26.2.11

FADO



Sabemos nós lá dizer o que é o fado. Da Severa e do Vimioso, da navalha de ponta e mola, do vinho e da saudade, da guitarra em coração, do povo e da fidalguia que o despreza e o inveja, da canalhice e de amores desgraçados, de tudo se pode dizer fado, nesta Lisboa menina e velha, pelos séculos vivida por desvairadas gentes, Lisboa morna e luminosa, Lisboa sempre a olhar o rio, das vielas com novos rufiões, do fado cantado para outras gentes, fado cansado, fado asséptico, fado de cartaz, fado de museu, fado velho de roupas novas, de novas vozes, sem fumo e sem tragédia, fado virado ao mundo que de todo o mundo nasceu, fado que existe e insiste e resiste, que se exibe, despudorado e pretensioso, recolhido e pensativo, rouco, mavioso, gritado e chorado, brutal e talentoso, fado, voz de cidade antiga, ancorada no grande porto de chegadas e partidas adiadas, cansada, garrida, conformada e desesperada, de paredes marcadas pelo amor e pela raiva de todos os tempos que lhe vão cabendo.

Digo fado, digo Lisboa. Pergunto-me.

Licínia Quitério

25.2.11

VOAR



Frei Bartolomeu de Gusmão explica, na corte de D. João V, o funcionamento da "Passarola", a que de verdade nunca voou, mas que Saramago fez sobrevoar Mafra, no dia da Sagração da Basílica, e depois estatelar-se ingloriamente num monte ali perto. O sonho dos homens não conhece limites e, pelos séculos fora, há sempre algo a erguer-se nas alturas, que rente ao chão não nascem as estrelas.


Licínia Quitério


Foto tirada no Museu do Ar, na Granja do Marquês, em Sintra.

VIVA O TEATRO!



O espectáculo acabou. O público saíu. Em cena ainda a luz dos projectores, na sala o rumor distante das vozes dos actores, o eco abafado das palmas. A magia  do teatro permanecerá  para os outros dias, para as outras palmas. Viva o Teatro!

Licínia Quitério

21.2.11

FLORES 3



Depois das chuvas persistentes, abundantes, depois da aspereza dos ventos, das sonoridades do granizo saltitante, da queima da geada, aí estão, sobrevivas, triunfantes, garridas, as flores do cacto, a lembrarem-me o esplendor de um lustre veneziano na modéstia feliz do meu jardim de vasos.

Licínia Quitério

20.2.11

Li

Quantos dias são seis anos? Quantas horas? Quanta chuva e quanto sol? Quanto caminho andado? Tanto dito, tanto escrito, tanta gente. Quase nada.



Li

18.2.11

CONVITE



Aqui tenho o prazer de anunciar o nascimento do meu novo livro de poemas. Estão todos convidados para o melhor manjar que sou capaz de vos oferecer.   Voltarei a dar-vos notícias sobre o dia em que espero ver e rever muitos de vós, num abraço de gratidão pelo grande incentivo que me têm dado nesta caminhada da escrita, meu trabalho e meu deleite.

Licínia Quitério

ISTO NÃO É PUBLICIDADE



A BIC entrou em Portugal há 50 anos. Para mim, foi amor à primeira escrita. Aderi de imediato àquela novidade que não pingava tinta, nem esborratava, nem arranhava o papel, que podia cair ao chão e não se magoar e que tinha um preço baixinho. Passei então a ter acesas discussões com os amantes de canetas que me obrigaram a inventar argumentos para a defesa da minha humilde dama, alguns, confesso, bem inconsequentes. E, aqui para nós, a BIC tem uma vantagem deliciosa. Pode ser mordida, roída, estalada pelos dentes em dias mais azedos, desprovida da sua tampinha minúscula e redondinha que também pode ficar na nossa boca para ser mordida, qual pastilha dura, com os devidos cuidados para não ser engolida. Ainda há a tampa, propriamente dita, com o rabinho comprido, que logo notamos ser flexível, para trás e para diante, para trás e para diante, até, por fim, quebrar e poder ser bem esmagada pela dentuça. Antes de chegar o fim da tinta, a BIC proporciona prazeres infindáveis a quem não for defensor acérrimo da inconfundível elegância e personalidade de uma caneta a sério. Para esses vai a minha admiração, o meu respeito. Para o clube dos roedores de BIC, a minha piscadela de olho.

