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27.2.15

UM HOMEM TRANQUILO


Quem havia de dizer que o senhor Leocádio também existe fora do seu sítio de pacotes, latas, frascos, caixas, todos de variados feitios, tamanhos, cores, a cada um o seu rótulo, o seu logótipo, o seu apelo mudo ao cliente, ao potencial cliente, ao curioso visitante, na oferta das bolachas, dos cogumelos, do atum, da margarina, do fiambre. Há que referir ainda os produtos frescos, e os secos, avulsos nas caixas, nas tulhas, para o cliente, o potencial cliente, avaliar a cor, a frescura, o cheiro, apalpa aqui, apalpa acolá, num desdém, num franzir de nariz, num ó senhor Leocádio estas laranjas são boas, sim, minha senhora, muito docinhas, e, a senhora não pergunta, mas as clementinas também. É ali que o senhor Leocádio existe, de manhã à noite, por detrás do balcãozinho, com o seu pulover cinzento ou beige, a sua aliança de casamento, grossita, a rebrilhar na mão sapuda, aguardando os clientes, tão poucos que até dá pena, a sua loja é só para as faltas, hoje toda a gente vai aos super, hiper, mega mercados, sabe ele mas não o diz, que não é homem de lamentos, faz os dias como deus manda, melhores dias virão, sempre a socorrer-se de provérbios, de frases mais que feitas, atrás de tempo tempo vem, enquanto há vida há esperança, vamos dando o passo conforme a perna, para a frente é que é o caminho.
Pois hoje encontrei o senhor Leocádio na rua, a uns bons metros de distância da loja, olá minha senhora, eu nem queria acreditar na sobrevivência de um homem fora do seu sítio, viva senhor Leocádio, não o fazia por aqui, pois minha senhora às vezes também saio, apanhar um bocado de sol faz bem, pois claro, até logo, e lá se foi o senhor Leocádio, com o seu pulover cinzento, a sua aliança a rebrilhar desta vez ao sol da rua, e eu feita parva a olhá-lo, meio incrédula da existência dum homem fora do seu sítio de esperar quem já não vem, a esperança é a última a morrer, não se pode ter tudo, deus dá o frio conforme a roupa, já lá diziam os antigos.
Diria que o senhor Leocádio é a conformação em pessoa, não fossem aqueles suspiros cautelosos que o atravessam, enquanto faz a conta e olha a porta por onde cada dia entram menos clientes. Um dia atrás do outro, não é, senhor Leocádio?

Licínia Quitério

26.2.15

GRANDE É A CIDADE


Grande, grande é a cidade. Um colosso de casas e gentes, de histórias alegres e tristes das casas, das gentes. A cidade tem um coração, mais pequeno que a soma dos corações das gentes. A cidade é um polvo, é uma aranha, é um animal maior que a soma dos pequenos animais que a habitam. A vida da cidade não é a soma das vidas das gentes. É outra coisa, é o pulsar de uma mole gigantesca de madeira, betão, pedra, metal, que constantemente se corrói e se constrói. Vista de longe, do alto, é uma planura pontuada de pequenos e grandes cerros, um diamante aqui, outro acolá, a rebrilhar ao sol do dia. Vulnerável, a cidade grande, às intrusões dos que a desamam, aos desmandos dos que a amam. Pelos séculos permanece, mutante, enigmática, desejada.


Licínia Quitério

24.2.15

ALCOVITEIRAS


Abriram em flor as primeiras frésias no meu quintal. Tomaram lugar na taça onde escrevi "Tudo tão simples". São descendentes das que havia no quintal da minha avó, que depois passaram para o da minha mãe e agora moram no meu. Os pequenos bolbos multiplicam-se, pelos tempos, pelos lugares. O cheiro mantém-se, leve, doce. Muito antes de se chamarem frésias, a minha avó chamava-lhes "alcoviteiras da Primavera". É por esse nome que as trato e sorrio todos os anos quando penso "já abriram as alcoviteiras". Assim foi hoje.

Licínia Quitério

22.2.15

ARCAS


A revolver arcas, digitais e das outras, onde dormem textos, apontamentos, mais ou menos diarísticos, mais ou menos ficcionados, desabafos em tempos ruins, cartas que nunca seguiram, recados que não foram dados. Uma vida feita também de palavras escritas, que as ditas o vento as leva, apenas uma ou outra pousando, por um tempo mais ou menos escasso, no coração ou na memória de alguém.
Os computadores entraram na minha casa ainda se chamavam Texas Instrument ou Spectrum ZX e nunca mais de cá sairam, renovando-se. Até determinada ocasião, cada um maior que o anterior, e agora, na ordem inversa, cada vez mais pequenos, mais leves, um dia destes diáfanos, quem sabe não mais que hologramas.
E veio a propósito falar de computadores, porque sem o seu hábito e uso, muito provavelmente eu não estaria hoje a aceder, com facilidade e displicência, a toda a tralha produzida, em papéis vários, tempos vários, modos vários, descontando a que se foi perdendo por lugares vários.

