21.3.12

CLARISSE



Um joelho pousado sobre a relva, Clarisse parece acariciar o verde com as polpas dos dedos da mão. Fica assim, naquele tempo de pintura antiga, estalada a pele da mão, a pele do rosto, escurecida a palha do chapéu, franzida a roupa. Intacta a cor dos olhos, da mesma tinta que foi dada à relva. Nos pequenos arcos de círculo, que a mão vai desenhando, passam pés pequeninos, hesitantes, vigiados. Não deixam marcas, são alados. Não tarda, os bem maiores, trementes, espalhando cheiros de flores e de sementes. Clarisse suspende o gesto, ergue-se. Há sítios onde a relva não regressa. O verde dos seus olhos escurece, levemente.

Licínia Quitério

Texto em resposta a um desafio aqui.

12.3.12

SOMBRAS


Foi mesmo ela que me contou. Pausadamente, a retirar da mala um lenço de papel para limpar os óculos. Sabe que, quando aborda aquele assunto, as lentes, a certa altura, ficam embaciadas. É ainda uma mulher corpulenta, vistosa, de queixo erguido e passo firme. As rugas ficam-lhe bem quando sorri largamente. Não nos conhecíamos há muito, mas havia qualquer traço que nos ligava e nos fazia gostar de caminhar lado a lado, falando sem precisar de nos olharmos. Fora sempre uma mulher à frente do seu tempo, como se diz de alguém que procura o sítio de viver. 
Se estiver a aborrecer-te, diz, que eu mudo de assunto. 
Não esperou pela resposta. Continuou a relatar o seu pedaço de história, com a desenvoltura de quem decorou para sempre o papel que lhe atribuíram.

Licínia Quitério

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