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28.9.14

Lisboas


A Lisboa alindada, a dos turistas aos magotes, a da luz incomparável, a de novas culturas, a lindíssima cidade, e a outra, a dos sábados à tarde, de gente pobremente vestida, de gente idosa, sozinha, desfrutando bancos de jardim, esplanadas antigas, de mesas gastas, de pouco ou nenhum consumo, do metro de todos os países, de gente de muitas falas, de jovens mascando pastilha e falando ao telemóvel, de velhos, antecipadamente velhos, de poucos dentes, de grandes olheiras. Lisboa das avenidas das "marcas", das avenidas "novas" e gastas pelo uso, pelo desleixo, com resquícios de uma beleza antiga. Lisboa dos loucos, dos quase loucos, duma loucura cansada e pacífica, que dos brandos costumes ressalta hoje uma loucura branda, de fado e despedida, de morna e mar, de um novo tempo que envelhece, numa espera de maré alta, de gaivotas em terra, que assuste e acorde e vista de sorriso o que agora se gasta, se arrasta, se cala e se conforma e entristece.

Licínia Quitério

24.9.14

GOSTO


Gosto de quem sabe fazer. Gosto da pedra e do pedreiro. Gosto do ferro e do ferreiro. Gosto do ouro e do ourives. Gosto do vidro e do vidreiro. Gosto da tinta e do pintor. Gosto do construtor. Gosto do pão e do padeiro. Gosto da semente e do semeador. Gosto de mãos que amassam, enformam, transformam. Gosto de quem eleva, desloca, arrasta, conduz. Gosto da roda e do carpinteiro. Gosto do fio e da tecedeira. Gosto da argila e do oleiro. Gosto de quem molda, ata, desata, encaixa, arranca, prega, conserta, restaura. Gosto de Arquimedes e da alavanca. Gosto de quem gosta de quem faz.

Licínia Quitério

9.9.14

UM POUCO MAIS ACIMA


Um pouco mais acima e tudo muda, tudo se reduz, se dilui. Linhas que são estradas, verde-escuro a que chamamos bosques, cinzentos  a que chamamos campos. Lá pelo meio,  a geometria ovalada de uma vila, aldeia ou outro nome que damos às casas com gente dentro que se encostam, em defesa, em fuga, em solidão. Tudo fixo, imóvel, num sossego de mapa. Se há animais, ou homens, ou vento nas folhas, só a quietude e o silêncio se avistam. Se há paz ou guerra, ou mortes, ou sinos de festa, tudo estático, numa única dimensão, lá em baixo, no ínfimo pedaço de crosta do planeta. Mais alto agora e só o azul e o algodão e nem rasto de anjo nem de estrela. Tudo o resto lá em baixo, longe, muito longe e nós um átomo viajante, inconformado, julgando divisar a eternidade.

Licínia Quitério

8.9.14

A VIAGEM DA CAIXINHA


Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. Aconchegava a redondeza da caixa na palma da mão. Com a outra abria-a e fechava-a, uma vez, outra vez. Mirava-se no espelhinho que era o interior da tampa. Cheirava delicadamente o pó cor de rosa desmaiada que se escondia sob a rede, sob a almofadinha macia, macia, como outra não sabia. Fechada a caixa, o estalido metálico do fecho, perdia-se a olhar a estampa do que, já aprendera nos livros, ser o Sacré Coeur, as suas torres, os cavalinhos com cavaleiros, as colunas, os degraus. Trouxera-lha o tio que viajava, no seu trabalho duro de conduzir pessoas que viajavam em descanso mole. Era tão doce o tio de trabalho duro, um gigante com lágrimas quando revia os sobrinhos. Ela não parava de mirar, de abrir, de fechar, a caixinha com o Sacré Coeur na tampa. Esqueceu-se de passar a esponja pelo pó e de a passar no rosto, como faziam as meninas do seu tempo, chegada a idade de se prepararem para escolher e serem escolhidas para o tal casamento de que falavam as mães, as avós, as tias, as amigas das mães, das avós, das tias. Apaixonada esteve a menina pela caixa, não bem pela caixa, pela ideia de viagem que a caixa lhe trazia. Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. E o pó continuava intacto debaixo da rede, debaixo da esponja. Paixão é paixão e a menina não parou até ao dia em que anunciou: Vou lá. Parto amanhã. Foi e subiu os degraus, olhou os cavalos, os cavaleiros, as torres. A caixinha ficou, a menina veio e voltou e voltou e viu muito mais do que as torres e os degraus. Viu cidades e mares e florestas e gente, muita gente. A caixinha morou por longos anos numa vitrine, junto das coisas pequenas com histórias grandes, se as quisermos contar. A menina cresceu, amou, envelheceu e mais uma vez voltou à cidade da tampa da caixinha, com o pó intacto, com um cheiro a coisas antigas que um dia foram belas. Foi desta vez que, num relance, olhou a vitrine e disse: Hás-de lá ir. Hás-de lá ir. Foi. A caixa fez a sua viagem de regresso. A menina, cada vez mais velha, sentiu que conseguira terminar mais um capítulo da sua  própria viagem.

Licínia Quitério   


6.9.14

IMIGRAÇÃO


O museu da imigração, em Paris. Um lugar a visitar. Ali está uma França digna a afirmar, logo à entrada, "nem todos somos filhos de gauleses". Lá dentro, muitíssimo bem concebida, a exposição da história da imigração que em França procurou vida e alimento e onde deu o suor, a dor, a força incrível de ganhar outras raízes nunca perdendo de vista as primeiras, as dos seus países que, em dados momentos da História, não lhes permitiram a dignidade, a liberdade, a sobrevivência. Entre outros, em lugar destacado, ali estamos nós, os portugueses, os que, entre o "ici" e o "lá-bas", construiram, limparam, serviram, reabilitaram, renovaram a grande cidade. Fotos, objectos, vídeos, testemunhos gravados, nomes de homens e mulheres--coragem que Salazar rejeitou e que outro país recebeu, com todas as grandezas e maldades que sempre sucedem a quem pede asilo e trabalho. Outras vagas estão a acontecer, de cá e de outros mundos, e o museu está atento, registando as trouxas, os pobres sacos dos que chegam, muitos de além-mar, sem nada a não ser a esperança de um lugar onde possam viver e criar os seus filhos. É este museu um lugar que se visita com um aperto no coração, donde se sai devagar, com poucas falas, que nunca se poderá dizer absolutamente a miséria que somos, a grandeza que somos.

Licínia Quitério

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