazia e a cidade vazia. Quando a noite chegava, a teia minguava, Penélope chorava, na cidade chovia. Ulisses navegava, Ulisses naufragava, Ulisses não cuidava, Ulisses não sabia, Ulisses não voltava e a teia não crescia. Outro esposo Penélope não queria, outro rei, outra lei a cidade não queria. Ainda ela tecia e Ulisses voltou e ninguém reparou como Ulisses mudou, como Ulisses sofria, como Ulisses chorou. Só o cão o cheirou, só o cão se deitou na velhice de Ulisses. Era noite e a teia encolhia, e outro dia haveria de a teia terminar, de Ulisses regressar ao seu trono vazio, às mãos da tecelã, sem tecer, sem tecer,  a mirar, a mirar, a velhice de Ulisses, o cansaço de Ulisses, o cão fiel de Ulisses. Na cidade chovia.

Licínia Quitério

12.1.14

EUSÉBIO




Só uma vez, dois anos atrás, vi Eusébio pessoalmente. Eu estava num restaurante, e olhava a rua através da montra. Vi-o sair de um automóvel, com enorme dificuldade, ajudado por um amigo. Atravessou a estrada, em direcção ao restaurante, apoiado no outro homem, com uma debilidade imensa, as pernas frouxas como papel ao vento. Foi nas pernas que fixei o olhar e o pensamento. Com aquelas pernas ele tinha conquistado o mundo, as mesmas pernas que agora se recusavam a deixá-lo avançar senão arrastando-se. É nesse momento em que vi Eusébio que penso hoje, sem me admirar, sem me entristecer. Um homem, por muito grande que tenha sido, começa a morrer muito antes da sua morte. Nós é que nos recusamos a pensar nisso.

Licínia Quitério

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