Licínia Quitério

Foto do Google

16.2.11

FEVEREIRO



Fevereiro e o seu estendal de tempestades súbitas, violentas, assustadoras. Tenho para mim Fevereiro como um mês de sombras, de cíclicos temporais, de abertas enganadoras, de castigos sem aviso, do eco dos trovões pelas esferas, do mar engolidor de humanos que por ele de amor se perderam, das casas inundadas, das árvores assassinadas. É um mês de grandes dores, de brancos desalentos, de mortes sem outro apelo que a saudade.

Alegremo-nos! É o último mês antes da Primavera!

Licínia Quitério

15.2.11

O QUADRO

Era uma mulher grossa, volumosa, deformada, de corpo e de gesto. Vestia de negro e os cabelos hirsutos, presos na nuca com um atilho, também eram negros. Os olhos claros moviam-se com rapidez, curiosos, desconfiados, inseguros. Falava alto, num registo agudo que por vezes arranhava o ar. Esfregava o nariz largo com a palma da mão, de baixo para cima. Parecia que desde sempre o fizera, e por isso ele apontava para o alto. As argolas de ouro nas orelhas perdiam-se na abundância do pescoço. Era uma mulher enorme, possante, inquieta. Nunca a tinha visto, mas era-me tão familiar. Não parei de a observar até que ela saltou para o quadro e se juntou às outras, as avestruzes, as que abortam, as que engraxam as botas, as que lavam o chão, as que têm joanetes e sorrisos como navalhas. Mistério decifrado.

Licínia Quitério


Quadro de Paula Rego

14.2.11

CHOVE



Acamam-se, recamam-se, as verduras no meu jardim de vasos. Recolhem as gotas de chuva, suportam-nas, enfeitam-se com elas. Pequenas lâmpadas de água e luz acesas no cinzento da manhã. Apetece colhê-las, afagá-las, bebê-las. Contento-me em olhá-las, gotinhas!

Licínia Quitério

11.2.11

FLORES 2


Resistentes a invernias e ardências, guardadoras de águas na sua carne verde, multiplicam-se, sem alarde, sem exigências de trato, e florescem abundantemente em raminhos discretos de estrelas de neve. Residem há muito no meu jardim de vasos.

Licínia Quitério

FLORES 1

 

Abriram as primeiras frésias no meu jardim de vasos. Fui cumprimentá-las, fixar-lhes a imagem para além do lugar dos meus olhos. Ao meu apetecimento juntou-se, no momento exacto, a diligência da abelha, no seu labor de vida e fábula.

Licínia Quitério

9.2.11

APONTAMENTO 4


Com a linha presa à infinita paciência, o homem aguarda o peixe. Presas ao eterno desgaste, as furnas aguardam a onda. O barco, preso à imensidão, aguarda a saciedade dos homens. Só o céu é livre e nada espera.

Licínia Quitério

8.2.11

APONTAMENTO 3

Que fazes, gato, nesta varanda sobre o mar imenso? Eu penso na tua liberdade e nos teus medos. Aliás, eu penso-me em ti, gato, noutra varanda sobre o mesmo mar, com a minha liberdade e os meus medos enroscados no teu pelo.




Licínia Quitério

APONTAMENTO 2


Tarde fora há os abraços incontidos. O estendal de espuma avança e recorta a terra loira e livre, agora que os humanos se retiram. Pequenas flores brancas vigiam, pontuando os mantos verdes e galantes. Uma subtil película salgada tudo afaga e pacifica. É a hora dos grandes pássaros rasarem os rochedos. É a hora dos homens procurarem agasalho e saborearem o sal de mais um dia.

Licínia Quitério

APONTAMENTO 1

Azul, azul, imaculado, este céu de inverno, consolador de frialdades e desalentos. As pedras ganham brancuras insuspeitadas, alisam nervuras da idade. Na meia sombra, os pátios interiores ressumam humidades e odores de gente muito antiga. O peso da história a aprumar-nos o corpo, a força da luz a erguer-nos os olhos para o alto, para lá do azul, muito para lá do princípio do grande azul.


Licínia Quitério

5.2.11

GATINHA

Minha gata, gatinha,
novelo de pelo,
macia, macia,
tu sonhas, gatinha,
com um gato, gatão,
com olhos de sol
e cios de luar.

Minha gata plebeia
com ares de rainha,
dá-me o teu dormir.

Eu dou-te um poema
e uma festinha
e abro o portão
para o gato, gatão
contigo brincar.

