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23.4.15

O SUICÍDIO DA CADEIRA


Há anos que ninguém lhe encontrava préstimo. Nem um leve roçar de corpo, no assento, nem um braço a rodear-lhe as costas, nada. Passavam sem a ver. Desciam a escada, apressados, como se vivessem o último dia.
Pensou: Já ninguém se senta, ninguém pára, ninguém olha o céu, ninguém conversa, ninguém descansa. Dantes, ao luar, no meu colo pousavam, e eu sentia-lhes as falas, os suspiros, e mesmo, quando o silêncio se fazia, o bater dos corações.
Tão sozinha a cadeira. Sozinha e invisível.
Foi numa tarde de calma que, sem ajuda, moveu as pernas, inclinou o dorso, rangeu os ossos e se atirou, sem temor do vazio. Um degrau a acolheu, deitada sobre um dos lados. Ali ficou.
Hoje, os que passam por ela dizem: Olha uma cadeira aqui deitada.
Ninguém a levanta. Ao menos, olham-na.

Licínia Quitério

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