19.11.14

TRAGÉDIA NO AEROPORTO




Abriu a mala para retocar o batom, num gesto quase maquinal, a quebrar o fastio da espera na sala pouco movimentada. Ao procurar na bolsa, sentiu na mão um objecto com o frio de metal e não o tubo esperado. Espreitou. Mal podia acreditar no que via. Ali, na sua mão direita, um canivete suíço, vermelho, tão longo como a sua mão aberta. Estremeceu, olhou em volta, tornou a fechar a mala. Ninguém podia ver o objecto proibido num lugar daqueles, altamente vigiado, no coração de um continente em crise, com sensores presumivelmente  implacáveis. Certificou-se de que nenhum alarme soava, que nenhum vigilante se lhe dirigia. Continuou fingindo a maior calma, a mala aconchegada no colo, a pensar no que fazer ao canivete. Deixá-lo ali caído, deitá-lo num recipiente de lixo, enfiá-lo no bolso do casaco do passageiro adormecido a seu lado. Nenhuma das hipóteses lhe agradou,  o habitual poder de imaginação a falhar redondamente. Foi quando se fez luz na sua cabeça aturdida pela insólita situação. Para que serve uma arma daquelas? Para cortar. Cortar o quê? Começou então, metodicamente, a cortar em pedaços os poucos passageiros em espera. Cabeça de um que já prometia pendências, pernas de outro, ali convenientemente esticadas, a mão de outro, abandonada no banco,  e mais um pé descalço, e uma orelha do outro a pedir misericórdia, e ainda… “Senhores passageiros do voo XYZ com destino a KKKK queiram dirigir-se à porta 000”.
Desistiu da degola seguinte, agarrou a mala, olhou em volta, nada de alarmes, dirigiu-se à porta indicada. Atrás dela, uma fila de zombies que reconheceu claramente. Um deles chegará a presidente de uma qualquer república, pensou. Já no avião, voltou a procurar o canivete na mala. Lá estava. Achou estranho que agora as lâminas também fossem vermelhas. Agarrou-se aos braços do assento. Tinha sempre medo nas descolagens. Para acalmar, pensou em contos de terror.

Licínia Quitério

16.11.14

ISTO


Já passou tanto tempo desde o dia em que disseste “Vou, estou farto disto”, sem mais nada, a despires o blusão e a atirá-lo para cima do sofá. Voltaste a vesti-lo já estava escuro lá fora, a mala pequena a pesar-te no braço, um casaco no outro braço. Ainda hoje repito “disto, disto, disto”, sem conseguir decifrar de que é que te fartaste. 

 "Isto” não sou eu, sempre tão presente, tão meiga, tão zelosa da tua saúde. “Isto” não é o nosso filho, bonito rapaz, cheio de namoradas, de alguns defeitos, ou melhor, de problemas, que a droga não é defeito, é uma fase má, vai passar, vais ver, não roubou, não matou, não é o único, precisa do nosso apoio, não, não lhe grites, não, não lhe batas, foge, filho, foge. “Isto” não pode ser o dia em que desapareceu o dinheiro, não, não foi ele, foge, filho, foge que ele dá cabo de ti. Ele andou na rua, um bocado perdido, mas voltava sempre para comer, o nosso filho, magrito, não é “isto”, não é dele que te fartaste, nem da casa, sempre tão limpa, arejada e agora nem aquele cheiro mau no quarto dele. A gente não se farta assim do que nos rodeia, de quem nos ama, que ele gostava de ti, não te odiava, mesmo quando dizia que morresses, que eras tu que não prestavas, não era ele a falar, era a malvada que o agarrou.

 Gostava de poder dizer-te tudo, agora que ele não voltou, os mortos não voltam, agora que eu fiquei, não sei bem se fiquei, se fui com ele, não sinto frio, nem fome, nem sede, nem sono, parece que os mortos não sentem. Só gostava de saber o que querias dizer com” estou farto disto”, ou talvez não queira, parece que os mortos não querem, talvez eu não esteja morta, estou como tu, farta disto.

Licínia Quitério

3.11.14

O POETA



De vez em quando, gosto de tomar café numa mesa junto ao Poeta, aquele que em bronze e de perna traçada permanece impávido perante a turba que lhe vem polindo a aba do chapéu, o joelho, o ombro, o sapato. Diz que não é nada, nunca será nada, e não entende o entusiasmo pelo boneco que uns dias é Fernando, outros Álvaro, outros Alberto, outros Ricardo, e até Bernardo, e outros, e outros, que do fundo da arca só ele sabe. Gosta de ouvir a rapariga que canta na rua e depois pede uma moeda no chapéu revirado. Adivinho-lhe um trejeito de comiseração, pobre pequena, cansou-se de comer chocolates. Um par muito jovem dança, ali em frente dele, em frente de toda a gente, corpo contra corpo, ao ritmo da música da viola do rapaz que toca para a rapariga que canta e que depois estende o chapéu e que sorri, sorri sempre. Dançam, apaixonadamente, sem darem por ninguém e sem que ninguém dê pela felicidade que vão desenhando no mover das ancas, na clara luz dos rostos. Só o Poeta pensa, quem lhe dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor. 
Por instantes, lembro o seu amigo Mário que nos cafés esperava a vida. Não fico à espera, vou ali mais abaixo, entregar saudades do Poeta ao rio que corre na minha aldeia.

Licínia Quitério

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