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20.12.14

A NÊSPERA


Era uma vez
uma jovem nêspera,
nascida e crescida
por entre a folhagem
verdinha, fresquinha,
dos ramos ramudos
da grande nespereira,
plantada e criada
no velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
À custa da seiva
da sua mamã,
a nêspera engordou,
cresceu e corou.
Dava gosto vê-la.
Não, nenhuma irmã
tinha a pele assim
tão lisa e suave.
Parecia cetim.
De tanto crescer,
de tanto engordar,
conseguiu espreitar,
sem se debruçar,
por cima dos muros
do velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
E que viu a nêspera
bonita, gordinha?
Do lado de lá,
pousada no chão,
juntinho ao portão,
redonda e amarela,
muito gorduchinha,
uma nêspera bela,
bem maior do que ela.
Uma prima, talvez.
Tamanha foi a surpresa
que se pôs logo a pensar,
a sonhar, a matutar.
O seu destino era lá
ao pé da prima gordinha,
tão forte, tão bonitinha.
Uma nêspera a valer!
Espiou pelo canto do olho
as irmãs enfezaditas,
escondidas, a bem dizer,
naquelas folhas folhudas,
naqueles ramos ramudos
da nespereira do quintal.
Não!
Não tinha nada que ver
com nêsperas descoradas,
talvez mesmo envergonhadas
por não saberem crescer,
encorpar, arredondar,
para que alguém desejasse
trepar os muros de pedra
do simpático quintal
da nossa amiga vizinha
e as poder admirar,
cheirar ou mesmo tocar.
Pensou, pensou, repensou
e chegou à conclusão:
Estava ali por engano.
Foi então que decidiu
mudar de vida de vez.
À custa de um bom esticão,
largou o ramo ramudo
da nespereira folhuda e
sem dizer nada a ninguém,
saltando o muro velhinho,
estatelou-se no chão,
(com a polpa amachucada,
por causa do trambolhão)
junto da prima gordinha
pousada atrás do portão.
Num instante percebeu
o engano em que caíra.
A abóbora gordinha
de nêspera nada tinha.
E o pior aconteceu
quando, num riso de troça,
a abóbora amarela,
muito maior do que ela,
disse, bem alto e bom som,
para que toda a gente ouvisse:
Volta para casa, maluca,
para o pé das tuas irmãs,
antes que se abra o portão,
por ele entre um camião,
trazendo um homenzarrão,
mais feio que muito bicho,
que a mim me transforme em doce
e a ti te jogue no lixo!


Licínia Quitério

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