Boa noite, gatinha.



Licínia Quitério

IN MEMORIAM

vamos, meu irmãozinho. estão todos à nossa espera.

vês aquela menina loira, de perninhas longas, prontas para o grande caminho? vai escrever quatro páginas sobre o pôr-do-sol.

eu cresci muito antes de ti, mas tu ficaste maior do que eu. por necessidade. as ameixas do vizinho eram mais amargas do que as tuas e o muro alto, alto…

és tão desafinado! porque teimas em cantar a internacional?

vamos depressa, mano, o pão tem de chegar cedo à tasca da aldeia.

depois comeremos sandes de atum e beberemos carrascão.

não, as contas fazes tu e eu escrevo o nome dos fregueses, a rimar.

empresta-me os teus óculos onde escondes o segredo da raiz de dois.

ao menos hoje, pára de falar no homem novo. não vês que estamos velhos?

hoje é dia de comermos o gamo, criado na tapada e imolado no altar da nossa infância.

não, não vais dizer o cântico negro. hoje sou eu que digo.

quando eu morrer, tu o dirás comigo.


LICÍNIA QUITÉRIO

A ALMA



UM TEXTO DE MIA COUTO PARA MOÇAMBIQUE E PARA MUITO MUNDO.

O país chorou e, com verdade, Malangantana. Todos, povo, partidos, governo foram verdadeiros na dor da despedida. Vale a pena perguntar, no entanto: fizemos-lhe em vida a celebração que ele tanto queria e merecia? Ou estamos reeditando o exercício de que somos especialistas: a homenagem póstuma? Quem tanto substitui pedir por conquistar acaba confundindo chorar por celebrar. E talvez o Mestre quisesse hoje menos lágrima e mais cor, mais conquista, mais celebração de uma utopia nova. Na verdade, Malangatana Valente Ngwenya produziu tanto em vida e produziu tanta vida que acabou ficando sem morte. Ele estará para sempre presente do lado da luz, do riso, do tempo. Este é um primeiro equívoco: Malangatana não tem sepultura. Nós não nos despedimos.

Existe, na verdade, um outro equívoco. E o logro pode ser este: Malangatana não foi apenas um grande artista. Ele foi a alma de um país. Foi alma de todos nós, Moçambique e moçambicanos. Através dele fizemo-nos ser escutados como gente, capaz de ter rosto e nome, capaz de sonhar.

O pintor resgatou e colocou não apenas em tela, mas em toda a sua vida, aquilo que eram os nossos quase sempre atabalhoados sonhos, povoados mais de monstros do que luminosas certezas. Malangatana fez por Moçambique o que todas as embaixadas do país juntas não fizeram. Não se trata aqui de menorizar o trabalho diplomático, certamente intenso e árduo.

Trata-se sim de entender o quanto pode a arte como linguagem universal e como veículo de afirmação e dignidade de um povo.

O que estamos celebrando, mais do que um exímio artista, é a sua dimensão humana feita de afecto, verdade e universalidade. Mais do que um homem de cultura, ele foi um homem de culturas. A sua individualidade construiu-se na pluralidade. A necessidade dessa pluralidade é, talvez, a mensagem mais importante que ele nos deixa. Num momento em que vivemos uma versão única da nossa própria história, num momento em cresce a tentação de umpensamento único, esse legado do Mestre torna-se quase uma urgência. A diversidade é o maior alimento da alma humana.

Tendo militado politicamente, não foi nunca um político. Não fez favores de conveniência, não se converteu num funcionário, num yes man cultural. A lógica dos seus quadros, mesmo quando ele se entregou à luta política, não foi subordinada a qualquer simplificação ao serviço da causa. O que ele nos revela, na sua pintura, foi o invisível. Tendo sido todos os outros, o que ele mais foi, foi ele mesmo.

Sendo um nacionalista, escolheu o mundo como nação. Tendo erguido Matalana como emblema e raiz, ele olhou como terra natal todos os lugares onde renascia, desde Tóquio a Nova Iorque. A sua Matalana era uma centopeia, um pé junto ao rio Incomáti, os outros em cada canto do mundo. Em todos esses recantos ele sentia-se à vontade. Trauteava com o mesmo à vontade as canções tradicionais rongas, uma ária de Verdi e um fado de Amália. Não tinha medo dessa pluralidade. Não teve receio nunca de nomear os que, sendo portugueses e vivendo num mesmo regime colonial, o ajudaram no início da carreira. Porque estava para além da raça, para além da nacionalidade, para além de si mesmo. Não precisava de veementes proclamações para ser moçambicano. E quanto mais ele era todos os outros, mais se convertia em Moçambique. Generoso, acolhedor, robustecido pela sua pluralidade e respeitado e amado por isso.