Também este foi hoje um modo de me contar, se bem que de pequena monta o interesse desta contagem.

Licínia Quitério

16.2.15

A PEDRA



A pedra que El-Rei pisou
durou, durou e durou.
Alguém a trouxe da serra
e, achando-a desajeitada,
as arestas lhe adoçou,
a poliu, arredondou.
Depois, tratou de cravá-la
ao pé das muitas irmãs.
Todas juntas, alinhadas,
cores e desenhos casados,
a passadeira cresceu
e enfeitou os jardins
do Alcácer que El-Rei pisou.

Das fontes corriam águas
nascidas da mesma serra
de onde trouxeram a pedra
que El-Rei sem notar pisou.
De entre todas as pedrinhas
do tapete de passagem
de nobres, aios, trovadores,
aquela que veio da serra
de onde brotavam as águas
que as fontes regurgitavam
ganhou alma, mas, confusa,
em vez de asas inventar,
foi afundando, afundando,
a cada passo de El-Rei
que nunca para ela olhara
nem sentira a resguardar
as suas solas reais,
os seus fortes cabedais.

Ajeitada sob a areia,
e a cama de folhagem,
ali ficou muito quieta,
espreitando o tempo passar,
até que El-Rei não foi mais
e as trovas dos trovadores
se foram dali soando
mundo fora, tempo além.
Séculos amontoados,
guerras, tratados, desordens
e depois as novas ordens,
tudo a pedra viu passar.
Até que as fontes secaram,
o jardim desencantou
e as irmãs pedras, cansadas,
uma a uma se soltaram
da passadeira que El-Rei
com tanta pompa pisou.
Só a pedrinha azulada
persistiu e ali ficou
sozinha, mas sempre atenta
a quem por ela passou.

Foi numa tarde de calma
do Verão que tudo secou
(até a cama de folhas
que El-Rei em tempos pisou)
que a pedrinha muito velha,
enrijecida porém
por tudo o que viu passar,
se mostrou furtivamente
a uma dama perdida
que ali passou e poisou
suas sandálias tecidas
de trovas de amor antigas.
Mostrou-se e a dama a notou.
Curvou-se como se ouvisse
um chamamento da terra.
Pegou na pedra azulada,
brilhante de ser pisada,
da palma da mão fez leito,
nele a deitou e limpou
das sujidades do tempo.
E pedra e dama entoaram
na voz que os jograis deixaram:

“Há sempre um cantar de amigo
que nos conforta na dor,
seja ele em forma de pedra,
de dama, de fonte ou flor.

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou,
até que dama a encontrou
e pelos ares a levou
para contar sua história
de bela pedra azulada
que descobriu um lugar
em concha de mão cansada,
pronta a fazê-la chegar
até  seu berço natal,
seja uma estrela, um planeta
ou mesmo, talvez, quem sabe,
uma nave espacial."

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou.

Licínia Quitério

foto da net - Jardim do Paço, Alcáçovas

7.2.15

AS GUERRAS


Ninguém pode saber que feitio têm as guerras. Mesmo quem lá esteve tem sobre isso grandes dúvidas. Podem dizer que são planas como a terra dos planaltos depois das máquinas, uma vez enterrados os corpos, ou esféricas como os planetas negros onde todos os caminhos conduzem ao princípio. A cor das guerras é diversa como a dos mutantes, sépia de polvos, vermelha de sangue fresco, luzente de fogos-fátuos. Da duração das guerras pouco se sabe, que a contagem dos segundos não se faz com o tempo dos vivos. Cada um de nós tem o seu saber da guerra, a sua presunção, a sua lembrança ou a lembrança de um relato que lhe fizeram de outro relato de alguém que viu ou não viu. 
A Joana contou-me como sabe tudo do feitio, da cor, da duração e até do tamanho da guerra. Contou-me da pulseira de missangas azuis e vermelhas, com quinze centímetros de comprimento, que levou uma semana a chegar da guerra até às mãos da tia. Foi prenda de um namorado guerreiro que gostava muito dela e que, como prova de grande amor, lha mandou para que a desse à Joana, então menina de quem ele gostava muito e até dizia que ele e a tia haviam de ter uma filha assim loirinha e de grandes olhos. A acompanhar a pulseirinha vinha um bilhete que dizia “Da primeira menina pretinha que tive de matar, com pena, mas a guerra é assim.”. Compreende-se por que razão a Joana diz que a guerra tem quinze centímetros de comprimento, é azul e vermelha e dura dois meses a fazer, que é o tempo de chegar do pulso da menina preta ao da menina loira. 
A cada um o seu saber das guerras, que entendê-las não é possível.


Licínia Quitério

foto da net - imagem do filme O Pianista

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