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31.3.17

AGITAÇÕES

Agita as mãos e, a segui-las, os braços. Roda os ombros e com eles o tronco, a aproximar-se e a afastar-se das costas da cadeira. A cabeça também roda, roda, para um lado, para o outro. Cruza os dedos, não os prende, em leque os faz abrir e fechar, abrir e fechar, a tocarem um teclado que só a mulher saberá se existe. Os pés balançam, a um palmo do chão, batem um contra o outro, para logo poisarem e logo saltarem, alternadamente. Uma das mãos no queixo, depois no nariz, na orelha, no cabelo, a afagar, a apertar, a puxar, a ajeitar. Cruza as pernas, descruza-as, a direita sobre a esquerda, a esquerda sobre a direita. A mulher que observo fala, fala em contínuo, e a voz dela também se agita, ora em murmúrio quase inaudível, ora em estridência breve, ora num fraseado monocórdico, acometido aqui e ali por uma espécie de soluço. Interrogo-me. Como será esta mulher quando dorme? E quando faz amor? E quando está sozinha, sem ninguém que a oiça, perdida no seu corpo desamparado? Volto a observá-la. Quando ri tapa a boca com a mão, a reprimir o riso, sem reprimir a dança do corpo. Frenética, neurótica, hiperactiva, que classificação dar a esta mulher, em que escala, com que justeza? Qual o seu grau de felicidade, a tal que não se pode medir? É uma mulher, é uma mulher que fala acompanhada do ritmo alucinado do seu corpo. É uma mulher, uma mulher que eu observo e desconheço.

Licínia Quitério

29.3.17

A MULHER


A mulher diz, sente-se, coma, aqui come-se o que vem para a mesa. A mulher não pergunta se queremos mais, mas a gente percebe que podemos servir-nos as vezes que quisermos. A mulher não diz obrigada, mas a gente sabe que gosta de mimos. A mulher ameaça, olha que levas, mas a mão suspende o gesto, a saber-se obedecida. A mulher tem opinião, declara-a, defende-a, com a fala grossa e o corpo adiantado. A mulher gosta de ser ouvida a desfiar a vida, o rosário de dores que se orgulha de ter vencido, com muito esforço, sem nunca ter deixado de ser brava, digna. Ela diz “séria” e não “digna”, com toda a razão da palavra. É impiedosa para com quem a fez conhecer a miséria, a dela e a dos outros. Fala da ditadura e explica-a como ninguém, porque a sentiu, a entendeu, a adivinhou. Sente-se vingada do silêncio que lhe impuseram, do medo da prisão que levou os pobres da aldeia, coitados, o que sofreram, malvada gente. A mulher conheceu outros mundos e neles sofreu e aprendeu o que escola alguma pode ensinar. Sente-se vingada da pobreza porque hoje tem o conforto que a labuta lhe deu, tão duras as tarefas que lhe rebentaram o corpo, a fazê-la gemer baixinho.
Oiço-a com enlevo, com curiosidade, até que ela põe termo à conversa, levanta-se, olha em volta e diz, para onde foram todos, vou ver deles, assim à maneira de recado para mim, por hoje já ouviste o que eu quis contar, agora chega. É ela quem decide quando começa e acaba a conversa.

Quem quiser saber o que foi o fascismo em Portugal tem de encontrar mulheres como esta, de as ouvir, com atenção, com a humildade de quem tem muito para aprender. Aconteceu-me conhecer esta que tanto me ensina.

Licínia Quitério

17.3.17

HISTÓRIAS

Há dias assim. A gente acorda para continuar o calendário e as ideias desarrumam-se em frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, que raio, são restos de ontem, de um outro ontem mais antigo. Um desenho vago no vidro da janela, um passante que sobe a rua, não o conheço, cada vez cada vez há mais desconhecidos, cada vez há mais gente a passar, ou eu deixei de os saber contar, o homem coxeia, dantes ninguém coxeava, como tudo mudou. 
Mudou muito aquela mulher que ontem se sentou à minha mesa, pediu, posso, e já pendurava a mala nas costas da cadeira que arrastava, não está a conhecer-me, não, não estou a ver, eu nunca reconheço alguém que vem do fundo do tempo, aquela mulher velha que eu não sei quem é, vem de dentro da mulher menina que, essa sim, eu conheci, dantes eu conhecia muita gente, sabia-lhes os nomes, as moradas, hoje sei lá quem são, onde moram, por que será que se lembram de mim. Ela continua, eu sou a F, sou irmã, sou filha, não, mãe não sou, a outra é que é. Quem será ao certo e o que quererá de mim esta mulher ali na minha frente, os olhos muito abertos por detrás das lentes, os olhos dos velhos nem sempre encolhem, por vezes ficam assim, como os dela, desmesuradamente grandes. Já disse quem é, ainda não percebeu que eu não sei ao certo quem é, começa a desenrolar o novelo da história que me quer contar, é para isso que ali está. 
Sempre aparece alguém, como ontem, que me quer contar uma história, a sua história, a história que não é a sua mas que quer mostrar, uma pessoa sem uma história digna de ser contada não chega a ser uma pessoa que valha a pena ser ouvida, mesmo que seja em faz de conta, como eu faço, a espreitar as entrelinhas, no que não diz mas eu oiço, no que desdiz e eu não oiço. São assim as pessoas que me contam histórias, não, não mentem, inventam-se, que bem precisam de ser outras, nem que seja por dentro, muito por dentro, como se dessem lustro à carcaça. Histórias que se enrolam no meu despertar e me dão frases soltas, palavras soltas, aparentemente sem nexo, como as de hoje.

Licinia Quitério

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