26.10.11

AS PRIMEIRAS CHUVAS



São as primeiras chuvas depois da estiagem que outono não foi. O vento desfolha os plátanos, mas as folhas ainda são verdes na descida da minha rua, na correnteza das águas novas. Quando forem da cor da secura, apanho uma delas, como faço todos os anos, e guardo-a em repouso sobre a lenha. A do ano passado lá está, com nervuras curvadas, com rasgões nos recortes, esperando a sucessão das folhas das árvores, dos dias da casa, dos meus outonos.


Licínia Quitério

10.10.11

OUTUBRO



Desatento do calendário, este outubro rejeita agasalhos, resiste em tons de um azul espantoso, anoitece em crepúsculos doirados. Há um desacerto no olhar dos homens e no adejar dos pássaros. Incêndios maculam a paisagem e atemorizam as gentes. Não é próprio do tempo, diz-se, com os braços a esconder um embalo de frescura. Está tudo mudado, diz-se, e há um vago susto na curva dos ombros dos velhos. Os geniozinhos da floresta dão gargalhadas miudinhas. Eles preparam o imenso manto do inverno, que há de vir, que há de vir...


Licínia Quitério

6.10.11

OS SINOS



Hemingway disse-nos por quem afinal dobram os sinos. Os sinos que melhor conheço deixaram de dobrar. Não, não acho que seja um bom presságio. Na vida e na morte, os sinos ajudam a transpor os imensos muros de silêncio. Um sino, um seno, um seio - curvas ideais que nos enformam, no repique ou na mudez.

Licínia Quitério



3.10.11

LUA



Apetece dizer: com luz tudo se faz e se desfaz. Assim a noite é mais ou menos noite se a lua se levanta e cresce, ou se enche, impante, ou diminue ou encobre o rosto. Lua de Romeu chamando Julieta, de Pierrot em lágrimas por Columbina, lua dos gatos das cidades, de concílios de lobos em clareiras, lua de prata no píncaro da serra, lua vaga de contar contos no patamar do sono. Lua feiticeira que transfiguras a noite e os seus espíritos. Que vê o teu luar que meus olhos não sabem?

Licínia Quitério


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