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6.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 2

Pelo modo como ela disse Posso? e puxava já uma cadeira, deviam ser conhecidas, mas não muito íntimas, que a outra respondeu Faça favor. A conversa das mulheres desenvolve-se com maior fluidez do que a dos homens.

Eles precisam de ter um jornal aberto, de preferência desportivo, para que o assunto se apresente e ganhe cor. Se a televisão estiver ligada, comentarão o programa a que ambos não ligam nenhuma. Lá a patroa é que sabe disto, nomes dos actores, quem anda com quem, vem tudo naquelas revistas cheias de mulheres boas na capa e outras, diga-se, umas carcaças cheias de cremes ou gel, ou lá o que é. Tudo gente fina e cheia de grana, o que lá vai por trás é que não dizem. Isto é tudo uma falsidade, é o que é. E aquele gatuno do árbitro do jogo de ontem? Gatuno, não é bem assim. Não? Então não estava à vista de toda a gente que foi mão do Nequinho? Não? É porque você não viu o replay. Está lá, clarinho como água. Gatuno e vendido. Espere pela pancada. Um dia destes alguém perde a paciência, mete a boca no trombone e você vai ver. Sim, não me admirava. Há jornais que vivem dessas fofoquices. Depois não dá em nada, mas entretanto vão fazendo esticar o assunto e é ver as vendas a subirem. Não variam muito as conversas dos homens que se encontram por detrás duns jornais e que não têm nada para dizer um ao outro. Ter até tinham, mas pieguices dessas são para mulheres. Sempre a queixarem-se, da saúde, dos preços, dos filhos, deles, maridos, que não as ouvem. Mas quem é que tem paciência para aquela lenga-lenga? Quando a minha está virada para aí, ala que se faz tarde. E agora por isso, estou no ir que o almocinho já deve estar a chamar por mim. Até amanhã. E, olhe, não tenha dúvida que foi mão. Estou a gozar consigo, homem. Bom apetite.

Com as mulheres é mais fácil, mais variado. O que é que toma? Um abatanado. Para mim é bica normal. Já sei que anda à procura de emprego. Não está fácil, pois não? Nem me diga. Na minha idade ninguém me dá trabalho. Ainda sou nova, diz a Alda? Já passei dos quarenta, pois. Olham para mim e perguntam: O que foi o seu último emprego? Quando lhes falo do instituto de massagens, franzem logo o nariz. Terapeuta ou dessas de estética? Como se as de estética não tivessem a categoria das outras. Diploma não tenho. Também nos sítios por onde andei ninguém mo pediu. O melhor diploma tenho-o aqui nas costas que isto de passar horas a fazer assim. E arqueava as costas e esticava os braços sobre a mesa, em flexões síncrones dos pulsos. A outra olhou em volta e disse, a fazê-la parar a demonstração. Pronto. Já percebi. Agora tinha uma promessa vaga de tomar conta de crianças nessas coisas dos tempos livres. Seria bem bom, seria. O meu marido? Esse está em grande. O que ganha é para ele e eu que me vire. Foi, foi sempre assim. Só pensa nele. Tem um trabalhito leve, desses com computadores, que ele de parvo não tem nada. E uma saúde de ferro. Ainda agora foi fazer exames de rotina, que ele tem um medo de morrer que deus me livre, e não quer saber a Alda os resultados? Não, muito pelo contrário. Tem tudo bom. Nem uma pontinha de colesterol, a tensão é óptima, até a próstata está como deve ser. Bom, uma ova! Isto anda tudo muito mal distribuído, é o que lhe digo. Mais nova uns anitos sou eu e já tenho uma data de mazelas. Elas não matam, mas moem. Bom, tenho que ir andando que se ele chega e o almoço não está na mesa, está bem, está, temos trombil para o resto do dia. Senta-se a ver o jogo na televisão e conversa nem eu. A porcaria do jogo é que interessa para amanhã ter que falar com os amigos. E desculpe lá estes desabafos, Alda, mas nós mulheres temos de ser umas para as outras. Até amanhã se Deus quiser.


Licínia Quitério

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