23.4.15

O SUICÍDIO DA CADEIRA


Há anos que ninguém lhe encontrava préstimo. Nem um leve roçar de corpo, no assento, nem um braço a rodear-lhe as costas, nada. Passavam sem a ver. Desciam a escada, apressados, como se vivessem o último dia.
Pensou: Já ninguém se senta, ninguém pára, ninguém olha o céu, ninguém conversa, ninguém descansa. Dantes, ao luar, no meu colo pousavam, e eu sentia-lhes as falas, os suspiros, e mesmo, quando o silêncio se fazia, o bater dos corações.
Tão sozinha a cadeira. Sozinha e invisível.
Foi numa tarde de calma que, sem ajuda, moveu as pernas, inclinou o dorso, rangeu os ossos e se atirou, sem temor do vazio. Um degrau a acolheu, deitada sobre um dos lados. Ali ficou.
Hoje, os que passam por ela dizem: Olha uma cadeira aqui deitada.
Ninguém a levanta. Ao menos, olham-na.

Licínia Quitério

19.4.15

O CERCO



A cerca moura que os cristãos cercaram e transpuseram. Cerco de que Raimundo Silva, o revisor, encontrou provas e que, segundo Saramago lhe segredou, só terminou com a degola do velho almuadem. Assim li em História do Cerco de Lisboa, assim vi as pedras da cerca sobre as quais hoje repousa o livro. Assim me ocorre o deleatur, em forma de cobra, arrependida no momento de morder a cauda, quase, quase fechando o círculo, ou o cerco, ou a cerca.

Licínia Quitério

9.4.15

GLICÍNIAS




Glicínias. De pequena aprendi a conhecê-las pelo nome, já que por menos um “g” fui chamada. No jardim grande da minha terra, o senhor “Le Nôtre”, que se chamava Marques, e usava as mangas da camisa arregaçadas, o peito à vela e um chapéu preto sempre na cabeça,  o magnífico jardineiro ensinava à minha mãe os nomes das flores e as suas preferências de trato,  saberes que ela procurava reproduzir no nosso pequeno quintal. Das glicínias, que o senhor Marques tão bem cuidava, além do nome fixei o odor doce exalado pelos enormes cachos azul-lilás pendentes dos grossos, idosos, torcidos caules. Ainda hoje, quando passo por glicínias em flor, me parece ver, na sua sombra, o chapéu preto que o senhor Marques fazia descair para trás, com um piparote na pequena aba, a arejar o suor da testa, da sua testa de jardineiro-chefe que me ensinou a conhecer glicínias.

Licínia Quitério

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