A grande pergunta é esta: o nosso país está produzindo mais Malangatanas? Mais Craveirinhas? Mais Fanni Mpfumos? Não existe resposta. Cada um destes artistas é evidentemente irrepetível e cada época tem a sua dinâmica própria. Mas tenho sérias dúvidas que o nosso ambiente seja favorável à gestação de arte de qualidade. Prevalecem entre nós condições profundamente adversas. O meu dedo não se ergue, às pressas, contra ninguém. É verdade que o governo podia fazer mais. Por exemplo, podia chamar mais a si a política de investimento e apoio às artes e não abandonar esse exercício ao arbítrio dos patrocinadores. Mas seria triste que, em qualquer país, a cultura fosse produzida pelo governo. Parece tautológico, mas a verdade é que a cultura nasce da cultura. E a cultura dominante de hoje, aquela que a nossa elite promove, não é exactamente a mais fértil. Porque apela para o sucesso fácil e imediato, para a fama e o dinheiro como critérios únicos, para o vazio e para a aparência. O que faz emergir talentos é um ambiente de debate aberto e de gente trocando ideias.

Malangatana, Craveirinha e Mpfumo foram o resultado desse cadinho efervescente, onde rivalizaram propostas, escolas e tendências. Esse ambiente de pluralidade é hoje olhado com receio. Aos poucos fomos substituindo a mensagem de emancipação por um discurso de aumento de rendimentos. Em lugar de políticas culturais convertemos a política numa cultura. O grande estímulo hoje repetido até à exaustão resume-se ao apelo, ao empreendedorismo e à promoção no vazio do chamado “empresário de sucesso”. A cultura dos Big Brothers saltou do campo do espectáculo televisivo e invadiu o nosso quotidiano.

Somos ricos em homenagens e, grande parte das vezes, fazemo-las tardiamente. Arriscamo-nos, desse ponto de vista, a ser um país póstumo. As homenagens podem bastar para gente que tem ausência. O legado de moçambicanos como Craveirinha, Mpfumo e Malangatana merece que nos questionemos sobre como Moçambique se manterá como nação geradora da sua memória viva.


MIA COUTO

O VOO LIVRE COM QUE TODOS SONHAMOS


"João de Almeida Torto foi um português residente em Viseu que em 1540 se distinguiu por ter tentado voar com um sistema de asas inventado e fabricado por si mesmo. Conta-se que em 20 de Junho de 1540, João Torto terá subido ao cimo da Sé de Viseu onde havia construído, com a permissão da Igreja, uma rampa de lançamento. A experiência teve lugar por volta da cinco horas da tarde, perante uma multidão expectante. De acordo com os relatos da época, terá conseguido em parte voar, tendo aterrado em cima do telhado da Capela de São Mateus, mas logo tombando sobre as asas, o que lhe provocou lesões que o conduziram à morte. Este homem cujo nome foi atribuído a uma rua da cidade de Viseu foi precursor do voo livre em Portugal."


Texto retirado da net


Foto colhida no Museu do Ar, na Granja do Marquês (Sintra).

RETRATO DA CRISE

O homem exalta-se. A família exalta-se. Praticam tempestades súbitas, secas, rapidamente extintas, que podem voltar a explodir dali a pouco. O homem não dorme, a família também não. O negócio não espera. Toda a gente quer comer na casa do homem que se exalta. Toda a gente quer comprar comida para levar para casa, na casa da família que se exalta. É tudo baratíssimo e abundante. Depois das seis da tarde, os bolos são quase a metade do preço. Toda a gente anda a comer bolos à noite. O homem agora também manda comida a casa. O homem não dorme, não para. A família também não. Diz que a dormir não se aprende. O homem cavalga a crise e vence-a, por agora. Os clientes suportam os gritos e as longas filas de espera. Olham o relógio e aguardam as seis horas para se precipitarem sobre os bolos.

A crise dá-nos estes retratos de sucesso. De homens assim é que o país precisa. Homens que não dormem e se exaltam. Se um dia as coisas correrem mal, fará a sua cura de sono. À força. Tudo tem remédio. Menos a morte.

Licínia Quitério 


Foto da net

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