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8.10.14

LEITURA




Nunca fui o que se chama leitora compulsiva. Sei ler desde os quatro anos e comecei a ser leitora por volta dos oito. Livros passaram a ser as minhas prendas de anos que eu devorava, e relia, relia, até as historias ficarem dentro de mim para sempre. Não eram muitos os livros, que o orçamento caseiro era bem fraco. Na primeira adolescência, coincidente com primeiros anos do liceu, li tudo o que me aprecia à mão, desde o Cavaleiro Andante, aos livrinhos de cowboys que os meus amigos rapazes me emprestavam.
Quando comecei a ter autorização para ir à biblioteca municipal, à noite, pude devorar desde a Condessa de Ségur, aos Três Mosqueteiros, depois à Pearl Buck e, a todos os que na época eram considerados leitura para meninas e que não eram nem de longe os meus favoritos. Por obrigação escolar, com prazer, conheci os clássicos, Júlio Dinis, Alexandre Herculano (todo), Eça (todo), Camilo (pouco). Descobri então Victor Hugo e, em tempo roubado a estudos obrigatórios, apaixonei-me por Paris, pela Esmeralda, pelo Jean Valjean.
Da Biblioteca Municipal, passei para a carrinha da Gulbenkian que me deu tudo, os neorrealistas, e Pratolini e Sartre, e Camus e Malaparte, e sempre um livro de poesia. E havia uma prateleira fechada com livros que o funcionário me dava, disfarçadamente, e dizia baixinho "vai gostar".
Curado Ribeiro tinha um programa de rádio, "Leituras" que passou a ser o meu guia espiritual na busca do que julgava o melhor. Cedo passei a trabalhadora estudante, e as livrarias de Lisboa passaram a ser lugar de culto, para ler e comprar, um ou dois livritos por mês, que para mais não dava o meu ganho em explicações.
Não sei bem quando comecei a ler menos, a deixar a meio livros que não me satisfaziam. Começou o meu poder de crítica, de discernir o bom, o menos bom, o execrável. Findou o tempo do endeusamento da leitura pela leitura. A Poesia, essa, foi a minha grande descoberta e tudo procurava, e me extasiava, e me irritava porque não compreendia, e só alguma filosofia dos compêndios me ajudava naquela linguagem que de humanos não seria, pelo menos de outro tipo de humanos que não faziam parte dos meus amigos, dos meus conhecidos.
Veio o tempo da angústia de tudo querer ler e não poder, de quão pouca era a minha vida para a torrente de saberes que os homens produziam, incessantemente, ao longo dos milénios, muito antes da escrita em livros, muito antes de toda a escrita.
Houve até um tempo de pouco ler, de muito fazer, de beber a vida em longos tragos, de saber do mel e do fel, de incitar os outros à leitura, de dar livros, num proselitismo de uma nova época, mais de canto que de leitura.
Hoje, que dei em escrever, leio, sim, leio, regularmente, sem pressas, sem a angústia do livro por ler, tantas vezes em diagonal, em complacência pelo que julgo menos bom. Há muitos autores que devia ter lido e ainda não li. Não li Proust, de Joyce não li o Ulisses. Imperdoável, devia ter vergonha de o dizer, mas não tenho. Sei que uma "madalena" me dará o tempo que perdi, que Lisboa me segreda a viagem nunca feita.

Tenho diante de mim um livro de poesia de Luís Quintais que ontem comprei, O Vidro. Vou demorar umas horas a lê-lo. Há sempre uma novidade que me espera de que saberei gostar, ou não. Sem remorsos, que a liberdade não tem culpas.

LICÍNIA QUITÉRIO

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