31.8.10

CRÓNICA DO CALOR

Vem a propósito do calor. Não um qualquer calor de Verão. Um calor perturbador, ameaçador, persistente, viscoso, que pede líquidos e os bebe de um trago e de retorno dá mais sede e mais seca e uma moleza de mistura com uma raiva que escalda a mente e a pele desnuda. As mulheres, na esplanada frente ao rio, sonhando com mares distantes e muito azuis que lhes tinham contado serem lugar de férias de afortunados e de nativos desafortunados. O calor prende as falas, fazem-se frases curtas e truncadas de finais a adivinhar. Mesmo com a tarde a mais de meio, o casario da outra margem tremelicava, desfocado no retrato. Tempo perigoso este. Todo o cuidado é pouco com os velhos. E com as crianças. Mais uma imperial? Não me nego. É o que apetece. Os pardais, gorditos, não se alimentavam de sestas, mas das migalhas caídas por aqui e por ali. No paredão, mesmo em frente, um homem magro e tisnado de muitas estações quentes, pescava. Tinha as calças arregaçadas até aos joelhos, uma t-shirt desbotada onde ainda se podia ler o nome de uma marca sabida em todo o mundo, um boné com a pala virada para a nuca, lembrando jovens rebeldias. A seu lado, a parafrenália de baldes, de caixas de engodos, de anzóis, e até uma geleira. Pescador, paciente, esperançado e precavido. As mulheres das imperiais bem geladinhas, de copo embaciado, a escorrer condensações com que refrescavam as palmas de ambas as mãos, num abraço de breve alívio a seus ardores, olhavam repetidamente o pescador. Espiavam-lhe os gestos exactos, certeiros, o lançar da linha, o rodar do carreto, o acerto da inclinação da cana. Arte de gente solitária, diz-se. Também de gente que procura uma ceia a preço módico para a família. Peixe de babugem, muitas vezes, mas, bem amanhado e escalado, daria um petisco de truz. Que peixe fresco não tem preço para homem assim tisnado e de t-shirt de marca, desbotada. Nunca falaram dele, as mulheres das imperiais.  Era um homem fora do contexto, silencioso, contido, exposto à ardência da tarde, afrontando o mal-estar dos homens e mulheres que se abrigavam da calmaria, numa esplanada em frente ao rio, maldizendo o verão tórrido que ameaçava gentes, e florestas, e casas, e gado, e ajudava os criminosos na sua acção devastadora. Ali não cabia a tranquilidade de um homem que, ignorando o sol, tinha os olhos no rio que lhe daria uma ceia de fartura. Quando ele se retirou, com a geleira atestada de peixes grossos e miúdos, cana ao ombro e um sorriso fresco que  mais ninguém ali podia ter, houve um suspiro que perpassou a esplanada e fez fugir os pardais. Uma das mulheres, disse então, para quem quis ouvir. Isto devia ser proibido. Assim, sem mais explicações. A palavra proibido é sempre um refrigério para quem a pronuncia. Não obstante, o ar continuava denso, opaco, terroso, amargo. Se fosse possível proibir um calor assim...

Licínia Quitério

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