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15.8.14

AH A FAMÍLIA!


Era um tipo comum, mais do que seria desejável numa sociedade que preze a seriedade, o bom senso. Era bom profissional do seu ofício, dedicadíssimo aos patrões, melhor, fidelíssimo, acérrimo defensor se alguém a eles se referisse com irreverência ou mágoa. Dizia para quem o queria ouvir que gostava mais da empresa do que da sua família. Talvez levado por um copito a mais, num dia em que um patrão desqualificou o seu trabalho, perdeu as estribeiras, zangou-se a sério, avermelhou como pescoço de peru, disse ao patrão o que pensava dele e retirou-se, perante a estupefacção do dono de tão fiel criatura que agora lhe mordia a mão. Foi raiva de tal monta, que se despediu na mesma hora e não mais voltou a pisar a empresa, outrora objecto da sua mais pura afeição. Foi por esse mundo fora, nos caminhos de aventura de português sem trabalho, até que encontrou poiso onde exercer a sua profissão. Mandou ir a família, agora subida na escala dos seus afectos, e por lá ficou. Tem saudades da Pátria, de Fátima, e dos velhos tempos em que os comunas, mais tarde ou mais cedo, iam morar atrás das grades. Mau grado estes desgostos, sempre que pode pega na família e vem visitar o seu torrão natal que, diz, é o mais lindo do mundo. Podemos vê-lo nas fotos das festividades do Verão, sempre que possível na cadeira da frente, na fila da frente, ao lado dos ilustres, deitado em abraços sobre os mais robustos, pegando criancinhas ao colo, trincando o courato que é o melhor do mundo, comprando no sul blusas do norte, as mais lindas do mundo, que a família veste, porque ele assim o quer. Se o filho mais velho voltar à Pátria, à terra, esperto, trabalhador e crente e praticante como é, quem sabe não virá a ser, para começar, Presidente da Junta? De política não quer saber e tem raiva de quem sabe, mas se for preciso, por um filho tudo se faz. Ah a Família, a Família! 

 Licínia Quitério

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