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9.7.10

CRÓNICA DO QUOTIDIANO

Assomou ao patamar dos degraus de mármore que davam acesso ao piso inferior. Deteve-se por instantes.

Havia um número considerável de fregueses na zona do peixe fresco. Um vozear de mulherio percorrendo as bancadas, avaliando tamanhos, preços, grau de frescura. Pareciam muito zangadas as mulheres, não encontravam o que queriam e já iam na segunda volta. Poucos os homens, esses calados, dando só uma volta. Os vendedores gritavam, uns para os outros, com vozeirões de sotaque de mar, arrastado. O chefe dos vendedores, tinha de ser o chefe, distribuia ordens a torto e a direito e respondia de vez em quando, só de vez em quando, a perguntas dos fregueses. Era um chefe que trabalhava muito, tanto que nunca parava de arranjar peixes grandes, médios, pequenos. Tinha uma faca enorme com que os cortava, batendo-lhes com a lâmina, sem olhar, com desprezo, acertando quase sempre. Antes do corte, era a escamação feita igualmente sem olhar o peixe, como quem os sabe todos de cor. Arrepiadas pela ferramenta de longos bicos, como pregos, as escamas saltavam, espalhavam-se, polvilhavam tudo em redor como vidrinhos baços. E subiam bem alto algumas delas, a avaliar pela quantidade que forrava o boné do chefe, um tanto descaído para trás de modo a que as melenas dianteiras também fossem ocupadas pelos vidrinhos. Escamados e cortados, os peixes eram atirados para um tanque de água, ligeiramente afastado do chefe que nunca saía do seu lugar. De vez em quando a água saltava, transbordava, salpicava a freguesia que dizia em coro: “Eh lá!” e dava um pequeno salto à rectaguarda.

Era esse o momento de acalmia por que esperava para descer a escada. Certeiro. O chefe viu-o, abriu os braços, sem largar a escamadeira, o peixe descansando sobre a bancada, e atirou no seu tom mais alto: “Olha o senhor Alcides. Olha o senhor Alcides. Já tínhamos sentido a sua falta.”

O senhor Alcides trazia dois sacos enormes e o chefe arregalou os olhos para eles. Parado a meio da escada, bem olhado agora por quase todos os compradores. “Estou de volta, amigo”.” E bem, a ver pelo aspecto, senhor Alcides”.

Terminou a descida, sorridente. “Aquilo é outro mundo, Amigo! Outro Mundo!” “Não leva a mal se perguntar aonde?” “Na República, na República.” Os olhos do chefe, por entre as escamas, eram duas interrogações. E o Senhor Alcides, perante a ignorância óbvia, explicitou: “Dominicana, Amigo. Há outra?” “Claro”, disse o chefe. “E peixinho há por lá muito?” “Se há! O Amigo pode não acreditar, mas falámos  em si muitas vezes por causa disso.” “Então valeu a pena?” “Se valeu. Aquilo é outro mundo, outro mundo, digo-lhe eu.” “E então o que é que vai hoje, Senhor Alcides?” E passou à frente de todos os outros fregueses portadores de sacos pequenitos.

Um homem viajado, o senhor Alcides. Tinha estado na República. Fregueses daqueles contavam-se pelos dedos de uma mão. Tudo o resto, uma pelintragem, voltas e mais voltas para levarem pouco e baratinho. Forrado de escamas, o chefe aviava o senhor Alcides do bom e do melhor e ia pensando: “Raios me partam se um dia não vou também à República. Quando voltar nem me conhecem”. Com o antebraço tirou uma escama que lhe saltou mesmo para o olho direito. “E hei-de dizer bem alto: Aquilo é outro mundo, outro mundo.”

Mesmo por entre as escamas, um homem pode ter sonhos de viagens.


Licínia Quitério

6 comentários:

Ana disse...

Sonhar é a melhor forma de viajar.

Gostei do texto e do blog!
Beijo *

Rui Fernandes disse...

Eu acho que a minha amiga anda a reler o Ferreira de Castro. Digo-o pelos admiráveis diálogos, pelo pitoresco da descrição (peixaria ou Wall Street?), por essas esperanças de viagens depositadas no futuro, pelo desejo de ser alguém, não o de voltar "brasileiro", mas o de ir à "República". Teu admirador. Beijinhos.

M. disse...

Será o que poderá chamar-se de "Sonho de viagem com escamas"... Uma questão de hábito.

Alien8 disse...

Um texto do outro mundo, Licínia :)

Benó disse...

O teu sr.Alcides viajou pela República Dominicana, que outra não podia ser, claro, mas voltou para a República das bananas,claro.
Gostei muito de te ler, como sempre, na tua maneira muito pessoal de nos contares as tais histórias ouvidas nos teus percursos do dia-a-dia.
Uma boa semana.

Cristina Carvalho disse...

Gostei muito, Licínia. Como sempre. Muito bom, bem observado e bem escrito. Tens sempre o meu aplauso!

Cristina Carvalho

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